Caminhos para o coração
5 You must remember this (part. I)
Notas iniciais
“We never talked about it but I hear the blame was mine;
I’d call you up to say I’m sorry;
But I wouldn’t want to waste your time;
‘Cause I love you, but I can’t take anymore;
There’s a look I can’t describe in your eyes;
If we could try like we tried before;
Would you keep on telling me those lies?
Do you remember?
Do You Remember?
Phil Collins
Chicago Med (terça, 30/4 – 10:37 a.m)
Connor
—Escute Phlilip, sei que te passei uma tonelada e meia de informações, que certamente é muita coisa com as quais precisa lidar, por isso, se depois que chegar em casa as dúvidas surgirem, fique a vontade para me ligar – libero, acompanhando o pai da pequena Sophie até os elevadores do setor de Cardiologia.
—Ok – responde, me encarando – Se disser que não estou nervoso, estaria mentindo – declara, sorrindo forçado.
—Sophie ficara bem, estou certo. A medicação está surtindo o efeito desejado e com o passar dos dias ela irá se fortificar cada vez mais. Sei que parece distante, mas os dias passarão rápido e quando menos esperar será o dia da cirurgia e de lá em diante é cuidado e recuperação – tranquilizo-o, apertando o botão do elevador – Apenas tente acalmar-se para estar bem. Ela vai precisar – aconselho, fazendo uma nota mental de pedir a Daniel para ter uma conversa com ele. Ou Sarah talvez.
—Tentarei – garante, voltando a sorrir – Obrigado doutor Rhodes – agradece, entrando quando as portas abrem e aceno um adeus antes que fechassem.
Me volto na intenção de ir ao quarto de Zaíra verificar como estava. Ainda iria teria de permanecer interna por mais alguns dias antes de receber alta definitiva por conta de todo estresse pré cirurgia e por sua condição frágil de saúde. E ainda precisaria de acompanhamento e fisioterapia.
Mal tinha dado três passos em direção aos apartamentos Vips (era assim que os funcionários do hospital haviam apelidado a série de leitos com tanto luxo que realmente fazia parecer qualquer coisa, menos o setor pós operatório de uma ala cardiológica num hospital!) e uma voz feminina alterada chama minha atenção. Me volto seguindo a direção da voz vendo, na ilha de enfermagem do andar, minha irmã e meu pai parados, discutindo com a enfermeira plantonista.
—Estou pedindo, não, exigindo que meu pai seja atendido imediatamente!! – Claire exige em alta voz, gesticulando, algo completamente fora de suas características, me fazendo correr ao encontro deles– Pegue este maldito interfone e trate de conseguir um médico agora!! – enfatiza minha irmã enquanto meu pai se apoia ao balcão.
—Hei, o que está acontecendo? Pai, o que há? – pergunto, o apoiando ao notar sua dificuldade em apoiar-se em suas próprias pernas.
—Não consigo respirar – sopra, fechando os olhos e puxando o ar com força.
—Ok – digo, começando auscultá-lo com o esteto imediatamente– Que fazem aqui? Por que não foram para a emergência? – inquiro, dirigindo o olhar a minha irmã enquanto o examino.
—Achamos que seria atendido mais rapidamente se víssemos direto para cá – Claire responde, retorcendo as mãos — Era para isto estar acontecendo Connor? Não faz nem um mês que papai foi operado – questiona, aflita.
—Seus pulmões estão ruins – alerto, evitando respondê-la propositadamente – Como estão suas pernas? – quero saber, baixando a vista naquela direção.
—Doloridas e inchadas. Muito inchadas – relata, puxando nova lufada de ar.
—Certo. Vou colocá-lo na UTI cardíaca – aviso, me voltando para a enfermeira ali presente – Alice, peça hemograma, raio-x do tórax, Eletro e Eco cardiograma e também para avisarem doutor Latham e doutora Bekker – ordeno, a segunda a contragosto – Ande, vou levá-lo – convido, oferecendo meu ombro, o qual aceita sem vacilar nem protestar, para minha surpresa.
—Me sinto exatamente igual como estava antes da cirurgia. Julguei que a doutora Bekker tivesse arrumado meu problema – resmunga, tendo dificuldades em andar mesmo comigo o apoiando.
—Eu também – murmuro baixinho, seguindo com os dois até a UTI.
Após providenciar sua internação, retorno a emergência deixando ordens explícitas para ser avisado quando a ecografia fosse ser realizada. Queria estra presente ao exame.
—Connor, tudo bem? – ouço perguntarem e me volto, encontrando Robin a me observar enquanto espero o elevador chegar.
—Não muito, pra ser sincero – admito, suspirando – Acabo de internar meu pai na UTI Cardíaca – conto, entrando assim que as portas abrem, ela me acompanhando.
—Sinto muito – solidariza-se, recostando-se a parede lateral– Ele não foi operado alguns dias atrás? – pergunta.
—Quinze, mas parece que algo deu errado – comento, saindo do elevador com ela a meu lado, a passagem apressada de Sarah chamando minha atenção – Pedi uma bateria de exames e pretendo acompanhar alguns para saber...o que está acontecendo ali? – inquiro, adiantando-me até onde parecia haver uma pequena confusão – Maggie, o que há? – pergunto, parando ao lado dela, Robin fazendo o mesmo segundos depois.
—Uma das pacientes atendidas por doutor Choi, doutor Lanik e doutora Manning tentou...- começa a dizer, o protesto irritado seguido pelo som de algo sendo atirado ao chão nos fazendo olhar em direção a sala de atendimento, vendo Ethan apoiar-se ao leito enquanto Natalie deixava os braços caírem pesadamente junto ao corpo – Ah não!! Ela morreu – sopra desanimada ao mesmo tempo em que Ethan dirige-se para a sala de descanso, batendo a porta com força após entrar.
