Caminhos para o coração
14 Connor Rhodes, the past knocks at door! (pat. 1)
Notas iniciais
“Eu era apenas eu;
Nada demais;
Chorava enquanto meu coração escondido;
Ia seguindo os teus sinais;
Você era você;
Tão especial;
Me olhava igual sorriso de criança;
Esperando o presente de Natal;
Vi que era amor;
Quando te achei em mim;
E me perdi em você…”
Dois Corações
Melim
Molly’s (sábado, 20/7 — 23:45 p.m)
Narrador
—Não me entenda mal Jade, mas se continuar olhando para mesa aonde doutor Rhodes esta, vai começar chamar atenção — Munique alerta, estalando os dedos em frente ao rosto da garota, essa desviando minimamente o olhar sem dar muita importância ao comentário — Falo sério. Tenho certeza de que ao menos a doutora Reese já percebeu -alerta uma segunda vez.
—Et moi avec ça?? — rebate a jovem, fazendo uma careta de desagrado ao sorver o restante da bebida em seu copo — Mon Dieu! Esse negócio fica horrível depois de um tempo!! — resmunga, empurrando o copo para o centro da mesa, esticando a mão na intenção de pegar a cerveja de Marcel.
—Nem pense nisso! — o médico exclama, adiantando-se em segurar a garrafa — E você com isso? Você tem Tudo a ver com isso. Essa sua atitude não é a mais aconselhável a menos que pretenda iniciar uma aproximação com seu pai implicando com a namorada dele — argumenta, conseguindo, finalmente, fazê-la desviar o olhar — Foi o que pensei — sorri, sinalizando a garçonete aproximar-se — Mais duas cervejas e um cocktail para minha jovem amiga aqui — ordena — Pode pôr um pouco de álcool. Eu me responsabilizo — solicita a garota anuindo com um aceno, dirigindo-se ao balcão — Voltando ao assunto…- encara a morena mais uma vez -, por que não me contou que conhecia os filhos de Will Halstead? — quer saber.
—Eu contei e caso tenha esquecido, os viu quando me buscou no aeroporto — ela recorda calmamente, apoiando os cotovelos à mesa, entrelaçando os dedos, apoiando o queixo sobre eles — Não é minha culpa sua memória ser péssima para algumas coisas, mon ami — o provoca, Munique levando o copo aos lábios a fim de esconder o riso.
—Não se faça de desentendida. Quando lhe falei sobre eles poderia ter-me dito serem os mesmos com os quais dividiu o voo para cá. Não o fez porque queria ter um trunfo para usar — acusa, o riso sapeca da garota confirmando suas suspeitas — Escute Jade …- cala-se ante o retorno da garçonete, aguardando-a servir os drinks e se retirar para voltar a falar -, eu sei que está impaciente, mas já expliquei a situação …
—E eu entendi e concordei em aguardar, mesmo não gostando — ela o interrompe, suspirando e empertigando-se — Marcel, larguei tudo, mudei de continente, minha vida, para vir ao encontro de mon père e até agora isto — gira o dedo indicando o ambiente como um todo -, foi o mais perto que consegui chegar dele! — reclama — Minto. O mais perto foi uma hora atrás, quando ele adentrou acompanhado daquela lá e eu Não estou implicando com ela — antecipa, voltando-se para Munique, dedo em riste, a enfermeira arqueando a sobrancelha, cruzando os braços — Ok. Talvez só um pouquinho porque no fundo eu sei que não vou ter meu pai da forma como gostaria…
—Esse era um risco que você sabia existir desde o princípio — é a vez de Marcel a interromper — Inclusive, quando me comunicou sua decisão em vir para os Estados Unidos ...porque ela simplesmente me comunicou que viria, não pediu minha opinião ou conselho — enumera, encarando Munique brevemente, dando atenção a garota novamente -, eu me lembro muito bem em ter alertado que ele estava em um relacionamento já naquela época e lembro de você ter afirmado estar bem com isso — relembra.
—No caso era a Bekker? — Munique pergunta, Marcel acenando afirmativamente — Sorte sua não ter vindo antes. Aquela mulher é uma descontrolada, uma maluca que pôs em risco a carreira de seu pai e a vida de seu avô entre outras coi...o quê? — questiona ao ver a expressão alarmada do médico — Falei algo errado?
—Você nada — Jade afirma — Só mon ami Marcel que esqueceu de me contar o motivo exato de meu pai ter terminado com essa tal Bekker — relata, o encarando furiosa, soltando uma torrente de palavrões em francês!
—Se me xingar te acalma, ma cher, fique à vontade — ele diz tranquilamente, sustentando o olhar da garota — Não entrei em detalhes porque não valia a pena estressá-la. A doutora Bekker está presa e pagando por seus crimes. Além do mais, este é um assunto que diz respeito a você e seu pai. Ele quem deveria ter a iniciativa de contar-lhe ou não — frisa.
—Sinto muito! — Munique exclama, arrependida.
—Não sinta. Não fez por mal — Jade pede, sorrindo-lhe gentil, voltando-se para Marcel novamente — Ainda assim, gostaria de ter sabido o real motivo do rompimento deles — sustenta, recostando-se a cadeira, amuada — Você vive me escondendo as coisas ou falando meias verdades, Marcel — protesta.
—Jade, eu…- ele começa, Munique o interrompendo.
—Oh, oh! Doutor Halstead está vindo pra cá com o filho...Por que ele está vindo pra cá com o filho?? — alerta a enfermeira deixando ambos, Jade e Marcel, tensos, o médico recuperando-se rapidamente.
—É o que iremos descobrir em breve...sorriam — sugere, recebendo o colega — Will…
—Eu sabia que era ela!! — Andrey adianta-se, tocando o ombro de Jade, que volta-se para o rapaz, surpresa — Sabia que era você, mas Bianca teimou que não — diz, piscando discretamente para ela.
—Pardon!?!? — Jade questiona o encarando, confusa.
—Sou eu, Andrey. Não tá lembrada de mim? — pergunta o ruivo — Ou de minha irmã? — aponta a mesa, fazendo-a olhar naquela direção, Bianca acenando — Sentamos juntos no voo de Nova York para Chicago. Você até ofereceu carona quando desembarcamos, lembra!? — insiste o rapaz, espremendo os lábios e abrindo significativamente os olhos, ela finalmente entendendo.
—Ahhh!! Oui, oui! Sim, agora lembrei!! — exclama, batendo na testa com a mão — Sont venus à la rencontre de votre père!!
—Oi?? — pai e filho indagam ao mesmo tempo, olhando-a confusos.
