Caminhos para o coração

4 Good daughter always back to home


Notas iniciais
Eu voltei!! Em dose dupla hoje pra compensar um pouco minha demora em todas as fics. Como expliquei a pouco em A Outra, estou tentando escrever vários capítulos para tentar começar diminuir estes atrasos mas não é fácil!! Sempre acontece algo pra atrapalhar. Até os benditos pernilongos não me dão trégua!! Mas chega de enrolar, como o titulo diz, Sarah está de volta ao Med! E já volta ao lado de Connor(Oh, sonho meu que nunca se realizou :( !!! Nunca vou me conformar). Bem, na série um cara fez todos de reféns por causa da namorada e por coincidência no mesmo dia em que dad Rhodes passou mal e precisou de cirurgia. