Caminhos para o coração
2 Um dia tranquilo
Notas iniciais
“Um dia frio;
Um bom lugar pra ler um livro;
E o pensamento lá em você;
Eu sem você não vivo;
Um triste;
Toda fragilidade incide;
E o pensamento lá em você;
E tudo me divide...”
Nem Um Dia
Djavan
Apartamento Sarah Reese (sábado, 22/12/18- 10:15 a.m)
Connor
—Ai, merda! – solto o impropério ao mesmo tempo em que vou ao chão, a maciez do tapete diminuindo um pouco a dor do impacto.
Permaneço deitado na posição que caíra (de bruços), os olhos fechados, absorvendo os sons a minha volta a fim de entender o que exatamente me fizera acordar (despertar já é outra história!).
O barulho de algo sendo arrastado, muito provavelmente no apartamento acima do meu, diz-me que fora aquilo a me tirar da terra de Morpheus, muito embora meu sono não estivesse sendo nada tranquilo ou agradável pelo que recordava, a maioria deles tendo meu pai e Ava como protagonistas além de mim mesmo. Todos envolvendo essa situação desagradável que ela iniciara ao procura-lo a fim de conseguir o dinheiro para o projeto da sala hibrida. Meu projeto.
Quando em um evento eu o socara por conta de ela ter me dito que ele estava espalhando boatos sobre terem ido para a cama, dei-lhe crédito, mas a desconfiança fora instalada, não nego. Discretamente, mas fora. E quando, cerca de uma semana depois, nossa discordância (mais uma dentre tantas) acerca de um caso me fez questionar sua atitude, sua resposta (os fins justificam os meios!) reacendeu a dúvida sobre o assunto, me peguei tomando uma atitude que jamais pensei tomar em muitos anos: procurar meu pai para saber a versão dele dos fatos.
Me desarmei completamente em relação a ele e depois que meu turno terminara, fui até sua casa. E pela primeira vez em muitos anos, admito, dei crédito ao que dizia. Não havia como não dar. Tudo que contou, a riqueza de detalhes, não deixará qualquer dúvida: haviam ido para a cama. Havia também o fato de que apenas ela, e ninguém mais, levantara tal hipótese.
Meu pai sempre foi um cretino e vai ser ainda por muitos anos. Mas não lembro de o ver ou ouvir comentar sobre seus muitos casos amorosos nem mesmo quando minha mãe era viva. Nunca. Não acredito que tivesse começado a fazer isto agora, mesmo que fosse para me provocar.
Quando voltei para casa aquela noite, refleti bastante, e optei por me afastar. Simplesmente afastar sem nada dizer. Estava cansado de discussões com ela no campo profissional e não pretendia iniciar outras no pessoal. Mas Ava percebeu minha frieza e insistiu até conseguir me fazer falar.
Evidente que negou, mas, para minha própria surpresa, reconheço, não consegui acreditar nela. O que serviu para me fazer sentir ainda mais idiota pois estive disposto (e quase o fiz) a recusa a proposta feita pela Mayor Clinic tão somente por ela, independente da sala hibrida, e tentar investir em nossa relação.
—Qual relação seu imbecil!?! – xingo-me baixinho apertando os olhos com força – Desde o começo fui sempre eu a ter de ceder, sempre eu a pedir desculpas e a buscar reaproximação após nossas muitas brigas – murmuro, socando o chão com certa dose de força, mudando de posição, mantendo-me deitado e de olhos fechados, o latejar em minhas têmporas incomodando – Ainda bem que não darei plantão hoje – agradeço baixinho, o maldito arrastar repetindo-se, fazendo-me xingar e finalmente abrir os olhos encarando o teto durante alguns segundos– Esse não é meu teto! – exclamo com a lógica de alguém com ressaca que não faz a menor ideia do que aprontou na noite anterior!
Giro a cabeça de um lado para o outro não reconhecendo, igualmente, nenhum dos moveis próximos a mim. Apoio-me nos cotovelos erguendo o dorso, olhando o ambiente o mais atentamente que a dor em minha cabeça permite, chegando a conclusão óbvia: aquele não era meu apartamento. Nem o de Will. Ou mesmo o loft de Claire (já dormira nos dois lugares quando de porre e não conseguia voltar para casa sozinho). Geralmente sabia aonde encontrava-me até por já ter repetido, uma vez ou outra, o mesmo local, tipo o loft de minha irmã. Mas não era o caso agora. Este lugar parecia inteiramente novo para mim. Podia estar enganado também. Ou Claire poderia ter mudado a mobília!
—Ah merda! Que eu não tenha vindo bater no apartamento dela!! – imploro baixinho – Seria o cumulo da humilhação! Sequer terei coragem de me olhar no espelho se fiz isto. Sem falar que minha moral e auto estima seriam reduzidas a menos do que nada – bufo, sentando-me com as costas apoiadas ao sofá, observando melhor o ambiente. A sobriedade e jovialidade da decoração agradam-me ao mesmo tempo em que transmitem certa calma – Muito pouco provável ser de Ava — concluo, dando mais uma olhada em volta – Não mesmo! – decreto — Mas então, aonde raios estou e como cheguei aqui? – questiono-me, deitando a cabeça no assento macio, abrindo os braços sobre o mesmo, apalpando – Seja lá de quem for, este é sem dúvida o melhor sofá no qual dormi ultimamente– elogio, erguendo-me e sentando sobre o mesmo, recostando-me com os olhos fechados mais uma vez – Oh, merda! Desta vez exagerei de verdade! – resmungo, o gosto amargo e a tontura me causando mal-estar. Por um segundo penso que iria vomitar, o que não ocorre – Com quem falei ontem mesmo? – tento recordar-me, o esforço fazendo a cabeça latejar ainda mais – Merda! – volto a xingar, deslizando lentamente até deitar, abraçando uma almofada – Cinco minutinhos. Só vou descansar mais cinco minutinhos e depois descubro aonde estou – murmuro, adormecendo rapidamente, acordando sei lá quanto tempo depois ao sentir algo úmido e áspero sendo esfregado em meu nariz.