—Désolé, je suis désolé...me desculpem! As vezes esqueço onde estou agora — ela pede, agitando as mãos — Você me contaram estarem vindo buscar o pai, não é isso?? — pergunta.
—Encontrar seria a palavra certa, mas buscar também serve — Andrey diz em tom divertido.
—Oui, oui. E conseguiram? — ela pergunta, olhando dele para Will.
—Oui! — o rapaz responde, fazendo-a sorrir — Jade, esse é meu pai, Will...pai, Jade , a garota sobre a qual lhe falamos — apresenta, o médico estendendo a mão que ela prontamente aceita.
—Muito prazer em conhecê-lo — Jade diz polidamente.
—Prazer, mas confesso ter ficado desapontado — Will diz, ela franzindo o cenho — Esperava escutar isso em francês — justifica-se o ruivo, sorrindo.
—Ah...Très heureux de vous rencontrer -ela atende-o prontamente.
—Três de quem??? — ouvem, voltando-se para Munique — Gente, sempre me disseram que francês era simples de aprender!! — exclama a enfermeira, provocando risos.
—E é, mas não tão simples assim — Marcel afirma, dando atenção a Will — Quer dizer que seus filhos conheciam minha afilhada? Que mundo pequeno esse — comenta despretensiosamente.
— Ela é sua afilhada? — Will surpreende-se — Espera, é Francês? — quer saber.
—Indiretamente. Minha família, do lado materno, tem descendência francesa e por curiosidade morei um tempo por lá — revela o médico — O padrasto de Jade e eu nos tornamos amigos. Estive no casamento dele com a mãe dela e os dois tiveram a idéia maluca de me convidar para padrinho — conta, saudoso.
—Que legal! — Andrey exclama, explicando-se em seguida — Marcel e meus pais trabalham no mesmo hospital, logo poderemos nos ver mais vezes — comemora.
—Ahh...entendi — Marcel diz, olhando do garoto para Jade — Tu as quelque chose à me dire, ma chère? — insinua.
—Pas pour l’instant...mais...Qui sait!?? — ela responde com um muxoxo gracioso.
—Não entendi patavinas, mas sei que teve algo a ver comigo — Andrey admite, sorridente.
—Marcel perguntou se está rolando algo entre nós e falei que não...mas quem sabe o que o futuro nos reserva, não é? — pisca, o riso do rapaz aumentando.
—Isso não vai prestar é nada!! — Munique sussurra baixinho, estalando a língua, erguendo o olhar para Will — Aquela é sua...hã..a mãe dos gêmeos e nova COO do Med, suponho — indica Andrea com um gesto de cabeça.
—É sim — confirma Will, enrugando o cenho — Ainda não conheceu Andrea? — admira-se.
—Não e sim. Eu a vi de longe algumas vezes, mas nunca estivemos em um mesmo ambiente — a enfermeira responde — É que quando ela assumiu eu ainda estava cuidando do senhor Rhodes e quando retomei minhas funções não houve oportunidade de conhece-la pessoalmente — explica.
—Entendi — Will diz, voltando-se para o filho ao escutá-lo falar.
—Por que vocês não vão com a gente? -pergunta — Quero dizer, por que não vão sentar lá, conosco? Assim papai te apresenta a mamãe e eu apresento a Jade ao pessoal — sugere, animado, os olhos da garota brilhando em antecipação.
—Não acho uma boa ideia -Marcel deixa escapar ganhando um olhar gélido de Jade e outro confuso de Andrey.
—Por que não? -Will questiona-o.
—Estão comemorando o aniversário de casamento do Hermann e por mais que o conheça, não somos íntimos como vocês o são. Pode ser que ele e a esposa não gostem — argumenta, evitando olhar a garota.
—Bobagem. Cindy adora fazer amizade e tenho certeza de que filha mais velha dela vai adorar ouvir sua afilhada falando francês, aliás — volta-se para a garota -, me faria um favor? — pergunta, não aguardando resposta — Quando for se apresentar poderia fazê-lo em francês? — pede com ar travesso.
—Oui. Claro — concorda a jovem, levantando-se do banco, hesitando um segundo — Nós vamos, não vamos? — interroga, olhando diretamente para Marcel.
—Se Will garante não haver problema…- condiciona.
—Nenhum — reafirma o ruivo.
—Neste caso…- Marcel levanta-se, suspirando ao ver Jade enlaçar o braço ao de Andrey, adiantando-se em direção a mesa com Will logo atrás dos dois — Mas ainda acho uma má ideia — murmura.
—Concordo, mas agora é tarde — Munique anui, o seguindo, ambos parando alguns passos da mesa aonde o grupo de amigos reunia-se em volta do casal Hermann e Cindy, cumprimentando Severide e Stella com acenos.
—Estava me perguntando porque não tinham vindo para cá até agora doutor Crockett, Munique -Hermann comenta tão logo os vê, olhando, assim como os demais, com curiosidade para Jade — E quem é essa bela jovem? Sua parente? — quer saber, Jade aproveitando a deixa para se apresentar.
—Bonne nuit. Je m'appelle Jade, je suis la filleule de Marcel et c’est un plaisir de te rencontrer! — diz com naturalidade, olhando em volta, detendo-se um segundo a mais em Connor e Sarah antes de se voltar para Will, que divertia-se ante algumas expressões confusas de seus amigos.
—A pele de quem? — Otis pergunta, provocando risos.
—O doutor Marcel falhou em quê com você? — Cruz interroga, causando mais risos.
—Tá bom — Stella diz, enxugando as lágrimas — Puxando bem forte pela memória das pouquíssimas aulas de Francês que tive quinhentos anos atrás...Entendi o boa noite e que seu nome é Jade, correto? — pergunta.
—Oui — Jade confirma, voltando-se ao escutar a voz feminina a chamar.
—Bonne nuit. C’est un plaisir de vous rencontrer mademoiselle Jade. Je m’appelle Sarah et se sentent les bienvenus! — apresenta-se, traduzindo — Boa noite, é um prazer conhecê-la senhorita Jade. Meu nome é Sarah e sinta-se bem vinda.
—Ah tá! Então esse negócio de pele é para se apresentar — Otis conclui, voltando-se para a garota — Je m’appelle Otis — apresenta-se, recitando a frase devagar, Sarah e Connor acenando afirmativamente, sorrindo para o bombeiro.
—C’est un plaisir de vous rencontrer monsieur Otis — Jade responde, fazendo uma leve reverência.
