Caminhos para o coração
1 Uma noite e meia
Notas iniciais
“ Eu quero te roubar pra mim;
Eu que não sei pedir nada;
Meu caminho é meio perdido;
Mas que perder seja o melhor destino;
Agora não vou mais mudar;
Minha procura por si só;
Já era o que eu queria achar;
Quando você chamar meu nome;
Eu que também não sei aonde estou;
Pra mim que tudo era saudade;
Agora seja lá o que for...”
Encostar Na Tua
Ana Carolina
Molly’s (sexta-feira, 21/12/18 – 22:47 p.m)
Sarah
—Doutora Reese, quanto tempo! Que bom te vê por aqui de novo! – o cumprimento animado chama minha atenção e desvio o olhar do homem solitário sentado em uma mesa num canto discreto do bar, longe da entrada e do tumultuo maior àquela hora da noite, especialmente neste periódo de início de festas – Fiquei triste quando Sylvie contou que havia deixado o Med e ido embora da cidade– prossegue Stela apoiando as mãos na borda do balcão.
—Oi Stela. Bom te ver também e pode me chamar de Sarah, por favor – peço, sorrindo-lhe de volta – Pois é, precisei me afastar um pouco e reorganizar algumas coisas – explico, girando a taça vazia sobre o tampo do balcão. Nunca gostei muito de falar sobre minha vida particular com ninguém. Tinha meus motivos e traumas, parte deles revelado pelo surgimento de meu pai. Aliás, desde meados do ano passado, mais ou menos, entrei numa espécie de inferno astral que segui-me este ano e parece querer não ter fim.
—Que bom que conseguiu um tempinho para visitar os amigos – declara, dando duas pancadinhas sobre o balcão – E aí? Como estão as coisas no novo emprego? Quer mais uma taça de vinho? – pergunta.
—Paradas, eu diria, e sim, quero mais uma taça, por favor – peço, sorrindo-lhe outra vez, ela se afastando para buscar meu pedido, permitindo-me respirar aliviada por uns segundos. Na verdade parada descrevia fielmente minha atual situação.
Quando transferi minha residência na Psiquiatria para o Baylor, em Dallas, logo após resolver a situação com meu pai (entenda ajudar a prendê-lo por seus crimes) tinha esperanças que novos ares iriam me ajuda. Além disso, precisava desesperadamente me afastar de doutor Charles, do Med, da cidade, de tudo enfim, que me lembrava as situações vivenciadas nos últimos meses e tinha esperanças de que as coisas começassem a melhorar. Ledo engano!
Para começar não consegui permanecer na Psiquiatria posto que o quadro já estava completo muito embora tenha sido dito a mim, quando procurei informações, que haveria uma vaga.
Como não podia ficar desempregada e já pagara adiantado três meses de aluguel ( o que se por um lado me deixou mais tranquila em relação a moradia, por outro desfalcou minha conta bancária), acabei aceitando a vaga que me foi oferecida no PS com a promessa de ser transferida tão logo surgisse oportunidade (o que provavelmente só aconteceria no começo do próximo ano). Sendo assim, me vi de volta a área mais agitada de todo hospital em qualquer parte do planeta.
Mas isto nem foi tão ruim, afinal aprendera a gostar da emergência durante meu estagio obrigatório no Med, logo não havia sido difícil me readaptar a rotina e procedimentos comuns a este setor. O problema estava no chefe da residência, doutor Sean Blumberg.
O homem simplesmente cismara comigo resolvendo me pegar para Cristo. Nada do que eu fazia estava certo ou era suficientemente bom para ele. Vivia me acusando de ter adquirido “vícios” no lugar aonde trabalhara anteriormente, que as coisas ali funcionavam de maneira diferente, que eu teria de me adequar ou então cair fora. Não entendia bem o porquê de tanta implicância e perseguição, mas como precisava trabalhar, fui levando. Bom nisso tudo foi que me descobri bem mais paciente e centrada do que quando comecei no Med. E segura também.
A enfermeira chefe, Felicity Potter, me garantiu que tal implicância não era nada comigo em particular, que todos os anos ele fazia o mesmo com algum desafortunado estudante ou residente com o qual cismava, que tivesse paciência e coisa e tal.
Até aí tudo bem. Sabia que coisas assim aconteciam as vezes em vários lugares. Mesmo no Med tínhamos nosso Troll de plantão!
Porém quando na quarta-feira pela manhã, enquanto avaliávamos uma paciente a fim de dar-lhe alta, senti doutor Blumberg por sua mão por sobre meu jaleco, primeiramente em minha cintura, deslizando-a lenta e discretamente por meu quadril até deter-se em minha bunda, apertando-a, a coisa mudou de figura.
Não fiz ou disse nada em frente a paciente e seus pais, que se encontravam na sala conosco, para evitar constrangimentos, mas ao sairmos, o questionei a respeito de sua atitude deixando claro que não gostara. Ele a princípio alegou ter sido um descuido. Depois alegara que havia entendido mal seu gesto e convidou-me para uma conversar em particular numa das salas que utilizávamos para falar com familiares ao notar que começávamos a chamar atenção posto que contestei sua explicação elevando um pouco a voz (estava cansada por haver dobrado o turno e ainda ressabiada com tudo que me acontecera recentemente). Cometi o erro de aceitar confiando-me no fato de a sala ter portas de vidro. Este foi meu segundo erro.
Quando adentramos o local, ficando a sós, o homem simplesmente avançou sobre mim sem nenhuma cerimônia, me prensando contra a parede lateral, no canto, de forma que ninguém lá fora podia nos ver, sua boca cobrindo a minha com violência enquanto as mãos asquerosas apalpavam meu corpo, apertando minha cintura e seios com brutalidade.