—Que aconteceu? – pergunto tão logo Sarah e Nat se aproximam, olhando de uma para outra, suas fisionomias me preocupando.
—Três pacientes deram entrada mais cedo com os mesmos sintomas: agitadas, combativas e com dor extrema mesmo as lesões que descobrimos não sendo suficiente para tal. As três recusaram tratamento. A detetive Burgess nos informou que foram encontradas durante uma batida em um apartamento – Nat relata, apoiando-se ao balcão.
—Drogas? – questiono-as.
—Provavelmente, mas nenhuma delas revela qual usaram e até descobrimos pode ser tarde – Nat confirma – E agora uma delas burlou a segurança e cometeu suicídio – revela, me deixando chocado.
—Doutor Charles tentou conseguir algo, mas elas se mantiveram irredutíveis. Foi quando sugeri chamar a Sarah por estarem mais próximas em relação a faixa etária – Maggie diz, sorrindo afável ante a aproximação dele.
—Que tristeza! Tão jovens e já sem esperança – lamenta Daniel, olhando-nos triste.
—Não há nada que possa fazer pai? – Robin adianta-se – Pretende desistir da outras duas? – inquere.
—De forma alguma – responde ele, taxativo – Por isso chamei Sarah. Vamos tentar juntos, mas antes precisamos montar uma estratégia ou iremos perdê-las igualmente – diz, sinalizando a ela para o seguir.
—Qual o quadro? – pergunto a Nat enquanto os dois se afastam, a curiosidade sendo maior.
—As três estavam com hiperestesia e paralisia dos membros inferiores – informa.
—Não fazemos idéia de qual droga seja, mas afeta o sistema nervoso – ouço e me volto, deparando-me com Ethan, já mais calmo, April a seu lado – Não podemos mais ficar de braços cruzados. Temos que fazer alguma coisa – argumenta.
—Estamos de mãos atadas, a menos que doutor Charles e doutora Reese consigam alguma coisa – Lanik, que escutava tudo no lado interno da ilha de enfermagem, calado, se manifesta – Estão conscientes e capazes de tomar as próprias decisões, portanto não podemos ir contra elas, mesmo querendo – comenta, parecendo realmente incomodado.
—Nem a garantia de confidencialidade médico-paciente convence elas a falarem? – Robin pergunta, seu celular tocando naquele momento – Licença – pede, afastando-se para atender.
—Recusaram até receber medicamento contra a dor. Não acho que estejam ligando para confidencialidade alguma – Ethan comenta, passando a mão pelo cabelo – Certas horas gostaria de ser como Will. Mandar as favas as regras!! – explode.
—E conseguir um belo processo para nós e para o hospital? Não, obrigado – Lanik responde, esticando-se a fim de ver algo as minhas costas – Só nos resta torcer para eles terem sucesso onde falhamos – comenta e todos nos voltamos a tempo de ver Daniel e Sarah entrando juntos em uma das salas.
—Pensei que iam agir separadamente – Robin comenta, retornando.
—Só precisamos que uma fale – comento, o vibrar de meu paiger chamando minha atenção – Me deem licença – peço ao ler a mensagem, saindo sem maiores explicações.
Sigo direto para a sala de ecografia onde meu pai já se encontrava sendo preparado para o exame. Me dirijo a sala onde fica o monitor a fim de acompanhar ao lado do técnico estancando quando abro a porta e me deparo com Ava entre Ivan, o técnico, e Latham.
—Ah, Rhodes, entre. Estamos começando aqui – Latham convida, alheio (aparentemente) a tensão entre ela e eu.
Em silêncio, sigo até eles pondo-me do lado oposto ao dela, atentando-me a tela tão logo as primeiras imagens surgem. Não demora muito a aparecer o motivo pelo qual meu pai sentia-se mal.
—Humm...Uhum – Latham murmura, coçando o queixo pensativo.
—Estou mesmo vendo este desvio da esquerda para a direita causado por um Óbvio defeito do septo atrial?? – questiono, quebrando o incomodo silêncio, dando ênfase a palavra óbvio, o que não passa despercebido a nenhum dos dois, mas Ava se manifesta primeiro.
—Que não estava aí quinze dias atrás, quando coloquei o patch intracardíaco – afirma, me encarando – Negativo nas microbolhas e o Eco pós-operatório dele estava bom. Eu resolvi Aquele Problema, com certeza – afirma, imitando-me.
—Não é que está parecendo – contesto, recebendo um olhar fulminante.
—Está questionando minha capacidade como cirurgiã? – inquere, cerrando os punhos.
—Muito pelo contrário. Sei que é uma excelente cirurgiã e isto só torna tudo mais alarmante...- começo dizer, ela me cortando, desta vez não tão polidamente.
—Este é seu jeito passivo-agressivo de me acusar ter sido negligente, doutor Rhodes? Ou pior? – ataca, dando dois passos em minha direção e enrugo o cenho.
—Não – rebato de pronto, mantendo-me firme – Apenas estranhei o fato de uma cirurgiã do seu gabarito não se atentar a possibilidade de haver mais de um problema causando o enfarto em meu pai, apenas isto – respondo, sustentando seu olhar furioso.
—Doutor Latham também estava lá. Ele foi negligente também? – provoca-me, estreitando os olhos e respiro fundo antes de responder.
