Canção Vintage (Crânio & Magrí - Os Karas)
9 Feliz Ano Brega, oops Novo!
Notas iniciais
"Mas que diabos, quem colocou essa música chata para tocar de novo?"
O garoto franziu a testa para um rapazinho conhecido seu que acabara de escolher uma música na jukebox. Pela terceira vez, para o desgosto do primeiro, Never Tears Us Apart do INXS, o hit do ano, tocava de novo para a alegria de muitos casalzinhos e a raiva de mais alguns rapazes da festa de fim de ano da nata do Colégio do Elite, na mansão de uma aluna popular.
O garoto bonito olhou para o relógio de pulso. Ainda faltava mais de uma hora para a meia-noite onde finalmente encontraria a namorada para um passei romântico no Ibirapuera.
Até lá teria que aguentar algum pentelho colocando moedas na jukebox para ouvir aquela música no looping. Não aguentava mais aquela voz gemida do Michael Hutchence no ouvido. Bom, pelo menos tinha os amigos do teatro para dar umas boas risadas até lá, só precisava encontrá-los.
— Que cara é essa, Calú? Parece zangado...
O ator dos Karas virou-se dando de cara com uma garota um palmo mais baixa do que ele oferecendo-lhe um copo de refrigerante. Ela não lhe era estranha, o cabelo cor de cobre até os ombros e o rosto triangular era familiar ao garoto, mas não conseguia se lembrar de onde que a conhecia. Aceitou o refrigerante arqueando a sobrancelha esquerda.
— Estou ok, estou procurando apenas alguns amigos... — tomou um gole e continuou — Tudo bem com você?
A garota deu um meio sorriso.
— Tudo ótimo. Mas pode ficar melhor... Você não está se lembrando de mim, né?
Calú fez a melhor expressão de surpresa que conseguia pregar no rosto.
— Mas é claro que eu me lembro de já ter falado com você! Faz tempo, eu creio...
— Sim, no corredor da escola. Sou a Alícia.
O garoto sorriu ainda em fingimento. Ele conhecia bem umas três garotas chamadas Alícia. Da onde diabos que aquela menina era?!
— Bom ver você de novo, Alícia! Eu gostaria de ficar para conversar, mas eu preciso...
Calú estava prestes a sair da entrada da casa para procurar seus amigos, quando Alícia segurando seu braço direito. O menino estacou, franzindo a testa para ela. Os olhos da garota continham um brilho assustador.
— Ainda não terminamos de conversar — falou com firmeza— Preciso que você me ajude com o seu amigo Crânio. Não esqueci da sua promessa.
A ficha finalmente caiu para o ator dos Karas. Observou a garota com atenção e se lembrou da onde ela era.
Alícia! A garota bonitinha que era só um ano mais nova do que ele e era apaixonada pelo Crânio há anos! Foi ela quem emprestou a fita do filme de terror para o gênio dos Karas, e Calú se lembrava de ter ido falar com ela no dia seguinte para levar a fita para casa. Mas se passou tanto tempo que ele realmente se esqueceu dela. E de devolver a fita.
Pela primeira vez, Calú não conseguiu fingir mais diante da menina.
— Err... O que exatamente você quer, Alícia?
A menina abriu um largo sorriso e passou as mãos pelos cabelos como se estivesse sem graça.
— Queria um encontro com ele, lembra? Você prometeu que iria dar um jeito de eu ficar sozinha com ele... — a expressão dela se fechou levemente — Do contrário, eu vou falar para todo mundo sobre a sociedade secreta que você e ele fazem parte.
O garoto quase cuspiu o refrigerante que ainda tomava e olhou para a menina com olhos arregalados.
— Não sei do que você está falando...
— Não se faça de desentendido — Alícia cruzou os braços bufando — Pensa que eu nunca vi vocês dois trocando bilhetes em códigos durante a aula? Ou nos corredores?
Calú abriu e fechou a boca sem saber o que dizer. Era verdade que ele e Crânio de vez em quando trocavam bilhetes usando os códigos dos Karas, mas aquilo não tinha nada a ver com o trabalho secreto do grupo! Eram sempre bilhetes com provocações um com o outro, às vezes usando o código Tênis-Polar, outras vezes em línguas diferentes quando os dois estavam entediados.
