Notas iniciais
Olá flores! Apareci!! Voltando para atualizar e nem vou demorar muito aqui porque a internet está uma verdadeira droga desde ontem! Então, antes que dê zebra, vamos ao que interessa. Por aqui, Connor e Sarah refletindo acerca do valor de um beijo (como o titulo já diz) e algumas pistas do que pode ter acontecido no quarto de dad Rhodes. E por falar nele, no momento Cornélius do capitulo (yep, teremos isto sim!!) sempre que o texto aparecer em Itálico corresponde a uma "fala" dele. Texto normal corresponde a pensamentos. Grata por todas as rewiews passadas....Aguardo mais rewiews....Espero que gostem, favoritem e recomendem (eu deixo, rsrsrsrsrsrs) ...Boa leitura.... Bjinhos flores

“Lyin’ here with you so close to me;

It’s hard to fight these feelings;

When it feels so hard to breathe;

I’m caugth up in this moment;

Caught up in your smile;

I’ve never opened up to anyone;

So hard to hold back when I’m holding you in my arms;

We don’t need to rush this;

Let’s just take it slow...”

Just A Kiss

Lady Antebellum

Chicago Med (quarta-feira, 15/5 – 07:05 a.m)

Sarah

Retiro os óculos, fazendo a cadeira rolar para longe da bancada. Não muito. Apenas o suficiente para que pudesse esticar braços e pernas para espantar parte do cansaço. Esfrego meus olhos deixando um suspiro escapar ao olhar o relógio na parede a minha frente.

Tinha sido um longo plantão. Não muito movimentado, o que talvez explique essa sensação de que o dia custara nascer. Quando há movimento o tempo passa muito mais rápido. Ontem não foi assim. Tudo estava calmo. Daria até tempo para uma soneca, se conseguisse o fazer, mas não fora o caso. Na verdade, foi bem difícil conseguir relaxar, focar e seguir com o plantão depois do que acontecera no quarto do senhor Rhodes. Aquilo me deixara “elétrica”, reconheço.

—Aquilo tem nome Sarah: Beijo – murmuro baixinho, tocando meus lábios com a ponta dos dedos.

Não foi um contato demorado, nem sensual, ou mesmo exigente. Fora apenas um beijo. Simples, curto, doce, suave, sem qualquer conotação sexual. Um beijo e nada mais.

Então por que passei o restante da noite anestesiada? Por que mesmo agora, horas depois, ainda sinto meus llábios formigarem? Por que aquela sensação de euforia em meu baixo ventre apenas em lembrar o contato, o gosto, a textura da boca dele sobre a minha? Por que, por que, por que.... eram tantos rondando minha mente que fora difícil manter o nível de concentração necessário a um duplo turno.

—Precisa esquecer Sarah. Não supervalorize um gesto feito em um momento de fragilidade sua e dele – aconselho-me baixinho – Não significou nada além de ... de... uma válvula de escape! Isso! Foi uma válvula de escape, uma forma de ele relaxar um pouco toda tensão que viveu nas últimas horas – discurso, dando um soco curto no ar – Afinal, que mais poderia ser? Nada, Sarah. Não poderia e não foi nada além de um momento de fragilidade. Foi isso mesmo!! – repito, girando a cadeira, tendo um sobressalto ao me deparar com ninguém menos do que Ava Bekker parada em meio a porta da sala dos médicos, me observando atentamente – Ah...hum-hum... bom dia doutora Bekker – cumprimento-a, agradecendo mentalmente por não ter citado nomes em meu monólogo – Está aí a muito tempo?? – pergunto.

—O suficiente para ouvir parte de seu monólogo! – responde, azeda, entrando na sala – Desculpa se a interrompi. Pode continuar se quiser. Vim apenas pegar minhas coisas – avisa e lembro que ela também havia dobrado turno.

Será que ela foi até lá falar com ele? Pior: terá visto o beijo? Desencana, Sarah! De. Sen. Ca. Na!— Eu.... só estava pensando alto – justifico-me, seguindo seus movimentos com o olhar em busca de alguma pista.

Não sei bem por que, mas me sentia desconfortável em sua presença. Isto desde o episódio daquela nevasca aonde garanti a uma mãe desesperada que seu filho estava bem somente para descobrir, através dela, que o mesmo falecera algumas horas após eu o ter visto. Evidente que me passou o maior sabão por ter falado sem antes consultar as enfermeiras ou um atendente, mas como raios iria adivinhar que o rapaz cuja aparência era extremamente boa (e cujo prontuário dizia o mesmo) morreria durante os exames? Me bata! O hospital estava uma loucura aquela noite e duvido alguém tivesse feito diferente a fim de trazer um pouco de alívio ao coração de uma mãe aflita. E ela sequer me culpara ou acusara de mentir. Apenas sofreu e chorou em meu ombro, conformada.

—Cuidado Reese. Pensar alto pode ser perigoso – alerta Bekke, me tirando do devaneio, me fazendo questionar se verbalizara algum dos meus pensamentos, vendo-a pendurar a bolsa no ombro e sair, usando a outra porta, sequer cumprimentando April e doutor Choi ao cruzar com eles, que entravam.

Nossa, parece que alguém amanheceu de péssimo humor! – April exclama, sorrindo ao me encarar – Bom dia Sarah. Como foi o plantão? – quer saber, despindo o casaco.

—Bem tranqüilo na verdade – respondo, enrugando o cenho – Vão trabalhar hoje? – interrogo, olhando-os.

A maioria dos médicos folgava na quarta-feira, salvo tivesse algum compromisso para o final de semana e não quisesse dobrar o turno ou quando não tirava a folga na segunda após ter dado plantão no final de semana (trabalhávamos dois por mês, alternados ou em sequência a depender da necessidade).

—Uhum. Ethan e eu queremos viajar na sexta a tarde – justifica, misteriosa.

—Entendo – me limito dizer, levantando-me para pegar minhas coisas, tendo novo sobressalto ao me deparar com Monique, que entrara sem que a notasse – Jesus! Que susto! – deixo escapar, levando uma mão ao coração.

—Desculpa. Não foi minha intenção – pede, sorridente, estendendo-me um envelope pardo.

—O que é isso? – questiono-a, aceitando-o, relutante.

—Seu mapa astral – revela e deixo escapar um “Ah” desanimado que parece não a chocar – Pode lê em casa e caso tenha alguma dúvida pode perguntar amanhã. Sei que está cansada e louca para ir para casa depois das emoções de ontem e por ter dobrado o turno, portanto não vou lhe segurar aqui – diz num fôlego só, me deixando zonza.

—Que emoções?? – inquiro.

—Ter salvo a vida do Rhodes pai – doutor Choi elucida, terminando de servir-se um copo de café – E por falar nele, sabe como está? Passou por lá em algum momento? – quer saber, April e Monique atentas a minha resposta.

Inconscientemente, coro.