—Doutor Latham estava coordenando duas cirurgias simultaneamente. Era impossível a ele ater-se a detalhes como este – aponto a tela – Cabia a nós, você e eu, termos este cuidado. Eu tive – solto antes que pudesse me controlar, arrependendo-me tão logo vejo Latham empertigar-se, voltando-se para mim.
—Quinze dias atrás todos vivenciamos um dia dificílimo. Erros podem acontecer e não estou dizendo que foi isto que houve – adianta-se, voltando sua atenção a Ava – Independente do que aconteceu, e irei investigar para saber – volta-se para mim novamente – O senhor Rhodes precisara de uma nova cirurgia e desta vez, para evitar conflitos e mal entendidos, apenas eu a farei – avisa, olhando de mim para ela antes de cruzar as mãos as costas, gesto característico seu, e sair sem nada dizer.
—Sabe, pensava que estes seus ataques a minha pessoa eram a forma que encontrou de aliviar a tensão por termos nos separado, mas agora acho que está é ficando louco! – acusa, saindo sem me dar chance responder.
Controlo meus nervos, fazendo o mesmo, indo ao encontro de Latham, que já começara a explicar a situação a meu pai e irmã.
—Quer dizer que a cirurgia passada não serviu para nada? Foi tudo em vão? – Claire questiona assim que ele termina, olhando-me incrédula, enquanto meu pai mantém uma calma estranha e irritante.
—Não é bem assim senhorita Rhodes. Seu pai chegou até nós com um problema, o qual resolvemos – afirma e percebo seu olhar duro cair sobre mim uma fração de segundos para logo em seguida se voltar a meu pai e irmã novamente – Agora ele apresenta um novo quadro que poderia ou não estar ai antes e não ter sido detectado no dia da primeira cirurgia. Infelizmente coisas assim podem acontecer. Primamos por não, mas podem acontecer. Peço-lhes desculpas, em especial ao senhor por precisar submeter-se a uma nova cirurgia em tão pouco tempo – pede.
—Imagino que será o senhor mesmo a realizar o procedimento – meu pai finalmente se pronuncia, falando com Latham, mas olhando diretamente para mim.
—Certamente – confirma meu mentor e chefe com sua calma habitual – Como deve saber, não posso permitir ao doutor Rhodes sequer participar do procedimento devido ao grau de parentesco entre vocês – lembra – E a doutora Bekker já tem outro procedimento agendado, portanto, serei apenas eu na sala de operações – diz, encarando meu pai com sua habitual sobriedade.
—Entendo – papai limita-se responder, um silêncio pesado se abatendo sobre todos nós.
—Irei pedir que seja preparado para a cirurgia – avisa Latham, saindo após uma reverência breve.
—É seguro fazer uma cirurgia assim, tão perto da outra? – Claire quer saber, me encarando preocupada.
—No caso não há escolha Claire. Ele precisa passar por um novo procedimento o mais rápido possível – reforço.
—A doutora Bekker realmente tem outro procedimento e por isso não irá auxiliar Latham? – papai pergunta, estreitando os olhos ao me encarar –Ou há outra razão? Acaso a consideram responsável por isto? – quer saber.
—Não – minto, em parte. Não poderia acusá-la por mais que a possibilidade tenha, de fato, me passado pela cabeça. Ava era muito criteriosa para deixar passar algo do tipo. Ainda assim, seria leviano de minha parte acusá-la sem provas especialmente diante de minha família – A doutora Bekker é uma excelente cirurgiã, pai. Seu quadro, como Latham explicou, pode ser pré ou pós operatório e não ter qualquer ligação com seu quadro anterior– defendo-a.
—Entendo – repete, em enervando.
—A mim parece que ele desconfia sim de que ela tenha cometido um erro – Claire comenta, irritada.
—Não é isto Claire – insisto, respirando fundo antes de falar novamente – Latham sente-se relativamente culpado pois estava presente, mesmo que apenas supervisionando, e não gosta de deixar passar coisas como está – afirmo, pondo-me de lado para facilitar a entrada da enfermeira que o prepararia para o procedimento – Por que não vai comer algo Claire? O procedimento é demorado – aconselho.
—Assim que papai entrar na sala de operações eu vou – avisa, sentando-se – Estará disponível? – pergunta.
—Me liga e se estiver comemos juntos – peço, sorrindo-lhe (sem vontade) – Vou até a emergência vê como as coisas estão por lá. Assim que terminar, me avisem – ordeno, falando diretamente com a enfermeira (a qual sabia fazer parte da equipe de meu mentor) – Me ligue – reforço, indo até minha irmã, beijando o topo de sua cabeça antes de sair.
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Emergência – sala 4 (17:16 p.m)
Sarah
—Delia, o exame de Norma deu positivo para uma toxina chamada tálio. Podem ter tido contato por haver resquícios na casa onde estavam e assim foram envenenadas – escuto Natalie explicar calmamente e pisco, saindo do devaneio no qual entrara– A boa notícia é que tem um antídoto, o Azul da Prússia – informa, pegando o copo descartável entregue por Monique (a enfermeira novata, para mim) contendo dois comprimidos — Ele impedirá o Tálio ser absorvido completamente por seu corpo – conclui, a garota permanecendo em um silêncio resoluto.
—Delia, entendeu o que a doutora Manning explicou? – doutor Charles questiona, encarando-a. A ruga em meio a seus olhos me dizendo que estava muito mais preocupado do que aparentava.
—Sim – ela sopra após algum tempo.
—E está disposta a tomar a medicação? – questiona-a, ela nos olhando desafiadora.
—Se não tomar logo, morrerá como os outros na casa. Como Norma morreu – Natalie alerta na tentativa de sensibilizá-la, o que parece surtir efeito.
