Caminhos para o coração

12 Suddenly, dads!!! (part. 2)


Notas iniciais
Olá flores! Voltando após uma ausência longa. Antes de qualquer coisa, quero agradecer a todas vocês que não desistiram da história e por não desistirem de mim, mesmo com meus atrasos. Desta vez tenho a justificativa de estar envolvida no projeto dia dos namorados Olicity, SnowMerlyn e Rheese (se ainda não leram, convido a fazerem porque, sem falsa modéstia, amei o resultado de todas elas. As minhas particulares e as do projeto Olicity com minha colegas escritoras. Sério mesmo. O projeto organizado pela Ciin Smoak está fantástico! E querem saber? Talvez tenhamos fics Rheese e SnowMerlyn de algumas delas!!). Mas vamos ao que interessa. Connor e Sarah in love ainda (só para que não estranhem o começo, quero lembrar que os dois estão na fase tesão, paixão ainda. Amor vai chegar aos poucos!); Will as voltas com a descoberta da paternidade; algumas visitas para Sarah e boas vibrações no final. Grata pelos rewiews passados. Aguardo mais rewiews. Boa leitura. Bjinhos flores

“Oh, life is bigger;

It’s bigger than you and you are not me;

The lengths that I will go to;

The distance in your eyes;

Oh, no, I’ve said too much, I said it up;

That’s me in the corner;

That’s me in the spotlight;

Losing my religion;

Trying to keep up with you;

And I don’t know if I can do it;

Oh, no, I said too much;

I haven’t said enough ...”

Losing My Religion

R.E.M

Apartamento Sarah (domingo, 2/6 — 4:16 a.m)

Sarah

Abro os olhos lentamente, piscando algumas vezes até me acostumar a semi escuridão do quarto, o som ritmado lá fora avisando-me estar chovendo. Sorrio.

Sempre gostei do som da chuva. Quando criança ficava deitada na cama, olhos fechados, escutando as gotas caírem, cada a uma em seu tempo e ritmo próprios formando uma melodia que tinha o poder de me acalmar.

Suspiro, virando a cabeça para o lado oposto com cuidado, posto o braço de Connor estar sob meu pescoço. Mais precisamente, encaixado no espaço vago entre este e meu travesseiro. Ele dormia tranquilo, o peito subindo e descendo compassada e ritmadamente, os cabelos negros em desalinho lhe conferindo uma aparência ao mesmo tempo sexy e ingênua, doce e selvagem. Um arrepio me percorrendo inteira quando move-se minimamente, me tornando consciente do quão próximos nossos corpos estavam.

Nos encontrávamos deitados em posições opostas. Eu de bruços, ele de barriga para cima. Meu braço esquerdo, livre, encontrava-se junto a meu flanco enquanto o direito se espremia no espaço mínimo entre nós, dobrado em uma posição que tinha tudo para ser desconfortável, mas não era. Minha perna direita se acomodava confortavelmente entre as dele, meu pé achando seu espaço sob seu joelho esquerdo cuja perna encontrava-se levemente dobrada. Não conseguia visualizar seu braço direito, mas imagino estar um pouco afastado do tronco, talvez sobre o espaço resultante por estarmos praticamente dividindo o mesmo travesseiro. Ambos estávamos nus sobre os lençóis, completamente expostos e isto era, além de novo para mim, excitante (Joey fazia questão de que nos banhássemos e vestíssemos algo logo após o sexo. Sempre). A visão de seu corpo ali, ao alcance de um toque de dedo, era deliciosamente tentador.

Um novo movimento dele me faz gemer baixinho, mordendo o lábio inferior ao sentir seu pênis roçar em minha coxa. Instintivamente, usando o braço esquerdo como apoio, ergo um pouco o troco a fim de obter uma melhor visão de sua região genital, uma fisgada de prazer comprimindo meu baixo ventre, me deixando úmida ao enxergar seu membro parcialmente em repouso.

Ereção matinal??, suponho, atrevendo-me mexer suavemente a perna, roçando nele, sorrindo, travessa, ao ver a reação provocada pelo gesto....Hum, parece que não é vontade de urinar afinal!! .. penso, erguendo o olhar ao escutá-lo suspirar, temendo tê-lo acordado, respirando aliviada ao vê que continuava a dormir. Aproveito a chance para apreciar o exemplar masculino a meu lado.

Aos trinta e sete anos, Connor parecia ter alcançado o ápice de sua forma física. Seu corpo, bem definido e com músculos nos lugares certos, sem exagero, era magro e firme, braços e pernas fortes, mãos macias (mesmo sendo um pouco calejadas, o que me surpreendeu, admito) e precisas. No rosto em formato oval, a barba por fazer lhe conferiam um ar ao mesmo tempo doce e másculo, inspirando desejos extremos que vão desde querer envolvê-lo nos braços e cuidar dele, a pensamentos libidinosos. A boca, assim como o tórax recoberto de pêlos grossos e negros que se estendiam até pouco abaixo da linha da cintura, tornando-se mais finos até se unirem aos pubianos, são um convite ao toque, ao prazer. Era uma tentação difícil de resistir ver aqueles lábios sorrir e não ter vontade de provar seu gosto. Só Deus sabe o quanto foi duro resistir aqueles primeiros anos, quando me descobri atraída por ele. Os olhos variam de um azul límpido a um cinza, dependendo do estado em que se encontra. Já os vi brilharem de forma intensa tanto por raiva quanto por empolgação. Também já os vi perderem o brilho ante a dor. Aliás, intensidade é uma palavra que combina com ele.

Connor é intenso em tudo que faz e no sexo não poderia ser diferente. Não tenho dúvidas de que a noite passada deixará marcas em nossos corpos, o pensamento me trazendo um sorriso sujo ao rosto, o que me choca um pouco. Não que fosse puritana ou algo parecido e ele tivesse me corrompido. Mas também nunca antes tive pensamentos e atitudes tão ousadas na cama como as de horas atrás, com ele.

