Notas iniciais
Olá Karas! Confesso que estava bem incerta sobre o rumo da história ou se ficou boa ou não, mas no fim, curti bastante :) Boa leitura!

Londres, 1995

O sol finalmente deu as caras na cinzenta Londres. Miguel se preparava para mais um dia longo de trabalho, e tinha acordado de muito bom humor por ser o seu aniversário. Puxa! Como o tempo passava rápido, mas era bom ter mais um dia, mais um aniversário para comemorar. Era uma pena que estava tão longe da família e dos amigos próximos... Todos os amigos, pensou seriamente.

Ele estava pensando nisso enquanto procurava as chaves do carro na porta de casa quando foi interrompido pela chegada do correio.

— Thank you.

Agradeceu cordialmente ao carteiro e de forma distraída fitou o telegrama. Os olhos, porém, se arregalaram. Ele conhecia bem aquela letra elegante e cursiva.

Querido Miguel,

Espero que esteja bem aí em Londres. Estou mandando este telegrama para te dar os parabéns pelo seu aniversário! Desculpe se eu confundi a sua idade na decoração do telegrama, fiquei na dúvida se você fez 25 ou 26 anos.

Enfim. Tenho saudades de você, meu querido amigo, meu irmão do coração...

Abraços carinhosos,

Magrí

Miguel engoliu em seco e depositou o telegrama com carinho dentro do bolso da jaqueta. Tanto tempo havia se passado, mas Magrí nunca esqueceu de nenhum dos seus aniversários, assim como dos outros Karas. Os telegramas da moça sempre eram acompanhados pela alegria de receber algo dela, mas também um remorso, um sentimento amargo.

Contudo o que ele estava sentindo, afinal de contas? Ainda a amava como acreditava até então? Ou era somente culpa por ter sido negligente com ela, quebrado todas as suas promessas para com a ex menina dos Karas em um piscar de olhos? Ele lembrava das exatas palavras que havia dito na biblioteca do Colégio Elite para Magrí, ainda podia ouvir a voz dela ecoando na cabeça dele.

Seja meu amigo para sempre, prometa.

Que belo amigo você tem sido, hein Miguel?

A auto depreciação se tornou uma coisa corriqueira na vida do rapaz, mas ele despistou estes pensamentos. Não ia adiantar se lamentar para o resto da vida — vida esta que ele ainda havia muito de viver. Era hora de seguir em frente, perseguir seus sonhos e objetivos. Talvez com o tempo as coisas se ajeitariam... Assim esperava.

O dia passou tranquilamente sem nenhuma alusão ao aniversário dele no escritório — ele não se importava, até achava bom assim. Parabenizações espalhafatosas sempre o deixavam sem jeito.

Já era um pouco mais tarde depois do fim do expediente quando Miguel finalmente desligou o computador, se espreguiçou na cadeira e se levantou, pronto para voltar para casa. Ele fitou a mesa vazia do outro lado da sala da sua única colega de trabalho. Dani andava muito quieta e calada nos últimos dias, o que o deixou preocupado. Pensou em perguntar se estava tudo bem, porém sempre hesitava.

De repente a porta se abriu num rompante e a garota entrou.

Miguel ficou em choque.

Dani tinha trocado de roupa e penteado, com um vestido azul com lantejoulas todo brilhoso que ia mais ou menos até metade da perna, fazendo um contraste chamativo com a tonalidade da pele da moça; botas pretas até o joelho com salto e o cabelo, sempre liso, no momento todo cacheado completava o visual da moça, que parecia que havia acabado de sair do set de filmagens do Embalos de Sábado à Noite.

Miguel ficou sem palavras por vários segundos apenas para olhando para ela.

— Miguel? Eu te assustei? Desculpe — ela riu — Gostou do meu visual? Tenho uma festa hoje e vou com aquele cara lá que eu te falei...

O rapaz balançou a cabeça para desembaralhar os pensamentos. Talvez ela achasse que ele estava espantado por achá-la ridícula pela expressão da moça, mas era totalmente o contrário. Ela estava deslumbrante. Parecia que ele tinha tirado uma poeira dos olhos e finalmente percebido o quanto Dani era bela do seu próprio jeito... Ou sempre soube sem admitir.