—Dino sai daí! Deixe-o dormir sossegado – a reprimenda feita em tom baixo e gentil seguida do leve roçar de dedos em meu rosto traz-me parte da noite anterior a mente e reconheço a voz de imediato: Reese!
Abro os olhos lentamente, piscando algumas vezes a fim de “limpá-los”, um par de pernas bem torneadas a mostra pelo short curtíssimo sendo a primeira visão que tenho.
Pisco novamente, me certificando não estar sonhando, a pequena bola de pelos erguendo-se contra as pernas, atraindo meu olhar um pouco mais para cima, as formas firmes e arredondadas evidenciadas pelo short justo, posto que minha anfitriã se encontrava inclinada e de costas para mim, ajudando aumentar minha ereção matinal.
Fecho os olhos recriminando-me mentalmente pela indiscrição, abrindo-os no exato momento em que passava junto ao sofá carregando algo que recolhera no chão, a bola de pelo marrom claro e branca seguindo-a animado.
Permaneço deitado, agora aguardando minha ereção minimizar, sentando-me quando penso ser seguro.
—Oh! Você acordou! – a interjeição de espanto faz-me voltar para o lado encontrando Reese parada em uma das cabeceiras do sofá segurando um balde e uma estopa.
Porra! Assim fica difícil!!, penso ao correr os olhos por seu corpo, tendo visão completa agora...Cacete! De onde surgiram essas curvas e formas?? Deste jeito terei que ficar deitado aqui o resto do dia ou então correr para o banheiro mais próximo...assim que descobrir aonde fica, lógico!!!— Hã....sim – balbucio, desviando o rosto rapidamente daquela visão tentadora.
—Dor de cabeça? – pergunta, passando por mim, retornando ao local aonde a vira ao abrir os olhos....Porra Reese, para de desfilar na minha frente!, chego quase a gritar ao vê-la inclinar-se para limpar algo, a manga da blusa leve que usava escorregando, deixando parcialmente seu ombro direito a mostra — Antes que pergunte, não foi responsável por isto – diz, voltando-se, obrigando-me pôr a almofada a frente de meu quadril o mais rápido que consigo, olhando o local por ela indicando– Meu vizinho de cima quem é – franzo o cenho, confuso – Vazamento – explica, apontando o teto de onde pingava um liquido escuro– Ou algo do gênero – dá de ombros, o gesto chamando minha atenção para esta parte de seu corpo ainda a mostra — Vou pegar uma aspirina pra você – avisa, retirando-se e ao passar novamente perto do sofá, sinto seu perfume, o mesmo que sentira na almofada, o cheiro doce porém suave, nada enjoativo, exercendo efeito afrodisíaco em mim.
—Cacete Connor, trate de se controlar!! – admoesto-me, massageando o pescoço de olhos fechados – Mas também, parece que ela não tem noção do quanto esta desejável poxa! Assim complica. E por tudo que é sagrado, de onde surgiram aquelas curvas? – resmungo baixinho, sobressaltando-me quando a bola de pelos apoia-se em meu joelho – Oi bola de pelo! Então foi você que me fez acordar?! – pergunto, rindo e afagando a cabeça do cachorro, que responde com um latido rouco, abanando a calda.
—Dino, comporte-se – ouço-a admoestar quase ao mesmo tempo em que mãos surgem a meu lado – Aspirina – anuncia, e contra toda advertência gritada por minha consciência, volto-me, respirando aliviado ao notar que vestira algo mais comportado, por assim dizer.
—Obrigado – agradeço, aceitando o comprimido e o copo com água que me estendia.
—Por nada. Pensei em deixar aqui para quando acordasse, mas acabei esquecendo – confessa – Vou preparar café e algo para comer. Quer esperar ou prefere ir para sua casa? – pergunta, não me dando tempo responder — Se já quiser ir, suas coisas estão sobre a mesinha. Celular, carteira, chaves, relógio.... Tinha esquecido de retira-los quando chegamos ontem, mas quando vim tomar água de madrugada lembrei – conta, recebendo o copo de volta, permanecendo de pé junto ao sofá.
—Se não for incomodar, gostaria de tomar um café fresco – peço, notando seu cabelo molhado – Tomou banho no tempo em que foi pegar a Aspirina? Rápido assim? – os questionamentos saem antes que possa controlar, recriminando-me tão logo as palavras saem de minha boca– Desculpe, não quis ser invasivo – peço.
— Não está e tomei banho assim que acordei, antes de vir para a sala. Só não tinha trocado a roupa – admite, girando no próprio eixo, caminhando graciosamente para a cozinha e mais uma vez me pego observando seu corpo.
Agora ela usava um short em seda florida que parava na metade da coxa em conjunto com uma blusa branca com estampa divertida (era melancia aquilo?) que lhe conferiam um ar extremamente jovial. Apesar de não serem justos em excesso, evidenciavam suas formas e mais uma vez me pego pensando em como não as tinha notado antes durante o tempo em que trabalhou no Med.
É certo que a estudante tímida e insegura, que julgava estaria melhor na Patologia, não me passara despercebida. Mas era apenas mais uma estudante indecisa que precisava de orientação. Nossa orientação. Minha e dos residentes sênior. E naquela época havia Samantha. E depois a morte de David. E quando voltei não a vi por um bom tempo até a ver acompanhando doutor Charles e descobrir, por Maggie, que fora demitida e readmitida a pedido dele. Dali em diante, nos víamos algumas vezes, sempre em consultas. Aliás, não tinha lembrança de a tê-la visto no Molly's antes. Mas também nunca a procurei. E naquela época havia Robin. E me afastei do PS e do pessoal por um tempo.