Os dois sabiam um arsenal de palavrões em línguas estrangeiras que trocavam também nesses bilhetes, que fazia Calú rir tanto, que precisava esconder o rosto no meio da aula ou nos corredores da escola para não dar suspeitas.
Pelo jeito não adiantou, porque Alícia viu tudo.
Calú para se safar, ia dizer que Crânio não compareceria a festa, fato que o próprio havia comentado com ele dias antes. Porém ao olhar à frente da garota, para o seu desgosto, viu amigo chegando junto com dois colegas.
"Ah seu filho de uma..."
O garoto continuou observando o amigo com um pouco de raiva, até perceber que Crânio olhava, como se quisesse disfarçar, para alguma coisa ao lado dele. Seguindo a trilha do olhar do amigo, Calú viu o que Crânio observava: Magrí.
Calú não tinha visto Magrí ainda desde que chegou e não culpava o amigo por fitá-la por tanto tempo. A menina estava mais deslumbrante do que nunca, em um vestido longo de verão ao lado de uma amiga.
O ator dos Karas, no entanto, estava confuso em relação aos dois amigos. Precisava falar com Crânio com urgência.
Dando o seu sorriso mais bonito, aquele que fazia todas as garotas do Colégio Elite suspirarem, Calú encerrou a questão:
— Tudo bem, Alícia. Promessa é dívida! Fica aqui que eu vou conversar com ele rapidinho.
A garota acenou em concordância, enquanto Calú se dirigia próximo a entrada da casa onde Crânio estava ainda com seus colegas, aproximando-se do garoto até esbarrar nele com tudo.
— Desculpe — murmurou Calú para a expressão de surpresa de Crânio que caiu um pouco para trás pelo impacto.
Aproveitando a proximidade do amigo, disse rapidamente:
— Prentercinissomber faislaisr comberm vombercenter!
Em tradução rápida do código vermelho, o garoto havia dito: "Preciso falar com você!"
Calú então saiu, indo para o jardim de casa e sabendo que Crânio o seguia de forma discreta. O ator dos Karas foi até um canto mais afastado, onde não poderiam ser ouvidos pelos convidados da festa que rondavam o lugar.
— O que aconteceu, Calú?
— Estou encrencado. Você está muito encrencado.
— Por quê?
— Lembra da Alícia? Ela quer um encontro com você. Hoje. E ameaçou expor os códigos dos Karas.
Crânio fitou Calú como se nunca tivesse visto ele antes.
— Mas como ela sabe sobre os códigos dos Karas?! Isso não é possível, Calú!
O ator tentou conter a impaciência.
— Os bilhetes idiotas, lembra deles? Ela viu tudo! Se Miguel ficar sabendo que a gente andou usando os códigos secretos para coisas fora dos Karas, ele vai nos matar, você sabe disso. Chumbinho e Magrí também.
A menção do nome de Magrí fez com o que Crânio voltasse o olhar rapidamente para onde a garota ainda estava. Calú viu que havia um rapaz próximo a ela que parecia está paquerando a moça. A expressão de Crânio foi da surpresa para raiva em segundos.
Calú chamou a atenção dele.
— Se livra da Alícia primeiro, Kara. Depois você vai se resolver com a Magrí.
Quando voltou-se para ele de novo, Crânio parecia que tinha levado um soco do amigo.
— Do que você está falando? Eu não estou entendendo mais nada, Calú!
— Ah não vem com essa não, Crânio! Se acha que eu não sei? É só olhar para a cara de vocês dois!
— Que cara?
— A cara de que você e Magrí estão se pegando, Kara!
Crânio piscou por alguns segundos e corou furiosamente. Porém, ele se recompôs do susto pelas palavras de Calú, ainda em confusão por toda aquela conversa maluca.
— Olha Calú, sobre eu e a Magrí, não é bem isso que você...
— Ah corta essa, eu já segui em frente sobre ela. E como vocês não estão se pegando? Não vai me dizer que vocês estão se encontrando esse tempo todo para jogar baralho?! Em fim, não importa...