—Está reagindo bem, pelo que sei e sim, dei uma passada rápida no meio da madrugada – conto, indo até meu armário, abrindo-o.

—Connor e a irmã, como estão? – April pergunta.

—Bem – respondo, despindo meu jaleco – Dentro do possível, evidente – acresço ao notar que os três aguardavam algo mais – A senhorita Rhodes dormia e doutor Rhodes tinha ido pegar café. Disse que estavam suportando bem – relato, pegando minha bolsa.

—Vai lá antes de sair? – Monique quer saber, não me dando chance responder – Porque se for, a aguardo para ir junto– avisa e a olho, confusa – Maggie me comunicou ontem que serei uma das três enfermeiras autorizadas a entrar no quarto dele. Hoje, na parte da manhã, estarei apenas lá e folgarei a tarde. Amanhã, inverto. Até quando, não sei – comunica, April e Ethan ficando surpresos.

—Ué, porque isto agora? – Ethan interroga, se voltando para mim, April fazendo o mesmo.

—Eu....- hesito, indecisa se deveria ou não falar, afinal, tudo não passava de uma suspeita – Olhem só, por enquanto é apenas uma suspeita, mas até se ter certeza, Miss Goodwin e doutor Latham irão limitar o acesso ao senhor Rhodes. E puseram um segurança exclusivamente para ficar de olho no quarto dele e garantir que somente quem tiver autorização entre – confidencio, vendo-os enrugarem os cenhos.

—Que aconteceu Reese? – Ethan pergunta e noto a tensão em sua voz.

—Alguém ministrou insulina sintética ao senhor Rhodes – revelo, deixando-os boquiabertos – Ainda não está confirmado, mas o quadro que doutor Charles, doutor Halstead e eu encontramos e o que nos foi relatado pela senhorita Rhodes, foi de hipoglicemia – revelo – Isto não pode sair daqui! – friso, tensa.

—Fique tranquila Sarah, não comentaremos nada – Ethan garante, April e Monique corroborando com acenos, claramente mudas pela surpresa.

—Obrigada e não vou não Monique – respondo, encarando-a – Estou mesmo muito cansada apesar de o plantão ter sido relativamente tranquilo. Quero ir para casa, tomar um banho, comer algo e dormir – enumero – Amanhã, antes, durante ou ao final, não sei, faço outra visita a ele – digo, refletindo que vinte e quatro horas seria tempo mais do que suficiente para esquecer o que houve. Espero – Bom, vou indo. Tenham um bom dia – desejo, despedindo-me, deixando o local pela mesma porta que a Bekker.

Caminho pela calçada sob a marquise do hospital, abrindo distraidamente o envelope, começando a lê seu conteúdo. Tinha a mania de lê tudo que me vinha a mão mesmo enquanto caminhava. Isto desde muito nova. O que me rendeu algumas situações engraçadas e doloridas até (como da vez que me choquei com um poste!).

Por conta disto, me assusto ao escutar a voz masculina dizer em tom ameaçador, me fazendo estancar e ergue o olhar.

—Não sabe com quem está se metendo moça! Pague o combinado ou arque com as consequências – diz, o dedo em riste, encarando Miss Garrett.

—O combinado seria pago se tivesse feito o serviço direito, o que não foi o caso – rebate ela, erguendo o queixo em desafio.

—Sem essa! Fiz o que me mandaram fazer. Não tenho culpa...- o homem cala-se quando ela ergue uma mão, parecendo notar algo ou alguém (estava meio de lado junto a uma coluna).

—Hã. Algum problema Miss Garrett? – pergunto, supondo ter sido minha presença que notara, ela voltando-se surpresa – Quer que chame a segurança? – ofereço, recuando um passo ao receber o olhar do sujeito.

—Não precisa doutora Reese – dispensa, sorrindo curto – O senhor Lincoln e eu já nos entendemos, não é mesmo? – indaga, voltando a encará-lo, o tal sujeito devolvendo o olhar por um segundo antes de responder.

—Sim – diz, curto, girando nos calcanhares, me fazendo dar dois passos para o lado quando vem em minha direção, passando rápido por mim. Sigo-o com o olhar, assustada, assumo.

—Esses mecânicos acham que só porque somos mulheres não entendemos nada de carros – ouço, dando um pulo curto para o lado, encarando a COO do Med (ela me intimidava um pouco) – Agradeço sua preocupação. Como foi o plantão? O senhor Rhodes está reagindo? – quer saber e enrugo o cenho.

—Até onde sei sim. Meu plantão foi na Emergência e parte na Psiquiatria, não na Cardiologia – lembro-a, notando, ao fundo, um vulto passar ao longe, a roupa e altura lembrando-me da doutora Bekker.

—Sei, mas pensei que iria querer saber como está o homem que ajudou salvar a vida – diz, rindo daquela forma assustadora (segundo a maioria das enfermeiras e devo concordar!).

—Eu... passei no quarto dele rapidamente durante a madrugada. Estava bem, como disse – reitero.

—Bom. Muito bom – diz, mas não sinto muita sinceridade não – Agora nos resta torcer para que tudo não tenha passado de um terrível engano e assim possamos nos entender sem a necessidade de advogados – pondera.

A julgar pelo pouco que ouvi sobre o senhor Rhodes, duvido muito isto acontecer!— Sim – me limito dizer, encarando-a um segundo – Se me der licença, vou para casa – peço.

—Ah, sim, claro. Bom descanso – deseja, dando mais um de seus sorrisos estranhos (e assustadores) antes de me dar as costas e caminhar em direção a uma das entradas do Med.

Durante alguns minutos permaneço parada, sem entender bem por que, meu cérebro tentando me dizer o que havia de errado em toda a cena, desde que a vi discutindo com o tal mecânico, até agora, mas nada de concreto me vinha a mente. Talvez devido ao cansaço.

—Pare de procurar pêlo em ovo Sarah! Vá descansar que seu mal é sono – admoesto-me, suspirando, devolvendo meu mapa astral ao envelope.

Faço o caminho até meu carro apressadamente, destravando-o quando estou perto. Abro a porta do carona, atiro minha bolsa, o envelope e o jaleco fechando-a. A seguir, abro a porta do motorista, entro, ajusto o cinto de segurança, dou a partida, faço a manobra e me direciono para fora do estacionamento, parando antes de acessar a via principal.

Uma nova sensação estranha me toma ao ver o carro da doutora Bekker passar, achando estranho ela ainda estar por perto já que saíra bem antes que eu. Dou de ombros, ligando o rádio antes de acessar a via pública buscando relaxar do já complicado trânsito de Chicago mesmo aquela hora da manhã.

Conto com um pouco de sorte e consigo chegar ao prédio onde moro apenas uma hora e meia após ter deixado o hospital, o que para a cidade é um tipo de recorde. Entro na garagem, estaciono em minha vaga, desligo o carro, mexendo ombros e cabeça circularmente alguns segundos antes de descer.