Quis gritar, mas não conseguia pois sua boca cobria a minha, impedindo-me de o fazer. Tentei repeli-lo, mas acabei me desequilibrando e caindo no pequeno sofá de dois lugares que havia ali, ficando presa sob seu corpanzil. Ele, evidente, aproveitou-se do ocorrido para abrir minha blusa ao mesmo tempo em que dizia obscenidades contra minha boca sem nunca cessar o contato, afastando meu sutiã tão logo conseguira abri os primeiros botões.
Confesso: quando percebi o que estava prestes a acontece fiquei tão apavorada que travei por alguns segundos. Apenas quando o senti enfiar a outra mão sob minha calça, buscando tocar meu sexo, reagi. Apoiei as mãos em seu peito, empurrando-o com toda a força que consegui reuni, o fazendo cair sobre a mesa e as duas cadeiras postadas no centro da sala, o barulho chamando atenção do administrador do hospital, doutor Scott que coincidentemente passava naquele exato momento. Ele adentrara a sala parando, estático e surpreso, olhando de Blumberg para mim, perguntando o que se passava. Contei-lhe o ocorrido, recompondo-me da melhor maneira possível posto que minhas mãos tremiam. Na verdade, tremia inteira, medo e raiva mesclando-se em meu ser.
Evidente que o cretino negou afirmando ter sido eu a convidá-lo para uma rapidinha e depois teria me arrependido. Fiquei tão cega de raiva na hora que avancei para cima dele, socando e chutando, sendo contida pelo administrador. Após conseguir me acalmar, ele insistira que fosse para casa descansar. Aceitei. Meu terceiro erro.
No dia seguinte, no início do turno, não houve sequer um comentário a respeito do fato por parte de ninguém no hospital. Nem mesmo fofocas ou disse-me-disse comum acontecer em casos similares. Blumberg me tratou, durante todo plantão, com educada frieza. Nem mesmo Potter, que demonstrara solidariedade silenciosa a me ver passar indo embora, se aproximou em busca de maiores informações. Julguei estarem apurando os fatos a fim de decidir o que fazer e que por isto não havia comentários. Acabei por relaxar e confiar que a justiça seria feita. Outro engano.
Ao final daquele plantão, fui avisada que deveria comparecer a sala do senhor Scott, o que fiz, surpreendendo-me com a presença de Blumberg e de um dos advogado do hospital.
Após ter tido que contar minha versão integralmente diante dos três homens e sido obrigada a escutar Blumberg repetir suas mentiras, fui gentilmente convidada a repensar (entenda-se ai negar) minha versão sobre os fatos a fim de não cometer a injustiça de acusar um médico renomado, responsável por trazer doadores generosos para o hospital, de assedio e tentativa de estupro como havia ameaçado fazer quando ele sustentou sua acusação contra mim diante do administrador e do advogado.
Ambos os homens sugeriram alegar cansaço por estar saindo de um turno dobrado e que havia confundido as atitudes dele em relação a mim. Abri a boca para protestar, desistindo ante o olhar de advertência velada que me fora dirigido pelo administrador. Já havia aceito, resignada, o que me era imposto, levantando-me para deixar a sala remoendo minha revolta quando vislumbrei o sorriso triunfante do filho da mãe do Blumberg! Foi demais para mim.
Num impulso pedi demissão e cá estou eu, novamente desempregada. Por sorte meu antigo apartamento, que pusera para alugar a fim de ter outra fonte de renda por lá, não o fora ainda e pude retornar sem maiores problemas.
Por que voltei? Simples: não queria ter que ficar sob a tutela, por assim dizer, de minha mãe (ela se oferecera alugar um apartamento para mim em Nova York e me ajudar enquanto não arrumava novo emprego) e porque, apesar de tudo, Chicago tornara-se minha casa, o lugar que aprendera a amar, meu porto seguro mesmo depois de tudo que acontecera. Por isso dirigi por mais de quinze horas de volta à cidade dos ventos. Para me sentir em casa outra vez.
—Desculpa a demora Sarah. Não tinha vinho gelado aqui no balcão e tive que ir buscar no estoque – Stela pede, tirando-me do devaneio – Dia ruim? – questiona, colocando a taça cheia a minha frente.
—Semanas. Melhor dizendo, meses ruins – me corrijo, tomando um gole generoso da bebida.
—Se quiser desabafar, estamos aqui para isso – prontifica-se, sorridente – Sabe o que dizem, não é? Uma boa conversa de bar, é mais terapêutico do que uma visita ao Psiquiatra! – brinca, piscando para mim e rio.
—Nunca ouvi isso não! – contesto fazendo-a rir.
—É porque não tinha conversado comigo ainda! – brinca, sinalizando a alguém que chamava numa das extremidades do balcão – Vou atender e já volto – avisa, retirando-se.
Novamente sozinha, me pego a pensar nos últimos acontecimentos, refletindo se deveria aceitar a oferta dela, apoiando minha cabeça em uma mão, enfiando meus dedos por entre os cabelos numa espécie de massagem calmante. Inclino a cabeça e ao fazê-lo o tenho novamente sob a mira de meu olhar. Não resisto. Volto a observá-lo atentamente como fazia antes de Kidd me interromper.
Ele parecia cansado, desanimado, até triste para alguém que recentemente aparecera nas mídias divulgando uma sala hibrida montada na emergência do Med que salvaria muito mais vidas ali (sim, me mantive inteirada sobre o que acontecia no hospital. O que era notícia e nível nacional, ao menos). Sua postura corporal era desleixada e apática, o que ratificava minhas suspeitas.
Quando chegara, meia hora depois de mim, estava tão distante e distraído que, ao desviar-se de um casal que saia, por muito pouco não se chocara contra minhas costas e mesmo assim não notara minha presença. Mas isto não chegava a ser uma novidade.