—Vão me deixar sozinha e em paz se eu tomar? – pergunta.
—Sim – doutor Charles se adianta, e o olho confusa.
—Então me dê – pede, sua má vontade não nos passando despercebida, Nat atendendo-a assim mesmo, atenta.
Acompanhamos a jovem engolir os comprimidos com certa dose de esforço, a deixando após um segundo, indo direto a outra garota, Jade, a mais nova das três. Com ela as coisas foram mais fáceis. Ela, aliás, demonstrou ser a mais acessível, talvez por temer a morte, talvez por ter gostado de nós (sentimos, doutor Charles e eu, que simpatizara conosco mais que a outra).
—Finalmente conseguimos chegar até elas – Natalie comemora quando saimos.
—E bem a tempo – completo, pondo as mãos nos bolsos de meu jaleco quando paramos junto a ilha principal – Algum problema doutor Charles? – pergunto ao notar sua expressão taciturna.
—Não sei ainda, mas saberei em breve – responde, misterioso.
—Como assim? Conseguimos chegar até elas e fazê-las tomar a medicação – Natalie rebate.
—Mas por quê? Por que assim, tão de repente? – inquere, nos olhando, a ruga que vira antes aumentando.
—Jade por medo da morte, com certeza – digo, acenando a doutor Halstead quando este o faz para mim ao se aproximar.
—E Delia também, com certeza – Nat afirma, parecendo ignorá-lo.
—Será? – contesta meu mentor (admito que amo chamá-lo assim novamente!), retendo Monique, que passava – Me faz um favor? Fique de olho nelas – pede, a enfermeira anuindo.
—Bem, eu aceitarei a vitória – Nat diz, saindo.
—Vou falar com Ceci e Robin. Caso precise, me bipe – pede, tocando o ombro de Will ao passar por ele.
—As pacientes do envenenamento ainda? – quer saber ele, abrindo o computador a sua frente.
—Uhum – confirmo, indo sentar a seu lado – Conseguimos fazer as outras duas tomarem o antídoto mas doutor Charles desconfia que algo não está certo – explico, franzindo o cenho ao notar a ficha que examinava – Me corrija se estiver enganada, mas este não é o prontuário do tal rapaz sobre o qual nos falava quinze dias atrás? – pergunto, curiosa.
—Uhum – responde, continuando a digitar.
—O mesmo cujo caso foi passado a outro médico sem seu consentimento? – insisto, apoiando o braço no balcão, o queixo em minha mão, olhando-o curiosa.
—Uhum – repete, ainda digitando.
—Me corrija novamente: não deveria estar lendo este prontuário, deveria? – questiono-o, conseguindo, finalmente, sua atenção.
—Acontece que fui o atendente do caso e por um detalhe que passou despercebido, o prontuário dele continua constando como sendo meu – diz, voltando a tela para que pudesse vê-la – Miss Garrett, na pressa em conseguir renda extra, não deu tempo mudar a numeração dentro do sistema. Agora precisam que eu libere sua alta – explica – Ela, pessoalmente, foi me pedir a fazê-lo, com medo que eu dificultasse as coisas por vingança – conta, sorrindo de maneira estranha.
—Impressão minha ou o senhor está amando isto tudo? – inquiro, segurando o riso.
—Então... – começa dizer, baixando o tom da voz – Eu e os dois já nos entendemos, eu ouvi e aceitei a história deles. Mas a deixei pensar que não só pra ter o gostinho de vê-la ter de pedir alguma coisa – confidencia, rindo mais abertamente – A Garrett só enxerga números, ela não vê pessoas. Isto me irrita profundamente – confidencia.
—Imagino – comento, rindo discretamente.
Doutor Halstead sempre foi um idealista. Por vezes isto o colocou em rota de colisão com seus superiores diretos no setor de emergência e a direção do Med. O admirava por isto. Ele e doutor Rhodes também se confrontaram algumas vezes, mas acabaram se tornando amigos e pelo pouco que tenho visto e ouvido desde que voltei, o vínculo entre eles estava se fortalecendo.
—Prontinho – anuncia, se voltando para mim – Soube...- começa, mas antes que possa dizer mais alguma coisa, Monique surge no corredor.
—Doutora Reese, doutor Halstead, venham depressa – chama e de imediato bipo doutor Charles enquanto corro até o leito onde Delia estava – Não sei o que houve. Sai por um segundo para buscar a água que me pediu e quando voltei estava assim – comunica.
—Me veja a sucção – Will pede – O que ela tomou? – pergunta, dando atenção a Delia.
—Apenas o antídoto – informo, me dando um estalo – Vou verificar a Jade – digo, estancando ao me deparar com Doutor Charles – Delia está passando mal. Estou indo ver Jade – aviso, saindo apressada.
Minha primeira reação ao entrar é de temor. Ela estava de costas para a porta e parecia ressonar. Me aproximo com cuidado, verificando seus sinais vitais e respiração, soltando o ar que não notara ter prendido ao perceber que tudo estava bem com ela. Parecia até mais relaxada e sem dor, o que me leva a pensar o que poderia ter dado errado com Delia.
Retorno ao quarto quando ela já estava estabilizada.
—Jade? – doutor Charles pergunta assim que me vê.
—Ela está bem. A medicação parece ter surtido efeito, ao contrário do que aconteceu a Delia – observo.
—Isto porque ela nos enganou. Não tomou a medicação – revela, abrindo a palma da mão onde exibe os dois comprimidos.
—Mas ...Por quê? – inquiro, olhando-a sem entender.