Calú não deixou que Crânio rebatesse e continuou:
— A Alícia está no seu pé, vai lá e dá um jeito nisso e depois eu te ajudo a se livrar do babaca que está dando em cima da sua namorada. Prometo. É o mínimo que posso fazer...
Crânio ficou em silêncio de testa franzida sem olhar diretamente para o rapazinho. Passado um minuto, tentou de novo:
— Eu e Magrí não estamos namorando, Calú. Não é assim tão simples...
O estado de agitação de Calú se esvaneceu e encarou o amigo com um ponto de interrogação pairando na cabeça.
— Como não?! A Peggy jurou que vocês estavam... E antes que você chame a minha namorada de fofoqueira, saiba que fui eu quem forcei ela confirmar minhas suspeitas.
Crânio riu sem humor, passando a mão pelos cabelos desgrenhados. Sem querer acabou confessando:
— Eu não tenho certeza se ela quer mesmo algo sério comigo, Calú. Hoje eu estou achando que não e que talvez ela prefira outro...
Calú bufou em desdém.
— Se você está pensando que se trata do Miguel, pode esquecer. Ele não está aqui hoje justamente porque deve estar se agarrando por aí com aquela gatinha do Grêmio Estudantil. Pode confirmar com o Chumbinho depois se você quiser.
A informação pegou o geninho dos Karas de novo com surpresa. Permaneceu em silêncio, o olhar indo entre Calú à sua frente e Magrí que estava próxima à janela.
Nesse tempo o olhar da menina encontrou o de Crânio e ela enrubesceu, porém franziu a testa ao ver que o garoto conversava com Calú querendo não serem vistos.
O ator dos Karas fez sinal de que estava tudo bem, o que tirou um pouco a expressão de preocupação dela. Porém, ela deixou claro que queria explicações.
Crânio voltou-se de novo para o amigo, entre o riso e a raiva.
— Impossível manter muitos segredos entre os Karas, né?
Calú riu gostosamente. Quando ficaram em silêncio, o gênio dos Karas indagou:
— Você me disse que a Alícia estava aqui querendo um encontro comigo. De onde que ela tirou essa ideia? E de onde ela tirou coragem para falar com você? Lembro que ela era muito tímida, morria de vergonha de falar comigo...
Calú remexeu os pés e desviou o olhar.
— Err... Então, acho que eu fiz besteira. Lembra da fita? Lembra que eu brinquei que um iria falar com a Alícia e pedir o filme emprestado e até sairia com ela se ela quisesse?
Crânio acenou demonstrando que se lembrava sim, apesar de te sido há bastante tempo. Calú estava nervoso e com medo quando continuou.
— Então... Eu falei com ela e tal, consegui pegar a fita, mas ela não quis sair comigo — ele fez um bico ofendido — Mas eu fiz a besteira de falar que eu e você éramos amigos e em troca da fita, ela me pediu que eu conseguisse um encontro com você. É isso.
A mandíbula de Crânio se apertou.
— Você o quê?! Eu vou te matar!
O garoto levantou os braços em defesa quando o gênio dos Karas deu dois passos longos em direção a ele.
— Eu sei, a culpa dessa confusão é minha, desculpe!
— Ainda por cima é péssimo de síntese! Você não consegue explicar as coisas de forma bem objetiva, Calú! Já te falei para melhorar isso!
Calú não escondeu que estava realmente ofendido pelo comentário.
— Me desculpe, oh senhor gênio da cocada preta, se eu sou um ator e minha vida é rodeada de textos literários não objetivos?! O importante é que você entendeu o que tem que fazer.
Crânio massageou as têmporas tentando se acalmar.
— Eu deveria socar a sua cara de novo, só que dessa vez para valer! Eu ia mesmo falar com a Magrí, mas agora por culpa sua...
— Já disse que foi mal, eu não achei que ela me levou tão a sério assim!
Crânio balançou a cabeça em desdém.
— Traz a garota para o lugar que eu vou te mostrar. Não deixa a Magrí ver nada, distrai ela o máximo que conseguir. Eu te aviso quando o caminho estiver seguro.