Pego minhas coisas, travo o veículo e caminho tranquilamente até o elevador, suspirando exasperada ao ver o aviso de fora de serviço.

—De novo! – bufo, rumando para as escadas – Ao menos serve para fazer algum exercício – comemoro, puxando a pesada porta.

Subo devagar, cantarolando uma melodia que ecoava pelas paredes.

—“Just a kiss on your lips in the moonlight, just a touch in the fire burning so bright, and I don’t want to mess this thing up, I don’t want to push too far...- abro a porta de acesso ao andar onde fica meu apartamento, caminhando sem pressa pelo corredor ainda cantarolando baixinho – “Just a shot in in the dark that you just might, be the one I’ve been waiting for my whole life, so baby I’m alright, with just a kiss ... goodnight” – entro no apartamento, atirando as chaves no aparador, me recostando a porta de olhos fechados, rindo pequeno ao me aperceber a letra da canção, que seguia ecoando não somente pelo prédio agora, mas dentro de mim!

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Departamento de Cardiologia do Med (08:34 a.m)

Cornélius Rhodes

Abro os olhos novamente, fitando o teto branco. Fizera isto algumas vezes durante a madrugada, a mais longa de toda minha vida, que eu tenha lembrança. Parecia que nunca mais o dia amanheceria. Igualmente tentara mexer-me, mas também não conseguira o fazer. Era irritante!

Olho de lado (pelo menos isto conseguia fazer!) ao escutar a voz de Connor entre outras que agora começavam a ficar mais claras para mim. Não consegui entender, ainda, o que estava acontecendo, mas seja lá o que fosse, deveria ser muito sério porque em todas as vezes que acordei, tanto Connor quanto Claire estavam no quarto, ela dormindo e ele, relativamente calmo. Isto até aquela médica de cabelos cacheados cor de mel aparecer. Depois disto, ficara inquieto, zanzando de um lado para o outro boa parte da madrugada.

Tentei reclamar, mas nenhum som saia de minha boca e depois de um tempo, acabei desistindo e voltando a dormir. Mesmo porque me sentia estranhamente sonolento.

—A madrugada foi tranquila. Sem sobressaltos ou qualquer alteração no quadro clínico de meu pai – ouço meu filho dizer, a noção de que algo grave havia me acontecido começando a se formar lentamente em minha mente, aliás, essa era outra coisa que notara: minhas idéias estavam lerdas.

—Excelente! – escuto a voz daquele médico, o chefe dele, Latham – Já é um bom sinal o quadro ter-se estabilizado sem que precisássemos aumentar a medicação – diz e novamente tento dizer algo, mas nenhum som sai de minha boca. Nem mesmo um dedo consigo mexer. É agoniante!!

—Olá – um rosto surge a minha frente – Doutor Latham, o senhor Rhodes abriu os olhos – avisa a jovem, voltando a me olhar com um sorriso idiota no rosto, outros rostos surgindo ao lado dela, incluindo meus filhos.

—Hum! – o tal Latham murmura, lançando um facho de luz em meus olhos... Pare com isto idiota! Está me incomodando!— Há reflexos córneanos – diz, e sinto algo pontudo e frio deslizar, alternadamente, na planta de meus pés, me fazendo encolher os dedos – Hum....ja começa apresentar alguns reflexos. Bom. Muito bom – repete e sinto ânsias de gritar, mas no fundo sinto que seria inútil.

—Isto quer dizer que ele está se recuperando? É isso, não é Connor? – Claire pergunta, mordendo o dorso de sua mão direita...Pare com isso Claire. Já lhe disse para não dar este tipo de demonstração de insegurança em público! Ainda que seja um público conhecido...ralho, olhando-a o mais severamente que consigo – Ele entende o que dizemos? Sente dor? Porque está me olhando de uma forma tão agoniada que...Oh, pelos céus Claire, pare!!

—Claire, pare! – Connor verbaliza o que não consigo e pela primeira vez em muitos anos me sinto em sintonia com ele...mesmo que não consiga lhe dizer isto! – Não fique se martirizando com perguntas para as quais não há resposta ainda. Precisamos aguardar. Como te expliquei ontem a noite, as primeiras vinte e quatro horas serão decisivas. Apenas depois disto podemos e devemos começar a fazer alguns questionamentos e saber a real extensão dos danos. Relaxe – Isso, relaxe e pare de falar beste...Espere um segundo! Que história de vinte e quatro horas é esta? E a que danos se refere? O que raios os médicos idiotas deste hospital andaram fazendo comigo??

—Estou tentando Connor, mas... é muito com o que lidar em tão pouco tempo! – resmunga ela e tento (só tento) rolar os olhos a fim de expressar meu tédio – Primeiro toda aquela tensão da cirurgia inicial. Menos de um mês depois, outra cirurgia e agora isso! – aponta para mim e consigo, ao menos acho que consigo, arquear uma sobrancelha, mas ninguém percebe – E ainda tem todos os problemas que resolveram surgir na Dolan justamente agora! Como posso relaxar? Isto sem contar que não consigo mais ter total confiança na equipe deste hospital! – Então somos dois! É pedir muito que me tirem daqui?

—Senhorita Rhodes, sinto muito que estejam passando por isto, mas saiba que tomei todas as providências para que seu pai receba o melhor tratamento que dispomos – Sharon Goodwin declara, surgindo entre meus filhos – Esteja certa de que eu, mais do que qualquer, estou imensamente incomodada com toda está situação. Isto nunca nos aconteceu antes. E para evitar novos incidentes, e não estou dizendo, em absoluto que iriam acontecer, pedi a doutor Latham que determinasse uma equipe apenas para cuidar do senhor Rhodes – avisa, uma pulga começando a morder por detrás de minha orelha – Até seu pai receber alta, terá três enfermeiras a total disposição a começar de hoje. Monique é uma delas – diz, indicando a mocinha com cara de tola ao lado de meu leito – Também peço que limitem o número de visitas – recomenda e suspiro. Tento. Isto é estressante! – Doutor Latham, doutor Abrams e doutor Charles estão a sua disposição para qualquer dúvida ou esclarecimento – os dois médicos inclinando levemente a cabeça – Doutor Rhodes, gostaria muito de poder liberá-lo, mas infelizmente não é possível. O que posso e já farei a partir de hoje, é reduzir seu horário e deixá-lo mais livre...

—Não é preciso Miss Goodwin – Evidente que não. Jamais esperaria que mudasse sua rotina por Minha causa!— Posso dar meus plantões regulamente. Virei nos intervalos e em meu horário de almoço. Na medida em que meu pai for se recuperando, voltarei a rotina de antes e cobrirei qualquer possível falta que precise ter – De que exatamente preciso me recuperar? Não disse que seria liberado, no mais tardar hoje? Que droga aconteceu entre sua saída ontem e agora que vai me fazer ficar mais dias nesta maldita cama? Por que raios não consigo me mexer ou fazer ouvir? E por tudo que é sagrado, daria para mandar esta criatura parar de sorrir como uma demente? Está me irritando!!!