Durante os três anos em que trabalhei no Med, apenas durante meu estagio obrigatório no PS, no primeiro ano, tivéramos um contato maior.
Depois disto só voltamos a nos falar com mais frequência quando da doença de sua então namorada (filha de meu então mentor) Robin Charles, por quem o tratamento e recuperação fiquei responsável, e recentemente na fatídica aparição de meu pai por conta de ser ele o médico responsável pelo caso.
Houve também o dia em que doutor Wheller cometera suicídio onde, por força das circunstâncias, fiquei a serviço do PS acabando por trabalhar a seu lado durante praticamente todo o plantão, o que me propiciou conhecê-lo um pouquinho mais . Nada muito significativo. Mas isso nem conto posto que todos estávamos abalados e nos aproximamos mesmo que minimamente aquele dia. No restante do tempo, era invisível a seus olhos.
E nem poderia ser diferente, afinal ele é Connor Rhodes, estrela em ascensão do Gaffney Chicago Medical Center, sucessor de David Downey, escolhido pelo próprio antes de morrer, na cirurgia cardiotorácica, herdeiro de uma das (senão a maior) fortunas da cidade, inteligente, brilhante, dono de uma beleza intimidadora ( ao menos para mim), um dos solteiros mais cobiçados de Chicago, segundo ouvira diversas vezes as enfermeiras no Med comentarem, quiçá do Estado! Como alguém assim iria notar alguém como eu?
—Nunquinha na vida! – respondo a mim mesma, deixando um suspiro escapar, mordendo meu lábio inferior, medindo-o de alto a baixo, a já familiar sensação de inquietação acometendo meu baixo ventre, fazendo a umidade entre minhas pernas aumentar absurdamente.
É, eu também não era imune ao charme e atração exercidos por ele. De fato, acho dificílimo para uma mulher normal o ser, ainda mais depois de conhecer suas qualidades. Como pessoa e profissionalmente falando, quero dizer. Não no sentido bíblico da coisa. Não que eu tivesse tido a sorte ou oportunidade de o fazer mesmo que por uma noite apenas. Poucas sortudas tiveram o prazer em desfrutar de sua companhia na cama, e estas certamente não o esqueceram com facilidade.
Deixo escapar outro suspiro, um arrepio percorrendo meu corpo ao imaginar aquela voz grave e sexy sussurrando obscenidades em meu ouvido, as mãos precisas e firmes tocando cada recanto de meu corpo, sua boca deslizando por minha pele, tomando a minha com ardor, milhares de cenas eróticas vindo-me à mente sem que possa controlar. Volto-me para o balcão sentindo meu rosto pegar fogo.
—Ok, é a primeira vez que vejo o vinho causar este efeito em alguém – Kidd comenta, me encarando com um sorriso divertido no rosto.
—Efeito? Qual efeito? – indago, retirando meus óculos (embaçados, diga-se), limpando-os com exagerada atenção a fim de disfarçar meu embaraço.
—Deixa pra lá – diz ela, dando de ombros – Quer algo para comer? Um sanduíche, uma sopa? Temos novidades por aqui. Um pequeno e delicioso cardápio que atende tanto carnívoros quanto os demais seres humanos normais! – brinca fazendo-me rir novamente.
—Não obrigada. Jantei antes de sair de casa – conto – Vim porque precisava espairecer um pouco. Como disse a pouco, as coisas andam complicadas para mim...de novo – admito, sussurrando o final.
—Uhum....E parece não ser a única com problemas– comenta ela, indicando alguém com um gesto de cabeça, fazendo-me olhar na direção de Connor novamente – Está cabisbaixo desde que chegou. Mal cumprimentou o pessoal – comenta.
—É, eu notei – digo, me voltando para ela outra vez – Deve ser algum caso mais complicado. Cardiologia é uma área muito difícil – comento, tomando mais um gole de vinho.
—Deveria ir lá falar com ele – sugere me fazendo engasgar – O que? Por acaso deixou as amizades do Med para trás quando foi embora? – interroga, curiosa.
—Não, não, de jeito nenhum. Continuo a considera-los meus amigos – afirmo, tensa.
—Então qual o problema em ir falar com ele? Parece que está precisando de um ombro amigo tanto quanto você – compara, apoiando as mãos no balcão, me encarando séria.
—É, parece – anuo, olhando-o de soslaio – Mas certamente deve ter alguém a caminho para encontra-lo e consola-lo por seja lá pelo que estiver passando – digo, o leve amargor em minha voz não passando despercebido por Stela, que sorri de lado, seus olhos brilhando maliciosamente – Quer dizer, alguém como ele nunca está sozinho, não é mesmo? – tento remendar, conseguindo apenas fazê-la rir mais...Que diabos deu em você Sarah? Por que esse ressentimento agora?
—Bem, não estou vendo ninguém sentado à mesa com ele agora e pelo tempo , que está ali, duvido muito que exista alguém a caminho – retruca, e aperto os lábios contendo a vontade de rir – Qual é Sarah, o cara parece estar precisando desabafar com alguém. Vai lá. Ele não morde...a não ser que você peça! – exclama, piscando antes de se afastar indo atender novo chamado de um freguês, me deixando boquiaberta.
Será que estou dando bandeira? Mas bandeira de que exatamente Sarah?, interrogo-me mentalmente, voltando-me para ele, pensativa, suspirando, tomando o restante do vinho antes de levantar decidida a fazer o que Kidd sugerira, caminhando a passos firmes em direção a mesa, toda coragem da qual munira-me desaparecendo ao ver, por sobre seu ombro esquerdo, a foto na tela de seu celular sobre a mesa quando este toca.