Não costumo ser a parte ousada na cama. O assunto em casa, com minha mãe, se não chegava ser um tabu, também não constava na listas “Os assuntos a serem discutidos com a Sarah” (sim, minha mãe fazia listas de conversas que deveríamos ter. Chegava mesmo a marcar dia e hora para tal, como se tratasse com uma cliente do escritório!). Na única vez em que me atrevi, por volta de meus dezesseis anos, perguntar a ela algo sobre sexo, masturbação e etc, me fez sentir tão mal e suja (e tudo que queria era entender o que passava em meu corpo) que nunca mais tive coragem de repetir o fato. Após essa conversa frustrante, minhas dúvidas eram tiradas em livros, programas de televisão ou com alguma amiga, entre as poucas que tinha e que já tivessem transado.

Meus poucos namorados também não ajudaram muito. Ou ensinaram. Na verdade, até os dezessete, quase dezoito, não havia tido relacionamentos que fossem além de beijos e amassos. Era magra e desengonçada e meu corpo demorou um pouco ganhar formas mais atraentes. Somente após dezenove anos tive minha primeira experiência sexual. Meu corpo havia desabrochado e comecei a chamar atenção dos rapazes. Mas nenhum daquela época, ou mesmo Joey mais recentemente, me olhara da forma como Connor havia me olhado. Ele me fez sentir linda e desejada.

Um novo suspiro dele me faz olhar seu rosto uma segunda vez, mordendo o lábio ao vê-lo umedecer os seus durante o sono. Sorrio mais uma vez, correndo os olhos por seu corpo mais lenta e atentamente, detenho-me na pélvis, sentindo outra fisgada ao visualizar seu pênis outra vez, este parecendo um pouco mais ereto do que quando olhara a princípio. Mordo o lábio inferior, um desejo insano ganhando força em minha mente. Evidente que já tocara o pênis de um homem antes (como falei, não sou puritana), mas nunca tinha masturbado algum. Sexo oral então, havia feito bem poucas vezes. Não por nojo (tá, a primeira vez que fiz tive nojo sim, mas passou. Especialmente depois que comecei a questionar cursar Medicina), mas por ter cometido a imprudência de morder, de leve, um namorado e meio que engasguei com o sêmen de outro (o que me fez jurar a mim mesma que jamais engoliria novamente. Mil vezes ter o corpo melado a passar o vexame de tossir e ficar vermelha!). Joey não gostava nem dar nem de receber, portanto nunca fizemos. Já Connor me brindou, em uma das vezes que acordamos no começo da madrugada, com sexo oral de primeira. Me fez flutuar e escutar violinos (estranho isso, não?) antes de amolecer em seus braços.

—Por que não retribuir? — sussurro, ergui-me com cuidado para não acordá-lo (ao menos não agora), sentando-me de forma a ficar de frente para ele, mordendo o lábio novamente, as mãos suando em ansiedade.

Dirijo um novo olhar a seu rosto, certificando-me estar de fato dormindo antes de me inclinar minimamente, ficando mais próxima a sua pélvis. Munida de ousadia, me inclino até tocar a cabeça, vermelha e úmida, de seu membro, primeiro delicadamente, com a ponta dos dedos, deslizando, logo em seguida, por toda extensão até a base, subindo outra vez, me deliciando ao ver e senti-lo enrijecer sob meu toque ao mesmo tempo em que os pêlos de suas pernas se eriçarem em um claro sinal de prazer..

Me sentindo mais confiante ante as primeiras reações, me inclino um pouco mais até meus lábios tocarem a pele sensível no ponto exato aonde uma veia pulsava. Ousando um pouco mas, envolvo-o em minha mão, aumentando a pressão, tocando com a ponta da língua, um grunhido rouco chamando minha atenção, me fazendo olhar de rabo de olho em direção a seu rosto, visualizando a boca formando uma linha estreita enquanto os olhos estavam semicerrados, a respiração mais pesada e entrecortada. Sorrio, subindo os beijo até pôr parte em minha boca, escutando-o sussurrar meu nome de uma forma que me faz arfar. Respiro, me controlando, dizendo a mim mesma que agora era hora de retribuir. Esse era meu foco: dar a ele o mesmo prazer que dera diversas vezes desde quando chegamos a meu apartamento no final da tarde do sábado. Tendo isso em mente, me concentro no movimentos de vai e vem, sincronizando mão e boca, seus gemidos e grunhidos tornando-se mais altos, a respiração mais arrastada …

—Sarah!! — chama com voz rouca ao mesmo tempo em que enrosca a mão em meu cabelo, puxando levemente — Sarah...Ahh, minha Sarah! — sopra, puxando mais forte, a respiração entrecortada indicando estar próximo a gozar — Porra!! — deixa escapar quando aumento o ritmo de minha mão e boca e tão logo sinto o gosto do pre cum , me afasto, recebendo parte do líquido esbranquiçado em meus lábios, escorrendo por meu queixo, pescoço, colo, por entre meus seios intumescidos.

Sem perder tempo, passo uma perna por sobre ele, pondo-me de joelhos. Com delicadeza, seguro seu membro, guiando-o à minha entrada, aquela altura completamente molhada, pronta para recebê-lo. Desço devagar, mordendo o lábio até quase sangrar, gemendo alto quando, por fim, o tenho dentro de mim por inteiro. Respiro, me acostumando a sua presença um segundo, uma pequena porção de consciente me advertindo do perigo por não ter feito uso do preservativo… Nota mental: tomar a pílula tão logo saia da cama!...

—Sarah...- escuto-o chamar e olho de lado, vendo seu lindo rosto contraindo-se, o desejo ali estampado excitando-me mais.

Sorrio, travessa, voltando a ficar de costas para ele, apoiando as mãos em suas coxas firmes, usando-as como apoio para erguer meu quadril, retirando seu pênis quase que totalmente, descendo logo a seguir em um movimento brusco que causa um pouco de dor e prazer a nós dois, um grito abafado escapando por entre meus lábios. Repito o gesto uma segunda vez, Connor agarrando firme meu quadril com ambas mãos, auxiliando minha cavalgada. Em segundos meu corpo está molhado de suor pelo ritmo intenso que desenvolvemos, as gotas escorrendo até morrerem no ponto onde nossos sexos se encontram.

—Mais rápido ....estou quase….lá — ouço-o dizer entre lufadas, os dedos apertando minha carne sem piedade, o mesmo acontecendo à minha unhas, que se cravam em suas pernas, um grito rouco nos unindo no momento em atingimos o ápice juntos, meu corpo desabando sobre sua pernas.