Ai vieram a morte do Wheller, a doença da Robin, o atentado contra Daniel....Ava. E daí o pai dela surgiu em meio ao que parecia ser um momento turbulento para ela. E tudo ficou confuso. Soube que havia atacado um paciente. Mas naquela época estava as voltas com a fuga de Robin, a disputa implantada por Latham...meu envolvimento com Ava...
—Doutor Rhodes, ouviu o que disse?? – a pergunta seguida do toque em meu ombro desperta-me. Ergo os olhos encontrando os seus.
—Desculpe, não. Estava distraído – confesso, encarando-a sem graça – Importa-se em repetir? – peço.
—Perguntei se gostaria de tomar um banho antes do café. Estava massageando o pescoço e enxugando o rosto com a mão. Imagino que deva estar com calor – comenta, continuando a me encarar.
—Fiz isso?? – questiono, ela confirmando com um aceno – Realmente estou, mas além de não querer incomodá-la ainda mais, vestir a mesma roupa não será nada agradável – admito, enrugando o nariz numa careta que a faz rir.
— Posso ver se tenho algo que lhe sirva – diz e arqueio a sobrancelha, desconfiado – É que...bem... – balbucia, ficando mais vermelha que um pimentão – Ficaram algumas roupas do Joey e meu pai por aqui as quais não tie tempo me desfazer ainda. Caso não se importe em usar algo de outra pessoa, posso emprestar. Estão limpas porque ia doa-las. Tem umas até que acho nunca foram usadas – revela, fazendo uma careta graciosa– Só não deve ter nada para usar por baixo. Cuecas, digo – completa.
—Questão zero – afirmo, pondo-me de pé — Vou aceitar sua oferta – anuncio, encarando-a uma vez mais, notando o leve rubor em sua face.
—Certo. Então...eh...me segue – convida, indicando o curto corredor a minha esquerda, já encaminhando-se para o mesmo.
Sigo-a de perto, passando pelo que julgo ser o banheiro social, o que me causa estranheza novamente visto que dificilmente levamos alguém, mesmo um conhecido, para nosso banheiro pessoal....excerto a pessoa com a qual estamos dormindo. Via de regra, é assim que funciona.
—O chuveiro está quebrado – elucida, lendo meu pensamento enquanto adentramos seu quarto – No móvel abaixo da pia vai encontrar sabonetes novos. Se quiser usar shampoo, só tenho o que uso regularmente...- avisa, dirigindo-se ao armário junto a cama (maior do que esperava para uma mulher solteira, admito), fazendo a porta central do mesmo correr lateralmente – Toalha limpa – entrega-me uma macia e cheirosa– Hã...vou ver as roupas sobre as quais falei e deixar sobre a cama para que escolha...desculpa a bagunça – pede, sorrindo gentil.
—Nem reparei! – minto, dirigindo-lhe um sorrido divertido, vendo-a corar levemente, o que me deixa meio desnorteado – Vou me lavar – digo, me dirigindo ao banheiro, fechando a porta assim que adentro o ambiente, olhando a volta, a citação de um antigo colega com quem trabalhei no MSF vindo-me a mente: “ Pode-se conhecer um pouco a personalidade da mulher com quem está se relacionando por seu banheiro”, dizia, enumerando as razões para tal teoria. Duas delas eram organização e limpeza. Aquele ambiente dizia-me que Sarah além de prezar pelas duas coisas, também gostava de ouvir música enquanto banhava-se (havia uma pequena caixa de som sobre um tipo de aparador junto ao boxe) e perfumar o ambiente (mantinha um pequeno e delicado difusor aquecido por vela no local).
—Doutor Rhodes, as roupas estão na cama. Realmente não tem nenhuma cueca– avisa me tratando formalmente e rio.
—Sem problema doutora Reese – respondo da mesma forma.
—Estou saindo. Fique à vontade – recomenda, o silencio fazendo-se instantes depois.
A me ver sozinho, sopro o ar com força, a pontada em minha cabeça recomendando não o fazer outra vez. Dispo-me sem pressa, tentando recordar a noite passada. Ao que tudo indicava não havia rolado algo entre nós (sexo, quero dizer) antes de apagar em seu sofá, o que me traz algum alívio. Tudo que não precisava naquele momento era me envolver com outra pessoa sem ter resolvido minha situação com Ava em definitivo
Ligo o chuveiro, entrando debaixo do jato de água fria, deixando-a levar embora o cansaço e tensão, suspirando ante o delicioso contato, refletindo acerca de como minha vida emocional torna-se uma bagunça depois que voltei a Chicago. Não que fosse um primor antes disto. Sempre que sentia uma relação pender para algo mais sério, estável, fugia. E justamente quando senti vontade de ter, não aconteceu, sendo que desta vez foram elas a não quererem...
—Sabe como se chama isso Connor? Castigo! – exclamo – Castigo por ter partido alguns corações em seu caminho – reitero, suspirando, desligando o chuveiro, olhando a volta. Somente então me dou conta de que não havia pego um sabonete como ela sugerira.
Dou de ombros sentindo o perfume dos dois que havia dentro do boxe. O líquido parecia a melhor opção mas não gostei muito do cheiro, confesso.
—Acho que ela também não gostou desse, mas não quis desperdiçar – comento notando que o frasco estava praticamente intocado, optando pelo em barra cujo odor era bem mais agradável.
Esfrego-me com certo vigor a fim de amenizar parte das dores em meu corpo (mesmo o sofá sendo macio e confortável, não era uma cama) abusando um pouco de sua hospitalidade, fazendo uso de um pouco de shampoo e creme também.