—Porque nós devemos morrer!! – exclama – Os oceanos estão aquecendo, as geleiras estão derretendo, as florestas sendo dizimadas e ninguém, NINGUÉM, faz nada. Estamos matando o planeta e ninguém dá a mínima para isto, excerto nós, Os anjos da terra! – discursa, nos deixando boquiabertos.
Deixamos o leito após ter certeza de que ela estava bem (dentro do possível), no reunindo na ilha de enfermagem, ganhando a companhia de Miss Goodwin e doutor Lanik.
—Anjos da terra? Que raios é isto? – pergunta Lanik, olhando em direção a jovem.
—Deve ser alguma seita – Will comenta, todos nos voltando para doutor Charles quando o ouvimos falar.
—“Nos, os anjos da terra não seremos cegos a ponto de ignorar que a ganância, a negligência e o abuso humano estão destruindo o planeta. Nós serviremos a mãe terra...removendo a nós mesmos dela!” – termina, a voz grave que soa as minhas costas sobressaltando-me e causando arrepios involuntários.
—Que discurso é este Daniel? – doutor Rhodes pergunta, parando perto de mim. Muito perto. Perto demais.
De repente, parece que aquele local ficou pequeno demais, o ar rarefeito demais, tornando o ato de respirar difícil demais.... Pare com isso agora mesmo Sarah! Sabe que não tem futuro se sentir assim... repreendo-me mentalmente, me concentrando em dar atenção ao que meu mentor dizia.
—...É por isto que não se permitiam receber atendimento algum – ouço doutor Charles dizer, completando algum pensamento, ao que parece, o qual perdi em meu breve devaneio – Acreditam merecer a morte por fazerem parte da raça que está matando o planeta – informa.
—Que doidera! – Will exclama.
—Ao menos não estão inventando nada. Cada alegação usada por este culto tem uma base cientifica legítima – doutor Charles revela, nos olhando.
—Ainda assim, todo o manifesto é uma carta suicida – Natalie, que chegara, comenta, apreensiva – Deveríamos por as duas na Psiquiatria e forçar tratamento – declara, taxativa e vislumbro um brilho nos olhos de doutor Halstead.
Numa espécie de reação automática, me volto para doutor Rhodes, sendo surpreendida ao ver que ele tivera reação igual, o mesmo riso divertido estampando nossos rostos (suponho por sua reação).
—Mas não podemos – meu mentor rebate de imediato – A detenção irá apenas evitar que se machuque mais. Não podemos obrigá-la a tomar a medicação muito menos desfazer o que fez a si mesma antes, no caso, Delia, posto que Jade tomou o antídoto, o que já é sinal de recuperação – argumenta – A própria Delia precisa tomar a decisão de tratar-se.
—Então mais uma vez não faremos nada? – Nat protesta.
—Não há nada que possamos fazer? – Will questiona.
—Posso tentar, junto a um juiz amigo meu, conseguir que a considerem mentalmente incapaz por conta da lavagem cerebral que recebeu neste culto – sugere doutor Charles – Caso contrário, Delia continua a controlar o próprio destino – diz e sinto Connor a meu lado suspirar pesadamente – Sharon? – inquere, olhando-a.
—Verei o que posso fazer – prontifica-se ela, saindo.
—Não seria o caso de mantê-las separadas para evitar que Delia influencie a outra garota, a ...- Connor sugere, estalando os dedos.
—Jade – doutor Halstead e eu dizemos juntos.
—Bem pensado Connor. Vou providenciar isto agora mesmo – Natalie avisa, saindo apressadamente.
—E eu vou aproveitar para pesquisar um pouco mais sobre este culto, vê se descubro um ponto fraco – doutor Charles diz – E aproveitar para ver como Ceci está – completa, piscando e sorrio – Reese, caso não tenha almoçado, faça – recomenda antes de ir embora.
—Já almoçou? – Will pergunta, me encarando.
—Já – confirmo, me voltando para Connor – Soube que seu pai foi internado novamente. Como ele está? – quero saber.
—Seu pai foi internado outra vez? Por quê? – Will pergunta, preocupado.
—Infelizmente ele precisou realizar uma nova cirurgia – conta, respirando profundamente.
—Por quê? – novamente Will e eu falamos ao mesmo tempo, o que o faz rir discretamente.
—O Patch utilizado não era de boa qualidade e acabou causando um novo problema – revela, me deixando atônita.
—Connor....doutor Rhodes – me corrijo rapidamente – A Zaíra também recebeu um patch igual aquele dia, não foi? – lembro e ele assente.
—Sim, entre outros procedimentos. O caso dela era um pouco mais complicado que o de meu pai – lembra – Ainda assim, já pedi exames e estenderei a permanência dela no hospital – diz – O sheik decerto não vai gostar de ter de ficar mais tempo entre os infiéis, mas é para o bem da filha – completa.
—Ele pode até não gostar, mas a Garrett vai adorar. Capaz até de te perdoar ou mesmo dar uma medalha – Will, ironiza – Ou quem sabe renomear a sala hibrida em sua homenagem – acresce e o vejo rolar os olhos – Falando nela, já sabe do ocorrido? Aposto que seu pai vai ficar uma fera quando souber – presume.
—Ambos já sabem e ficou sim – revela – Acabei de deixá-lo no quarto, com minha irmã, e fez questão de ameaçar a Garrett – conta.
—Ameaçar em que sentido? – a pergunta me escapa antes que pudesse evitar.
—Parece que haverá uma reunião do conselho em breve e nela decidirão se renovam o contrato de Miss Garrett ou não. Como meu pai agora faz parte do conselho....
—Cargo oferecido pela própria em pessoa, pelo que soube através da rádio fofoca Med – Will o corta, nos fazendo rir um pouco.