Mal tive tempo me recuperar e o sinto mover-se. Abrindo suas pernas, sai de mim, fazendo com que me deite em posição semelhante a fetal, ajoelhando-se as minhas costas, um braço sustentando o próprio peso enquanto a o outro envolve-me a cintura, mantendo-me firme no lugar.

—Me fala se ficar desconfortável — sussurrou, rouco, em meu ouvido, arrepiando todos os pelos de meu corpo — Ouviu? — pergunta, mordendo o lóbulo de minha orelha, um ruído gutural e desconexo sendo o único som que consigo emitir — Vou entender como um sim — diz, se enterrando em mim num movimento vigoroso que me faz reter o ar a princípio, gemendo alto quando repete o gesto, meu corpo escorregando minimamente sobre os lençóis -Sarah?!? — o tom preocupado pede resposta.

—Tudo...bem… Não para. Por favor, não para!! — imploro, apoiando-me nos cotovelos de forma a forçar minha bunda contra seu quadril, instigando-o ir mais fundo dentro de mim, no que não se faz de rogado, retomando suas estocadas com cada vez mais vigor, o choque de nossos corpos sendo dolorosamente prazeroso...Puta merda! Isso vai deixar marcas!....penso, me sentindo quase desfalecer tamanho prazer que sentia — Connor...mais…. mais rápido...por favor, mais rápido...estou quase lá — peço, mal reconhecendo minha voz, agarrando o lençol com força na medida em que sinto o orgasmo chegar, libertando-me em um grito rouco, ele me acompanhando segundos depois, desabando, exausto, a meu lado.

—Isso foi incrível!! — declaro, algum tempo depois, apoiando o queixo em seu peito, brincando com os pêlos escuros — Você foi incrível — me corrijo.

—Não, nós fomos incríveis! — me corrige, tocando a ponta de meu nariz e sorrio — Está tudo bem? Sente dor? — preocupa-se, acariciando meu rosto.

—Uhum, uhum, sem dor — tranquilizo-o, suspirando — Nunca tinha feito daquela maneira — confesso, me aconchegando melhor a ele, olhando através da janela entreaberta, as gotículas de água na vidraça avisando que o tempo mudara. De novo.

—Gostou? — pergunta, afagando meu cabelo.

—Muito! — admito, erguendo-me o suficiente para lhe dar um selinho, voltando me aconchegar a seu corpo novamente — Podemos repetir outras vezes — proponho, vendo-o rir de lado.

—Sempre que desejar — diz, enroscando os dedos em meu cabelo (que certamente deveria estar um ninho de tão desgrenhado!) — Que tal dormimos mais um pouco? — sugere.

—Uhum — anuo, me afastando o suficiente para liberar o cobertor, me aconchegando a ele novamente após ter-nos coberto.

Ambos permanecemos em silêncio, acariciando-nos mutuamente, até que adormeço.

…………………………….

Connor

O ronronar relativamente alto seguido do “amassar” em meu peito despertam-me e abro os olhos, encontrando um par amarelo claro me encarando.

—Oh. Olá Persie! Bom dia. Está de bom humor hoje? — questiono, a gata emitindo um miado baixo e curto em resposta, massageando-me por mais alguns segundos antes de pular da cama e sair em disparada porta afora, como se algo tivesse lhe chamado atenção.

Suspiro, rolando de lado, o perfume suave de Sarah invadindo minhas narinas fazendo um sorriso bobo brotar em meu rosto, os momentos vividos a seus lado nas últimas horas me vindo a mente.

—Que mulher surpreendente! — murmuro, esticando-me, espantando a preguiça.

Automaticamente, como faço todos os dias, busco por meu celular, visualizando-o sobre o criado mudo, ao lado do dela. Estico o braço, pegando-o, ligando, me recostando a cabeceira enquanto aguardo o processo de inicialização finalizar, o horário sendo a primeira coisa aparecer na tela: nove e quarenta e oito de uma manhã de domingo que me parece nublado a julgar pelo que vejo através da cortina entreaberta, uma delicadeza dela posto que, se estivesse completamente aberta e o dia ensolarado, os raios incidiriam direto na cama. A segunda coisa que vejo é o número de mensagens recebidas, quatorze no total, sendo uma de Miss Goodwin, três de Claire, duas de Jay Halstead e oito (??) de Will. Enrugo o cenho, imaginando o que faria meu amigo enviar tantas mensagens para mim.

Mesmo tendo ficado curioso e até um pouco preocupado, dou preferência ouvir as de minha irmã (por razões óbvias), relaxando já na primeira após ouvir seu relato de como nosso pai passara a noite. As outras duas foram apenas complementares a primeira e para liberar-me ir ao hospital aquele dia, afinal -“ Você tem passado noventa e nove por cento do tempo aqui. Tome o dia de hoje para si. Descanse, durma, se exercite ou simplesmente relaxe” — dissera, me fazendo arquear a sobrancelha e imaginar se ela também estaria envolvida no plano para me fazer sentir ciúmes de Sarah.

A seguir começo a escutar as de Will (todas de voz, diga-se), ficando confuso já na primeira, questionando se meu amigo teria bebido: “Connor, desculpe te incomodar, mas estou precisando falar com alguém, que não seja Jay, ou vou surtar!” — dizia, encerrando-a, de forma abrupta, com um xingamento, o que me faz desistir de escutar as demais e ligar para ele. Aciono a discagem automática, ele atendendo no terceiro toque.

—O que houve? — pergunto, direto, antes mesmo que pudesse dizer algo, escutando-o suspirar pesadamente, o que somente aumenta minha preocupação.

—Eu sou pai!! - responde, igualmente direto.

—Oi??? Pai?? Como assim pai? Que brincadeira é essa Will?- questiono-o, enrugando o cenho, levemente irritado.

—Pai, Connor, pai. Genitor. Aquele que ajuda no processo de gerar novos seres humanos e acha mesmo que eu brincaria com algo tão sério? - devolve, irritado.

—Não — respondi de pronto, me sentando ereto sobre o colchão, completamente desperto agora — Claro que não. Me desculpe cara, mas é que você foi falando e eu acabei de acordar, então pensei que pudesse ter entendido errado. Me desculpe — peço, escutando mais um suspiro.