Abro a ducha novamente, retirando a espuma. Apoio as mãos a parede a minha frente tão logo término, deixando o jato bater diretamente em meus ombros outra vez, permitindo-me algo que estava preso na garganta algum tempo: chorar.
Durante alguns minutos me deixo tomar pelas emoções represadas, as lágrimas caindo sem que as impedisse, um soco doloroso contra a parede trazendo o alívio final.
Respiro fundo retomando o controle de minhas emoções, o que não estava sendo nada fácil agora que o efeito anestésico proporcionado pelo álcool cessara completamente. Me sentia “quebrado” como poucas vezes na vida senti-me. Quase todas estavam relacionadas, de alguma maneira, a meu pai.
Dissera a Robin, antes de ela ir embora, após havermos tido um encontro nada amistoso com ele na Dolan, que era especialista em “quebrar” as pessoas, mas menti. Sua especialidade era quebrar a Mim, o que conseguia com maestria sempre que desejava.
Senti-me fraco e envergonhado pois mesmo sabendo disto não conseguia erguer barreiras que me protegessem. Nenhuma vez consegui. Até hoje, sempre que lutamos ele me vence. Foi assim na época em que fui embora, fugindo de suas tentativas de me dominar. Foi assim quando regressei e o reencontrei no Med. Estava sendo assim agora, quando usou seu maldito dinheiro para me ter sob seu julgo, porque era isto que iria acontecer de agora em diante, não tinha dúvidas. Exagero? Não. Agora que meu pai passara a fazer parte, oficialmente, da diretoria do hospital, posição oferecida (ou reivindicada) por ser ele o principal financiador de duas das maiores benfeitorias já realizadas por lá: a nova ala Psiquiátrica e a sala hibrida, não tardaria por suas garras de fora, estou certo disto.
—Ah, Ava, por que fez isso comigo?? Por quê? – questiono o nada, amargurado, o raspar de unhas na porta tira-me do devaneio. Envolvo a toalha em minha cintura ao sair do box, abrindo a porta devagar, o focinho marrom e úmido surgindo na fresta me faz rir — Olá bola de pelos! Bom te ver de novo – digo, afagando a cabeça peluda quando entra, pondo as patas em minhas pernas, esticando-se todo e lambendo minha mão livre.
Saio do banheiro (o cachorro a meus pés fazendo festa) após certificar-me de ter deixado tudo organizado e limpo conforme encontrei ao entrar, recolhendo minha roupa suja, pondo-a numa sacola que encontro no armário sob a pia. Detenho-me junto a cama examinando as roupas que Sarah pusera sobre o colchão: uma camiseta azul claro da Lacoste, uma jeans quase branca (que suponho tenham sido do ex namorado), duas camisas sociais e uma calça também social (que provavelmente pertenciam a seu pai) e por ultimo uma bermuda jeans e outra camiseta da mesma marca da azul na cor preta.
Resisto a vontade de pôr as sociais optando pela bermuda e camiseta pretas basicamente por uma razão específica: eram claramente novas (ainda estavam com as etiquetas da loja!). Apesar de realmente não ver problemas em usar roupas usadas, senti-me incomodado por saber que, de alguma forma, mesmo ela negando caso perguntasse, traria lembranças desagradáveis para ela me ver usando aquelas peças. Não sabia como seu namoro terminara e não queria, de forma alguma, trazer a sua mente má recordações já que fora tão prestativa comigo. Só não entendia por que me trouxera para Seu apartamento e não me levara ao meu.
—Espero honestamente que não tenhamos transado – murmuro, afagando o cachorro novamente.
Dobro as roupas que não iria usar levando-as de volta ao armário, abrindo três portas até encontrar um local vago para pô-las sem bagunçar as suas, admirando-me mais uma vez pela organização primorosa, mas sem exageros, do móvel. Estava tudo muito bem organizado, mas de uma maneira, digamos, displicente.
—Legal – digo, deixando a curiosidade me vencer, perdendo alguns segundos observando as roupas, depois o quarto como um todo, notando os livros de estudo e literatura, os cds, alguns bibelôs e bichos de pelúcia. As cores em pastel conferiam ao ambiente um clima aconchegante, relaxante, bem diferente das cores em meu quarto – Definitivamente este é um lugar no qual poderia passar um bom tempo descansando...ou não – murmuro, devolvendo a miniatura de ursinho Pooh a estante, antes de sair do aposento levando a sacola com minhas roupas – Obrigado pelas roupas – agradeço quando chego a sala, fazendo com que se volte.
—Por nada – responde, sorrindo curto, voltando-se para a pia novamente – Seu celular, relógio e carteira estão sobre a mesinha de centro. Sapatos ao lado do sofá – informa sem voltar-se.
—Ok – respondo, demorando-me algum tempo a observá-la novamente antes de caminhar até a mesinha, pegando meus objetos antes de sentar no sofá, calçando o tênis.
—UOU!! – espanto-me ao verificar a hora em meu relógio de pulso – É isto tudo mesmo? Uma e meia da tarde?? – pergunto, indo ao encontro dela na cozinha.
—É sim – confirma, voltando-se, recostando-se ao balcão – Também me espantei com o adiantado da hora, mas pelo horário em que chegamos até que acordamos cedo – pondera e franzo o cenho.
—Quão tarde chegamos? – quero saber, tentando lembrar algo relativo a noite passada mais uma vez.
—Aqui, em meu apartamento, por volta das três e pouca da madrugada, quase quatro– informa e abro a boca espantado – Saímos do Molly’s por volta das duas e quinze, duas e vinte mais ou menos. Devemos ter perdido uns dez minutos discutindo se iria dirigir seu carro ou não já que se recusava a deixar seu brinquedinho novo para ser roubado, o que ocorreria, segundo Otis, menos de cinco minutos depois de o bar fechar – conta, sorrindo discretamente, deixando-me mais surpreso.