— Se prefere assim – ouço Goodwin dizer e volto atentar-me a conversa deles – Pedirei que instalem uma cama extra aqui, para que possam, o senhor e sua irmã, descansar melhor – avisa, se voltando para Claire – O que precisar, por favor, peça – libera.

—Tudo o que quero é não ter mais um susto como nos últimos trinta dias – responde – E não ter de encontrar aquela mulher aqui dentro novamente! – Que mulher??

—Avisei a doutora Bekker que cuidarei pessoalmente de seu pai senhorita – Latham avisa, me deixando curioso – E evidente, guardada as devidas proporções, doutor Rhodes também poderá fazê-lo mesmo não sendo o mais recomendado – acresce.

—Por falar em recomendação, a minha é que os dois tentem descansar um pouco – o tal Psiquiatra, Charles, acho, diz, entrelaçando os dedos – Há uma equipe cuidando do senhor Rhodes, ele está reagindo bem, pelo que podemos observar, doutor Abrams nos dará seu parecer muito em breve, logo, faria bem a ambos irem em casa, tomarem um banho, comerem algo e descansar. Precisam estar renovados e revigorados para ajudar seu pai em sua recuperação – Alguém, algum momento, irá se dignar me contar o que aconteceu ou terei de ser duro com vocês? Parem de falar por enigmas e me respondam agora mesmo! JÁ!

—Daniel está certo. Monique ficara de plantão aqui na parte da manhã e April a substituirá no meio da tarde. Aproveitem este tempo para se recomporem. Quando retornarem, o quarto já estará preparado para recebê-los mais confortavelmente – Goodwin reforça, sorrindo solicita. Ganhou alguns pontos comigo.

—Eu não sei – Claire diz, insegura, tocando minha mão e me olhando de uma forma estranha.

—Doutor Charles e Miss Goodwin estão certos – Connor afirma, parando ao lado dela e noto que usa a mesma roupa de ontem, quando discutimos – Precisa descansar, se recompor, alimentar-se melhor. Te levo em casa e depois busco para cá – sugere, pondo sua mão sobre a dela, que ainda segurava a minha, e sinto algo se quebrar dentro de mim – Ele vai ficar bem Claire. Monique ficara atenta assim como os demais. Confie – pede.

—Ok – anui, aproximando seu rosto do dele – Me prometa que aquela mulher não porá os pés aqui dentro outra vez! – exige, me deixando surpreso. Que diabos terá acontecido que a fez ficar tão fula com a Bekker? Além do que já sabia sobre ela e eu, evidente.

—Não porá – Connor promete, os dois se encarando um segundo – Vamos? – convida.

—Vamos – Claire concorda, se inclinando para me dar um beijo na face – Voltarei o mais rápido possível pai. Até já – despede-se, voltando-se, Connor envolvendo seus ombros protetoramente, conduzindo-a para fora do quarto.

—Monique, ninguém que não esteja nesta lista entra, e apenas você fara as aplicações determinadas por doutor Latham ou doutor Rhodes e mais ninguém, fui clara? – Goodwin recomenda tão logo meus filhos se afastam.

—Sim senhora – responde a moça, voltando-se para mim quando sua chefe se afasta juntamente com Latham e Charles – Bem, agora somos só nós dois, senhor Rhodes. Não se preocupe, vou cuidar do senhor como se fosse meu pai! – afirma, unindo as mãos, me dirigindo mais um daqueles sorrisos tolos.

Eu supostamente deveria me sentir bem com isso? Pare de rir criatura!! Connor, diga para essa mulher parar de rir feito uma idiota! Connor, está me ouvindo? , peço ao vê-lo retornar, pegando algo na mesa ao lado do leito.

—Até mais pai. Monique cuidara bem do senhor – diz, sorrindo para a garota, que retribui, mantendo o riso ao se voltar para mim.

—Enfim, sós! – exclama – Tenho um ótimo livro aqui comigo. Trouxe por pura coincidência sabe. Uma amiga emprestou. Fala sobre alma, vidas passadas e carma. Vai gostar de ouvir – afirma, indo até o que julgo ser sua bolsa, sacando um livro com no mínimo, pelo que consigo avaliar, umas mil páginas.

Essa não! Connor, volte já aqui e leve essa maluca embora! Connor!! Volte agora mesmo! Não faça isso comigo. Tire essa mistura de Poliana madame Mim daqui agora mesmo! Connor!! Connor!!! CONNOR!!

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Residência Rhodes (09:00 a.m)

Connor

—Entre – Claire convida e, após hesitar um pouco, acabo aceitando.

Durante todo o trajeto até a casa de nosso pai (e dela), insistira para que ficasse com ela lá ao invés de ir para meu apartamento justificando que era bem mais perto (o que não era verdade), que precisava descansar bem mais do que ela (o que era verdade), que deveríamos nos apoiar naquele momento, que precisávamos da companhia um do outro (o que também era verdade) e por fim que Carlota dissera que prepararia meu prato predileto com aquele tempero que só ela sabe para o almoço. Cedi.

Não era nada fácil entrar ali. Por diversas razões. A morte de nossa mãe e a recente discursão com meu pai acerca de seu envolvimento com Ava entre elas. Sem contar que ficaria imaginando a própria Ava caminhando pelos cômodos da casa.

—Nem preciso dizer, mas ...a casa é sua – Claire diz, sorrindo gentil ao entrarmos, Carlota surgindo segundos depois.

—Bom dia Claire, Connor. Como estão? – pergunta, recebendo o abraço de minha irmã.

—Cansados, famintos, precisando de colo! – Claire enumera e estico os lábios em um riso silencioso, admitindo, intimamente, que estava mais do que certa.

—O seu pai, como está? – quer saber, afastando-a minimamente, me dirigindo um olhar tenso.

—Recuperando-se – respondo, deixando minha mochila cair no chão, atendendo o chamado que Carlota fazia com uma mão.

Me deixo envolver em um abraço duplo, aconchegante, carinhoso que me traz conforto e um pouco de alívio. Durante um tempo impreciso me permito permanecer ali, acolhido, sem que nada fosse me pedido em troca a não ser receber o carinho destas duas mulheres incríveis que um dia abandonei por não ter forças enfrentar meu pai.

—O almoço está quase pronto. Tomem um banho, se troquem...acho que tenho tem alguma coisa sua em seu antigo quarto Connor. Só não sei se irá servir. Está tão lindo, meu querido! – Carlota elogia e rio, desfazendo o contato.

—Não se preocupe, tenho roupa limpa em minha mochila – aviso, me inclinando a fim de pegá-la – E prefiro usar o quarto de hóspedes. Ainda tem um quarto aqui embaixo? – indago, pendurando a mochila, olhando de uma para outra.

—Sim. Fique à vontade – Claire informa – Vou subir e tomar um banho. Te encontro na sala de jantar?? – pergunta.