—Je m’appelle Andrea et maintenant je comprends pourquoi mon fils n’arrête pas de parler de toi. C’est très joli!! É muito bonita — Andrea elogia.
—Merci — a garota agradece, corando levemente — Andrey é muito gentil. Ele e Bianca me fizeram companhia durante o voo. Teria sido um tédio sem eles! — confessa.
—Me diz que minha mãe não me matou de vergonha, por favor!! — Andrey implora, unindo as mãos, encarando Marcel.
—Nahnn!! — ele exclama, rindo divertido — Ela só entregou que você fala na Jade direto desde que chegou! — acrescenta, o rapaz abrindo a boca ao se voltar para a mãe.
—Sério mãe!?!? Valeu. Vou até ali me enfiar em um buraco!! — dramatiza, cruzando os braços, emburrado, provocando uma onda de risos.
—Não sei porque se mamãe falou só verdades!! — Bianca exclama, indo até Jade — De dez palavras que meu irmão diz desde que chegamos, duas são Jade ou se referem a você! — finge cochichar, ambas rindo da cara de zanga do rapaz — Bom te ver de novo. Senta ali, do meu lado — convida, indicando o espaço vago entre a mãe e Connor, conduzindo a garota até o lugar.
—Bom, acho que agora que Will já se divertiu às nossas custas — Hermann ralha, fingindo estar zangado -, podemos nos apresentar normalmente. Eu sou Hermann e essa é minha esposa, Cindy — apresenta.
—Se for ficar na cidade, preciso te apresentar a nossa filha mais velha. Ela é louca para aprender outros idiomas e francês é um deles — Cindy comenta, apertando a mão que a garota lhe estendia.
—Será um prazer e vou ficar na cidade sim — responde, atentando-se às demais apresentações, voltando-se para Connor — Acho que só você — diz, pondo-se de lado a fim de poder ver o rosto do cirurgião.
—Je m’appelle Connor — apresenta-se ele, apertando a mão dela.
—Prazer conhecê-lo Connor — ela diz, demorando mais do que deveria para soltar a mãe dele — Desculpa — pede, sem graça.
—Sem problema — ele limita-se dizer — Então é afilhada de Marcel. Está de férias? — pergunta, girando distraidamente a garrafa de cerveja.
—Mais ou menos — Jade responde, notando o interesse dos demais — É uma história meio maluca e longa…- faz uma pausa curta — Decidi morar nos Estados Unidos após a morte de meus pais — revela.
—Meus sentimentos — Sarah solidariza-se.
—Obrigada. Já faz um ano, mas parece que foi ontem — confessa, rindo sem vontade- Como não tinha outros parentes na França…
—Você morava na França?? — Brett questiona, ela confirmando — Uau! Eu sonho em conhecer a França — declara, suspirando.
—Quem nunca!! — Kim exclama, imitando-a.
—Está morando com doutor Crockett, então — Andrea conclui, olhando-o.
—Não, em um hotel — ele apressa-se dizer — Jade é emancipada. Eu apenas a oriento e aconselho, quando pede evidente — completa, sentindo o chão fugir sob seus pés ao escutar Andrey falar.
—A Jade veio a procura do pai biológico dela — revela o rapaz, ganhando um chute na canela por sob a mesa — Ai!!
—Não acabou de dizer que seus pais morreram? — Will questiona, encarando-a.
—Minha mãe e meu pai francês morreram. Meu pai biológico não — ela responde, encolhendo-se na cadeira ao ter a atenção de todos sobre si — É que… eu…
—Elry, o amigo do qual lhe falei a pouco Will — Marcel intervém -, conheceu, se apaixonou e casou com a mãe da Jade mesmo sabendo que ela estava grávida de outro, um estudante americano com quem havia tido um romance de carnaval — revela.
—Je suis une fille de Carnaval!! — Jade sopra.
—Filha do Carnaval??? Não entendi — Andrea inquere, desculpando-se logo em seguida — Perdão, mas não pude deixar de ouvir — pede.
—Tudo bem — Jade sorri timidamente.
—O que quer dizer com isso? — Hermann emenda — Se é que não se importa em falar a respeito — condiciona o bombeiro.
—Não, eu não me importo — ela garante — Essa é uma expressão usada no país de origem de minha mãe para crianças que nascem nove meses após o Carnaval — tenta explicar — É … eu não sei como explicar — assume, pedindo socorro a Marcel com o olhar.
—Confesso que não entendo muito bem o significado — admite o médico.
—Filhos do Carnaval equivalem, guardadas as devidas proporções, aos filhos da guerra — Connor vem em auxílio a ambos, chamando atenção para si -Depois que as guerras acabam, é fato comprovado que a natividade no país no qual ocorreu o conflito aumenta. Isto se deve aos inúmeros relacionamentos, nem todos consensuais, dos soldados — cita — No Brasil, durante os festejos carnavalescos, muitas pessoas vivem romances ou casos que duram, em geral, os dias equivalentes a festa, nem sempre com responsabilidade. Logo, o mesmo fato ocorre por lá, daí a comparação e as crianças serem chamadas de filhos do Carnaval — concluiu, dirigindo seu olhar a garota — Particularmente, não gosto de nenhum dos termos por minimizar as responsabilidades, mas são fatos e não dá para ir contra eles — acrescenta.
—Eu não ligo — Jade assegura, dando de ombros — A primeira vez que ouvi, fiquei triste e magoada, admito, por pensar não ter sido desejada, mas minha mãe me cobriu de carinho e disse que mesmo tendo sido uma surpresa para ela na época, jamais pensou em me tirar — conta, emocionada, o silêncio caindo sobre o grupo.
—Então, quer dizer que o jovem Halstead aqui está apaixonado!! Que fofo!!- Cruz brinca, quebrando a tensão, Andrey ficando vermelho como um pimentão.
Dali em diante, o assunto é posto de lado, a conversa fluindo leve em torno de assuntos mais amenos, Connor e Sarah indo embora (para tristeza de Jade, que havia conseguido conversar com o casal boa parte do tempo) pouco antes das duas da madrugada. Pouco depois, o grupo vai se dispersando até restarem apenas Will, Andrea, Marcel, Jade e os gêmeos.
—Feliz? — Bianca cochicha ao ouvido da amiga aproveitando os pais estarem em uma conversa animada com o futuro cirurgião.
—Muito — a garota confessa, enxugando uma lágrima discreta.
—O primeiro passo foi dado. Você passou a fazer parte do círculo de amizade do seu pai — comemora Andrey.