Paro, girando o corpo levemente apenas para ver Stela gesticulando com as mãos, incentivando-me seguir adiante. Volto-me outra vez “balançando” para lá e para cá, indecisa, optando por seguir adiante rumo ao lavabo antes que notasse minha presença, fingindo não tê-lo visto, rezando para que não me...
—Reese? – ouço e estanco, me voltando em direção ao chamado mesmo minha consciência gritando para não o fazer – Sarah? – repete como se fosse algo estranho me ver ali.
“Claro que é sua tonta! Deveria estar a quilômetros de distância, esqueceu!?!!” Minha consciência lembra...Mas ele não sabe disso...Acho — Hei, doutor Rhodes. Não o tinha visto – minto “escutando” meu subconsciente gargalhar estrondosamente.
—Também não tinha te visto – Novidade!!!, cantarolo mentalmente, encarando-o com um sorriso sem graça – Como vai o novo emprego? Estão te tratando bem no Baylor? – quer saber, me pegando de surpresa. Não fazia ideia de que ele sabia para onde tinha ido – Doutor Charles ainda sente muito sua falta. Tanto que não quis nenhum outro residente com ele até hoje – revela.
—Sério? – interrogo, me aproximando da mesa que ocupava – Eu pensei que....- titubeio sentindo um leve aperto no coração – Pensei que poria outra pessoa em meu lugar no dia seguinte – confesso, emocionada.
—Não, não pôs – reitera, tomando forte respiração ao escutar seu celular tocar novamente, recusando a chamada sem ao menos olhar para a tela, desligando o aparelho logo a seguir – E como poderia? Não dá pra substituir alguém que queremos bem do dia para a noite – frisa com um sorriso triste – Daniel sente sua falta – reafirma – Todos sentimos na verdade – acresce e preciso me controlar par não chorar. Durante três longos anos o Med fora meu lar e ter saído ainda me fazia sofrer – Está com alguém? – pergunta de repente, tirando-me do devaneio.
— Oi? Não, não. Estou sozinha – respondo ainda meio débil.
—Me faria companhia? Estou precisando conversar um pouco, se não se importar em ouvir as lamurias de um idiota! – xinga a si mesmo e arqueio a sobrancelha – É, eu sei que é estranho dizer isto de você mesmo, mas é exatamente o que tenho sido nos últimos meses: um perfeito e total idiota – reitera e abro a boca espantada, a curiosidade me vencendo.
—Por que diz isto, se me permite preguntar!? – indago, sentando-me na cadeira vaga a sua frente – Acaba de inaugurar uma sala que representa um avanço no atendimento do setor de emergência e que certamente irá salvar muitas vidas, está super bem visto pela comunidade médica em geral e pela imprensa não apenas local – pontuo, pendurando minha bolsa no encosto da cadeira – E estou certa de que a direção do Med deve estar te amando por toda publicidade para o hospital...Desculpa, mas não o vejo como um idiota – afirmo, surpreendendo-me ao ver o riso sarcástico forma-se em seu rosto.
—Pois é exatamente por causa dessa avançada sala que me sinto um idiota! – revela, levando a garrafa de cerveja aos lábios, tomando o que restava em seu interior de um único gole.
Será normal sentir inveja de uma garrafa??, interrogo-me mentalmente, meu subconsciente e consciente unindo-se numa risada no mínimo irônica, fazendo-me sacudir a cabeça a fim de silenciar ambos e espantar tais pensamentos pelo bem de minha sanidade...Deve ser efeito das poucas horas de sono e do vinho, só pode!, justifico-me – Confesso que não estou entendendo sua linha de raciocínio – admito, enrugando o cenho, confusa – Como isto pode fazer com que sinta-se idiota? – questiono-o.
—Como? Simples. Sou idiota por ter acreditado que após terem recusado meu projeto, a diretoria iria simplesmente mudar de ideia, do dia para a noite e liberar os recursos para a realização do mesmo sendo que haviam alegado não os ter – diz, o amargor em sua voz bem como o leve odor de álcool (indicação de que já bebera um pouco além da conta!) não me passando despercebido – Sou idiota porque fiquei tão entusiasmado que sequer perdi meu tempo procurando saber de onde surgira os recursos para tão rapidamente, em não procurar, em momento algum, saber qual havia sido a fonte milagrosa – conta, fazendo aspas no ar seguido por uma pausa breve – E acima de tudo tenho sido um idiota em pensar que podia mudar alguém – declara, esquecendo não haver mais bebida em sua garrafa, levando-a aos lábios outra vez, fazendo uma careta engraçada antes de pô-la de volta na mesa, passando a brincar com a mesma em silencio.
Respeito seu tempo, aguardo-o, durante alguns minutos, voltar a falar, mas como não o faz, limpo a garganta, tomando a palavra.
—Bem, muito embora não tenha conhecimento profundo para me posicionar sobre o todo, mas com base no que me falou a pouco, posso dizer que nada disso lhe torna um idiota – afirmo, apoiando as mãos com os dedos entrelaçados sobre a mesa, fazendo-o ergue aquele mar de azul profundo me encarar – Tais atitudes fazem do senhor apenas uma pessoa normal, que acredita e tem expectativas positivas em relação a situações e pessoas mesmo quando adversas – teorizo vendo seu rosto se iluminar em um sorriso lindo, tão característico dele, capaz de derreter um iceberg, destruir corações.... e deixar qualquer calcinha completamente molhada!!
—Falou igual ao Daniel – afirma, voltando-se parcialmente em direção ao bar, acenando.
—Vou tomar como elogio – respondo, sorrindo satisfeita por tê-lo feito rir, assustando-me quando Stela surge repentinamente as minhas costas.
—Bebidas? – pergunta, olhando-nos alternadamente com um sorriso enigmático estampado no rosto.