Antes de se separarem, Crânio ainda raivoso, mas com um sorriso no canto da boca falou:
— Eu deveria infilati una scopa in culo e ramazza la stanza , Calú!
E saiu com o ator dos Karas logo atrás, que caiu na gargalhada.
***
Crânio mostrou a estufa vazia da casa onde Calú deveria trazer Alícia e com discrição, o último voltou para a festa para trazer a garota. Ele não percebeu que Magrí tinha visto todos os movimentos dele.
Não demorou e Alice adentrou o local. O gênio dos Karas observou a garota à sua frente sem nenhuma expressão. Nunca que o garoto se imaginou em tal situação na sua curta vida, pois não estava acostumado como Calú a lidar com garotas aleatórias apaixonadas por ele.
Crânio sempre foi muito na dele quando o assunto era o sexo oposto, e depois que finalmente admitiu os próprios sentimentos para si mesmo sobre Magrí, nenhuma outra garota lhe chamou a atenção.
De fato, no passado, antes mesmo dos Karas se juntarem e ele conhecer sua querida Magrí, o rapazinho trocou alguns beijos com algumas meninas por quem tivera uma paixonite passageira, mas nenhuma delas conseguiu manter a atenção dele por muito tempo. Crânio se entediava rápido e perdia o interesse, voltando a sua quietude e silêncio habitual que as deixavam frustradas. Talvez sem querer, quebrou o coração de uma delas.
A verdade era que o amor era esquisito, sem explicação para ele. A maioria das coisas que conhecia tinham uma trilha de raciocínio, uma lógica que explicava como funcionava.
Uma fórmula matemática, por exemplo, seguia uma trilha de hipóteses, o trabalho era descobrir qual era a hipótese correta. A morte era o curso natural de qualquer forma de vida, então todos os seres humanos iriam enfrentá-la um dia.
Uma narrativa de um livro era uma experiência humana que poderia ocorrer na realidade, mas que dificilmente ocorreria com ele o que aconteceu com o jovem Jim Hawkins e seu sonho de procurar o tesouro do Capitão Flint em A Ilha do Tesouro, por exemplo, um dos seus livros favoritos. Improvável, mas não impossível.
E o amor? O que era o amor? O garoto quebrava a cabeça, mas não conseguia encontrar uma explicação para o fenômeno. Um sentimento? Uma doença? Um desvio? Logicamente, o amor não fazia o menor sentido para Crânio e ele estava para desistir de tentar achar uma explicação.
Alícia aproximou-se como um animalzinho carente e tomou a mão esquerda do garoto entre as suas. Havia um sentimento de súplica nos olhos da garota e algo mais que Crânio que não conseguiu definir. Era esperança, talvez?
— Crânio... Me perdoe por toda essa situação, pela chantagem... Mas é que... — ela respirou fundo — Eu gosto tanto de você. Eu amo você.
O rapaz ficou sem ação. Não esperava aquela confissão vindo dela. De fato, Alícia havia crescido e não era mais tão acanhada de como ele se recordava.
O gênio dos Karas tinha um plano para remediar a situação, mas hesitou frente às palavras da garota. Sentiu-se culpado por despertar nela um amor que ele não correspondia, pois seu coração já estava comprometido.
— Alícia, olha... Eu acho que as coisas estão mal entendidas entre nós. Eu não...
Ela o cortou, aproximando-se mais do rosto dele.
— Eu sei o que você vai falar, Crânio. Eu sei que você não me ama, que ama outra garota. Mas ela ama você como eu te amo? Será que ela tem um sentimento maior do que o meu? Você já parou para pensar nisso?
Crânio abriu e fechou a boca sem emitir nenhum som. Raramente ficava sem palavras diante de um questionamento. Mas Alícia era esperta e tocou em um ponto que o menino não tinha respostas, pois era a pergunta que ele vinha fazendo há bastante tempo.
— Você não sabe, não é? Ainda está em dúvida se ela te ama ou não.
Alícia estava agora muito mais próxima dele, quase colando o rosto no garoto.
— Mas quanto a mim, você não precisa ficar em dúvida. Eu sempre te amei, assim de longe, sem você nunca me notar. Sem dramas, fácil como respirar...