— Você... Você está muito bonita, Dani.

Ela piscou como se não acreditasse no que ouviu. Depois sorriu corando levemente.

— Você acha é? Obrigada. Achei que você tinha tomado um susto por me achar feia! — riu e fitou o vestido — É uma festa temática dos velhos tempos da era disco. Precisei pedir ajuda para Mrs. Miller, a coroa do outro departamento, sabe? Ela me ajudou a escolher a roupa...

Dani continuou tagarelando enquanto arrumava suas coisas, mas Miguel meio que se perdeu no meio do falatório. Um sentimento de raiva irracional tomou conta dele.

Qual era nome do babaca que ela estava saindo? Chad alguma coisa? Ela era boa demais para ele, não merecia chegar perto dela de jeito nenhum. Um outro pensamento sombrio inundou a mente de Miguel: o tal do Chad abraçando e beijando Dani no meio da festa, descendo a mão boba pelo corpinho dela sem nenhuma delicadeza...

— Miguel? Você não está respirando. Já sei, você tá gripado, né Corleone? Eu sabia...

A voz de Dani o despertou do devaneio. Piscou atordoado. O que diabos estava acontecendo com ele?

— Desculpe, o que você estava dizendo?

Dani colocou água num copo junto com uma capsula de remédio para gripe e levou até Miguel.

— Toma, vai se sentir melhor.

— Mas eu não estou gripado, não foi nada.

Ela revirou os olhos.

— Vai logo, para de ser teimoso.

Ela enfiou o copo na cara dele e Miguel não teve escolha a não ser tomar o remédio. Sentiu-se muito estúpido.

Dani parecia protelar alguma coisa quando ele devolveu o copo.

Antes dela virar-se de costas para ele, a moça disse com certo receio:

— Você deveria ir para essa festa também, vai ser legal e você vai se divertir. O que acha?

Miguel franziu a testa surpreso, confuso e sem saber o que responder...

***

São Paulo, 1985

Era uma bela noite de sábado. Finalmente o inverno deu uma trégua no Hemisfério Sul e a temperatura subiu um pouco na cidade de São Paulo. Era uma noite perfeita para os pombinhos namorarem pelas ruas iluminadas.

"Mas não para a Magrí, pelo jeito", Crânio pensou amuado enquanto atravessava o jardim da casa silenciosa da namorada. Ele sabia que no fundo estava sendo infantil, mas não podia evitar ficar chateado por ela ter cancelado o cinema naquela noite.

Desde quando chegaram da viagem aos Estados Unidos, mal conseguiram se ver direito por causa das aulas que retornaram, os trocentos trabalhos, projetos e provas. Parecia que os professores do Colégio Elite combinavam que iam marcar todas as atividades avaliativas na mesma semana, era a única explicação.

Isso sem mencionar as atividades extra curriculares de ambos. Magrí estava treinando com a Prof.ª Iolanda todos os dias para as Olimpíadas, já ele tinha o campeonato de Xadrez e a Olimpíada Brasileira de Matemática para se preocupar. Toda a escola queria mais prêmios e medalhas dos dois, e não havia folga nem para respirar.

Estava pensando naquilo quando a garota o recebeu na porta.

— Ai que bom que você veio, querido! — ela o abraçou rapidamente — Preciso de ajuda. Agora. Emergência Máxima!

Crânio arregalou os olhos. A menina estava esbaforida, com o cabelo bagunçado para todos os lados, a roupa toda amassada e um pouco suja. Antes que Crânio respondesse, Magrí não escondeu o bico pela aparência desgrenhada.

— Eu sei, não comenta! Mas aquele pestinha vai ser ver comigo ainda...

— O que está acontecendo, querida? Parece que voltou da guerra.

Ela bufou e fez cara feia para ele, enquanto o garoto ria. Até zangada e esfarrapada, Magrí continuava encantadora aos seus olhos.

Os dois pararam no hall de entrada da casa de Magrí. Dava para ouvir a TV ligada na sala e alguém que corria de um lado para o outro derrubando coisas. A menina dos Karas olhou de forma dramática para o namorado. Quem não a conhecesse, acharia que ela estava mesmo muito zangada.