—Pode ser. Ou na cozinha – dou de ombros.

—Temos uma sala menor, anexa a cozinha, onde costumo comer quando papai não está em casa – Claire avisa, caminhando em direção as escadas – O quarto agora fica ali – indica o corredor curto que leva a piscina – Papai mudou na última reforma que fez – revela e arqueio a sobrancelha.

—Ele fez reforma na casa? Não notei – admito, correndo o olhar em volta enquanto caminhamos.

—Fez. Duas. Nada muito significativo – diz, enrugando o nariz em uma careta – já volto – avisa, subindo as escadas.

—Segunda porta a direita – Carlota avisa – Vou terminar o almoço. Fiz aquele arroz cremoso que você tanto gosta e macarrão ao molho sugo. Ainda gosta, não é? – pergunta, séria.

—Feito por você, como até sopa de prego! – brinco, pegando-a de surpresa com um beijo na bochecha – Até já – digo, seguindo na direção indicada.

No quarto, abro a mochila, observando a decoração. Evidente que fora Claire a escolher a decoração. Era tudo muito clean, claro e moderno criando um ambiente aconchegante e tranquilo. Pela janela era possível ver parte da área externa aonde um jardim bem cuidado exibia algumas poucas flores, o perfume doce lembrando-me algo. Melhor dizendo, alguém: Reese.

—Por que raios foi beijá-la Connor? Onde estava com a cabeça? – me recrimino, atirando a roupa limpa com força sobre o colchão – Não deveria ter feito. Foi uma grande, enorme, estupidez! – prossigo, irritado comigo mesmo – E agora, como vai ser? O que vai dizer a ela? Vai pedir desculpas por tê-la beijado ou simplesmente fingir que não aconteceu? Honestamente, não sei o que seria pior! – bufo, despindo a jaqueta e logo em seguida a camisa de meu pijama cirúrgico, atirando um sobre a cama e a outra ao chão – Devo ter batido todos os recordes de burrice nos últimos meses! Só fiz besteira, uma atrás da outra. Impressionante – resmungo, sacudindo a cabeça negativamente, despindo ao mesmo tempo calça e cueca caminhando, nu, para o banheiro a minha frente.

Fecho a porta (mesmo sabendo que Carlota ou Claire avisariam antes de entrar), entro no box, me posiciono embaixo da ducha e viro o registro de uma vez fazendo o jato forte ser expelido de uma vez sobre mim. Apoio as mãos a parede deixando-o atingir meus ombros e parte das costas durante alguns minutos, levando embora parte da tensão acumulada em meus músculos nas últimas horas para somente então erguer a cabeça.

Faço uso do shampoo, creme e sabonete líquido ali disponíveis, o perfume suave novamente me fazendo lembrar dela.

—Mas que droga Connor, pare com isso!! O beijo nem foi tão bom assim – minto, fazendo minha cabeça pender em direção ao peito em desânimo – A quem estou querendo enganar? – questiono-me, puxando o ar com força, esfregando a esponja em meu corpo vagorosamente.

Evidente que fora bom, mesmo não tendo sido sensual ou apelativo. Foi bom, ponto!

Bom como uma tarde límpida e quente de verão. Bom como o amanhecer após uma noite chuvosa que deixa aquele cheiro de terra molhada, onde se pode sentir tal coisa, claro. Bom como a brisa suave e as ondas lambendo suas pernas em um final de tarde. Bom como as coisas mais simples costumam ser .

Simples. Essa era a palavra chave aqui. Simples. Não planejamos, ela ou eu, não quisemos mais do que houve, sem exigência em ser correspondido...

—Apenas um homem e uma mulher que se conhecem e têm algo em comum compartilhando um momento de solidariedade e empatia um com o outro, nada além disto – enumero, pendurando a espoja, ligando a ducha novamente para retirar a espuma – Nada de flerte ou segunda intenção que sugira um envolvimento futuro. Apenas um beijo de boa noite entre amigos que se querem bem. Isso! – exclamo, satisfeito, finalizando meu banho.

Enrolo uma toalha a cintura enquanto enxugo rosto, dorso e cabelo com outra, parando diante do espelho, fazendo uma careta em desagrado ao que via. Minha barba e cabelo estavam uma bagunça, tinha olheiras profundas e parecia um fantasma de tão abatido e pálido que estava. Era impressionante o que uma noite de agonia podia fazer com você. Não consegui relaxar um segundo sequer. Mesmo as poucas vezes em que cochilei, acordava rápido, assustado, indo verificar meu pai e Claire. Se estavam bem, se respiravam, se o coração batia, especialmente o dele (cheguei a este nível de neura!), se ninguém havia entrado no quarto. E depois que Reese se fora, não conseguia me acalmar pensando nela, no sabor e calor de seus lábios, na forma doce que havia correspondido, em como se entregará ao contato relativamente rápido sem tentar me prender...

—Droga!! – resmungo, sacudindo a cabeça com mais firmeza – Droga, droga, droga!! – repito, abrindo o armário sobre a pia, retirando uma tesoura pequena, pente e aparelho de barbear.

Não iria remover minha barba (ainda), mas precisava desesperadamente ocupar minha mente para esquecer aquele beijo e apará-la iria me obrigar ficar concentrado. O que de fato acontece. Durante alguns bons minutos, tudo que penso é em não causar nenhum estrago em minha já estragada aparência.

Quando me dou por satisfeito, limpo a pia, lavo o rosto, penteio o cabelo, passo loção e saio do banheiro, me surpreendendo ao encontrar as roupas limpas cuidadosamente arrumadas sobre a cama enquanto as sujas sumiram. Sorrio ao me dar conta que Carlota entrara no quarto e eu, em meu devaneio, sequer a escutara pedir licença (coisa que certamente havia feito. Mais de uma vez até!).

Me visto rapidamente, usando a sandália que deixara ao invés do sapato, dando a meus pés um merecido respiro.

Refaço o caminho até a sala notando alguns quadros pelo corredor, a assinatura em três chamando minha atenção. Examino-os um segundo, voltando a caminhar quando escuto as vozes de Claire e Carlota. Sigo-as, encontrando a tal sala anexa a cozinha da qual falara.

—Desculpem a demora. Parece que estava precisando de um banho mais do que imaginava – peço, beijando o topo da cabeça de minha irmã antes de me sentar na cabeceira da mesa para poder vê-la melhor.

—Tudo bem. Acabo de descer também. Russel me ligou quando entrava no quarto e me atrasei um pouco – relata ela, mordiscando uma torrada – Ele queria saber notícias do papai e me passar algumas informações da loja. Pedi que viesse aqui por volta da treze, treze e trinta. Não se importa, não é? – quer saber, não me dando tempo responder – E se por acaso demorarmos ou ficar entediado, pode voltar ao hospital antes de mim. Vou no meu carro depois – libera e anuo, imitando-as, erguendo as mãos quando Carlota começa servir a mesa.