—Sim, e tudo graças a vocês, mes ami!! — Jade declara, segurando uma mão de cada — Muito, muito, muito obrigada. Mercy — agradece, beijando o rosto de ambos — Agora, só preciso aguardar o momento certo para falar com mon père...e quem sabe Sarah possa me ajudar — pondera, sorrindo com o canto da boca — Estavam certos. Ela é legal. Ainda preferia não ter de dividir a atenção dele com une petite amie...uma namorada, mas sobrevivo a isso!! — assegura — Mon père! Meu pai! Muito em breve poderei chamá-lo assim — comemora, confiante.
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Apartamento de Connor (sexta, 9/8 -20:01 p.m)
Connor
—Honestamente, aconselharia que aguardasse um pouco mais antes de retomar suas atividades, pai, mas, como sei que não irá me atender, vou poupar seu tempo e o meu discutindo o sexo dos anjos! — ironizo sem interromper o que fazia, lavando os legumes que usaria na refeição — Como médico, no entanto, não posso e não vou me omitir em sugerir que pegue leve nos primeiros dias. Não ultrapasse seus novos limites — aconselho — A menos que esteja sentindo falta de seu quarto e da comida no Med — não resisto provoca-lo.
—Voltar desfrutar da hospedagem do Gaffney não está em meus planos, asseguro - responde, igualmente irônico, e rio- Mas igualmente ficar em casa está fora de cogitação. Há muito a recuperar e não quero perd..perder tempo - argumenta, enrolando a língua.
—Tem feito os exercícios prescritos pela Fonoaudióloga? — interrogo, completando antes que respondesse — E o que há recuperar? Na Dolan? A meu ver Claire tem feito um excelente trabalho. Os novos contratos e as novas seções fortaleceram não apenas o caixa como melhoraram a imagem da Dolan, goste o senhor ou não — pontuo, escutando-o bufar do outro lado da linha.
Minha irmã ousou em “criar” uma versão popular da marca de nossa família, atraindo um público que sempre quis consumir na Dolan, mas não dispunha de recursos (o império da família, como ela e eu gostamos de chamar, estava fora do alcance a trabalhadores assalariados e minha irmã teve a perspicácia e o senso de oportunidade em adentrar este nicho. E coragem de enfrentar nosso pai e sua diretoria conservadora) e como resultado dobrara o faturamento total da loja. Além disso, ter fechado com duas franquias de perfumaria brasileiras atraira uma fatia considerável de imigrantes daquela nacionalidade bem como do público adepto ao politicamente correto já que ambas prezam pelo respeito a natureza e não realizam testes em animais, o que nos rendeu a simpatia de nichos que antes criticavam a Dolan por ser elitista. A meu ver, minha irmã trouxe nossa marca para o século vinte e um com louvor.
—A Dolan não me preocupa — ouço-o dizer - É ao Gaffney que me refiro e sim, tenho feito os benditos exercícios - esclarece e sinto um frio na espinha. Sabia exatamente a que se referia - Como membro da diretoria, me preocupo com a imagem negativa que o hospital adquiriu. Por diversas razões — completa.
As razões, no caso, são a sala híbrida e a ala Psiquiátrica que recebeu o nome de minha mãe já que, na opinião dele, nada que levasse o sobrenome Rhodes poderia ser depreciado ou menos prezado, quer fosse em uma pessoa ou um lugar.
Sempre orgulhoso!, penso, deixando escapar um suspiro cansado — Quanto a isso, acredito que a recém contratada COO esteja cuidando em reparar. Andrea Fletcher é muito competente — elogio.
—Eu soube. Miss Goodwin falou-me um pouco. Teremos uma reunião segunda a pela manhã - comunica, adiantando-se antes que eu pudesse dizer alguma coisa — Antes que reclame, farei o que pede. Respeitarei meus novos limites -assegura.
—Essa pago para ver, pai — digo, me voltando ao escutar o barulho de chaves, Sarah entrando com Dino — Preciso desligar agora, pai. Amanhã a tarde passo em casa para vê-lo — aviso, sorrindo para ela quando passa em direção a área de serviço.
—Sua irmã está dizendo para lembrá-lo da exposição do namorado de Russell vai fazer amanhã a noite na galeria vizinha a Dolan -avisa.
—Estou lembrado. Sarah e eu estaremos lá às nove. Boa noite pai — me despeço, esperando ele desligar para fazer o mesmo no exato momento em que minha linda namorada retorna com nosso amiguinho peludo saltitando em suas pernas — O passeio não parece ter esgotado as energias desse rapazinho — comento.
—Não mesmo! — ela responde, colocando o pote com a comida dele no chão, junto a parede divisória da cozinha — Eu estou um trapo, mas ele ainda caminharia por horas! — resmunga, apoiando-se a mesa, franzindo o cenho — chuchu? Vamos ter chuchu para jantar hoje? — questiona.
—Sim. A milanesa, entre outras coisas — confirmo, percebendo seu olhar depreciativo para o pobre fruto — Hei, não deprecie meu chuchu antes de provar! — aviso, apontando a faca em sua direção.
—Longe de mim depreciar nada que suas mãos são capazes de fazer- declara, erguendo as mãos e sorrio malicioso, mexendo as sobrancelhas sugestivamente — Tire a mente da sarjeta Rhodes! — exclama, tão vermelha quanto um pimentão.
—Não tenho culpa se falou de maneira tão sugestiva — rebato, contornando rapidamente a mesa, eliminando a distância entre nós, evolvendo-lhe a cintura e roubando um beijo demorado o qual interrompo quando sinto estar muito perto de perder o controle — Ok. Melhor sair dessa cozinha agora ou teremos um menu completamente diferente do que planejei para o jantar -digo, afastando-a lenta mas firmemente.
—Não vai querer que te ajude? — pergunta, brincando com a gola de minha camiseta.
Sempre que estava aqui, costumamos cozinhar juntos, mas hoje tinha planos diferentes.
—Nops! Hoje não — digo, girando-a e empurrando-a delicadamente — Vá se trocar, sem pressa. Tome um banho relaxante, vista algo confortável e espere te buscar — ordeno, guiando-a para fora da cozinha.
—Hum...o que está aprontando Connor? — intui, olhando-me de esguelha, e lhe dou meu melhor sorriso inocente.
—Nada. Apenas um jantar romântico para minha linda namorada — afirmo, beijando a junção entre seu pescoço e ombro, sugando a pele — Ande. Pare de me distrair ou não tem mais jantar nenhum — ameaço, arrepiando-me ao escutar a risada gostosa.