—Não, eu que tenho de pedir desculpas a você por ter enchido sua caixa de mensagens durante a madrugada — pede, a voz arrastada indicando cansaço -Mas é que eu precisava conversar com mais alguém que não Jay, já que ele está me deixando louco! Estive a ponto de esganar meu irmão pelo menos uma dúzia de vezes desde ontem a noite até agora a pouco, quando me trouxe ao aeroporto, mesmo ele estando ajudando na busca por meus filhos - confessa.

—Aeroporto? Vai viajar? — interrogo, lembrando que falara sobre uma busca também. E que usara plural: filhos! — Busca? E...Filhos??? Will, faça sentido por favor!! — peço, olhando para a porta ao escutar Sarah entrar — Will está com problemas — sussurro, tapando o microfone, ela vindo sentar-se a meu lado, atenta.

—Então….— ouço-o dizer, me fazendo prestar atenção a conversa novamente - Ontem a noite recebi a ligação de uma antiga namorada…. alguém que não via a catorze longos anos! Alguém que foi muito importante para mim, que me deu apoio, amizade e amor logo que cheguei a Nova York . Alguém com quem fui ingrato, com quem errei muito. Errei demais. Errei a ponto de ela preferir fingir estar morto! — desabafa, demorando alguns segundos voltar a falar - É uma história longa, que posso te contar em breve. Por hora, adianto que descobri uma paternidade quase inesperada, com catorze anos de atraso, no melhor estilo Peggy Sue, seu passado a espera sem o lance da pancada na cabeça e a viagem no tempo -ironiza, o som do sistema de som ao fundo confirmando que de fato estava aonde dizia.

—O que foi fazer no aeroporto? — quero saber, preocupado.

—Vim buscá-la. A mãe de meus filhos. Vim buscá-la. Ela está a caminho, em um voo — esclarece o óbvio, não me dando tempo processar informação - Eles fugiram, para Chicago, muito provavelmente, quando descobriram a mentira sobre estar morto. Eu no caso - revela - A propósito, já falei que são gêmeos? Um menino e uma menina. Andrey e Bianca — novo suspiro arrastado que me faz ficar temeroso.

—Andou bebendo? — questiono.

—Uma dose ou duas para ajudar passar a noite - confessa - Por isso Jay veio me trazer quando Andrea ligou avisando que estava embarcando em um voo para cá - completa.

—Está sem carro então — presumo, não o deixando responder — Me espera. Vou buscar vocês — aviso, Sarah adiantando-se a mim, indo até minha mochila.

—Não precisa Connor. Sério. Eu só queria desabafar um pouco com alguém que não estive do lado do inimigo, digo, alguém não estivesse achando certo um pai ser impedido de saber da existência de seus filhos gêmeos por malditos catorze anos apenas por ter cometido alguns enganos quando era jovem e imbecil!! — desabafa, bufando — Não precisa se destacar de casa até aqui. Além do mais, deve querer ir vê seu pai e….

—Claire liga se precisar de mim — o interrompi, sem entrar em detalhes, pondo o celular no viva voz enquanto me visto — Não me custa nada ir até aí, evitar que meta os pés pelas mãos brigando com essa Andrea quando o mais importante é localizar seus filhos — declaro, escutando o riso curto e cansado dele — Em qual terminal está? — quero saber, penteando o cabelo com os dedos.

—Desembarque doméstico. Portão… E

—Certo. Me espera. Dentro de uns vinte e cinco minutos chego aí — estimulo posto o apartamento de Sarah estar em uma área mais perto do aeroporto — Falo sério Will. Não sai daí ou quem vai te bater serei eu — ameaço, arrancando nova risada.

—Ok papai. Vou ficar quietinho aqui a espera do massacre — assegura e rolo os olhos com o drama.

—Assim espero — declaro, terminando de me vestir e calçar — Até já — me despeço, desligando sem esperar resposta.

—Will tem filhos? — Sarah repete, abismada.

—Gêmeos. Um menino e uma menina — confirmo — Pelo que entendi essa Andrea foi namorada dele quando mudou para Nova York e o rompimento não nada amigável, o que a levou esconder dele a existência dos filhos e deles que o pai estava vivo — completo, aumentando seu espanto.

—Nossa! Que barra!! — exclama, me acompanhando para fora do quarto — Eles descobriram e fugiram para cá e agora ela também está vindo, é isso? — conclui e aceno afirmativamente — Pobre Will. Deve estar com os nervos à flor da pele.

—Está e é por isso que não quero deixá-lo encontrar com essa Andrea sozinho — digo, indo direto a geladeira aonde pego um copo com iogurte e uma maçã — Andou bebendo, como deve ter notado pela fala meio trôpega dele, e para fazer uma nova cagada que pode estragar as coisas em definitivo, melhor ter alguém perto dele Já que,, ao que parece, Jay está a procura dos sobrinhos — conclui, pegado uma garrafa de água mineral.

—Certo — diz, segurando minha mão enquanto vamos até a porta — Me liga dando notícias? — pede, levando a mão a fechadura quase ao mesmo tempo em que a campainha toca — Visita a essa hora!?! — enruga o cenho.

—Em plena manhã de domingo — completo, vendo-a sorrir ao olhar através do olho mágico.

—É a Laura — avisa e emito um Ah, tentando recordar quem exatamente era Laura, reconhecendo-a como sendo a “mãe” da gata, Persie, tão logo vejo-a parada no dormente, acompanhada de sujeito com uma máquina fotográfica do tipo profissional nas mãos — Oi Laura, bom dia — Sarah a cumprimenta, dirigindo seu olhar para o sujeito o que me leva concluir não ser o marido da sua vizinha.

—Bom dia Sarah e desculpa o incomodo — pede a loira, dirigindo-me um olhar discreto — Posso voltar em outro momento se estiver atrapalhando — prontifica-se.

—Não está. Já estava de saída mesmo — me adianto, dando dois passos em direção a saída o que a faz, e ao sujeito, recuarem um, pondo-se de lado para me dar passagem, Sarah comigo, de mãos dadas, parando a meu lado em meio ao corredor — Te ligo dando notícias — aviso, sorrindo-lhe.

—Certo. Vou aguardar — responde, aceitando o beijo casto que lhe dou e por um segundo peso ter escuto o som característico de um disparo fotográfico — Fala pro Will ter calma — pede e anuo com um aceno, lhe dando mais um beijo rápido antes de adentrar o elevador, que por sorte parara em seu andar, acenando de volta antes de as portas fecharem.