—Ok – digo esfregando as mãos uma na outra, tirando o pó da torrada.

—Tomei a liberdade de lavar sua roupa e deixar uma sandália no quarto. Bati, mas acho que não escutou – avisa nossa governante.

—Não mesmo – confirmo, aspirando o cheiro da comida caseira – Nossa, meu estômago até roncou agora! – digo, esfregando a barriga, fazendo as duas rirem – Posso? – pergunto, segurando a colher.

—Deve. Está magrinho demais. O que anda comendo? Folhas? – ralha, observando Claire e eu nos servirmos.

—Muito provavelmente Carly. Isto quando come – Claire exagera e faço uma careta.

—Nem tanto. Como bem sim, mas nem sempre nos horários certos – justifico-me, levando uma generosa colherada a boca, quase babando – Nossa! – exclamo, de boca cheia, mastigando devagar – Nossa, nossa, nossa! – é tudo que consigo dizer, ambas rindo mais uma vez, satisfeitas.

Tomamos a refeição em relativo silêncio, o som da televisão, baixinha, ali perto sendo o único a se ouvir em alguns momentos. Quando terminamos, faço questão de ajudá-la na limpeza enquanto Claire enche duas taças de sorvete de creme com passas e rum, meu favorito.

Comemos a sobremesa não tão em silêncio, rindo e recordando momentos de nossa infância. Ao final, Carlota insiste para que descansemos, os dois, no sofá ou nos quartos e obedecemos sem discutir, optando pelo quarto de hospedes. Nos deitamos juntos na cama, conversando mais sobre passado e presente. Envio uma mensagem a Monique para saber de nosso pai, ela nos acalmando, garantindo estar tudo bem. Relaxamos e entre mais conversa, adormeço sem sentir, despertando muito tempo depois.

Sento-me na cama, ainda ofegante pelo sonho ruim. Não chegara a ser um pesadelo, mas fora desagradável. Busco Claire, mas não está no quarto. Olho o relógio em meu pulso, espantando-me com o adiantado da hora. Passava, e muito, das três da tarde.

—Nossa! – exclamo, levantando de um salto.

Procuro meu sapato e mochila, encontrando-os sobre e sob uma cadeira junto a janela, meu pijama cirúrgico passado e dobrado em cima dela. Sorrio, caminhando até lá. Sento-me após guardá-lo. Calço o sapato, ponho-me de pé e arrumo a camisa antes de deixar o cômodo.

Sigo para a sala, encontrando o mais completo silêncio. Perscruto o ambiente a procura de minha irmã ou Carlota sem encontrar. Resolvo ir à cozinha, encontrando a segunda.

—Carlota, onde está Claire? Por que não me acordaram? – pergunto, me servindo um copo com água.

—Estava precisando descansar meu bem e sua irmã achou melhor não te acordar quando fui avisar que Russel havia chegado – justifica, sorrindo gentil – Estão lá no escritório de seu pai, conversando – avisa.

—Vou falar com ela. Obrigado – agradeço, pegando uma maçã e piscando para ela ao sair.

A lembrança da noite em que conversamos sobre ele e Ava ressurgindo sem que pudesse impedir enquanto me aproximo do cômodo . Respiro fundo, espantando tais memórias para longe, dando uma leve batida na porta antes de entrar.

—Oi – cumprimento os dois ao me aproximar, beijando o rosto de minha irmã.

—Oi belo adormecido! – brinca, me fazendo uma carícia no rosto – Está com uma aparência mil vezes melhor – afirma, tocando o assento da cadeira a seu lado – Sente-se um pouco. Acabei de ligar para o Med e April me garantiu que está tudo bem. Ele já foi medicado, doutor Latham e doutor Abrams examinaram e fizeram mais testes. Ela falou que irão falar conosco quando chegarmos, mas pelo que entendeu teremos muito boas notícias – relata, olhando em meus olhos quando sento-me, respirando aliviada – Senti como se um peso enorme saísse de meus ombros Connor. Tive tanto medo de perdê-lo. Sei que não, nem de longe, o melhor dos pais. Tem uma montanha de defeitos....

—O pico do Everest, eu diria! – Russel exclama e rimos.

—Mas ainda assim é nosso pai – completa ela, segurando minha mão – E sei que você, do seu jeito, também está feliz em saber que ele vai se recuperar – diz, sorridente.

—Estou, não nego – admito – Temos nossas diferenças. Grandes e muitas diferenças. Mas estou feliz sim que está reagindo. Ainda assim devemos nos preparar para as sequelas que irá ter, porque ele terá Claire. Quais e em que nível é o que iremos descobrir quando estiver mais consciente – afirmo, minha atenção sendo chamada pela enorme quantidade de papeis dispostos sobre a mesa – Parece que vocês têm muito trabalho acumulado. Se quiser ficar mais um pouco, vou na frente. Depois venho te buscar ou, se preferir, vai no seu carro – sugiro, pegando uma apostilha por curiosidade.

—Na verdade – começa e pelo tom que usa, pressinto um pedido a caminho – Gostaria de sua opinião em uma coisa – diz.

—Duas, na verdade – Russel a corrige.

—Duas – repete minha irmã, me dirigindo um olhar no melhor estilo gato de botas.

—Manda! – digo, deixando a pasta de lado, encarando-a.

—Bem...- recomeça, cuidadosa, o que somente aumenta minha desconfiança – Não sei se lembra quando te falei que as vendas na Dolan estavam caindo – relembra e anuo com um aceno – Também falei na época, que não era nada que pudesse abalar nossa fortuna e continua assim. Mas não quero ter de demitir alguém porque papai julgar que está fazendo corpo mole – diz, fazendo aspas no ar – Também não quero mentir para ele novamente – emenda e a olho surpreso – Foi só uma vez e por motivo justo – assegura.

—Não estou dizendo nada! – defendo-me, erguendo as mãos, controlando o riso.

—Mas isto não vem ao caso agora – diz, tomando fôlego novamente, a batida na porta adiando a conversa.

—Um cafezinho com bolo – Carlota entra, com uma bandeja caprichada, pondo-a sobre uma mesinha de apoio, saindo tão rápido quanto entrou.

—Sempre discreta e carinhosa, a doce e prestativa Carlota – Russel elogia.

—Sim – Claire e eu anuímos – Bem, como estava dizendo, antes de toda esta loucura nos atingir, propus ao papai que abríssemos uma espécie de franquia ou anexo a Dolan com produtos de qualidade, porém com preços mais acessíveis ao grande público – revela.

—Seria um tipo de Dolan segunda ou, se ele não quisesse ligar o nome tradicional a este um comércio mais popular, por assim dizer, podemos pensar em algo, uma solução sem que precise se criar uma nova empresa, o que geraria muitos ônus, os quais não desejamos neste momento – Russel segue, empolgado.