—Sim senhor, senhor!! — exclama, voltando-se, tocando dois dedos na fronte direita -Vou lá, me deleitar naquela banheira enorme...sozinha...abandonada -diz, fazendo uma expressão tão sofrida que por um segundo penso em desistir.
—Fora daqui sua pilantra!! — expulso, atirando o pano de prato contra ela, sacudindo a cabeça quando se esquiva, gargalhando novamente antes de sumir no corredor que leva aos quartos — Sua mãe é uma pilantrinha, sabia disso?! — inquiro ao passar por Dino, que abana o rabo e late animadamente — É claro que sabia. Você sabe de tudo não é bolinha de pelos? — brinco, afagando a cabeça peluda, retomando os preparativos do jantar após higienizar as mãos.
Queria que tudo estivesse perfeito, a comida, a música, o vinho… Aquela seria uma noite especial. A primeira de muitas caso conseguisse fazê-la aceitar meu convite. Estou sendo impulsivo e as chances de ouvir um não são bem altas, eu sei, mas iria tentar porque sinto que desta vez daria certo. Sinto, mesmo nosso relacionamento ter começado, de fato, a pouco tempo, que era o certo a fazer. Que tudo seria diferente das outras vezes. Que desta vez encontrei a pessoa certa.
—Só espero conseguir convencê-la do mesmo — sopro, temperando as fatias de chuchu e reservando, me concentrando em finalizar o preparo dos demais itens do jantar porque ainda nem tinha começado o mise en place da sobremesa!
O cardápio que escolhi era simples: risoto de abobrinha acompanhado por salada crua de couve temperada com molho de laranja e chuchu a milanesa, mas tudo tinha um tempo certo para ir ao fogo sem ter o perigo de ficar cru ou cozido demais. Para sobremesa pensei em algo simples e significativo: maçã do amor.
Trinta minutos depois, o jantar está finalizado e a mesa posta. Optei por uma decoração simples, uma única flor do campo, as favoritas dela, ornando o centro da mesa, nossos pratos lado a lado. Sorrio, satisfeito, reduzindo a iluminação utilizando o sistema (outro bônus que ganhara ao comprar este apartamento), posiciono a mesa de apoio com as travessas, e vou chamá-la. A encontro sentada sobre o colchão, lendo enquanto afaga a cabeça peluda de Dino esparramado a seu lado (o pilantrinha se esgueirara até ali sem que o visse sair). Me encosto ao batente, admirando-a um segundo. Usava um vestido curto, em malha, a estampa florida conferindo leveza e jovialidade, a manga única deixando seu ombro esquerdo à mostra, os cachos macios caiam-lhe sobre os ombros….Nesses momentos gostaria de ser um pintor!!, penso, deixando escapar um suspiro alto, chamando sua atenção.
—Suponho que o jantar esteja pronto -diz, fechando o livro e sorrindo do jeito que sempre mexe comigo.
—Uhum — confirmo, indo até ela, estendendo-lhe a mão -Senhorita, me dá a honra de sua companhia para o jantar? — convido de maneira pomposa.
—O prazer será todo meu, cavaleiro — responde, entrando na brincadeira, calçando as sapatilhas ao descer da cama, pondo a mão sobre a minha, se deixando conduzir por mim, Dino nos precedendo, pulando e acomodando-se no sofá — Que lindo! — elogia ao ver a mesa — Alguma razão para tanto capricho? — pergunta, parando junto à mesa.
—Várias, a principal está diante de meus olhos — digo, puxando a cadeira para que sentasse — Se existe motivo melhor, desconheço — sussurro em seu ouvido, deixando um beijo e uma mordida antes de me afastar para nos servir.
—Humm!! Que cheiro bom! Não me diz que é do chuchu? — me provoca, pegando seus talheres.
—Também, mas o principal é mesmo do risoto — revelo, servindo uma porção no prato dela e depois no meu, acrescendo uma porção de salada e por último o chuchu a milanesa — Prove-o primeiro — peço, pondo o prato sobre a mesa
—Ok — concorda, partindo-o, levando uma pequena porção a boca, mastigando-a calmamente, repetindo duas vezes antes de dizer algo — Olha, confesso que estava com os dois pés atrás — diz, sorridente -, mas devo admitir que pela primeira vez comi chuchu com prazer! Parabéns. Tá muito bom Connor — elogia, me dando um selinho.
—Obrigado — agradeço, retribuindo o sorriso — Agora vamos ao risoto e a salada — convido, servindo um pouco de vinho para nós dois.
Tomamos a refeição em relativo silêncio, Sarah tecendo um ou outro comentário a respeito dos pratos, elogiando e dizendo querer que a ensinasse, o que prontamente concordo. Quando terminamos, retiro a mesa, insistindo para que permanecesse sentada aguardando a sobremesa.
—Maçã do amor!! Que romântico Connor!! — exclama, me dando mais um selinho.
—Espero que goste da cobertura. Fiz com calda da própria fruta, um pouco de mel e reduzi no vinho tinto — conto, pondo uma em seu prato, partindo-a em quatro partes, aguardando ela experimentar para somente então eu mesmo o fazer.
—Deliciosa! — elogia, pegando outro pedaço.
—Ficou mesmo — admito, comendo mais um pedaço também — Estava com medo de ter deixado a calda muito acida ou doce demais já que pus o vinho por minha conta e risco — confesso.
—Para mim ficou ótimo — reforça, pegando outro pedaço.
—Então é o que importa — declaro, enchendo nossas taças com vinho — Que acha de ouvirmos um pouco de música? Dançar um pouco — sugiro, ela aceitando prontamente.
Recolho o restante da louça, pego o decanter, o refratário com frutas (inteiras e em pedaços) que preparara antecipadamente, os garfos próprios para petiscos, o restante da calda e a acompanho para a sala onde, após escolher a trilha sonora, me sento a seu lado no sofá.
Na hora seguinte, além de ouvir boa música e saborear os petiscos doces, dançamos juntinhos, trocando carícias e beijos. Quando estes se tornam mais ousados e quentes, vamos para o quarto onde nos amamos intensamente uma, duas, três vezes, nos aquietando quando vencidos pelo cansaço, permanecendo abraçados. Aproveito a calmaria para refletir e escolher as palavras que diria bem como os argumentos que usaria, ela me dando a deixa que precisava.
—Adoro ficar assim, em seus braços, tanto quanto fazer amor com você — confessa, se aconchegando melhor em meu peito.