—Pois é. Ele meio que deixou claro que pretendia se opor a continuidade dela aqui – comenta.
—Seu pai sempre simpático e fazendo amigos por onde anda!! – exclama doutor Halstead e de imediato duas coisas me veem a mente: as vezes em que foi a cafeteria e, agora, com esta descoberta, a possibilidade de ele ter alguma coisa a ver com minha recontratação.
—Sempre foi assim, O dono da verdade...e do que mais pretendesse controlar – afirma, o tom amargo não nos passando despercebido – Bom, se me dão licença preciso corrigir um erro – diz, sorrindo da forma daquela maneira que faz meu coração dar saltos mortais triplos dentro de meu peito.
—E eu vou arrastar minhas correntes por aí um pouco – escuto doutor Halstead dizer, acenando e se retirando.
—Já reparou como vocês três tem estado próximos ultimamente? – a pergunta me faz voltar atenção para Monique – E pelo que ouvi comentar depois que voltou, já acontecia antes – acresce, me olhando de forma esquisita.
—Evidente. Os dois foram meus supervisores durante o estágio obrigatório e depois tratei da doutora Charles quando ela precisou. Na época eram namorados – relembro.
—É, eu sei – diz, exibindo o mesmo sorriso estranho no rosto ao sair da ilha em direção ao leito onde Delia estava.
—O que foi isso?? – indago a mim mesma, decidindo que fazer uma pausa rápida para um café no terraço.
Sigo para lá, estancando quando abria a porta de acesso aquela área ao escutar meu nome.
—Sarah?? – Joey, meu ex, me encara, surpreso – Pensei que tinha ido embora. Está bonita– elogia, a garota baixinha e loira que o acompanhava enlaçando seu braço ao dele de forma possessiva.
—Voltei – respondo simplesmente, os deixando antes que dissesse mais alguma coisa.
Me sirvo uma xicara de café, relembrando as poucas vezes em que estive naquele lugar, algumas alegres, outras nem tanto, outras para me esconder e chorar um pouco. Tinha descoberto este cantinho de onde podia observar sem ser vista com facilidade a menos que se olhasse com atenção. E foi exatamente dali que presenciei uma cena no mínimo estranha: Miss Garrett e doutora Bekker chegarem quase ao mesmo tempo, iniciando uma conversar acirrada junto a mureta. Estavam longe, portanto não dava para escutar o que diziam, mas ambas pareciam bravas com alguma coisa. Na verdade, pareciam furiosas. A princípio julguei que a tal COO estava dando uma bronca na Bekker por alguma razão. Mas mudei de idéia quando as vi darem as mãos ao final, antes de retornarem, cada uma por um lado, para o interior do hospital.
—Que esquisito – murmuro, o vibrar de meu paiger me fazendo ficar de pé num salto e correr de volta para dentro.
Antes que chegasse a Psiquiatria, me deparo com Connor e Bekker conversando, melhor dizendo, ele falando baixo e ela quase gritando.
—É só isto que tem a me dizer? Nenhum pedido de desculpas no que se refere as demais acusações que me fez? Nada? – inquere, ele permanecendo em silêncio – Sabe, admito que ainda estar me recuperando do fato de termos terminado, que não estou conseguindo aceitar bem o fato, mas daí a me expor, me colocar propositadamente em perigo....Não fiz de você um monstro quando disse que não queria mais continuar nossa relação, então por que insiste em fazer isto comigo? Queria muito entender essa sua necessidade em me atingir – acusa.
—Não tenho necessidade alguma em fazer isto Ava. Honestamente, espero estar enganado em minhas suspeitas. Não terei problema algum em assumir, lhe asseguro. E deve reconhecer que seu comportamento mudou muito nos últimos meses – Rhodes afirma, sustentando o olhar de fúria dela – Só não tenta me convencer que não houve nada entre meu pai e você porque não dá. Nisto não tenho mais como acreditar – acresce e retenho o ar ao vê-la cerra os punhos, dando dois passos em direção a ele.
Por um segundo penso que iria avançar e agredi-lo, mas algo a faz recuar, girando nos calcanhares, indo embora sem mais nada dizer, o deixando estático no mesmo lugar alguns minutos, o som de meu paiger o fazendo voltar-se para mim.
Sinto meu coração disparar ao vê-lo caminhar, devagar, até onde me encontro. Queria me mexer, mas as pernas simplesmente não obedeciam a ordem enviado por meu cérebro. Igualmente parecia ter perdido o dom da fala posto que não conseguia emitir um único som.
—Faz tempo que está aí? – pergunta ao parar a minha frente, as orbes azuis me fitando como se quisesse lê minha alma.
—O suficiente – escuto minha voz soar limpa e cristalina, me deixando surpresa – Desculpa. Não tive intenção de escutar. Fiquei acuada já que estavam no caminho – justifico-me.
—Tudo bem – assegura, a voz incrivelmente calma – Acho que Daniel está precisando de você – comenta quando meu paiger toca novamente.
—Uhum — anuo – Licença doutor Rhodes – peço, esbarrando de leve em seu ombro ao passar por ele, não me atrevendo olhar para trás enquanto caminho o mais rápido que consigo sem correr.
Quando finalmente chego ao PS, encontro uma enorme confusão. Delia havia deixado o leito e mantinha um dos seguranças afastado usando o tripé para soro. Estava acuada e muito assustada enquanto Jade chorava encolhida num canto atrás dela.