—A Dolan tem modelos exclusivos de marcas e grifes famosas. Nossos modelos são únicos e por isto mais caros – Claire reassume a narrativa – Existem vários jovens estilistas que venderiam um rim para ter seu nome ligado a Dolan Rhodes mesmo que sendo um anexo. Garantiremos a qualidade e um tipo de exclusividade a preço mais baixo sem comprometer a imagem da loja, o que papai não queria em hipótese alguma – conta, pegando a pasta que eu largara a pouco – Aqui está todo o projeto, os desenhos e planos feitos pela mesma firma de arquitetura que projetou e cuida da Dolan Rhodes até os dias de hoje. Faz nossas reformas e mudanças de fachada, e tudo o mais – abre-a, espalhando seu conteúdo de forma ordenada – Já temos até um prédio em vista, vizinho nós. Falei com o proprietário e chegamos a um preço justo. Usaremos os três primeiros andares como loja e os demais como depósitos – explica, pegando outra pasta.

—Estávamos precisando ampliar o atual mesmo e ao invés de reformar outra vez, podemos usar novos e mais acessíveis que os atuais – Russel completa, ajudando-a abrir uma planta.

—Este é o primeiro esboço que havia combinado apresentar ao papai na próxima semana, mas agora...- suspira, olhando o projeto com tristeza.

—Em que exatamente quer minha ajuda? – quero saber, fazendo-a mudar de postura, sorrindo novamente.

—Então... quando propus ao papai ele detestou! Achava que iria comprometer o nome da família e tal. Disse que não investiria um centavo sequer nessa maluquice – conta, arrumando o cabelo – Então fizemos um acordo: se eu conseguisse levantar o capital que precisava para dar a partida, ele abraçaria a causa, por assim dizer e eu consegui Connor! Russel e eu conseguimos um empréstimo junto ao banco para dar mais do que o pontapé inicial – diz, triunfante.

—E onde me encaixo nisso tudo? – reitero, entendendo menos ainda.

—A Dolan é uma herança de familiar que seu pai administra. Menos sendo majoritário e não tendo de dar satisfações a ninguém de seus atos, Cornélius sempre consulta a família quando quer tomar uma decisão importante – Russel explica.

—E são justamente estes parentes que estão me boicotando – Claire bufa – Estavam quietos e haviam concordado com a condição imposta, mas desde que souberam da condição de saúde do papai, e nem me pergunte como descobriram isto – avisa, erguendo as mãos – O fato é que agora eles querem contestar o que já estava praticamente certo com papai e isto está me tirando do sério!! – admite, rolando os olhos.

—Os abutres já começaram a rondar!! – Russel diz, torcendo o nariz.

—E acha que vão me dar ouvidos? Sério Claire? – inquiro, incrédulo.

—Connor, vou te contar um segredo: por mais que eu faça, por melhor administradora que seja, mesmo que eu prove por A mais B, não sou homem e para nossos tios, isto é tudo que importa – diz, o tom amargo não me passando despercebido – Mesmo para papai é assim. Tenho certeza de que se fosse você a sugerir isto, ele iria fingir não aprovar, te irritar um pouco e depois fazer o que lhe pedia. É assim que as coisas funcionam no mundo dos negócios -arremata.

—É assim que as coisas funcionam no mundo dos Rhodes, quer dizer – rebato, irritado, digerindo as palavras dela antes de falar – Vou te ajudar e quando nosso pai sair daquela cama o farei te pôr a frente dos negócios e nem tente me convencer do contrário! – alerto, erguendo o indicador – É você quem esteve ao lado dele todos estes anos e não eu. Você entende e está mais do que capacitada para assumir a Dolan a qualquer momento e ele ou qualquer outro não reconhecer isto é uma vergonha, uma falta de respeito com você. Vou dar um basta nisso tão logo seja possível – sustento, ela abrindo um lindo sorriso.

—Obrigada – agradece.

—De nada, mas não precisa agradecer. O nome disto é justiça – afirmo, piscando – Agora me expliquem o que pretendem – peço, voltando atenção as diversas pastas.

—No que se refere a roupas é o que falamos: vamos firmar contrato com jovens estilistas para ter peças não tão exclusivas para baratear os custos. Já na área de perfumaria estou pensando em algo diferente porque mesmo a linha de cosmético e perfumes destas marcas famosas são bastante caras. Teremos alguma coisa, até por termos uma relação antiga. Mas quero inovar e trazer algo novo e igualmente acessível então andei pesquisando e descobri duas perfumarias de excelente qualidade no Brasil. Já entrei em contato com ambas para ver a possibilidade de uma parceria ou algo assim — relata.

—E mesmo que não caiam, os perfumes e maquiagens, no gosto das americanas, temos um bom público de latinos na cidade e podemos apelar a eles — Russel pondera.

—Quais perfumarias? – quero saber.

—Natura e O Boticário – responde, me estendendo dois folders – Agora só preciso ver questão de valores, se vale mesmo a pena para o que pretendo, entende? – pergunta.

—Uhum – respondo, concentrado em lê os prospectos – Conheço alguns perfumes de ambas, do tempo que morei no Brasil. São boas marcas. Se conseguir um valor legal, justo, vai ser bem interessante e acredito que irá agradar ao público americano se vocês usarem o apelo ecológico já que ambas, pelo pouco que li aqui, tem sua base na natureza e preservação – comento, tomando o café de um só gole.

—Já temos uma base para trabalhar aqui – Russel comemora.

—Que mais têm em mente? – questiono-os, os dois me explicando detalhadamente (muito embora eu não entenda metade do que falaram!) sobre seus planos.

Uma hora e meia (e muito café!!) depois, estamos saindo de casa rumo ao hospital.

Estaciono em minha vaga, pego minha mochila, Claire sua valise e seguimos lado a lado, conversando mais um pouco sobre a Dolan.

—Quero deixar claro, Claire, que tão logo resolvamos essa questão com os pseudo-sócios do papai, tiro meu time de campo – friso, olhando-a de soslaio – Sabe que não é o que gosto de fazer. Não irei me afastar da Medicina – reforço o que lhe dissera em casa.

—Jamais te pediria isto Connor – garante – Só quero seu apoio ... e talvez contar com sua presença na inauguração – insinua, segurando minha mão.

—Hum, já começou a exploração!! – a provoco, parando para abrir a porta, ela entrando antes de mim, seguindo direto para o elevador.

Quando estamos entrando, escuto chamarem e estanco, usando as mãos para reter as portas.

—Connor, boa tarde– Robin cumprimenta, sorrindo para minha irmã – Olá Claire, como está? – pergunta.

—Indo – responde – E você? Parece feliz – comenta.

—Admito que estou. Meus pais resolveram se reconciliar – conta, dirigindo seu olhar para mim – Como sabe, ela está com câncer e o tratamento não está surtindo o efeito desejado. Então meu pai decidiu que iriam aproveitar o que resta de seus dias juntos, a pediu em casamento outra vez, ela aceitou e agora os dois irão renovar os votos, por assim dizer – revela.