Encosto-me à parede do fundo, respirando devagar, imaginando o quanto meu amigo deveria estar revoltado e agoniado com essa confusão toda e me pego perguntando-me o que faria em seu lugar. Não nego ter pensado nessa possibilidade algumas vezes, afinal, por mais cuidadoso que se seja, invariavelmente, em algum momento acabamos transando sem os devidos cuidados, quer sejamos movidos pelo tesão, como ocorreu de madrugada comigo e Sarah, quer seja por impulso, ou por confiarmos que a mulher toma pílula e isto será suficiente para impedir uma gravidez. Eu fiz isso algumas vezes e embora tenha garantido a mulher envolvida na época jamais me negar assumir a paternidade, nada impede que algo do gênero possa ter-me acontecido já que não me mantive quieto em um lugar por muito tempo, salvo o período universitário, aonde o mais longe que fui foi acompanhar alguns amigos brasileiros a seu país em férias ou durante o carnaval. Depois de formado não tive residência fixa por anos, até regressar a Chicago.

—Não seria de espantar se algum dia me acontecer o mesmo — murmuro, deixando o elevador tão apressadamente que quase derrubei um sujeito que entrava — Desculpe-me — peço, erguendo o polegar, ele me respondendo com uma aceno curto, me dirigindo um olhar surpreso antes de as portas fecharem.

Dou de ombros, seguindo a passos largos até meu carro, enviando mensagem a Will avisando já estar a caminho.

………………………………………

Sarah

Observo Connor ir embora, desviando o olhar apenas quando as portas fecham, dando atenção minha amiga e vizinha, que me olhava com um sorriso largo.

—Hã… está procurando a Persie? — pergunto à guisa de desviar sua atenção e, lógico, saber o que queria em minha porta em plena manhã de um domingo chuvoso, ao que tudo indicava, olhando de soslaio o homem a seu lado.

—Estava, digo, estou — confirma, ainda sorridente.

—Ela está na sala, pode entrar — convido, ela adiantando-se para o interior de meu apartamento enquanto o tal sujeito permanecia na porta, nos observando.

—Desculpa se atrapalhei, mas quando procurei por essa mocinha e não encontrei, sabia que estaria aqui — Laura pedem segurando uma inquieta Persie — Fica quietinha filha, não vou te levar para o veterinário. Sossega! — ralha, segurando-a firmemente — Lembra que te contei sobre uma revista querer fazer uma matéria sobre a Persie, por eu ter adotado ela mesmo se tratando de uma gata de raça? — pergunta, diminuindo o tom da voz. Aceno que sim — Eles ligaram ontem perguntando se poderiam vir hoje pela manhã porque a matéria é para amanhã — cochicha, indicando o cara com um gesto de cabeça — Ele é o fotógrafo. O jornalista está a caminho — conta, Dino vindo pular nas pernas dela — Olá rapazinho. Como você está? — diz, afagando a cabeça dele.

—Inquieto e meio ciumento — brinco.

—Por que será né Dininho? — Laura diz também em tom de brincadeira, piscando e sinto meu rosto esquentar — Não fique sem graça. Está mais do que certa. Seja feliz — aconselha.

Afora o pessoal do Med (mesmo assim nem todos) Laura e sua irmã era as únicas a saberem sobre meu pai.

—Desculpem perguntar, mas qual é a do carinha? — o fotógrafo chama nossa atenção para si — Quer dizer, o normal é gato implicar com cão e vice versa, o que não me parece ser o caso desses dois aí — aponta de um para o outro, divertindo-se ao ver Dino pular e latir para Persie, que lhe dá um daqueles seus olhares que Laura e eu classificamos como sendo o “saí fora, essa humana é minha!” — E que latido engraçado!! — comenta.

—Os dois se dão bem na maior parte do tempo. Minha Persie que é meio implicante, mas para sorte dela o Dino é o rei da paciência! — ela diz sorridente.

—O latido deve-se a uma tentativa dos antigos tutores de retirarem as cordas vocais dele — explico, vendo-o abrir em espanto.

—Sério? — inquere e confirmo com um aceno — E voc...a senhorita impediu e o pegou para si? — questiona, curioso.

—Não. Eu o resgatei no estacionamento do hospital aonde trabalhava, em Dallas, com a ajuda de um segurança. Quando o encontrei já estava assim, quero dizer, a cirurgia mal feita já havia sido realizada — conto, notando a chegada de um outro homem pouco mais velho do que ele — O veterinário onde o levei quem me explicou o porquê do latido diferente — concluo, retribuindo o cumprimento do homem que chegara com um aceno.

—Bom dia a todos e desculpem o atraso senhora Derm — pede, alternando olhar de mim para Laura, Dino indo o cumprimentar — Olá amigão! Bom dia pra você também! — faz festa nele, o que provoca um miado longo e esganiçado da Persie — Opa, pra você também gatinha. Não precisa ter ciúmes não. Amo gatos e cães igualmente — defende-se de bom humor, erguendo a mão com a palma aberta para ela.

—Bom dia. Laura Derm -minha amiga se apresenta — E essa mocinha daqui é a Perséfone e na verdade não é bem ciúmes — diz.

—É zelo — digo, rindo ao ver ambos enrugar o cenho — Persie e Dino são amigos e sempre que alguém se aproxima dele ela assume essa postura defensiva — conto, Laura confirmando.

—Verdade — diz, pondo Persie no chão posto que começava se agitar, a mesma correndo de volta para meu apartamento, Dino a seguindo — Persie!! — ralha, entrando atrás dela.

—Vou ajudá-la para não atrasar vocês — me ofereço, pegando Dino em meus braços após uma pequena correria em volta do sofá junto com Laura, ela conseguindo alcançar Persie antes que ela se escondesse dentro do meu cesto de revistas — Pegamos os fugitivos! — comemoro, fazendo cócegas na barriguinha dele.

—Cara, que interessante esses dois! — o homem que chegara a pouco comenta, voltando-se para o colega — Por falar em interessante, eu cruzei com…

—Acho que já podemos ir fazer a matéria, não é? — o fotógrafo o interrompe, me causando estranheza — Afinal é domingo, dia de descanso e não queremos ocupar toda sua manhã nem atrapalhar a senhorita….