Contudo, Crânio era bom em ler as pessoas assim como Magrí — apesar dela se sobressair nessa habilidade em comparação a ele. A convivência no último ano também ensinou ao rapazinho alguns trejeitos e manias da namorada que eram desconhecidos dos outros, até dos Karas. Pela curva no canto da boca de Magrí enquanto falava, ela estava achando graça da situação trágica.

— Temos uma missão hoje. Um verdadeiro inimigo, o maior pestinha da história, pior até que o Chumbinho...

Crânio segurou o riso enquanto a abraçava pela cintura:

— Pior do que o Chumbinho? Magrí, no que você se meteu?

— Não ria de mim, oras — ela o abraçou de volta — Só porque você está todo mundo arrumadinho e cheiroso e eu estou parecendo uma mendiga!

O garoto riu alto, e por alguns instantes, a carranca de Magrí sumiu enquanto ria. Ela continuou:

— Lembra da minha tia Alice? Lembra do filhinho dela de quatro anos?

— Lembro sim — Crânio acenou — O que tem eles?

Magrí suspirou.

— Ela e o marido tinham um jantar de negócios muito importante hoje, mas não tinham ninguém com quem deixar a criança por algumas horas.

Crânio sorriu já adivinhando o resto da história.

— Já sei, você ficou com pena e se disponibilizou a cuidar do "pestinha" — ele fez sinal de aspas — Para sua tia, estou correto?

O beicinho de Magrí aumentou.

— Ela estava preocupada porque a babá do Tom Sawyer* não poderia ficar com ele. Eu fiquei com dó e resolvi ajudar.

Crânio balançou a cabeça rindo mais ainda.

Tom Sawyer? É assim que você está chamando a coitada da criança? Se ele é o Tom Sawyer, quem é então o Huckleberry Finn?

Magrí sorriu maliciosa. Ela pegou na mão do namorado e o arrastou para a sala.

— Você, é claro, meu bem.

Crânio não teve tempo nem de protestar, afinal de contas, ele não veio para ser babá de ninguém, mas pelo jeito Magrí não aceitaria um não como resposta.

Na sala, uma criaturinha de cabelos encaracolados e loiros pulava no sofá o mais alto que suas perninhas permitiam. Quando viu Magrí, deu um pulo alto e correu para a garota como um furacão, com o rosto e as mãos sujos do que parecia ser ketchup.

— Blincar, ti-tia! Blincar!

Magrí o segurou no colo e fez uma expressão séria.

— Titia quer brincar, mas você não deixa!

Ele quis bater no rosto dela dando risada, mas Magrí segurou o pulso do menino.

— Já disse que você não pode bater nas pessoas!

O menino começou a fazer birra. Conseguiu se desvencilhar de Magrí fazendo um escândalo, e ela foi obrigada a pô-lo no chão. Assim que os pezinhos marotos chegaram no carpete, ele passou a correr em volta das pernas de Magrí como se quisesse derrubá-la. Nada do que ela dissesse ou tentasse fazer surtia efeito no garoto traquina, que parecia ser ligado no 220 volts.

Crânio que até então apenas observava a cena, se aproximou dos dois e pegou o garoto, colocando-o nos ombros como se ele fosse um saco de batatas. Ele gritou, esperneou e até bateu no gênio dos Karas, mas o adolescente continuou impassível às demonstrações de birra da criança.

Ele o depositou sentadinho no sofá, cruzou os braços e fechou a cara. Pela primeira vez, o menininho parecia intimidado.

— Certo, Tom Sawyer. Vamos ter uma conversa muito séria, rapazinho. Agora as regras mudaram por aqui. Regra número 1, não bata em ninguém, muito menos na sua prima.

— Ti-tia! — ele contestou emburrado. Mesmo sendo "terrível", Crânio se surpreendeu o quanto aquela criança era inteligente. Por alguns segundos, o rapazinho viu a si mesmo sentado no sofá com uma expressão de desafio.

— Tudo bem, pode chamá-la de tia, mesmo ela não sendo sua tia. Agora peça desculpas a ela.

O menino dirigiu os grandes olhos para Magrí que estava parada observando a cena com um sorriso brincalhão nos lábios. "Tom Sawyer" desceu do sofá e rebombou até a garota.