—Meus parabéns – digo, sincero.

—Obrigada, mas não foi por isto que te chamei. Teria um tempinho para conversarmos? – pergunta e olho para Claire.

—Pode ir. Vou subindo. Dê meus parabéns a seus pais Robin – minha irmã pede, acenando antes de as portas fecharem.

—Ela me parece bem, apesar de tudo – comenta, me encarando – E você também.

—Precisava ter nos vistos algumas horas atrás!! Parecíamos dois personagens fugitivos de The Walking Dead– brinco, rindo junto com ela.

—Imagino – diz, ficando séria logo a seguir – Tomamos um café? – convida.

—Água ou suco, porque se tomar mais café, viro zumbi – dramatizo, sinalizando para que fosse a frente.

No caminho para a pequena cafeteria ali perto, me conta um pouco mais sobre o pedido de Daniel e onde iria celebrar (a idéia dele era irem para o Havaí, mas Cecile o demovera) e que não nos convidaria, de imediato, por conta da situação de meu pai, o que compreendo.

Somente quando nos sentamos revela o real motivo para esta conversa: nós.

—Quero que saiba que não foi fácil tomar a decisão que tomei meses atrás. Há muito tempo não me sentia tão apaixonada por alguém como me senti por você – afirma, me deixando triste por usar o termo paixão, não amor – Mas hoje vejo que voltar para Minneapolis foi a melhor decisão para nós dois e te agradeço por ter respeitado minha escolha mesmo após haver descoberto para onde tinha fugido – brinca.

—Também acho – minto, em parte. Não tenho certeza ter sido tão bom assim para mim já que entrei em um tipo de modo autodestrutivo – Admito que não foi fácil não ir. cheguei até comprar a passagem, mas desisti – revelo, omitindo o fato que fora um atendimento feito por mim naquele dia que me fez repensar a decisão de procurá-la.

—Cerca de três meses depois que cheguei na cidade, conheci uma pessoa – revela, cuidadosa – Era um dos médicos que cuidava de minha mãe. Não tínhamos nada além de relacionamento médico-filha de paciente no começo, mas aos poucos fomos nos envolvendo. Mark é um homem incrível, um profissional dedicado... lembra muito você em alguns momentos – diz e sorrio sem vontade – Quando mamãe decidiu vir a Chicago, ante a possibilidade de nos reencontrarmos, mesmo sabendo que poderia estar envolvido com outra pessoa, pedi a ele um tempo – para, estalando os dedos, parecendo escolher as palavras a dizer – Te vê mexeu comigo. Muito – admite, me olhando nos olhos.

—Comigo também – confesso, sustentando seu olhar.

—Saber de seu envolvimento com Ava meio que diminuiu meu entusiasmo, mas ainda assim pensei em tentar – afirma, sorrindo de maneira travessa – Confesso que tinha segundas e até terceiras intenções quando te convidei para comemorar seu aniversário ontem – revela – Mas aí aconteceu tudo aquilo com seu pai.... e ontem a noite, enquanto presenciava meus pais se entenderem pela segunda vez, percebi que era aquilo que queria para mim. Quero alguém que me transmita segurança, conforto, tranquilidade e infelizmente senti que isto é algo que você não pode me dar. Não ainda. E não sei se quero arriscar uma nova decepção– completa e sinto o peito apertar – É um homem maravilhoso, Connor, mas enquanto não curar seus ferimentos internos, enquanto não se desprender do passado e principalmente enquanto não decidir o tipo de relacionamento que deseja para si, não vai se sentir completo e feliz ao lado ninguém. Sabe a que me refiro, não sabe? – inquere e anuo.

—Acredito que sim – digo, apertando meus lábios. Claire dissera-me algo parecido algum tempo atrás.

—Eu sempre terei um carinho especial por você e espero que sinta o mesmo por mim, apesar de tudo...

—Lógico que tenho Robin. Por que acha que quase enlouqueci ante a possibilidade de ter sido sequestrada? – interrogo, o episódio passando rapidamente em minha mente.

—Eu sei – garante, pondo sua mão sobre a minha – E por este carinho que estou aqui, sendo o mais honesta possível com você – garante, baixando e erguendo o olhar rapidamente antes de prosseguir – Por uma destas coincidências malucas que somente a vida consegue fazer, ontem a noite, depois que soube o que acontecera a seu pai, vim até aqui, mas meu carro quebrou logo que deixei a garagem do prédio onde moramos e graças a isto não me desencontrei de Mark – revela, respirando fundo – Ele veio a cidade para um curso e resolveu me procurar. Acabou me socorrendo. Saímos. Jantamos. Contei a ele tudo que se passava inclusive meus planos para aquela noite – faz uma pausa, o brilho em seus olhos me dizendo, antes mesmo que ela o fizesse, que não haveria uma segunda chance para nós – Acho que já sabe o que tenho a dizer não sabe? – inquere outra vez, segurando minha outra mão.

—Sei – confirmo, triste, suspirando — E entendo – garanto – Espero que ele te faça muito feliz, porque senão vou até Minneapolis quebrar a cara dele! – ameaço, fazendo-a rir.

—Fará, sim – afirma, me olhando carinhosamente – E estou certa que irá encontrar alguém que te faça também – diz, inclinando-se até me dar um selinho um pouco mais demorado – Fique bem Connor – deseja, levantando-se. Faço o mesmo.

Nos despedimos com um abraço demorado. Sigo-a com o olhar até que sumisse de vista. Pago a conta, caminhando em silêncio de volta ao Med, refletindo em tudo que dissera.

Paro na Emergência, avisando a plantonista que iria dobrar o turno a começar pelo da noite. Vou ao banheiro, troco de roupa pondo a de trabalho seguindo para a sala dos médicos. Guardo minha mochila e me dirijo para o elevador, continuando, lá dentro, a refletir o que ouvira de minha ex bem como a relembrar os três últimos meses em especial.

Ao chegar no andar da Cardiologia, logo que deixo o elevador, noto uma movimentação estranha e sinto um calafrio na espinha. Corro em direção ao quarto de meu pai, respirando aliviado, confesso, ao descobrir não ser lá o motivo da agitação. Solto o ar que mal notara ter prendido, seguindo primeiro até o quarto onde alguns médicos e enfermeiras se encontravam, aguardando se precisariam de minha ajuda, indo ao encontro de minha irmã quando a situação já estava controlada, a lembrança rápida de um beijo de boa noite me atingindo quando abro a porta.

É Connor, parece que não vai ser tão fácil assim esquecer este simples e inofensivo beijo de boa noite afinal!!

“....I know that if we give this a little time;

It will only bring us closer;

To the love we wanna find;

It’s never felt so real;

No, it’s never felt so right....;

Oh, let’s do this thing right;

With just a kiss goodnight;

With a kiss goodnight;

Kiss goodnight”

Notas finais
Até breve. Bjinhos!!