—Por favor – Connor adianta-se, ficando de frente para mim novamente depois que ela se vai – Grato pela avaliação bondosa, mas tenho sido sim um idiota caso contrário não teria me deixado apanhar na armadilha que me foi preparada – afirma, sério – Sabe Reese, acreditar ou ter expectativas positivas em relação as pessoas tem se mostrado um erro grave em minha vida. Sempre que o faço acabo me machucando. Muito – conta, baixando a vista outra vez.
—Sinto muito por ouvir isto – digo, sincera, buscando sua mão automaticamente, cobrindo-a com a minha – Posso dizer que tenho passado pelo mesmo ultimamente – lembro, tendo novo susto com o retorno de Stela, puxando a mão que mantinha sobre a dele com certa aspereza.
—Sua cerveja e seu....
—Vinho?? – Connor adianta-se, interrompendo-a, arqueando uma sobrancelha ao me encarar, a barba e expressão conferindo-lhe um ar extremamente sexy.
Merda! Deveria ser proibido alguém ser tão tentador assim!! — Não gosto de cerveja. Nunca gostei. Nem mesmo na época da faculdade. O amargor me incomoda – revelo, dando de ombros, envolvendo a taça com uma mão, sorvendo um pouco da bebida gelada.
—Nunca tomou cerveja? Sério? – interroga, rindo divertido.
—Não disse isso – rebato, tranquila – Disse que nunca gostei do amargor característico da mesma. Evidente que cheguei a experimentar algumas marcas, até importadas, incentivada por amigos, mas nenhuma me fez mudar de ideia – assumo, tomando mais um pouco de vinho.
—Provou alguma artesanal? – pergunta e me questiono intimamente como nossa conversa mudara de “tenho sido um idiota” para meu gosto por bebidas.
—Como mudamos de assunto saindo de problemas com confiança para meu gosto por bebidas? – me pego verbalizando o pensamento, corando intensamente ao escutá-lo rir com gosto.
—Uma coisa leva a outra — ele afirma e é minha vez de arquear a sobrancelha – Veja, se disser que há bebidas artesanais que irão te fazer mudar de ideia em relação a cerveja, terá que cofiar no que eu digo, certo? – indaga.
—Não necessariamente – retruco, a voz de Otis me distraindo um segundo.
—Hei Kidd, uma ajudinha aqui por favor! – pede e somente então me dou conta de que Stela permanecia parada junto a mesa, olhando de Connor para mim alternadamente, como quem assiste uma partida de tênis ou ping pong.
—Um minutinho! – responde, erguendo o indicador – Ela está certa. Não tem que acreditar no que diz, a menos que prove – sugere, voltando-se para mim, mexendo as sobrancelas de forma engraçada.
—Exatamente !!! – ele exclama, sorridente – Me traz outra dessas – pede apontando a garrafa que ela acabara de pôr sobre a mesa, Stela girando no próprio eixo, caminhando de volta ao balcão antes que pudesse protestar.
—Por que pediu outra cerveja se ela acabou de traze esta? – questiono, a ficha caindo antes que ele respondesse – Não senhor! Não vou beber de jeito nenhum! – afirmo, recostando-me calmamente, cruzando os braços a frente do peito.
—Por que não? – questiona de volta.
—Porque não gosto, já disse. Já tentei antes e o resultado foi sempre o mesmo. Pode cancelar. Não vou beber – reitero, firme, tomando mais um pouco do vinho.
—Ok, você certamente experimentou apenas as marcas conhecidas, as comerciais e mais vendidas nos mercados e bares, importadas ou não – começa dizer, calando meu protesto com um erguer de mão – Cervejas artesanais são diferentes. Embora o teor alcoólico de algumas seja bastante alto em relação as industrializadas, o sabor é diferenciado – garante – Algumas inclusive possuem sabor mesmo, tipo de morango, canela – revela e franzo o nariz em desagrado, fazendo com que rise novamente.
—O que não significa não amargarem! – exclamo, resoluta — Não creio que sabor vá tirar o gosto amargo que sempre fica ao final de cada gole – insisto.
—Mas tira – assegura, tranquilo, imitando meu gesto, recostando-se a cadeira – As artesanais em geral não deixam esse gosto do qual reclama. Na verdade, se não fosse a embalagem você não diria estar tomando uma cerveja, te asseguro – insiste e o olho desconfiada – É sério Sarah. Mas só irá descobrir se experimentar, sem reservas ou preconceito – garante.
—Hum...sei não. Pra mim é tudo igual. Aliás, estas das quais fala são até piores por terem mais álcool na formula – reclamo, tomando o restante do vinho.
—O álcool provem da fermentação natural delas, que são maturadas em processo diferente do industrial – explica pacientemente — Ok, não pode ao menos experimentar? – pergunta ao me ver torcer o nariz – Um golezinho de nada Sarah. Por mim vai! – pede de forma sedutora, unindo as mãos, no instante em que Stela retornava fazendo-a parar observando a cena alguns segundos.
—Ainda estão falando sobre cervejas, não é? – interroga, pondo a bebida sobre a mesa, não nos dando chance responder – Porque se não for, se já tiverem mudado de assunto, seja lá o que ele esteja pedindo faça, mesmo que seja matar alguém! – exclama e abro a boca espantada – Um pedido feito com todo este jeitinho merece ser atendido. Só acho – diz Kidd, erguendo as mãos para o alto.
—Viu? Até a Stela concorda – Connor argumenta com a maior cara de santo.
—É um complô por acaso? – indago, tentando não rir, olhando de um para outro, ela dando de ombros – Certo, vou provar, mas garanto que não vou mudar de ideia – me rendo, pegando a garrafa – E ainda sentirei o gosto amargo no final – desafio, erguendo o queixo.