Alícia grudou seus pequenos lábios em Crânio com carinho e ansiedade. O garoto ficou completamente sem reação, a cabeça girando com tanta informação junta.
Foi mais um selinho do que um beijo, mas com o tempo o suficiente para a porta de estufa se abrir e uma voz dizer:
— Crânio?!
***
Calú circulava pela festa com animação, rindo e contando piadas com os amigos, porém de olho em Magrí, esta que não tirou os olhos do ator dos Karas desde da hora que ele voltou para festa sem Crânio. Para enganar a menina, seria necessário uma boa dose de bom fingimento e de fingimento Calú entendia.
Não demorou para acontecer. O ator dos Karas estava próximo a uma das mesas dispostas na casa para pegar alguma coisa para beber, quando sentiu que alguém estava do lado dele. Ele reconheceu a forma esbelta de Magrí antes mesmo de levantar o rosto para confirmar sua suspeita.
Sem olhar diretamente para ele, como se estivesse apenas colocando mais refrigerante no copo, ela indagou:
— O que você e Crânio estavam discutindo lá fora? O que houve?
Calú deu de ombros.
— Nada grave, Magrí, não se preocupe. Se fosse algo sério, a gente teria te chamado.
A garota ficou em silêncio observando a festa e disfarçando para que ninguém percebesse que os dois conversavam.
— Se não era nada importante, onde ele está?
Calú sorriu com malícia:
— Mas porque você quer saber onde ele está hein, Magrí? Se é algo relacionado aos Karas, eu estou aqui.
Magrí baixou os ombros se colocando numa posição defensiva. O garoto mordeu a língua para não rir. Conseguiu inverter a situação a seu favor e desarmar a garota. Ela por sua vez, pareceu estar num debate interno por longos minutos.
Não puderam prosseguir com o diálogo, pois um rapaz, o mesmo que estava paquerando a menina dos Karas desde que ela chegou, se aproximou com um olhar de raiva para Calú. O jeito dele para com Magrí incomodou o rapazinho.
— Te achei, meu bem. Esse cara está te incomodando?
O rapaz fitou Calú de cima a baixo. Magrí revirou os olhos e cruzou os braços.
— Não me enche o saco, Bruno. E eu conheço Calú, ele é meu amigo.
— Quem não conhece o galazinho das meninas né? — havia desdém na voz dele.
Calú abriu um sorriso cínico.
— Bom, pelo menos eu não preciso ficar correndo atrás de quem não me quer, ao contrário de você.
A expressão de Bruno tornou-se furiosa. Ajeitou os ombros em posição de desafio ao se aproximar de Calú. O garoto foi de encontro ao inimigo com o queixo para cima. Se o tal Bruno partisse para a agressão, o ator dos Karas não ia facilitar a vida dele.
Percebendo que os dois estavam prestes a se socarem, Magrí segurou o braço de Calú.
— Ei, podem parar com isso! Anda Calú, vamos sair daqui.
O tal Bruno virou-se para Magrí com os olhos faiscando:
— Ah então é isso? Você vai me trocar por ele?!
O ator dos Karas riu sem humor nenhum.
— Ah cala essa boca, seu arschgesicht! Ela não quer nada com você e nem comigo, porque ela já tem namorado, que aliás, é um dos meus melhores amigos! Então, cai fora!
Bruno teria realmente socado Calú pelo comentário, se Magrí não tivesse puxado ele a força para fora da casa, longe da vista do agressor.
No jardim da casa, o menino ria da cara furiosa do seu adversário. Mesmo com a fraca iluminação do local e o brilho da lua alta, ele percebeu que Magrí estava muito corada parecendo um tomate. Ela o fitava sem expressão.
— O que foi isso, Calú?
O menino não conseguia parar de rir.
— Você viu a cara dele? Acho que ele entendeu do que que eu chamei ele!
A menina franziu a testa.
— Não era disso que eu estava falando, mas... Aquilo foi em alemão?
Calú acenou concordando e limpando as lágrimas de riso.
— Pena que o Crânio não viu! Tenho certeza que agora eu venci a competição de melhor xingamento...