— Discupa, ti-tia.

Magrí queria apertá-lo e beijá-lo, porém sabia que não era ainda um bom momento. Ela se abaixou até ficar na altura dele e apenas deu um leve beijo na testa do menino, que abriu um sorriso de orelha a orelha.

O garotinho voltou para o sofá, para a surpresa de Magrí. Crânio sorriu para ela de forma conspiratória e continuou.

— Agora peça desculpas para mim, porque você também me bateu.

Ele ficou em pé de novo e o mirou com a carinha mais inocente do mundo.

— Discupa, ti-tio.

Magrí riu alto do outro lado da sala, enquanto Crânio franzia a testa para o garotinho. Depois bagunçou os cabelos cacheados dele com carinho.

— Tá tudo bem, mocinho. Você é um menino inteligente, sabia? Acho que você até pode chegar ao meu nível um dia.

Magrí revirou os olhos ainda sorrindo. Pelo menos ele tinha conseguido acalmar o pestinha do primo e estava muito grata por isso. Ela nunca teve problemas quando cuidava dos outros primos pequenos, mas o seu "Tom Sawyer" da vez estava mais fora de controle do que ela poderia suportar sozinha.

Sabia bem que Crânio não tinha saído de casa para cuidar de criança em pleno sábado à noite, e que talvez ele estivesse um pouco infeliz pela situação. Contudo, se estava de fato, ele escondeu bem enquanto conversava com o menininho que o escutava atentamente.

Ela aproveitou que os dois estavam entretidos para arrumar um pouco a aparência e preparar um lanche para a criança. Era muito engraçado como ele e Crânio "conversavam" como se o menininho fosse “gente grande”.

— Pode me chamar de Huckleberry Finn, o seu fiel amigo nas aventuras. Sempre te tiro das enrascadas.

— Berri Finn!

— E nós estamos em uma missão especial, não se esqueça. Temos que chegar aos confins da Terra pelo balão que roubamos! Mas iremos passar por muitos perigos...

— Peligos! Baão! Quero um babão!

Crânio espalhou vários travesseiros no carpete para construir o "balão". Quando Magrí voltou com sanduíches, ela encontrou a sala da mãe mais bagunçada do que nunca. Esperava que ela demorasse para chegar para não ver aquela zona.

— Ti-tia, baão! Voa baão!

— Ah vocês iam viajar no balão sem mim?

Ela piscou os belos olhos de forma charmosa, o que sempre fazia com que Crânio se sentisse muito bobo. Ele beijou a mão direita da menina com um sorriso.

— É claro que não, meu amor. Você é nossa convidada de honra.

Magrí sentou-se no carpete ao lado de Crânio, enquanto a criança ficou na frente sendo o "condutor" do balão.

— Finn, Finn! Voaaa!

— É vamos voar, Tom! — Crânio animou-se — Que tal para o Egito primeiro, hum? Ver as pirâmides e as tumbas do faraó...

***

Em algum lugar de Londres, 1995

Miguel não sabia exatamente o que estava fazendo quando chegou no endereço que Dani havia lhe passado. Nunca tinha andado por aqueles lados dos subúrbios londrinos, e ficou um pouco apreensivo.

Pensava nisso enquanto se dirigia ao estabelecimento que parecia ser uma mistura de discoteca e pub num único lugar. Já havia uma fila se formando para entrar. O rapazinho procurou a amiga, mas não conseguiu distingui-la de toda aquela gente vestida de forma bem esquisita.

"O que raios eu estou fazendo?", Miguel se perguntava cheio de incertezas enquanto remexia os pés e olhava de um lado para o outro. Ele era o único vestido de forma "normal" sem nenhum tipo de adereço fora de moda, mas sentiu-se muito deslocado. Ele não sabia dizer com clareza o porquê de ter decidido ir para aquela festa.

Primeiro, era raro ele aceitar convites do tipo; segundo, ele não era fã da era disco (achava bem brega, sendo sincero) e detestava aquelas luzes berrantes piscando no rosto dele e o quão rápido as pessoas ficavam bêbadas e chatas.

No fundo dos seus pensamentos, no entanto, a imagem de Dani não saía da cabeça dele de jeito nenhum.