—Opa, assim não! Deste jeito não vale porque já vai com a ideia pré-fixada de rejeitar – Connor contesta, pondo sua mão por sobre a minha, impedindo-me levar a garrafa a boca, o gesto despretensioso provocando uma descarga elétrica que se espalha rapidamente por todo meu corpo.
Merda Sarah, isso não vai prestar!! Melhor parar agora antes que faça ou diga algo que irá arrepender-se amanhã!— E como farei então? Vou tomar com um canudinho? – ironizo, ignorando os alertas de minha consciência, retirando minha mão assim que ele o faz, um formigamento gostoso ficando no local.
—Feche os olhos – ordena – Anda, feche os olhos e só abra quando disser que pode – reitera e obedeço, soltando um longo e impaciente suspiro, aguçando os ouvidos, alerta.
Passam-se alguns segundos até que sinto sua mão segurar a minha, guiando-me.
—Colocar numa taça não vai mudar o fato de que é uma cerveja Connor — atrevo-me trata-lo pelo primeiro nome, rindo com o canto de minha boca.
—Vejamos se não – ouço-o dizer, algo em seu tom de voz me pondo em alerta e arrepiando ao mesmo tempo – Imagine que está degustando um vinho que ainda não conhece, uma marca nova que alguém te presenteou – sugere fazendo-me segurar a taça firmemente – Leve a taça até seus lábios e sorva um gole mínimo – orienta e o faço – Devagar – reforça, fazendo-me estancar, respirando fundo antes de levar a taça, lentamente, conforme pedia, a meus lábios sorvendo um pouco da bebida gelada, ouvindo nova orientação – Não engula de imediato. Deixe o liquido dançar em sua boca alguns segundos. Sinta a temperatura ir aumentando devido a seu calor interior, mexa-a suavemente com a língua, como se a estivesse acariciando – orienta e sinto cada pêlo em mim se eriçar ao mesmo tempo em que meu centro começa a pulsar mais forte – Agora, deixo o liquido escorregar por sua garganta suavemente – comanda e o faço sentindo a bebida deslizar por minha garganta, umedecendo meus lábios com a ponta da língua ao final, o gosto diferenciado da bebida junto com o álcool acentuando-se, mas de uma maneira diferente, gostosa...e sem amargor, admito – Então? O que achou? – quer saber, porém antes que eu responda, outra pessoa o faz.
—Ela eu não sei, mas que fez todas as mulheres presentes molharem as calcinhas de excitação, a fez! Garanto!!! – Hermman exclama e abro os olhos corando, envergonhada, ao olhar em volta e ver todos os presentes nos observando. Todos mesmo! – Se brincar, alguns homens também! – exagera, sacudindo a cabeça antes de retornar para detrás do balcão.
—Depois disto, amais vou conseguir encarar uma cerveja da mesma forma de antes! — Joe Cruz declara, olhando a garrafa em suas mãos.
—Eu preciso de algo estupidamente gelado pra ontem e não exatamente para beber! – Sylvie Brett diz, abanando-se enquanto segue para o bar.
—Digo o mesmo!! – Stela declara sem a menor vergonha, abanando-se com a bandeja enquanto volta para detrás do balcão, provocando mais risos, todos voltando-se, cada qual, para seus próprios interesses pouco depois, graças a Deus!!!
—Ainda não me respondeu. Gostou Sarah? Sentiu alguma nota de amargor no final? — pergunta com um riso convencido emoldurando seu belo rosto.
Suspiro, rolando os olhos, vencida.
—Ok, gostei muito e não, não senti nenhum gosto amargo. Satisfeito? — declaro despejando o restante do liquido da garrafa na taça.
—Não falei! — exclama, levando sua bebida aos lábios ainda sorridente.
—Por que será que a palavra convencido me veio à mente agora!?! — não resisto provoca-lo.
—Nem imagino – rebate calmamente – Apesar de serem mais fortes, as cervejas artesanais são bem mais saborosas e dão mais prazer em beber. O problema está justamente no nível de álcool e no sabor que ajuda a pegar mais rapidamente caso exagere na quantidade – infroma, fazendo aspas no ar.
O que parece Já estar acontecendo com você!, mentalizo, observando-o por sobre a borda da taça. Estava ficando cada vez mais evidente que bebera além do recomendado para alguém que pretendia ir para casa conduzindo o próprio veículo, como suponho ele pretendia fazer.
—Desculpa se estiver sendo invasiva, mas não acha que está na hora de parar? Certamente pretende dirigir até em casa e não seria legal consumir mais álcool – aconselho.
—Se for o caso você me leva pra casa – retruca fazendo uma careta gozada.
—Ah claro afinal não tenho nenhum plano para o resto da noite e posso muito bem bancar seu Uber! — respondo em tom de brincadeira saboreando o som de sua risada franca, decidindo ser aquele o som mais adorável que escutara nos últimos tempos.
—Ok, refaço a observação: se não estiver ocupada pode me levar em casa doutora Reese? Porque acho que realmente irei precisar de um motorista – assume, sinalizando para Otis trazer outra cerveja antes mesmo de a que tem em mãos terminar.
—Se parar de beber agora talvez não precise de um motorista, já pensou nisso? — indago no mesmo tom de antes, sorrindo gentil.
—Talvez. Mas acontece que hoje quero beber todas e afogar todas as magoas e ressentimentos desta semana e da próxima antecipadamente — diz, erguendo a garrafa em um brinde.
Suspiro, balançando a cabeça em negativa, rindo minimamente, desistindo de argumentar. Se estava assim tão decidido a encher a cara, o mínimo que poderia fazer era ficar por perto e dar um jeito de levá-lo para casa em segurança.