A menção do nome do amigo fez o ator dos Karas recobrar a razão. Fitou Magrí, finalmente se dando conta sobre o que ela estava realmente perguntando. Oh oh, Calú estava encrencado. De novo!
Pigarreou e massageou a nuca, colocando a cara mais inocente que conseguia.
— Err, então Magrí...
O menino não teve tempo de continuar, pois Magrí suspirou alto e murmurou "Eu sabia que a Peggy ia te contar". Um meio sorriso brotou nos lábios da garota.
— Tudo bem, Calú. Eu não estou zangada com você. Aliás, muito obrigada, me salvou daquele mala.
Os dois se abraçaram de forma fraternal. Quando se separaram, a expressão de Magrí ganhou traços de determinação. Ela parecia uma rainha poderosa e temível quando falou:
— Agora você vai me levar até o meu futuro namorado. Onde ele está?
A menina passou a vasculhar o jardim de todos os lados com Calú logo em seu encalço. O garoto praguejou baixinho, pois não tinha conseguido despistar Magrí enquanto Crânio conversava com a Alícia. Olhou o relógio de pulso. Ele tinha dito que seria rápido e já haviam se passado pouco mais de dez minutos. Talvez tudo já estivesse limpo e ele teria voltado para festa.
Magrí tinha um faro tão bom quanto de um detetive e não demorou para ela chegar a conclusão que o único lugar que não vasculhou foi a estufa, para o desespero de Calú. Ele segurou o pulso do garota impedindo-a de entrar.
— Vamos voltar para a festa, Magrí. Eu duvido que ele esteja aí, sério.
Os olhos da menina faiscaram.
— Você é um ator maravilhoso, Calú. Mas eu te conheço e você não me engana.
Ela se soltou do amigo e abriu a porta da estufa. A cena que presenciou foi um soco no estômago da garota.
— Crânio?!
Calú entrou logo em seguida e ficou de boca aberta. O gênio dos Karas estava grudado em Alícia, claramente numa posição comprometedora. Crânio estava muito vermelho e encarou em pânico:
— Magrí?! Não, espera...! Não é o que você...
A menina deixou o lugar rapidamente. Calú viu uma lágrima escorrer pelo belo rosto dela.
Calú e Crânio se fitaram, ignorando a expressão atônita de Alícia perto deles. Trocaram palavras silenciosas por alguns segundos que a garota não compreendeu.
Por mais que fosse inteligente para códigos, Alícia não tinha ideia da capacidade dos Karas em se comunicarem.
— Eu falo com ela e você resolve logo isso — disse o ator dos Karas.
Antes de sumir de vista, ele riu:
— Estamos quites agora!
Crânio riu, mas parecia mais um engasgo do que um riso de verdade. O coração estava aos pulos e o estômago afundado. No entanto, teria que manter o controle e a calma se quisesse que o plano desse certo.
Tomou o rosto de Alícia com determinação e a garota pensou que ele fosse beija-lá de novo. Porém, logo viu que não se tratava de nada disso. Ela arregalou os olhos.
— Você não vai pensar em mais nada agora, Alícia. O único som que você escuta é a minha voz...
— Sim...
— Você não viu nada dos códigos dos Karas. Tudo o que você viu, você vai esquecer quando acordar. Quando eu contar até três. Um... Dois... Três.
Ela piscou e se remexeu como se tivesse tomado um susto. Crânio se afastou e com a expressão séria, disse suavemente:
— Eu fico lisonjeado que você me ame, Alícia. De verdade. Você é uma boa menina, só que às vezes toma decisões erradas, como hoje. Eu poderia ter feito você esquecer tudo o que ocorreu até agora, mas seria muita covardia da minha parte. Não sou assim. Eu lamento muito que eu não possa corresponder ao seu sentimento, porque realmente eu amo outra. Mas agora eu tenho certeza que ela me ama, graças a você...
Ele parou e respirou fundo encarando as orbes atônitas e cheias de lágrimas de Alícia. Não tinha raiva da menina, por mais que quisesse ter.
— Prometa que vai me esquecer e seguir em frente.