Ao que tudo indicava, Delia havia descoberto que a amiga tomara o antídoto e não estava satisfeita. Ou então pensava que a haviam obrigado e agora tomava as dores da menina, a qual olho mais atentamente, notando sua que sua perna esquerda parecia dobrada em uma posição estranha. Também noto a presença de April no leito logo atrás delas com uma seringa na mão. Numa fração de segundos, uma idéia toma forma em minha mente e trato de a por em prática antes que desistisse.
Sinalizo a April, que parecia ter sido a única a notar minha presença, para que se agachasse e ficasse preparada. Respirando fundo, tomo coragem e corro até onde estão.
—Doutor Charles, venha depressa! Jane Doe entrou em crise, subiu ao terraço e ameaça pular! – minto, rezando para ele entender o significado oculto, estancando o mais perto que consigo de ambas, Delia e Jade, erguendo os braços quando me ameaça com o tripé – Delia??? – fingi surpresa, erguendo e abrindo meus braços o máximo que consigo fazendo com que meu jaleco se abra, comprometendo parte da visão dela.
—Ouviu isto Delia? Preciso que me deixe passar ou uma outra jovem morrerá – doutor Charles entra no jogo e sopro, aliviada – Não precisa baixar a guarda, apenas fique no canto que irei com minha residente evitar outra tragédia – sugere ele, dando dois passos em direção a ela, que recua em minha direção.
Faço o mesmo, mantendo meus braços no alto, retesando-me ao sentir a mão de April em meu calcanhar. Resisto a tentação de olhar para conferir tratar-se dela mesmo pois agora Delia me encarava novamente.
—Está mentindo! – acusa, fazendo uma careta de dor, quase deixando o tripé cair, o que nos pouparia o trabalho de sedá-la.
—Não. Preciso que doutor Charles vá ao terraço agora ou ela vai pular. Foi muito difícil convencê-la a esperar e qualquer minuto conta – sustento, recuando um passo, o suficiente para April alcançá-la.
—Ai!! – exclama ao sentir a picada da agulha, largando o tripé, que cai a centímetros de meu pé direito, ao mesmo tempo em que Daniel e Earl, o chefe da segurança, conseguem agarrá-la, levando-a para o interior de um dos leitos.
Imediatamente me agacho, dando atenção a Jade, doutor Halstead e doutora Manning fazendo o mesmo.
—Está bem? – pergunto, a menina me surpreendendo ao enlaçar meu pescoço, chorando copiosamente – Tudo bem querida, vamos cuidar de você – a acalmo, condoída, olhando de Nat para Will.
—Vamos pô-la na cama – Will pode, me ajudando levantar enquanto April e Nat apoiam a perna da menina, diminuindo a dor.
Preciso me esforçar para que solte meu pescoço a fim de ajudar no atendimento. Descubro que ela havia ido ver a amiga certa de que também tomara a medicação e quando Delia a viu e percebeu o que havia acontecido, ficou agressiva, avançou sobre ela, que assustada recuou sem prestar atenção e foi atingida por uma maca que entrava trazida pelos paramédicos.
—Boa sacada em usar o nome de vítimas desconhecidas – Daniel me elogia ao entrar – Como ela está? – quer saber.
—Vai ficar bem. A perna não quebrou, como pensamos a princípio. Apenas saiu do lugar – Natalie se adianta responder – Só precisamos colocar de volta, o que vai doer um pouco – alerta, sinalizando a Will com um menear de cabeça, ele aproveitando a distração de Jade para puxar e colocar o joelho e tornozelo dela no lugar, o grito breve sendo tudo que ouvimos antes de ela desmaiar – Sinais? – Nat pergunta, me olhando atenta.
—Tudo bem – tranquilizo-a, afagando o rosto adormecido da menina – Ela é tão novinha! – deixo escapar.
—Este tipo de culto procura justamente esta faixa etária por serem mais facilmente manipulável ou por seu idealismo ou pela revolta diante da situação atual. São alvos fáceis para pessoas que se mostram como salvadores – doutor Charles comenta.
—Que podemos fazer para garantir que ela ficará bem? – pergunto, preocupada.
—A primeira providência é garantir sua recuperação. Depois vou entrar em contato com a oficial Burgess para saber se descobriram algo a respeito da família delas – enumera meu mentor, e respiro mais aliviada.
Acompanhamos todo o atendimento até o final, pouco depois de nosso horário de trabalho. Ainda assim, decido permanecer um pouco mais ao lado dela, Will Halstead me fazendo companhia durante alguns minutos.
Saio por volta das vinte horas e quinze minutos, cansada, porém satisfeita. Jade estava bem melhor e Kimberly derá esperança em encontrar algum familiar. Quando me aproximo da saída, vejo doutora Bekker parada, mexendo em seu celular e estanco automaticamente, não sei bem por quê.
—Não seja ridícula Sarah! Ela não te viu – recrimino-me baixinho, ajustando a mochila antes de seguir, estanco novamente ao erguer o olhar, vendo, sentado em uma mesa junto a janela na lanchonete, Connor, a irmã e Robin, conversando animadamente – Parece que voltaram mesmo, como Maggie supôs – sussurro, sentindo um aperto no peito – Bom pra você parar de fantasiar Sarah – digo, baixando a cabeça, seguindo meu caminho.
Em casa, Dino me recebe com festa e pouco depois Persie chega para sua visita noturna habitual. Sorrio ao ver a interação dos dois, correndo e fazendo bagunça. Me dirijo ao quarto indo direto para o banheiro, onde me dispo e entro no box tomando um banho relaxante.
Me visto sem pressa, a lembrança daquele azul penetrantes me fitando fazendo a pele arrepiar. Sacudo a cabeça a fim de espantar a imagem, caminhando para a cozinha. Preparo uma refeição leve, reforço a ração de Dino, troco a água, ponho um pouco de leite para Persie e vou me sentar no sofá, zapeando pelos canais algum tempo antes de me render ao sono.