—Eu fiz questão pelo carro? Sério? – inquiro, ela lançando-me um sorriso divertido e mais largo ao confirmar.
—Muita questão! Propôs-se até dormir dentro dele depois que confisquei a chave – acresce e tapo o rosto com as mãos.
—Inacreditável!! – é tudo que consigo dizer, sacudindo a cabeça negativamente – E como viemos parar em seu apartamento? – quero saber – Nada contra, entenda. Só quero entender por que viemos para cá e não para o meu apartamento, nada mais – apresso-me dizer.
—Bem, depois que assumi a direção daquele foguete que chama de carro – começa dizer me fazendo rir – Você simplesmente apagou e não houve jeito de fazê-lo acordar. Como eu não sei seu endereço, achei por bem virmos para cá ao invés de ficar rodando pela cidade ou parar em algum estacionamento destes que funcionam vinte e quatro horas – revela, completando – Além disso, ao contrário de você, não pretendia dormir num espaço mínimo e desconfortável depois de haver dirigido tantas horas seguidamente – lembra.
—Entendo – digo, franzindo o cenho ainda confuso – E como me trouxe para o apartamento? Vim andando? – quero saber.
—Hum, hum, o zelador me ajudou – conta – Desculpa por ter te feito dormir no sofá, mas é que nunca tive cama extra. Nunca precisei – pede, dando de ombros.
—Sem problemas – digo, sorrindo-lhe – Seu sofá é sem dúvida o mais confortável no qual já dormir até hoje – afirmo – O de Will maltrata minha coluna imensamente, me deixa completamente quebrado. O de Claire parece ter uma fornalha anexada, me mata de calor!...E você deve estar se perguntando por que ando dormindo em sofás, não é mesmo? – indago vendo-a sorrir.
—Admito que sim, mas não precisa falar sobre isto se não quiser – libera, nossa atenção sendo chamada para sua janela quando uma figura peluda passa pela fresta aberta adentrando o apartamento.
Observo o grande gato (ou gata) caminhar graciosamente pelo ambiente, parando um segundo para olhar em direção a Sarah, emitindo um miado baixo, voltando a caminhar até atingir o sofá, pulando sobre o encosto sem ter sido convidado, sentando e encarando-me.
—Tem um gato também? – pergunto, surpreso, tentando afagar o bicho, que recua me olhando invocado – E bravo pelo que vejo – acresço, recuando quando ele avança.
—Ela pertence a minha vizinha de cima, não a mim e sim é meio brava. Melhor dizendo, invocada, não é Perséfone? – informa, a gata voltando o focinho em sua direção ao escutá-la chamar.
—Perséfone?? – indago, assustando-me quando o bola de pelos salta sobre o sofá, esticando-se, as patas perigosamente próximas a gata ...que para minha surpresa não emite um som sequer – Qual é o lance desses dois? – pergunto ao vê-lo cheira-la e mesmo assim não receber um tapa de advertência.
—Ainda não sei – confessa, rindo – Ontem, um tempo depois de termos chegado, ela veio nos recepcionar. Claro que teve aquele estresse inicial, mas depois pareciam amigos de anos – relata, ainda sorridente – Não me pergunte como isto é possível porque não saberei responder! – pede, levando as mãos ao cabelo, que soltara-se, prendendo-o novamente – Doutor Rhodes, só comprei o básico portanto não tenho muito a oferecer, caso queira algo além do café. Apenas ovos mexidos, torrada, iogurte e granola. Não é muito, mas se não quiser ir para casa de barriga vazia, sinta-se à vontade em me acompanhar – convida, voltando a tratar-me com formalidade de repente.
—Olha, vou aceitar porque, ao contrário do que disse antes, estou com fome! – confesso, desviando minha atenção do estranho “casal” – Precisa de ajuda doutora Reese? – me ofereço, tratando-a igualmente formalmente, olhando a mesa posta – Pelo jeito não – respondo a mim mesmo.
—Já terminei. Vou pegar os pratos e talheres para nós – comunica, dando-me as costas, esticando-se a fim de pegar os objetos citados.
Instintivamente, corro o olhar por seu corpo esguio e bem torneado, admirando-me mais uma vez nunca a ter notado como mulher antes. Chegava a ser meio ridículo um homem acostumado a observar as diversas formas de beleza feminina como eu (abrindo mão de fingir modéstia) não ter reparado nela tendo dividido tantas vezes o mesmo ambiente.
—Ah, se quiser suco tem um pouco na geladeira – acresce, pondo os talheres a minha frente o que me faz sair do transe – E acho que ainda tem queijo ricota – informa sentando-se após colocar a garrafa com o café sobre a mesa – Fique a vontade para servir-se – convida, começando a fazê-lo.
—Obrigado – limito-me dizer, imitando-a, observando a interação entre os dois pets mais uma vez, algo vindo-me à mente – Há quanto tempo tem animal de estimação? – pergunto, curioso.
—Pouco – responde, limpando a boca com guardanapo antes de prosseguir – Ele apareceu machucado em dos estacionamentos do Baylor. Um dos faxineiros e eu começamos a cuidar dele lá mesmo porque não nos deixava chegar perto. Rosnava e ameaçava morder. Quando conseguimos ganhar sua confiança, o peguei e levei ao veterinário para receber tratamento adequado e quando soube que iria para um canil depois, já que declarara não me pertencer a princípio, acabei me sensibilizando e oferecendo lar temporário que, como pode ver, virou permanente – conta, animada, mais falante do que recordava-me dela – Quando decidi voltar, não pensei duas vezes para o trazer comigo – conclui, olhando o bichinho com carinho.