— Ah você veio! Nem acredito!

A garota que era o objeto de seus pensamentos nas últimas horas apareceu no meio da rua. Ela tinha posto um casaco pesado por cima do vestido por conta da leve friagem daquela noite. Miguel engoliu em seco.

— Err... Eu não tinha nada para fazer hoje. Acho.

Dani riu de forma cristalina. Ela parecia procurar alguém, pois ela olhava por cima dos ombros de Miguel o tempo inteiro. O rapaz não se conteve.

— Cadê o tal do Chad?

— Não faço ideia, já era para ele estar aqui... — ela franziu a testa — Vou ter que esperar ele lá dentro. Você vem comigo?

Miguel piscou incerto. Não estava nem um pouco a fim de "segurar vela". De novo. Por alguma brincadeira cruel do destino, parecia que ele foi destinado a ser o maior "segurador de velas" da década. Ele se repreendeu como sempre fazia quando tais pensamentos queriam deixá-lo taciturno.

O que ele tinha a perder indo com Dani?

— Tá bom.

Ele a seguiu e não demoraram para adentrarem a festa que já estava bombando. Dani tirou o casaco quando se sentaram em uma das mesas. A música estava bem alta e já tinha gente dançando na pista. O garçom se aproximou com um forte sotaque sulista perguntando o que eles iam querer.

Miguel fitou o cardápio. Dani tinha jogado a responsabilidade de escolher a bebida para ele, o que o deixou bem surpreso. Por fim, ele respondeu:

— One apple cider for the lady, and for me just wine. Thanks.

O garçom acenou e se retirou. Dani levantou uma sobrancelha para Miguel com uma expressão divertida.

— Como você sabe que eu gosto de sidra de maçã?

Miguel corou levemente.

— Eu vi você tomando no jantar que organizamos para os embaixadores mês passado... — ele franziu a testa e disse rapidamente — Mas se eu fui audacioso pela escolha, eu posso chamar o garçom...

Dani o interrompeu:

— Tá tudo bem, seu bobo — Dani riu — Quando você perceber que eu gosto de tirar sarro da sua cara de vez em quando?

O rapaz a mirou e abriu um sorrio tímido, em seguida riu balançando a cabeça. Ele jamais se acostumaria com o jeito dela.

Dani era impetuosa, atrevida e petulante quando queria. Estas características talvez pudesse irritar muitas pessoas, mas com Miguel ele nunca havia se irritado de verdade... Para ser franco, ele achava que isto a tornava única e encantadora.

Os dois estavam entrando em uma zona perigosa do relacionamento. Uma linha tênue de amizade os separava, enquanto que ambos fingiam conter a atmosfera que crescia em seus corações. Miguel e Dani eram pólos opostos que tinha tudo para dar errado... Ou muito certo. Não havia meio termo. Mas nenhum dos dois admitiam tal coisa.

O garçom chegou com as bebidas e se retirou. Dani bebericou da sua sidra e suspirou.

— Pelo jeito, Chad me deu o cano de novo.

Miguel a mirou com curiosidade.

— Quanto tempo vocês estão se vendo mesmo?

— Acho que só dois meses — ela baixou os olhos — Eu gostei dele quando o vi na oficina de pintura a óleo. Mas acho que só estou perdendo tempo.

— Você acha? — Miguel deu um gole no vinho sem tirar os olhos dela — Eu tenho absoluta certeza. Ele é um babaca.

Dani riu quase se engasgando com a sidra. A sinceridade e a forma direta do rapaz sempre a divertia. Ela replicou num tom zombeteiro:

— Você falou isso do outro namorados que eu tive, Miguel.

O rapaz revirou os olhos.

— Porque ambos são babacas, certo? Eu não sei o que você vê nesses caras.

Dani deu de ombros sem responder imediatamente. Bebeu mais da sidra observando Miguel com os olhos sempre atentos. Ela percebeu que os dois estavam em um "encontro forçado", e um sentimento de esperança que jamais havia se permitido sentir nos últimos anos faiscou.

Contudo, ela o apagou logo. Não, ele jamais vai querer algo comigo. Não sou o tipo dele, ele gosta de garotas como Magrí. Não eu.