—Eu também — digo, enrolando uma mecha cacheada em meu dedo -Poderíamos desfrutar de mais momentos como este ….se viesse morar comigo — declaro, sentia-a ficar imediatamente tensa, mas nada diz e não fosse sua respiração irregular, juraria ter adormecido — Eu sei que parece precipitado, mas …
—É precipitado Connor — me interrompeu, erguendo o tronco o suficiente para olhar em meu rosto — Estamos namorando firme apenas um mês...um pouquinho mais que isso...talvez seja melhor esperarmos um pouco mais, não acha? — pergunta, mordendo o lábio, gesto característico seu quando está insegura.
—Não, não acho — respondo de pronto, respirando fundo — Sarah, sei que faz pouco tempo, mas tenho certeza que estou pronto para dar esse passo. Tenho certeza de meus sentimentos por você. Detesto termos de ficar tanto tempo longe quando poderíamos estar mais tempo juntos — protesto — E sei que você sente o mesmo.
—Connor, tenho passado mais tempo aqui do que em meu apartamento nas últimas semanas. Até Dino já está adaptado a seu apartamento de tanto que temos ficado aqui…
—Mais um motivo para tornamos tudo oficial — argumento, pondo a mecha com a qual brincava por detrás de sua orelha — Sinto falta de acordar a seu lado todos os dias, você não sente também? — pergunto, ela acenando afirmativamente — Sentimos falta um do outro, Dino está completamente adaptado e tem até mais espaço para correr feito um maluco pela casa — brinco, fazendo-a rir -, parte de suas coisas já estão aqui …- abro os braços, abrangendo o ambiente como um todo -, poderemos ter mais noites... e tardes ...e manhãs com momentos como esse sem precisarmos nos preocupar com horários e em ter de ir embora. Só vejo vantagens para nós três — argumento, incluindo Dino.
—Sério que está usando sexo e meu cachorro para me fazer aceitar sua proposta? — questiona, falhando em parecer zangada.
—E não esqueça a comida, afinal, te fiz comer ter prazer em comer chuchu!! — não resisto provocá-la, sorrindo de forma sedutora — Além do mais, cada um luta com as armas que tem! — acresço, piscando, seu riso se transformando em uma melodiosa gargalhada, me dando esperança.
—Certo sabichão, reconheço a validade de seus argumentos, mas também precisa reconhecer os meus — diz, puxando parte do cobertor, protegendo o dorso antes de sentar-se de frente para mim — Passar horas juntos não significa necessariamente que irá dar certo morar juntos. E já pensou que parte do charme é justamente não estarmos todo o tempo juntinhos? — argumenta.
—Está dizendo que meu charme iria acabar com a rotina? — a provoco mais uma vez, ganhando outra risada divertida.
—Connor, minha única dúvida é se algum dia em sua vida esse seu charme vai acabar — retruca, acariciando meu rosto.
—A resposta é simples: aceite meu convite e descubra! — rebato.
—Ok, já vi que não vai adiantar insistir com você — declara, suspirando, ficando repentinamente séria e por um terrível segundo temo o pior — Me dá um tempo para pensar — pede — O final de semana — acresce ligeiro, levando o dedo a meus lábios, calando o protesto antes que o fizesse — Só me deixa amadurecer a idéia durante o final de semana.
—Farei melhor: tem até o próximo final de semana para amadurecer a idéia — a parafraseio — Depois disso, quero uma resposta. De preferência um Sim.
—E se for um não? — quer saber, mordendo o lábio novamente.
—Então…- digo, pegando-a de surpresa ao puxá-la de encontro a mim, deitando-a e a prendendo sob meu corpo-, terei de me esforçar mais para te convencer aceitar! — declaro, tomando sua boca em um beijo que nos deixa sem ar.
—Acho que, talvez, você vá precisar fazer isso! — diz, ainda ofegante -Se esforçar um pouquinho mais para me convencer — complementa, umedecendo os lábios com a ponta da língua, o fogo em seu olhar me incendiando novamente.
—Talvez eu deva começar agora. Que me diz? — provoco, deslizando a mão por debaixo do cobertor até alcançar seu sexo úmido e quente, instigando-a.
—Acho...uma...ex-exce..excelente idéia! — arqueja, gemendo ao me sentir introduzir dois dedos em seu interior — Connor!! — geme outra vez, arqueando-se quando começo movê-los enquanto estimulo o clitóris sensível com o polegar — Connor, por favor...quero você...em mim...agora! — pede, ofegante, cravando as unhas em meus ombros, a cabeça pendendo levemente para o lado, os olhos semicerrados.
—Ainda não… temos a noite inteira para nós meu amor — sussurro, distribuindo beijos em seu colo sem interromper o estimulo em seu sexo — A noite e a manhã inteira…
…………………………………..
Domingo , 11/8 — 9:17 a.m
Narrador
O som insistente e estridente do interfone ecoa pelo apartamento, despertando Connor.
O cirurgião ergue a cabeça, escutando por alguns segundos antes de erguer-se cuidadosamente para não acordar Sarah, vestindo apenas o shorts do pijama, deixando o quarto silenciosamente.
Ao passar pela sala, sorrir ao ver Dino esticado sobre o tapete as patas para cima, roncando relativamente alto, sacudindo a cabeça, seguindo seu caminho direto para a cozinha, atendendo o aparelho, que voltara soar.
—Oi — atende com voz rouca, tapando a boca com uma mão para ocultar o bocejo.
—Doutor Rhodes, perdoe-me por incomodar a esta hora em uma manhã de domingo, mas eu preciso falar com a Sarah com certa urgência e como o celular dela está desligado, tive de vir -a pessoa na outra ponta da linha justifica-se, identificando-se -Aqui é Laura Derm, vizinha da Sarah. A mãe da persie. Lembra de mim?
—Sim, sim, lembro — afirma, ainda sonolento, bocejando uma segunda vez — Vou avisá-la que está aqui, mas pode ir subindo. O apartamento é o primeiro do sexto andar, lado esquerdo — orienta, apertando o botão que destrava a porta do hall, permitindo a mulher entrar no prédio, pondo o interfone no lugar, voltando-se para regressar ao quarto.
Ao adentrar o aposento, ajoelha-se junto a cama, afagando o rosto de Sarah, afastando as mechas rebeldes.
—Amor — chama junto a seu ouvido, deixando um beijo estalado — Amor..- chama novamente, um pouco mais alto recebendo um resmungo em resposta — Sinto te acordar, mas a mãe da Persie está aí. Disse que precisa falar com você com urgência — avisa, conseguindo atenção dela.
—Laura? — ela inquere, rouca e confusa, ele confirmando.