Sorrio de sua evidente afeição ao cãozinho levado. Dali em diante, seguimos com a refeição em silencio total e absoluto. Apenas o som dos talheres batendo nos pratos e xicaras vez ou outra e o grunhir baixo seguido pelo miado em resposta sendo ouvidos ocasionalmente quando os dois bichinhos resolviam “dialogar”!
—Então, o que faz em Chicago? – retomo a conversa, notando-a ficar tensa imediatamente – Por mais lisonjeiro que seja, não creio que tenha vindo apenas para me salvar de um provável acidente de carro, o que agradeço imensamente! – brinco, conseguindo arrancar um sorriso triste – O que há Reese? Algum problema no trabalho? – insisto, olhando-a atentamente...Definitivamente eu deveria estar com problemas de visão!
—Está tão evidente assim? – devolve e enrugo o cenho sem entender – Que estou com algum problema – diz, erguendo o olhar para mim.
—Bom, acho que não viajaria quilômetros de carro apenas para matar a saudade do frio ou rever alguém quando poderia aguardar suas férias ou simplesmente ligar – teorizo – E se o fez, essa pessoa deve ser muito especial para você – concluo, vendo-a morder o lábio inferior com certa dose de força, gesto que provoca um frenesi em meu interior, sua resposta demorando um pouco a vir.
—Tive problemas no Baylor e muito provavelmente perdi meu emprego – despeja, me pegando de surpresa – Digo provavelmente já que ainda tenho esperança, mínima admito, de que reconheçam estarem errados e me devolvam a vaga prometida na Psiquiatria, o que teria evitado toda esta situação embaraçosa que vivi – prossegue sem dar maiores detalhes do que aconteceu – Na segunda-feira deverei saber com certeza se estou desempregada mais uma vez – suspira, mexendo o café desatentamente.
—Eu... sinto muito – digo, meio sem jeito – E dai irá voltar para o Med caso seja demitida de fato, presumo – indago.
—Caso fique sem emprego será uma opção. Mas acho que não serei mais bem-vinda depois de tudo que aconteceu além de ter saído opcionalmente do cargo que ocupava duas vezes – revela, me causando nova surpresa.
—Saiu do hospital ao término de seu estágio obrigatório não foi? – inquiro, mesmo sabendo a resposta. Ou parte dela. Acho.
—Sim. Infelizmente na época fiz a opção errada e não tive como refazer – revela, alisando as laterais do cabelo numa espécie de tique, continuando – Estava trabalhando como barrista em um café quando doutor Charles me ofereceu uma vaga na Psiquiatria.... da qual abri mão recentemente e para a qual não sei se conseguirei retornar. Mesmo porque, com meu histórico recente de problemas, a direção do Gaffney dificilmente irá me querer em seu quadro outra vez– teoriza, mordendo o lábio novamente. E novamente o gesto mexe comigo – Mas irei sim até lá tentar uma vaga, evidente – garante.
—Acredito que conseguirá afinal tem uma história conosco – digo, sincero, servindo-me de mais torrada – Quanto aos problemas, bem, se a direção for levar isto em conta muitos de nós, incluindo eu mesmo, perderá o emprego em breve – comento, provocando um novo sorriso, desta vez mais amplo.
—E quanto ao senhor? O que causou toda aquela angústia de ontem a noite? Parecia querer destonar todo estoque de cerveja do Molly’s e o que mais houvesse no bar– pergunta, acrescentando rápido – Se quiser falar, obvio.
—Bom, não sei se ouviu algo a respeito da sala hibrida recém inaugurada no Med – indago, encarando-a.
—Ouvi e vi uma reportagem a respeito. Me parece um grande avanço no atendimento do setor de emergência. Algo que pode servir de modelo para outros hospitais – comenta tranquilamente.
—É o que espero – assumo – Bem, quando a idealizei e Miss Goodwin a apresentou a diretoria, esta a rejeitou devido ao alto custo – revelo, fazendo uma pausa, cerrando meus punhos instintivamente – Menos de vinte e quatro horas depois, ela me chamou a sua sala comunicando que havia surgido um doador generoso, anônimo, que doara a maior parte do valor que precisavam para a montagem da sala – faço outra pausa, está para respirar e controlar minhas emoções – Fiquei tão animado que não me dei ao trabalho de saber quem o fizera– admito, omitindo, a participação de Ava.
—Seu pai – presume ela e aceno afirmativamente – Correndo o risco de ser xingada – diz, rindo forçado – Mas, se foi por uma boa causa, não seria o caso de deixar de lado suas diferenças com ele e tentar fazer dar certo? – questiona e suspiro profundamente, refletindo até onde lhe contaria.
—Olha Sarah, até estaria disposto a isto em prol de um bem maior, mesmo estando ciente de que ele irá tentar me controlar de agora em diante já que passou a fazer parte da diretoria do hospital – revelo.
—E qual o empecilho então? – quer saber, olhando-me com real interesse.
—A forma como as coisas foram feitas – digo, calando-me um segundo antes de prosseguir – Ava e eu estávamos meio que envolvidos quando recebi a proposta da Mayor Clinic. A sala hibrida foi, digamos, a desculpa que precisava para não partir já que nenhum de nós dava o braço a torcer acerca do que sentíamos – conto, notando-a mexer-se incomodada — Quando a proposta foi rejeitada, estava realmente disposto a ir embora, até para tentar usar a distância como aliada a fim de entender meus sentimentos em relação a ela...Mas então veio o chamado de Goodwin...e agora descobri que foi Ava quem procurou meu pai, pessoalmente, para pedir que intervisse com seu dinheiro – revelo sentindo a irritação e o mal estar voltarem.
—Talvez tenha sido a forma como ela encontrou de expressar o que sentia por você, impedindo-o de ir embora – diz, condescendente.