Mas Dani gostava de brincar com o perigo, ela não podia resistir a oportunidade de mostrar a Miguel quem ela era de verdade, e estava disposta a arriscar certos limites com ele. (Não ajudava o fato dela achá-lo um gato, mesmo se nunca disesse isso a ele.).

Dani olhou na direção da pista cheia.

— Ah tá tocando Night Fever? Eu amo essa música!

Ela se levantou num rompante e com um olhar perfurador em direção a Miguel, desferiu:

— Você vem também, ou vai ficar aí bancando um velho gagá?

***

Em algum lugar do Egito (ou casa da Magrí), 1985

— Música!

O menininho batia palmas animado enquanto os tripulantes do "balão de ar" conduziam a viagem pelo Egito antigo ao som de Bee Gees — sendo obviamente uma ideia da Magrí.

— Nós chegamos no deserto das pirâmides! — Magrí brincava — Quem nos defenderá do faraó mau?

O menininho pulou como um super-herói.

— Eu!

— Oh meu grande super-herói chegou! E tenho certeza que ele quer dançar comigo, não é?

O menininho acenou avidamente ficando em pé. Magrí tomou as mãozinhas dele nas suas e os dois dançaram de forma muito engraçada. Crânio não escondeu a risada.

O casal ria das palhaçadas do garotinho sentados no carpete, que falava sozinho e rolava no chão, muito mais calmo e feliz do que mais cedo. Crânio abraçou a menina pelos ombros e sorriu. Ela sorriu de volta e deu um selinho carinhoso nele.

— Obrigada por tudo. Não sabia que tinha habilidades em cuidar de crianças — ela continuou brincalhona — Tem alguma coisa que você não saiba fazer?

O rapazinho riu.

— Bem.... Trocar fraldas. E aquelas suas piruetas malucas que você faz na ginástica. Serve?

Magrí riu irônica.

— Ufa, ainda bem que você é quase normal...

Ele a abraçou com mais força e continuaram observando o Tom Sawyer se divertir com o seu balão imaginário. Magrí comentou com doçura:

— Ele não é uma criança ruim de cuidar, só precisa de mais atenção dos meus tios. Acho que ele senta falta dos pais brincarem com ele...

Crânio franziu a testa.

— É muito triste uma criança não ter atenção dos pais para brincar com ela... Acho que agora eu entendo as birras dele.

— Ele tem tudo de bom e do melhor — Magrí suspirou — Mas acho que falta carinho. Eu não o chama de Tom Sawyer à toa, ele também não teve muita atenção da família, assim como no livro.

Crânio continuou observando Magrí enquanto ela olhava com ternura para a criança. Ele sabia que ela se sobressaia e era muito superior no relacionamento com as pessoas do que o garoto. Claro, física, xadrez eram importantes, mas lidar com seres humanos, ainda mais um tão indefeso como o "Tom Sawyer" deles, era muito mais importante.

Aquele insight fez com que ele percebesse o quanto Magrí havia amadurecido muito mais rápido do que o normal, enquanto o garoto ainda se sentia infantil em tantas coisas.

— O que você está pensando? — disse ela com os olhos brilhando — Em mim, eu espero?

O gênio dos Karas sorriu levemente enquanto acariciava o rosto dela.

— Nada não, só o quanto você é uma garota incrível.

Magrí sorriu largamente e deu vários beijinhos no rosto dele antes de responder.

— Sabe que eu achava quando a gente se conheceu que você jamais iria gostar de mim? Nem como amiga?

O rapazinho arregalou os olhos.

— Como assim?

Ela arrumou uma mecha de cabelo teimosa enquanto recordava antigas lembranças.

— Eu não sei, eu tinha uma noção bem equivocada sobre você. Quero dizer, você sempre passou a imagem de ser muito sério. Quando os Karas se formaram, eu achei que não íamos nos dar muito bem por sermos tão diferentes. Pensei que você me acharia tola e irracional.

Ela riu sem graça e desviou o olhar para a criança, que veio se aconchegar nos braços dela depois de muito brincar. Crânio estava muito surpreso pela revelação dela, sendo que no começo quando a conheceu, pensou totalmente o oposto.