Durante aproximadamente uma hora e meia ou mais (admito que perdi a noção do tempo) permanecemos no Molly's bebericando, ele cerveja, eu suco (alguém tinha que se manter minimamente sóbrio ali, não é?) e jogando conversa fora. Falamos de tudo: tempo, política, jogos, bebidas... de tudo excerto trabalho, relacionamentos e principalmente o motivo de sua tristeza visível. Melhor dizendo, angustia.
Connor estava mais angustiado hoje do que estava na madrugada em que deu entrada no Med com Robin em uma crise assustadora. Naquela noite, vi o quanto a amava e confesso ter sentido ciúmes e um pouquinho de inveja dela.
Me recriminei e critiquei por estes sentimentos tão inapropriados, mas tive de reconhecer que os sentira em relação a Robin Charles. E tive pena também. De ambos.
Quando alguns meses depois ela foi embora (até hoje não entendi bem por qual motivo), não pude evitar dois sentimentos, um sendo a causa do outro: alegria e culpa!
—Hora de irmos doutor Rhodes. Já estão fechando o bar – anuncio ao ver os penúltimos fregueses saindo, Otis e Kidd começando a organizar e limpar tudo – Stela , pode ver a conta por favor – peço quando ela passar por nós rumo aos banheiros, já levando a mão a minha bolsa.
—De forma alguma vai pagar nada. Essa noite é por minha conta – Connor avisa meio trôpego, empurrando minha mão para longe da bolsa, sacando a carteira.
—Nenhum dos dois vai precisar pagar nada agora. Já fechamos o caixa por hoje. Outro dia passa por aqui e acerta doutor Rhodes, não se preocupe – Stela libera – Quer que chame um taxi ou Uber pra vocês? – oferece, mas antes que eu responda, Otis interfere.
—E deixar aquele carrão do Rhodes no estacionamento aí defronte? Tá maluca Kidd!! É pedir pra ser roubado na certa. Nem em mil anos o pessoal do distrito iria encontra-lo — exagera e ambas rolamos os olhos.
—Homens e seus brinquedos! — Stela verbaliza meu pensamento.
—É sério Kidd. Não demora cinco minutos depois de sairmos para aquele carro sumir sem deixar vestígios!!! – reafirma me deixando insegura.
—Que tipo de carro é o seu? — pergunto, me voltando para Connor, que vestia sua jaqueta com certa dificuldade, alheio a nossa pequena discussão.
—Do tipo esportivo – responde com voz trôpega, finalmente demonstrando seu estado de embriaguez, já se encaminhando para a saída.
—Isso vai render uma bela de uma ressaca mais tarde – Stela comenta, seguindo-o com olhar penoso.
—Sério gente, que tipo é o carro dele? — repito olhando de Otis para ela ao mesmo tempo em que penduro minha bolsa no ombro e começo a segui-lo.
—Do tipo rápido...
—E que faz algumas mulheres pularem na cama do proprietário! …
—Como se ele precisasse! — dizem, um completando a frase do outro.
Abro os braços, confusa, saindo porta afora em busca de Connor, que caminhava aos tropeços pelo estacionamento quase vazio, o ar frio do começo de madrugada me fazendo abraçar a mim mesma em busca de calor.
Alcanço-o no momento em que retirava a chave do bolso, apertando o botão que destrava e desativa o alarme, meu olhar se dirigindo ao veículo alguns metros a nossa frente cujas lanternas piscam.
—Sem chance!! — exclamo, parando ao lado do Porsche preto – De jeito nenhum vou guiar essa coisa! – afirmo, examinando-o temerosa.
—Vai dizer que tem medo!? — Connor me provoca, rindo divertido.
—Claro que tenho! — admito sem nenhum constrangimento – Primeiro, se bater ou causar qualquer tipo de dano vou levar o resto do ano e parte do proximo além de todo meu salário para ressarcir-lhe o prejuízo. Segundo. Essa coisa vai de zero a dez..…
—Zero a cem – corrige-me, apoiando-se ao veículo, ficando de frente para mim, ainda rindo.
—Foi o que disse, zero a cem, em questão de segundos! — digo, não assumindo meu pequeno engano com a velocidade – É muito rápido. E assustador. E nunca andei num destes nem como passageira imagina guiando!! Não. De jeito nenhum. Vou chamar um Uber – aviso, fazendo menção abrir minha bolsa a fim de pegar o celular.
—Ok – ele anui, forçando o corpo para frente, dando a volta por detrás do carro parando ao chegar na porta do motorista.
—O que pensa estar fazendo? — inquiro ao vê-lo pôr a chave no lugar.
—Você vai de Uber, eu no meu carro – declara com a lógica de um bêbado, enrolando-se no simples ato de abrir o veículo.
—Não vai não. Não está em condições de dirigir Connor. Pode sofre ou causar um acidente – admoesto, indo rapidamente até ele, tomando-lhe a chave antes que pudesse reagir – Vamos os dois de Uber – decreto.
—Não vou deixar meu carro aqui pra ser roubado! — diz, sentando-se sobre o capô com os braços cruzados e expressão de birra.
—Sério que vai agir feito criança birrenta a esta hora da madrugada? — irrito-me, encarando-o, séria.
—Se não posso dirigir, durmo aqui dentro e quando acordar vou para casa – decreta, abrindo a porta e sentando-se pesadamente no asento do motorista, esticando as pernas.
—Claro. Ai depois vai ficar todo moído, isto sem contar o risco de ser assaltado e ter seu preciso brinquedo roubado do mesmo jeito além de outras coisas materiais, como celular por exemplo, poderem ser igualmente roubadas e nem vou mencionar o perigo de ser assassinado caso reaja – enumero irritando-me mais ao notar o pouco caso que faz de meus avisos – Está falando sério Connor? Pretende mesmo arriscar-se dormir aqui, a ermo, sem conforto e proteção? — interrogo-o, bufando ao vê-lo confirmar com um aceno.