—Indo para a cama com meu pai? – rosno, cerrando os punhos novamente, seu desconforto não me passando despercebido – Desculpe-me Sarah, não tem nada a ver com isto. Meus problemas e complicações, quero dizer. E burrice – xingo-me.
—Como afirmei ontem a noite, dar crédito, confiar nas pessoas não constituem um erro ou burrice. Apenas que é alguém disposto a ver e crer no melhor delas – reafirma, ambos calando-nos.
Durante minutos incontáveis permanecemos em silencio, ela por parecer não saber o que dizer, eu por não querer mais tocar no assunto. Teria que aprender a lidar com o que aconteceu bem como com a presença de ambos no hospital, o que não seria nada fácil.
—Dê tempo ao tempo, tente não guardar mágoa ou rancor, mesmo sendo difícil, que as coisas irão se ajeitando devagar, no momento certo – aconselha ela, quebrando o silencio, me deixando surpreso com sua maturidade. Pelo visto tudo que enfrentara nos últimos meses a haviam modificado profundamente – As feridas podem demorar a fechar, mas um dia fecharão. Podem ficar algumas cicatrizes, mas se souber usá-las em seu favor poderá sair mais fortalecido – teoriza e rio – Não acredita? – questiona, irritando-se.
—Desculpe, não quis contestar sua opinião, não me entenda mal – peço, erguendo as mãos – Apenas... Tenho um histórico complicado com meu pai e este envolvimento dele com Ava ainda mais pelo motivo que ocorreu, só vai piorar, tenho certeza – asseguro, não a deixando contestar – Eu já havia, até certo ponto, relevado o fato de ela ter recorrido a ele pra conseguir o dinheiro e meio que aceito sua motivação. Mas dai a perdoar uma traição? E ainda há as mentiras que ela contou para mim. Uma delas me fez esmurrá-lo diante de várias pessoas. Realmente não dá, me desculpe. Não sou tão altruísta assim – confesso.
—Bem, vendo por este ângulo... não sei o que lhe dizer – assume, esfregando o pescoço, sem graça, o chamado vindo de fora cortando nossa “consulta”.
‘Sarah, a Persie está ai?’ — a voz feminina pergunta fazendo-a ir até a janela, abrindo-a mais, inclinando-se, colocando parte do corpo para fora.
—Está – responde – Quer que a leve para você? – se oferece
‘Não. Estou indo ao aeroporto, com o Tadeu, buscar minha mãe. Se não for incomodo poderia deixá-la aí até que eu retorne? Passo para pegá-la mais tarde caso não volte por conta própria’ – pede a mulher.
—Ok. Também vou sair dentro em pouco mas volto rápido – avisa.
‘Certo. Aqui está tudo pronto pra ela. Obrigada minha flor’ – agradece a mulher, Sarah fazendo o mesmo, retornando ao interior de seu apartamento, me pegando em flagra a observa-la com um riso divertido no rosto.
—Eu sei que é meio estranho e até perigoso, mas não fazemos isto sempre – justifica-se sem que eu tenha pedido – Bem, não fazíamos desde que meu pai se hospedou aqui – diz, sem graça.
—Não tem que me dar satisfação alguma Reese – tranquilizo-a – Só achei interessante – admito – Como isto começou? — não resisto perguntar.
—Por acaso. Estava sentada no dormente da varanda quando a Persie caiu, digamos assim, sobre mim. Laura, a dona dela, surgiu segundos depois, apavorada porque era ainda um filhote. Tranquilizei-a mostrando que estava bem e dai por diante travamos conhecimento. De vez em quando, sempre que nossos horários ou as condições de tempo e trabalho permitem conversamos na varanda ou em um dos apartamentos – explica, rindo discretamente.
—Legal – digo, pensando em como coisas simples assim fazem falta em nossa vida. Na minha fazia com certeza já que o mais próximo que tenho de amigos são meus colegas de trabalho. Vizinhos? Mal os conheço – Diferente, mas legal – reitero, fazendo com que sorrisse.
—Jeito educado de dizer que somos esquisitas né? – diz, enrugando o nariz numa careta graciosa.
—Talvez – admito, sorrindo-lhe de volta – Hã, vai mesmo sair? – lembro sua fala a vizinha.
—Vou. Preciso reforçar minha dispensa e comprar ração para este rapazinho – enumera – E levá-lo para um passeio se pretendo que me deixe dormir tranquila. Quando não sai para uma volta fica agitado – completa – Não o estou expulsando, entenda, mas...
—Posso te acompanhar? – pergunto num ímpeto, interrompendo-a – É que gostaria de conversar um pouco mais, caso não se importe – justifico-me, me sentindo meio idiota. Mais idiota.
—Por mim tudo bem. Só vai ficar entediado – presume.
—Corro o risco – rebato, pensando que era melhor tedio a solidão fria de meu apartamento onde tantas lembranças certamente iriam me assombrar.
—Ok então vou arrumar a louça, trocar de roupa, pegar minha bolsa e a coleira dele e saímos – avisa, fazendo menção ir para a cozinha.
—Deixe a louça comigo. É o mínimo que posso fazer – peço, impedindo-a passar, nossos corpos tocando-se por breves segundos.
—Não precisa. Posso lavar quando voltar – afirma, afastando-se com certa...rudeza!
—Faço questão Sarah – insisto, adiantando-me em direção a cozinha – Va trocar-se quando voltar saímos – sugiro, já começando a organizar a pouca louça suja na pia.
—Ok – responde com um suspiro, indo em direção ao quarto, deixando-me sozinho com os dois pets.
Rapidamente lavo a pouca louça, enxugando e guardando tudo. Estava terminando de limpar o balcão quando ela retorna usando um macacão jeans, camiseta básica, sapatilha e um casaco, o cabelo trançado lhe conferindo um ar juvenil que a deixa mais...interessante.