—Reese. Sarah Reese — me apresento, estendendo-lhe a mão.

—Leonard Colton, fotógrafo da Chicago Creative — apresenta-se — E este é meu colega Jimmy Fincher, jornalista — apresenta o amigo, não o dando tempo dizer algo — Podemos subir? — repete, indicando o elevador com os polegares.

—Sim, sim, claro — Laura anui, saindo com Persie — Desculpa qualquer coisa amiga. Depois nos falamos — pede quando estão entrando no elevador, me atirando um beijo.

Aceno que sim, meu sorriso se desfazendo tão logo as portas fecham, uma ruga formando-se entre meus olhos ao lembrar a atitude do fotógrafo com o outro.

—Por que será que ele não deixou o amigo completar a frase, hein Dino? — inquiro, olhando meu amiguinho, que late, abanando o rabo — Tem razão. Vamos parar de paranóia e cuidar na vida — determino, pondo-o no chão após fechar a porta — Tomara que esteja tudo bem com Will — desejo, pegando meu celular, enviando mensagem a Connor pedindo a ele não esquecer de me atualizar sobre o caso, pondo-o no bolso de trás do short que usava, prendendo o cabelo, indo me ocupar das tarefas de casa.

………………………

Aeroporto de Chicago (11:57 a.m)

Narrador

Connor para em meio ao saguão lotado de gente, olhando os painéis a procura do protão aonde Will se encontrava, correndo em direção ao mesmo tão logo localiza. Havia demorado um pouco mais do que previra por conta de um engavetamento, sem vítimas fatais, o qual complicara o já complicado trânsito da cidade.

Em poucos minutos avistou o amigo de pé junto a área de desembarque, apressando o passo a fim de alcançá-lo antes de os passageiros começarem surgir.

—Hei — chama, fazendo o ruivo se voltar — Minha nossa Will, você está horrível!! — deixa escapar, recebendo um sorriso fraco em resposta.

—Obrigado por notar! — ironiza.

—Falo sério. Está horrível, cara — reitera, o encarando de volta — Não pode receber a mãe de seus filhos neste estado. O voo dela já chegou? — pergunta, olhando o painel acima de suas cabeças.

—Tá atrasado. É o de Connecticut — informa o ruivo, dando atenção seu celular, que vibrava com alerta de mensagem — Jay, perguntando pela milionésima vez se ela já chegou!!! — bufa, irritado, ameaçando atirar o aparelho longe, o cirurgião o dentendo.

—Uou! Calma aí. Isso não vai resolver nada e ainda vai te deixar sem comunicação — argumenta, segurando-lhe o braço, suspirando — Comeu alguma coisa antes de vir ou só bebeu? — quer saber.

—Amendoim conta? — devolve Will, rindo torto — E uma porção de alguma coisa estranha que tinha na geladeira — completa, fazendo Connor bufar alto.

—Ok, é oficial: você é um idiota! — xinga, olhando em volta — Mas isso não tem solução portanto vamos ao que tem — diz, encarando-o outra vez — Primeiro vamos dar um jeito nessa sua aparência. Não dá pra rever uma mulher que foi importante para você parecendo um mendigo! — exclama, o arrastando em direção ao banheiros.

—E quem disse que ela foi importante para mim? — retruca Will, fazendo bico.

—O fato de terem dois filhos, talvez? — devolve Connor, o fazendo entrar no setor de lavabos — Pensando bem está certo. Ela não foi importante para você. Ela É importante ou não estaria neste estado — corrige-se, apoiando-se a bancada do lugar — Tira essa camisa, joga bastante água nessa sua cara feia e tentar se recompor minimamente — ordena, cruzando os braços.

—Se queria me ver sem roupa era só pedir amor! — Will brinca, sobressaltando-se ao escutar a porta de um dos boxes abrir, um senhor baixo e atarracado surgindo com as faces vermelhas.

—Me esperem sair, pelo amor de Deus! Não tenho idade para esse tipo de coisa! — solta, saindo sem esperar resposta, ambos médicos gargalhando alto tão logo a porta bate.

—Agora que já nos embaraçou em público, meu bem, dá pra fazer o que pedi? — Connor insiste.

—Sabia que gosto mais de sua versão que ignora as pessoas a sua volta? — Will o provoca, despindo a camisa, inclinando-se sobre a bancada.

—Eu tenho uma versão assim? — pergunta o cirurgião, enrugando o cenho.

—Não, não tem. Eu que criei quando estava com raiva de você — confessa o ruivo, enchendo a boca com água, realizando um bochecho forte, juntando nova porção a qual atira contra o rosto e peito, notando o olhar inquisidor do moreno — O quê? Não simpatizava contigo no começo. E admita que era bem arrogante quando chegou ao Med — argumenta, fazendo Connor sorrir pequeno.

—Um pouco talvez. Talvez por estar acostumado a trabalhar boa parte do tempo sozinho — justifica-se o cirurgião, dando de ombros.

—Pensei que no MSF trabalhavam em grupo — Will indaga, usando papel toalha para se enxugar.

—Não servir todo o tempo lá, caso tenha esquecido — relembra, ambos silenciando até que Will terminasse de vestir a camisa novamente, arrumando o cabelo com os dedos — Bem melhor. Ao menos não vai fazer a mulher correr de medo — Connor diz, rindo de lado, ficando sério logo a seguir — Quer falar? — pergunta, Will respirando fundo.

—Vamos voltar para o saguão — pede, passando pelo cirurgião.

—Ok — Connor limita-se dizer, seguindo-o.

Param em um quiosque aonde compram um suco e uma fatia de bolo para o ruivo, sentando-se a certa distância do portão de desembarque, Will comendo em silêncio durante alguns minutos, voltando a falar assim que termina.