—Feche a porta – ordena, fechando os olhos, buscando uma posição confortável no espaço ínfimo, totalmente inadequado para um homem do porte dele dormir.
—Senhor, dá-me paciência porquê se me der força bato nele! — sopro, estapeando-o – Passe para o banco do carona – ordeno, atirando minha bolsa ao pés do mesmo – Ande Connor, passe para o outro banco antes que mude de ideia – reitero, ele obedecendo após me lançar um sorriso vitorioso – Quero só ver se vai continuar sorrindo caso eu estrague seu brinquedinho – resmungo, batendo a porta após me acomodar, pondo a chave na ignição, examinando atentamente todo o painel interno.
—É só não matar a nós dois e me dou por satisfeito – declara, aninhando-se no assento do carona, fechando os olhos mais uma vez.
—Há, há, tão engraçado! — retruco, concentrando-me em entender o funcionamento daquela coisa.
Sabia que, por ter câmbio automático, só precisaria me preocupar basicamente com a saída e a entrada na garagem do prédio dele e claro na hora de estacionar. O resto era manter a velocidade e a calma, principalmente.
—Ok, vamos lá! — digo, enrolando e prendendo meu cabelo em um coque frouxo, aliviando a sensação de calor por conta da ansiedade – Pode me dizer seu ...- começo dizer, parando, abismada ao notar que cairá num sono profundo– Tá brincando comigo! – exclamo, incrédula — Connor acorde, precisa me dar seu endereço – peço, empurrando-o de leve, aumentando a pressão quando não responde, conseguindo apenas alguns grunhidos e resmungos antes de ele virar-se, dando-me as costas – Calma Sarah, respira fundo, nada de pânico. Afinal só está prestes a dirigir um carro que vale mais do que todo seu salário anual sem a menor ideia de qual direção seguir! — aconselho-me, esforçando-me para lembrar o endereço que vira uma única vez na ficha de Robin, massageando minhas têmporas, irritando-me mais quando não consigo – Droga! Não posso simplesmente ficar rodando pela cidade com esta pequena fortuna de quatro rodas tendo o belo adormecido a meu lado. Nem quero – murmuro, refletindo sobre o melhor a fazer, tomando uma decisão – Espero que desperte antes de chegarmos ao destino ou irá realmente dormir em seu carro como desejava, como castigo! — sussurro, dando a partida, pondo o veículo, cuidadosamente, em movimento – Pelo valor você deveria vir equipado com piloto automático para levar proprietários teimosos e embriagados pra casa sozinho! – resmungo dando dois tapinhas no painel do automovel.
Faço o trajeto para o prédio onde moro rezando baixinho para que Connor acordasse, o que não acontece mesmo após ter estacionado em minha vaga e o sacudido mais energicamente. Tudo que consigo são mais resmungos.
—Quando preciso de um bêbado chato e falante, recebo um discreto e dorminhoco! — bufo, imaginando como faria para leva-lo até meu apartamento sozinha (desisti de deixa-lo dentro do carro por pura pena!) agradecendo mentalmente ao ver o zelador passar próximo a nós — Senhor Payton, poderia me ajudar? Meu amigo bebeu um pouco além da conta e não consigo acorda-lo – peço, sorrindo-lhe gentilmente.
—Claro senhorita – prontifica-se, pondo o carrinho-lixeira de lado, limpando as mãos antes de vir ajudar-me.
—Obrigada – agradeço antecipadamente, pegando minha bolsa enquanto ele se adianta, abrindo a porta do passageiro e retirando Connor.
Travo o veículo seguindo-o até o elevador. Aguardamos a chegada do mesmo e adentramos, sempre em silencio.
No mesmo silencio caminhamos pelo corredor, ele carregando Connor com uma facilidade espantosa, parando defronte minha porta, seu celular tocando quando a estou abrindo.
—Senhorita, consegue leva-lo para dentro sozinha? Surgiu um problema lá embaixo e preciso descer rápido – pergunta, um misto de preocupação e tensão na voz.
—Claro. Pode ir e mais uma vez obrigada. Caso alguém reclame, peça que venha falar comigo por favor – tranquilizo-o, recebendo um aceno e um sorriso gentil antes de ir-se – Oi meu amorzinho, boa noite! Sentiu minha falta? — cumprimento o alegre cachorrinho que resgatei meados do mês passado enquanto conduzo Connor, com certa dificuldade, ao sofá, sobressaltando-me ao sentir sua boca pressionar a base de meu pescoço sugando a pele com força segundos antes de o fazer deitar-se. Levo a mão ao local fazendo uma careta – Valeu pelo chupão doutor! — exclamo, indo até meu quarto, retornando com um cobertor e travesseiro.
Acomodo-o da melhor maneira possível, descalço seus sapatos e meias, abro sua camisa deixando-a solta (opto por não a despir), por último abrindo botão e parte do zipper de sua jeans.
—Agora já chega. Mais do que isto é brincar com fogo – sopro, sentindo-me ofegar – Boa noite doutor Rhodes – desejo, cobrindo-o, observando-o adormecido um tempo antes de me dirigir ao quarto acompanhada por Dino aonde, após uma ducha rápida, visto o short doll e me atiro sobre o colchão, adormecendo, segundos depois, o cansaço e tensão da longa viagem finalmente fazendo efeito.
“...Eu só quero saber em qual rua;
Minha vida vai encostar na tua;
E saiba que forte eu sei chegar;
Mesmo se eu perder o rumo;
E saiba que forte eu sei chegar;
Se for preciso eu sumo...”

Fale com o autor