Ela fungou e apenas balançou a cabeça. Com carinho, Crânio deu um leve beijo na testa dela e saiu. Sentia-se péssimo, pois odiava ser causa de tristeza para quem quer que fosse.
Ao lembrar-se de Magrí, o sentimento de desespero voltou à tona com mais força.
"Meu amor, será que você vai entender e me perdoar?"
Andou de forma solitária pelo jardim sentindo um peso nos ombros. Cada vez mais o amor se demonstrava complicado.
Talvez tivesse chegado a uma conclusão sobre a pergunta que lhe perturbava. O que era o amor?
Magrí. Era a única reposta que tinha.
***
— Ele não me ama mais, Calú. Minhas suspeitas estão confirmadas.
A menina tentava conter as lágrimas sem sucesso.
— Tenho certeza que existe uma explicação, Magrí. Você deveria falar com ele.
— Mas você viu que ele beijou aquela menina!
— Err eu não sei... Mas ela estava ameaçando contar para todo mundo sobre os nossos códigos secretos se não conseguisse falar com Crânio. É a Alícia, o Miguel falou dela para gente, lembra? A garota que gostava do Crânio? Pois é...
Os dois ficaram em silêncio. Só podia ouvir os sons dos grilos no jardim e a agitação dentro da casa para a contagem regressiva para a chegada do novo ano. A expressão de Magrí se iluminou.
— Espera... Então quer dizer que ela armou uma emboscada para ele?
Calú acenou com um leve sorriso.
— Sim, e pelo jeito ele caiu na conversa dela...!
Magrí sentia-se de mãos atadas e mais confusa do que nunca. Queria fazer mil perguntas para Calú, mas sua vontade estava paralisada pela cena que presenciou.
Ouviram passos se aproximando, esmagando os galhos secos caídos no chão. A figura de Crânio apareceu na meia luz e involuntariamente, Magrí deu um passo à frente com um olhar que Calú conhecia bem. Era o mesmo olhar que via estampado no rosto de Peggy quando a encontrava.
Os dois quebraram a distância e tomaram as mãos. Calú ouviu os sussurros ansiosos de Crânio que parecia querer se explicar. Ouviu Magrí fungar e dar um leve risinho, seguido dos sussurros da sua voz suave. Percebeu que Crânio sorriu por um tempo, antes de tomar a menina nos braços com vontade e dar-lhe um beijo digno de cinema.
Calú sabia que estava sobrando na cena, mas estava feliz que as coisas tinham se resolvido entre eles depois daquele mal entendido. Lá dentro da casa, alguém aumentou um pouco mais o som e de novo, talvez pela décima vez naquela festa, Never Tears Us Apart ecoou. O ator dos Karas revirou os olhos:
— Isso é tão brega e clichê.
Crânio e Magrí se deram conta da presença do amigo. Os dois, rindo, se desgrudaram um do outro encarando o amigo.
— Você está atrapalhando, Calú — brincou o gênio dos Karas.
Ele bufou:
— Bela forma de vocês dois me agradecerem, hein? Se não fosse por mim, vocês não estariam se agarrando.
O casal corou entre risos, e Crânio deu um tapinha amigável nos ombros do amigo.
— Estamos quites, Kara.
Calú estalou a língua de forma petulante, arrumou os cabelos bonitos, que estavam um pouquinho bagunçados e com o seu jeito mais galante, desferiu, antes de se retirar como se saísse da cena de uma peça onde era o herói:
— Vocês me dêem licença, porque eu tenho uma gatinha me esperando e eu não estou a fim de ficar segurando vela.
Crânio e Magrí riram com gosto. Em seguida, Calú concluiu seu papel mandando um beijo:
— Feliz Ano Novo para vocês dois!
— Feliz Ano Novo, Calú!
— Feliz Ano Novo, e manda um beijo para a Peggy!
Ele acenou e saiu, tendo a imagem do casal de Karas abraçados ao som daquela música chata gravados na sua cabeça pelos anos que se seguiu desde aqueles acontecimentos.
Mas para falar a verdade, algo que era muito improvável que Calú admitisse, até que ele passou a gostar daquela música brega...
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