—Conheci Andrea ao final de meu primeiro ano na faculdade de Medicina. Nos apaixonamos e logo estávamos dividindo um apartamento com dois outros amigos, um deles Isadora Negrini, filha única do rei das clínicas de cirurgia estética de Nova York, como nossos colegas o chamavam. Eu tinha uma queda por ela, que me ignorava sistematicamente até começar namorar firme com Andrea — conta, suspirando pesarosamente, atirando as embalagens vazia no lixo — Resumindo a história, deixei meu orgulho, arrogância e ganância me guiarem. Isadora me envolveu com sua beleza e promessas da vida com a qual sonhava. Trai minha namorada, que se descobriu grávida e quando foi a minha procura o imbecil aqui, ao invés de apoiá-la, ficou parado feito um pateta e a deixou ir embora com a ameaça de abortar nosso filho, porque até então pensava ser apenas um bebê — revela, erguendo o olhar ao escutar o alerta do sistema de som anunciando a chegada do voo, pondo-se de pé, Connor fazendo o mesmo — Cerca de um mês após, ela foi a minha procura na clínica aonde estava estagiando. Isa se ofereceu para falar com ela, permiti, e daí por diante pode presumir a merda toda — conclui.

—Uhum — Connor limita-se dizer, os dois voltando a ficar em silêncio um tempo — Você a amava? — quer saber, olhando o amigo de soslaio — Andrea. A amava?

—Que importa isso agora — Will responde, amargo — Eu dei as costas a ela quando mais precisou de mim. Permitir outra pessoa lidar com o assunto. Pior: pedi a Isadora o fazer mesmo tendo sido alertado por Thomas, nosso amigo em comum, do que ela provavelmente faria já que não gostava de Andrea e ainda assim permiti que fosse falar com ela — relembra, buscando entre as pessoas surgiam por entre as portas do setor de desembarque, um rosto familiar.

—Sabe que ela pode ter mudado bastante nestes anos todos, não sabe? — Connor pergunta, seguindo o olhar do ruivo, que detinha-se na ruiva elegante que acabava de surgir.

—Nem tanto — Will murmurou, indo ao encontro dela — Andrea ….- diz, perscrutando o rosto da mulher, esta fazendo o mesmo em relação a ele — Está bonita. Tão bonita quanto naquela época — corrige-se ligeiro.

—Obrigada — ela agradece, a sombra de um sorriso cruzando seu rosto alvo, os olhos azuis voltando-se para o moreno ao lado dele — Andrea Fletcher — apresenta-se, estendendo a mão delicada.

—Connor Rhodes — retribui, limpando a garganta a fim de chamar atenção do amigo, que permanecia estático, encarando-a, o toque de seu celular sobressaltando-o — Com licença, preciso atender — pede, afastando-se minimamente.

—Então…- Andrea diz, encarando o ruivo.

—Então…- ele repete, sacudindo a cabeça como para organizar as idéias — Eu.. nós… Como foi que eles descobriram sobre mim? Seu marido contou? — interroga ao notar a aliança.

—Sou viúva, mas mesmo que William estivesse vivo não faria isso sem minha permissão — revela ela, rindo triste.

—William? Casou com um cara com o mesmo nome que eu? — inquere.

—Pois é. Deve ser minha sina — diz, rindo sem vontade — Eles sempre souberam que não eram filhos de meu marido. Falei que o pai havia falecido enquanto estava fazendo um curso no exterior e o corpo não pôde ser trazido para casa — conta, fazendo-o abrir a boca, abismado — O que esperava que eu dissesse? — questiona-o, assumindo uma postura defensiva.

—A verdade? — devolve Will, irritado.

—Que o pai deles era um covarde que mandou a namorada me oferecer dinheiro para tirá-los e quando disse que não o faria mudou a oferta para eu sumir do mapa, é isso? — rebate entre dentes.

—Vamos esclarecer uma coisa de cara, ok? Eu nunca pedi a Isadora fazer nenhuma das duas coisas. NUNCA! — frisa Will — Sou católico e aborto não é uma opção. Meu erro foi ter sim me acovardado a ponto de permitir a ela tomar as decisões por mim, por medo de perder o que havia conseguido até então — reconhece, suspirando — Eu era jovem e ambicioso. Errei muito, bem sei, mas jamais te pediria abrir mão de nossos filhos — reitera, olhando-a nos olhos — E por que não insistiu? Por que não me procurou quando descobriu que eram gêmeos? Por que mentiu quando Eu te procurei? Por que não me contou a verdade quando teve chance? — interroga, nenhum dos dois notando a aproximação de Connor.

—Porque eu estava magoada e queria que sofresse como eu estava sofrendo. Porque era orgulhosa demais para querer migalhas ou alguém pela metade ou. Porque vislumbrei um futuro aonde você me acusava de tê-lo feito perder a chance de uma vida de fama, riqueza e glamour. Porque só vi e pensei em mim mesma e não em meus filhos…

—Nossos filhos — a corrige.

—Em nossos filhos — corrige-se a ruiva, suspirando — Ambos cometemos erros Will. É fato. Não podemos mudar o passado….

—Mas podemos mudar o presente — nova interrupção dele — Não quero mais ficar distante deles, Dera. Quero que fiquem comigo, em Chicago — informa, deixando-a tensa.

—Uma coisa por vez. Primeiro precisamos encontrá-los. Depois ...veremos — responde ela, mordendo o lábio inferior, insegura.

—Não pode me negar isso! Não depois de ter-me roubado catorze anos! — reivindica.

—Como é? Roubado? — questiona-o, levando um dedo ao peito dele — É uma via de mão dupla sabia disso? Da mesma forma como Eu poderia ter te procurado, você também podia ter me procurado se estivesse Realmente querendo saber se estava bem! Mas não!!! Preferiu não arriscar seu futuro brilhante caso o pai dela descobrisse o que tinham feito! — acusa.

—Já disse que não concordei com nada do que Isa fez. Jamais te faria tal proposta, Dera, e…

—Não me chame assim!! — o corta, elevando minimamente a voz — Acha que é só pedir desculpas e tudo vai se apagar? Toda humilhação que aquela…. que ela me fez? — pergunta.

—Claro que não, mas ficar remoendo não vai nos levar a lugar nenhum — rebate o ruivo, também começando elevar a voz, Connor decidindo ser hora de intervir.

—Ok. Por que não vamos para meu carro e lá conversam enquanto os levo ao apartamento? — sugere, interpondo-se entre os dois — Além do mais, estão meio que atrapalhando a passagem — chama atenção, fazendo-os olhar em volta — Vamos indo? — convida, olhando a volta — Sua bagagem…

—É só essa bolsa — ela diz, erguendo a tiracolo — Não pretendo me demorar…

—Veremos — Will a corta, erguendo o queixo em desafio.