— Eu jamais pensei em você desse jeito, Magrí. Pelo contrário, eu fiquei um pouco intimidado, por isso não conversava tanto com você nas primeiras reuniões. Não queria que você pensasse que eu era uma besta quadrada.

Crânio corou pela lembrança. Sentiu Magrí rir ao seu lado e abraçá-lo com a mão livre que não estava segurando a criança. Era tão bom estarem juntos, mesmo nas circunstâncias atípicas como aquela!

Eles se recostaram no sofá, a música ainda tocando levemente ao fundo, Crânio observando Magrí ninar a criança cantando bem baixinho. Aquela imagem o garoto jamais esqueceria.

A menina o depositou para dormir no sofá, puxou Crânio para si para que dançasse com ela ao ritmo da música de fundo do toca-fitas. Ela cantarolava baixinho enquanto se abraçavam.

— Then I get night fever, night fever we know how to do it...

***

Em uma discoteca de Londres, 1995

Miguel chegou à conclusão que não estava pensando direito quando aceitou ir para a pista de dança com Dani. Definitivamente era o efeito do vinho, pensou, pois no quesito dança não havia uma diferença entre ele e um poste na rua. Um desastre total.

"Se um dos Karas visse isso...". Ele segurou o riso imaginando o que os amigos iriam dizer. Contudo, quando pensou em Crânio, Miguel ficou um pouco assustado.

O que ex gênio dos Karas pensaria de tudo aquilo? Ele ia gostar da ideia de ver Miguel tão próximo da irmã? Crânio e Dani sempre foram muito unidos, e isso ele sabia bem que isso não havia mudado em nada mesmo com o amigo (ou ex-melhor amigo?) no EUA e ela na Inglaterra.

Miguel deixou isso para lá, por enquanto. Não era como se ele e Dani estivesse namorando ou fazendo algo de errado. Certo? Mas que ele se sentia deslocado, não havia como negar, principalmente quando ela começou a dançar toda animada ao ritmo de Night Fever.

— Dança, Miguel! Você está muito bobo parado aí — ela gritou com uma risada — Não dói!

Antes que ele replicasse, Dani segurou as duas mãos dele o conduzindo junto com a música animada. Não estava dançando perfeitamente, mas pelo menos não era mais um poste de luz na pista e estava se divertindo de verdade.

De repente, Dani arregalou os olhos.

— Ah hoje é o seu aniversário! E você nem para me lembrar, né? Eu deveria avisar o DJ para cantar parabéns!

Miguel estacou e entrou em pânico, ainda segurando as mãos de Dani.

— Não, Dani. Não se atreva, eu não me importo.

O tom de voz do rapaz era definitivo, e Dani reconhecia bem que ele estava falando sério e não aceitaria piadinhas. Com tanta convivência, ela aprendeu a respeitar os limites de Miguel, e não tinha a intenção de deixá-lo zangado de verdade com ela.

Sorriu por fim um pouco sem jeito.

— Tudo bem então.

Ela soltou as mãos dele, e por alguns segundos, Miguel achou que ela iria passar por cima do seu pedido. Contudo, Dani se aproximou e deu-lhe um abraço tímido que o pegou de surpresa.

Ela disse alguma coisa, mas Miguel não conseguia prestar atenção em mais nada. Era como se alguém tivesse dado um shutdown no seu cérebro, calando todas as objeções.

A luz brilhante, a música animada, o leve efeito do vinho deixou Miguel — sempre centrado, sério e racional — em outra dimensão, pelo contato tão próximo de Dani, e pelos braços que ele envolveu em torno dela.

A cena durou segundos. Miguel levantou a cabeça, segurou o rosto de Dani à altura do seu, e fez a coisa mais impulsiva dos últimos tempos: ele a beijou com fervor, fazendo os dois flutuarem pela pista de dança...

Notas finais
No próximo conto: A Polaroid de Magrí virou uma lenda entre os Karas por estar sempre presente nos momentos mais importantes do grupo. Quando Crânio retorna ao Brasil para ver a família e a amada em 95, ele não imagina que a nostalgia possa ser benéfica, mas ao mesmo tempo dolorosa. O futuro do casal ainda é incerto, mesmo com a resolução de Crânio... Bjos!