—Uhum. Já liberei a entrada. Deve estar aqui a qualquer momento — avisa, fazendo-a levantar cambaleante, espreguiçando-se antes de olhar em volta a procura de algo para vestir — Aqui — ele ergue o vestido de malha que ela usava na noite anterior, pondo-se de pé- Quando ela for, volta pra cama — pede, atirando-se sobre o colchão.
—Volto — Sarah promete, arrumando o vestido, prendendo o cabelo da melhor forma possível enquanto caminha para a sala, a campainha tocando no exato momento em que chega ao aposento, Dino rolando, fincando-se nas patas dianteiras, espreguiçando-se — Bom dia preguiçoso! — o cumprimenta, seguindo para a porta, lembrando-se de olhar através do olho mágico antes de abri-la — Bom dia Laura — cumprimenta, esforçando-se para não bocejar.
—Ai meu Deus! Acordei vocês!! — horroriza-se a mulher, levando ambas mãos ao rosto — Perdão Sarah, mas eu realmente não tive escolha — pede.
—Imagina. Já estávamos acordados, só permanecemos na cama um pouco mais — mente, somente então notando a presença do marido da amiga — Ah, olá Thomas — cumprimenta-o — Entrem — convida, pondo-se de lado.
—Obrigada amiga, mas não podemos. Estamos em cima da hora — Laura declina, puxando o ar com força — Me desculpa ter vindo sem avisar, embora eu tenha tentado te ligar — frisa, prosseguindo -, foi tudo inesperado e tivemos de providenciar tanta coisa em tão pouco tempo…
—Meu amor, resuma por favor — Thomas Derm interrompe a esposa, impaciente
—Algo errado? — Sarah preocupa-se, olhando-os.
—Não, não, nada — tranquiliza-a a mulher — Só coisas boas. Inesperadas mas boas — diz, sorridente — Tom recebeu uma proposta de trabalho irrecusável… no Canadá! — revela, animada — Ele aceitou, claro, mas temos de ir imediatamente e não houve tempo para organizar tudo e por isso vim te pedir um grande favor: poderia ficar com a Persie enquanto não conseguimos levá-la? — pede, unindo as mãos — Você sabe que não é simples viajar com um pet, especialmente um gato persa. A maior parte das companhias aéreas não aceita levar, não podemos ir de carro e ainda tem a questão dos atestados — enumera, a médica sorrindo-lhe gentil.
—Não precisa se justificar amiga. Será um prazer cuidar dela pelo tempo que for preciso — prontifica-se, espichando o pescoço — Já a trouxeram?
—Já. Na verdade, não tinha escolha caso você não pudesse — admite, o marido trazendo a caixa de transporte junto com duas sacolas . E quanto ao doutor Rhodes? Será que ele não vai se incomodar? — preocupa-se, afagando a cabeça de Dino, que viera cumprimenta-la.
—Não se preocupe. Connor ama a Persie. Acho até que mais do que ao Dino — confidência, piscando — Além do mais, vamos para meu apartamento amanhã no máximo…
—Eu te aconselharia não ir porque na segunda pela manhã irão dedetizar o prédio e todos os pets terão de passar vinte e quatro horas, no mínimo, fora — avisa Laura, inclinando-se — Mamãe tem que ir meu amor, mas volto assim que for possível para te pegar. Seja boazinha e não vá dar trabalho a Sarah e ao doutor, está ouvindo? — conversa com a gata, que a olha calmamente por entre as frestas — Ela não tá nem aí! Nem tá ligando pra mim Tom. Tá brava comigo — choraminga.
—Meu amor, a Persie vive brava. Ela entende que é temporário, tenho certeza disso. Agora precisamos ir ou vamos perder o voo, preocupa-se ele, olhando o relógio — Obrigado e desculpe o incomodo Sarah. Me passe sua conta depois para que possa enviar o referente às despesas que tiver com Persie — prontifica-se ele, segurando o braço da esposa.
—Você é um insensível! — acusa a loira, fazendo bico, dando atenção a Sarah — Vou ligar quando chegarmos e depois quando estivermos instalados. E ligar todos os dias para saber dela — avisa, sendo, literalmente, arrastada para fora pelo marido, a médica os acompanhando, esforçando-se para não rir da cena -Obrigada, muito obrigada — agradece já no corredor, acenando diversas vezes antes de ser puxada para dentro do elevador, a médica retornando ao interior do apartamento logo que as portas do cubículo de metal se fecham, pondo o transporte sobre o tapete e abrindo a porta.
—Muito bem Persie. Pode explorar a vontade. Mas não vá fazer suas necessidades em todos os cantos, viu? Connor te ama, mas também ama o apartamento dele limpinho e cheiroso — alerta, a gata olhando-a demoradamente enquanto se espreguiça a porta da caixa, saindo lentamente, sendo imediatamente saudada por Dino — Dino, sem bagunça! — Sarah ralha, pegando três tapetes higiênicos da bolsa da gata, posicionando-os em locais que, supõe, ela poderia escolher para fazer as fezes, olhando ambos após posicionar o último — Muito bem, já sabem as regras. O que vale em meu apartamento, vale aqui portanto, se comportem — alerta, dedo em riste, os dois pets olhando-a um segundo antes de embrenhar carreira em volta do sofá, sem, no entanto, emitirem sons altos demais — E não é que obedeceram! -admira-se ela, suspirando, escutando a barriga roncar, refletindo se poderia pegar algo para comer antes de voltar para o quarto mesmo após verificar a hora — Não temos compromisso mesmo — dá de ombros, dirigindo-se a cozinha, preparando rapidamente uma bandeja com suco, frutas, iogurte, torradas, queijos, fatias de presunto e um pouco de geleia, levando-a consigo, sorrindo ao ver os pets deitados, cada um enroscado com uma almofada, brincando tranquilos — Pobre Connor! Não sabe o que o espera! — exclama, fazendo o caminho até o quarto rapidamente, encontrando-o recostado a cabeceira, as mãos atrás da cabeça, assistindo televisão.
—Já estava quase ligando para a Swat!! — brinca, ajudando-a com a bandeja — Humm, não tinha percebido que estava com fome até agora — confessa, mordendo uma maçã — O que sua vizinha tinha de tão urgente para te falar? — quer saber, a resposta entrando no quarto junto com Dino, correndo por todo o aposento antes de sair novamente em direção a sala.
—Então …- Sarah chama sua atenção, contando-lhe o porquê da visita inesperada e que teriam de permanecer no apartamento dele até a terça feira no mínimo enquanto comem, olhando-o atentamente ao final da narrativa.