—Tá dando pra ver porque nenhum dos dois deu o braço a torcer no passado! — murmura o moreno, recebendo olhares fulminantes — Ok. Vamos andando — reitera, pondo-se de lado, os dois seguindo em direção a saída, retomando a discussão — Vai ser um longo caminho!! — sopra, caminhando lentamente atrás deles.

Durante parte do trajeto, para alívio do cirurgião, tanto Andrea quanto Will permanecem em silêncio, Will voltando a falar apenas quando nota a mudança na rota do carro.

—Para onde estamos indo? — pergunta intrigado.

—Seu antigo apartamento — Connor respondeu, olhando a ruiva através do retrovisor interno e para seu amigo antes de voltar a falar — Era Jay ao telefone naquela hora — revela, ganhando atenção de ambos — Um de seus antigos vizinhos ligou na delegacia procurando por ele. Queria avisar sobre duas crianças que foram encontradas na portaria mais cedo, dormindo — prossegue, olhando-os novamente quando param no semáforo — Ele somente foi avisado a pouco. Está indo para l.

—Por que não falou antes? — Will questiona-o.

—Porque estavam em meio a uma discussão e acho muito pouco provável que me dessem atenção, por isso — justifica, voltando olhá-los — Escutem, sei que cada um tem seus motivos para terem agido como agiram no passado e quem sou eu para condenar qualquer dos dois. Mas agora vocês tem algo mais importante a resolver e ficar preso as mágoas e lembranças não vai fazer bem a ninguém, especialmente a eles. Agora precisam focar nos dois e decidirem o que fazer daqui por diante — aconselha, pondo o veículo em movimento novamente — Está mais do que evidente que seus filhos desejam conhecer o pai e talvez passar um tempo com ele, mas ao mesmo tempo não pode pedir a Andrea que abra mão dos filhos Will — diz, olhando rapidamente a mensagem de Claire que surgia na tela de seu celular — Deem um tempo. Escutem seus filhos. Falem com eles e partindo daí tomem uma decisão. De preferência sem matarem um ao outro no processo — brinca, arrancando risos discretos de ambos, estacionando quase ao mesmo tempo em que Jay o faz — Preciso ir ao Med. Claire quer falar comigo — avisa — Me liga quando puder — pede.

—Ligo — Will responde, estendendo a mão para ele — E obrigado por tudo — agradece, estancando ao pôr os pés fora do carro, olhando-o com uma ruga em meio aos olhos — Sei que não é da minha conta, mas essa é a mesma roupa que estava usando ontem quando foi na academia, não é? — quer saber.

—Tem razão. Não é da sua conta, curioso — Connor responde, rindo quando ele mostra-lhe o dedo do meio — Prazer em conhecê-la Andrea — acena a ruiva, que retribui, voltando-se para Jay, que se aproximava acompanhado por Hailey, ambos acenando ao cirurgião, aguardando Will e Andrea se unirem a eles para somente então rumarem ao edifício.

Rendendo-se a curiosidade ( e por conta de a mensagem da irmã não ser urgente), Connor liga o carro, mas não se vai. Durante alguns minutos aguarda, sem sair do veículo, que saíssem do prédio, sorrindo ao visualizar os dois adolescentes acompanhados dos adultos seguirem para o carro ali perto, Jay e Will carregando duas malas de duas mochilas enquanto Andrea abraçava a filho.

—Tomara que se entendam — deseja, manobrando o automóvel, rumando primeiro para o prédio aonde morava.

Lá chegando, liga para a irmã e em seguida para a governanta do pai antes de subir para seu apartamento. Após um banho, troca de roupa (pondo uma reserva bem como um uniforme de trabalho dentro de sua mochila), tomando uma refeição caprichada, segue para o hospital, encontrando os médicos examinando o pai, concluindo, ao término, o mesmo estar apto a continuar o tratamento em casa a partir da segunda -feira, os irmãos aproveitando a presença de Miss Goodwin para acertarem a contratação temporária da enfermeira Monique pelo período de um mês.

—Não contarei como sendo sua férias, mas como um afastamento para resolver problemas pessoais — avisa a administradora — Desta forma poderá gozar de sua férias normalmente, com tudo que lhe é de direito — completa.

—Obrigada Miss Goodwin — agradece a jovem.

—Resolvida essa questão, vou até aquela loja sobre a qual te falei providenciar uma cama adequada às necessidades dele — Connor diz a irmã enquanto caminham pelo corredor após o término da consulta — Pedirei que seja entregue amanhã no primeiro horário.

—E eu vou em casa ver o que ainda falta fazer no quarto de hóspedes e no anexo para que Monique fique bem acomodada — Claire avisa, sorridente, entrando no elevador — Não imagina o quanto estou aliviada — confessa.

—Também estou — assume o moreno, recostando-se a parede, celular em mãos, enviando mensagem a Sarah perguntado se aceitaria jantar com ele, sorrindo ante a resposta rápida e afirmativa dela.

—Planos para logo mais maninho? — Claire pergunta, curiosa.

— Apenas um jantar entre amigos — desconversa, guardando o aparelho, refletindo se deveriam sair e correr o risco de ser fotografado, ou se poderia preparar um jantar para eles, a segunda opção sendo a que mais lhe agradava….Mas apenas se ela concordar...condiciona mentalmente, deixando o elevador junto com a irmã — Até amanhã Claire -despede-se com um beijo no rosto da empresária, enviando mais duas mensagens, uma a Sarah, questionando sobre o jantar, e outra a Jay, pedindo notícias sobre o amigo, enquanto caminha para seu carro, ambas respostas vindo quase ao mesmo tempo: Sarah concordando, Jay enviando um vídeo curto onde os sobrinhos aparecem brincando com o cão adotado por Will acrescido do texto “E todos estamos vivos...Até agora!!” com dois emojis de pânico, fazendo-o rir.

Após responder, dar a partida, dirigindo-se para o apartamento de Sarah, fazendo uma parada no metade do caminho a fim de comprar os ingredientes que precisava para o preparo do jantar, mais duas garrafas de vinho e algumas cervejas artesanais, retomando o caminho para a casa de Sarah.

“...Every whisper;

Of every waking hour;

I’m choosing my confessions;

Trying to keep eye on you;

Like a hurt, lost and blinded fool (Fool!);

Oh, no, said too much;

I set it up….”





Notas finais
Até breve. Bjinhos flores