—Não esqueceu algo? – inquiro ao notar a falta de uma bolsa.
—Não. Achei melhor levar apenas o cartão de crédito no bolso – explica, passando por mim em direção a área – Nossa, foi rápido – elogia ao retornar com a coleira, o cachorro fazendo festa, pulando a sua volta feito um maluco, parando apenas quando ralha, ordenando que sentasse para colocar a guia – E quanto a ela? – indico a gata de pelo colorido preguiçosamente deitada no sofá como se fosse dona da casa.
—Deixarei uma fresta para que ela saia quando e se quiser, mas duvido que o faça antes de voltarmos – diz, calmamente, olhando em volta – Podemos ir? – pergunta.
—Claro – respondo, adiantando-me e abrindo a porta – Até mais invocada! – aceno a gata que se limita erguer a cabeça dirigindo-me um olhar no mínimo de desprezo – Se alguém perguntar se essa gata ataca, pode responder tranquilamente que não. Mas ela julga! – brinco, Reese soltando uma gargalhada sonora e contagiante que nos acompanha até dentro do elevador.
Para minha surpresa, não seguimos para a garagem (havia inclusive levo a chave do carro) mas sim para a saída do edifício.
—Disse que precisava levar este rapazinho a passear não disse? – lembra-me ela.
—Disse, mas pensei que iriamos de carro fazer as compras e depois caminhar – justifico-me, sem graça, acompanhando-a.
—O mercado é aqui perto, dá pra ir a pé, então já faço as duas coisas. Além do mais não trarei muitas compras – explica, caminhando ligeiramente a minha frente – E gosto de caminhar- acrescenta.
—Também gosto tanto de caminhar quanto de correr sempre que posso, o que não tem sido tão frequente ultimamente – lamento, emparelhando com ela, pondo as duas mãos nos bolsos da bermuda.
—Correr já não gosto – assume, enrugando o nariz.
—Quem sabe te convenço a me acompanhar qualquer dia, para experimentar, como fiz com a cerveja. Caso permaneça em Chicago, obvio – comento vendo-a rir com o canto da boca – Dúvida? – desafio.
—Uhum, uhum, de jeito nenhum – garante – Descobri que pode ser bastante convincente quando quer – diz e é minha vez de rir.
—Por falar nisso, gostou? Vai beber cerveja novamente? — quero saber.
—Pode ser. Uma ou outra vez, uma artesanal igual aquela que provei ontem, quem sabe – responde, evasiva e sorrio vitorioso.
Seguimos caminhando sem pressa, Dino ditando o ritmo, parando aqui e ali para cheirar ou fazer xixi em algum canto. Quando chegamos ao mercado, me ofereço para ficar com ele do lado de fora posto que não sabíamos ser permitido sua entrada, o que descobri alguns minutos depois quando a gerente do local veio falar comigo.
Adentro, fazendo uso do faro do animal para encontra-la por entre os corredores, ajudando-a finalizar as compras, estas acabando por sendo um pouco maiores do que previra, parte por minha culpa, que me convidei a jantar com ela, melhor dizendo, preparar-lhe o jantar em agradecimento e pedido de desculpas pelo trabalho que lhe dei.
Na verdade, queria adiar ao máximo retornar a meu apartamento. Não queria ficar sozinho tão cedo. Covardia? Sim, reconheço. Mas no momento preferia ser fraco a ficar remoendo os acontecimentos recentes em minha vida.
No trajeto de volta, além de algumas sacolas, me ofereço para trazer o cachorro deixando-a um pouco mais livre. Assim como fora na ida, caminhamos sem pressa, parando aqui e ali desta vez não apenas por causa do cão, mas por haverem alguns artistas de rua expondo seus trabalhos. Acabo comprando três pequenos quadros feitos sobre peças de cerâmica. A certa altura, tive a impressão de estarmos sendo observados, o que, por não conseguir confirmar, deixo para lá, aproveitando a companhia de Sarah e sua alegre bola de pelos.
Em seu apartamento, somos recebidos pela bola de pêlo número dois, que conforme ela previra, ainda se encontrava lá dentro. A gata era realmente uma figura! Durantes os cinco primeiros minutos miava como se estivesse reclamando por nossa demora, invocando-se quando o cachorrinho a empurrara, dando início uma correria louca pelos cômodos, fazendo nós dois rirmos.
Preparo um jantar caprichado como forma de agradecer-lhe não apenas pela ajuda e paciência na noite anterior, mas por permitir-me ficar em sua companhia aquele dia, sem dúvidas um dos mais agradáveis que passei desde meu retorno a cidade.
Por volta das vinte e poucas horas, despeço-me pedindo-lhe que avisasse caso fosse permanecer em Chicago e retornar ao Med. Deixo um dos quadros com ela, como um presente, aproveitando a chegada de sua vizinha (dona da gatinha) para fazer o que procurava adiar: ir embora.
Quando finalmente adentro meu apartamento, sinto o vazio e a tristeza me tomarem lentamente após fechar a porta.
Sem acender as luzes, jogo as chaves sobre o centro, a sacola com minhas roupas no chão, os dois quadros sobre a poltrona e deixo-me cair pesadamente no sofá, descalçando os sapatos, deitando-me, pensando no quanto o dia fora agradável, repleto de coisas simples as quais não desfrutava desde que deixara de servir no MSF. O sorriso franco e doce de Sarah Reese é a última imagem a se formar em minha mente antes de mergulhar num sono de sonhos tranquilos. O primeiro em muitos meses.
“...Longe da felicidade e todas as luzes;
Te desejo como ao ar;
Mais que tudo;
És manhã na natureza;
Mesmo por toda riqueza dos sheiks árabes;
Não te esquecerei um dia, nem um dia;
Espero com a força do pensamento;
Recriar a luz que me trará você...”

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