Me jogo sobre a cama sentindo uma tristeza que não sabia bem de onde vinha nem o porquê. Abraço meu travesseiro escutando o barulho da chuva lá fora, Dino e Persie pulando sobre o colchão, vindo me fazer companhia.
Deixo que algumas poucas lágrimas corram, aliviando parte da melancolia que me tomava, para logo em seguida mergulhar num sono profundo e, para minha felicidade, tranquilo.
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Connor (00:00 p.m)
Acordo sobressaltado sem entender o que acontecia. Olho em volta tentando me situar. Estava em meu quarto. A porta aberta deixava entrar a brisa fria, o que indicava que havia esquecido alguma janela aberta.
Pulo da cama, caminhando descalço até a sala, a frieza do piso ajudando a me despertar. De subito, estanco em meio a sala, uma avalanche de lembranças me acometendo, nenhuma delas boa, infelizmente.
Lembranças da noite em que Robin se trancou na varanda e tive de usar de todo meu poder de persuasão para fazê-la abrir a porta e me deixar ajudá-la. Lembranças de uma das muitas brigas com Ava por não concordamos no tratamento de um paciente. Lembranças da visita de minha irmã pedindo ajuda para salvar nosso pai. E tantas outras lembranças, algumas melhores, outras tão ruins quanto as primeiras.
Me deixo desabar no sofá, refletindo sobre tudo que vinha acontecendo em minha vida nos últimos meses, no quanto cada decisão que havia tomado me levara aquele momento, aquela situação na qual me encontrava agora, sozinho em meio a escuridão, sentindo um vazio no peito que parecia não ter fim.
—O que fiz da minha vida? – pergunto-me, fechando os olhos apertado, levando as mãos a boca, a imagem de meu pai vindo-me a mente – Quis tanto não ser como você, não cometer os mesmos erros, não magoar as pessoas a minha volta e tudo que consegui foi justamente o contrário a começar por minha irmã – lamento, sentindo as lágrimas aflorarem – Minha vida pessoal é uma merda! Uma verdadeira merda!! – xingo, novamente as escolhas errôneas que fiz me abatendo – Claire estava certa. Em momento algum procurei alguém com quem pudesse compartilhar uma vida, fazer planos. Nunca. Nem aqui nem quando vivi fora do país. Que droga de vida tenho levado!! – resmungo, deitando a cabeça no encosto, o latido ao longe ecoando pelas ruas, chegando até mim.
De imediato a bolinha de pêlos marrom e branco me vem a mente e sorrio novamente, desta vez com vontade. Por tabela, sua dona também surge em meus pensamentos.
Sarah tinha passado por momentos terríveis no último ano. Fora levada ao extremo, estressara-se a ponto de quase perder o emprego por justa causa, se deparara com um pai tão ruim quanto o meu.... Talvez um pouco pior, sendo justo com Cornelius!... Rompera com seu mentor, a quem via como um pai, partira repentinamente, sem despedir-se e igualmente repentinamente regressara. O motivo? Apenas ela sabia. Não acreditei, nem por um segundo, naquela desculpa de não ter se adaptado ao clima. Mas algo sério o bastante para a fazer dirigir por mais de quinze horas de volta a Chicago sem a certeza de um emprego e trazendo consigo uma carga extra de responsabilidade: a bola de pêlos, Dino.
No entanto, apesar disto tudo, ou por tudo isto, amadurecera a olhos vistos. Estava mais segura, mais calma, mais confiante...
—Mais bonita – murmuro, deixando um suspiro escapar ao lembrar o sorriso tímido, a forma como erguia o ombro ao olhar de lado, fazendo charme quando alguém a elogiava ou provocava, como franzia o nariz ao fazer careta, como ficava ainda mais encantadora quando punha os óculos.
Sarah mudara internamente e isto se refletia em seu exterior, a deixando mais luminosa, radiante. Ela ganhara uma luz que antes não estava lá. Ou se estava, não permitia que brilhasse.
Uma parte de mim queria se aproximar desta luz. Outra parte, a mais racional, me dizia para não o fazer. Por ela em especial. Ainda assim, desejava sentir o que senti hoje ao vê-la após a discursão com Ava. A calma, a ausência de julgamentos em seu olhar me deixaram tocado e depois, sua preocupação genuína com meu pai e Zaíra, potencializaram este sentimento. Ela é uma boa pessoa e talvez fosse exatamente de uma amizade como está que estava precisando ter a meu lado.
O problema, o grande problema, é que ela não precisava nem merecia ser sugada para dentro da bagunça que minha vida se tornara. E não sei se seria capaz de tê-la apenas como amiga, e isto, ser atirada em meio a esta guerra na qual Ava e eu estamos, ela merecia ainda menos.
—Portanto Connor, trate de tirar qualquer pensamento neste sentido de sua cabeça!! Tem seu pai e sua irmã precisando de sua atenção agora. Foque nisso. Em nada mais – aconselho a mim mesmo, pondo-me de pé, fechando a porta da varanda, retornando a meu quarto, onde somente após uma longa briga comigo mesmo consigo dormir.
“....Through all of my life, in spite of all the pain;
You know that people are funny sometimes;
‘Cause they just can’t wait to get hurt again;
Tell me, do you remember?
There are things we won’t recall;
And feelings we’ll never find;
It’s taken so long to see it;
‘Cause we never seemed to have the time;
There was aways something more important to do;
More important to say;
But “I love you” wasn’t one of those things;
And now it’s too late;
Do you remember?

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