—Ok — ele anui, encostando-se outra vez, rindo ao vê-la arquear a sobrancelha — Um: amo você e você os ama, logo eu também os amo e dois: Mi casa es su casa! — declara, puxando-a para um beijo — Acho que isso é um sinal do universo gritando: Sarah, aceite, Sarah. Só aceite que dói menos!! -a provoca, protegendo-se dos tapas desferidos por ela.
—Pois saibam, você e o universo, que posso ser bem teimosa quando quero! — ela retruca, quase derrubando a bandeja quando ele a faz deitar-se — Connor, a bandeja…- lembra, ele erguendo-se ligeiro, pondo-a sobre a mesinha de cabeceira — Não está mais com fome? — inquere.
—Ah, estou sim — ele responde engatinhando sobre o colchão — Estou com muita fome! — exclama, atirando-se sobre ela, beijando-a com ardor renovado, os dois permanecendo na cama até bem perto da hora da exposição.
...Galeria de arte — (23:30 p.m)
—Até que, para uma exposição de arte, isso aqui está bem divertido — Will comenta, olhando a tela a sua frente.
—Defina divertido — Connor pede, o encarando de sobrancelha erguida.
—Ele pensou que iríamos ver um monte daquelas obras que ninguém entende nada, mas finge que entende para não passar recibo de deselegante… para não dizer bu….
—Ele já entendeu Jay — interrompe o irmão, empurrando-o — Mas é verdade,admito — confessa — Quando Andrea falou que teríamos de vir, me preparei para uma noite chata e tediosa, mas está bem longe disso — afirma, erguendo a taça.
—Admito que pensei o mesmo — Connor confessa, sorrindo — Claire e Russ estão de parabéns — elogia, franzindo o cenho ao ver os filhos de Will — Seus filhos e a afilhada de Marcel estão cada vez mais próximos — comenta.
—Põe próximos nisso! A menina quase não sai mais de nosso apartamento e a tendência é piorar já que o meu dileto irmão arrumou para ela comprar um apartamento em nosso prédio — revela o ruivo.
—Preferia tê-la dia e noite empatando sua transa com minha cunhadinha? — Jay o provoca.
—Nós não estamos transando! Quantas vezes terei de repetir isso? — irrita-se o médico, tomando o restante de sua bebida em um gole — A única razão para estarmos dividindo o mesmo teto….
—São seus filhos!! — Connor e Jay dizem juntos — Qual é Will? Quer mesmo me enganar fingindo que não sente nada por sua ex?- completa o cirurgião.
—Eu não disse que não sinto — o ruivo rebate, suspirando — O problema é que Só eu sinto!
—Olha você errado de novo irmãozinho! — Jay exclama — Já te disse mil vezes que ela tá afim de você, sua mula! — soca-o no ombro.
—Essa é Sua opinião e quer saber? Vamos mudar de assunto — decreta, encarando a Connor — Qual o problema em Jade estar com meus filhos? Aliás, por que você antipatiza com ela?- quer saber.
—Eu não antipatizo — defende-se o cirurgião — Apenas não acho certo ela incentivar os sentimentos de Andrey se não sente o mesmo por ele — justifica-se.
—Tem certeza? Porque a mim parece ter percebido o quanto ela te olha e não gostou nadinha disso — o ruivo observa, cruzando os braços.
—Também — admite Connor, olhando diretamente para os três jovens — Eu queria entender porque me encara tanto — murmura.
—O nome disso é flerte colega. Não faz tanto tempo assim que saiu do mercado — Will o provoca.
—Não acho que seja flerte Will — Connor responde, sério.
—E seria o quê então? — Jay questiona, mudando completamente de assunto antes que o cirurgião pudesse responder — E por falar em flerte, o que está rolando entre seu pai e a Munique? — pergunta, fazendo com que ambos, Will e Connor, se voltassem ligeiro — Não é a primeira vez que flagro os dois juntinhos desde que chegamos — comenta.
—Sendo bastante honesto, se está rolando algo entre eles eu não sei, mas meu pai tem perguntado por ela com certa frequência, segundo Claire e Carlota me disseram — Connor revela, rindo com o canto da boca.
—Sério? — Will questiona-o.
—Muito sério — reafirma o cirurgião — Eu só não sei se fico feliz, preocupado ou triste pela Munique — diz, fazendo os irmãos rirem.
—Qual é a piada? — ouvem, voltando-se, encontrando Andrea, Sarah e Claire parada as suas costas — Do que estavam rindo? — repete a administradora.
—Da possibilidade de o senhor Rhodes estar interessado na Munique — é Jay que responde.
—E que há de engraçado nisso? — Claire questiona, séria — Olhando na direção em que o pai estava — O que eles tanto conversam?
—Por que não vai lá e pergunta? — Connor sugere, fazendo careta ao sentir o beliscão aplicado por Sarah.
—Eu faria isso… Se soubesse que ele responderia, o que certamente não irá acontecer, logo, para que me estressar? — argumenta a empresária, dando de ombros, enrugando o cenho ao notar Russell sinalizando a ela — O que foi agora? — resmunga, deixando a taça de champanhe na mão de Connor ao passar por ele.
—Sua irmã parece um pouco irritada hoje — Jay comenta.
—É que ela veio como convidada, mas tudo que fez desde que chegou foi resolver pepinos — Sarah adianta-se em dizer.
—Isso e algo mais — Connor acresce, preocupado — Acho que Claire está me escondendo algo pessoal. Ela parecia preocupada quando nos encontrou mais cedo -relembra.
—Será algo com a saúde dela? — supõe Andrea — Ou com o senhor Rhodes?
—Se fosse com ela já teria me contado e nosso pai…- o procura com o olhar, franzindo o cenho quando não o encontra nem a Munique -, eu chutaria que ele está muito bem, obrigado — bufa, irritado, os demais trocando olhares tensos...
Enquanto isso, em uma área reservada da galeria, um encontro inusitado acontece….
—Aqui está o que me pediu, ou devo dizer exigiu? — a jovem enfermeira estende a mão irritada, entregando o guardanapo dobrado — O que vai fazer senhor Rhodes? — pergunta, o empresário a encarando de sobrancelha arqueada — Quando tiver o resultado, quero dizer — explica.
—O que qualquer avô faria: ir ao encontro de minha neta!
Continua….
“....Somos verso e poesia;
Outono e ventania;
Praia e carioca;
Somos pão e padaria;
Piano e melodia;
Filme e pipoca;
De dois corações um só se fez;
Um que vale mais que dois ou três..”

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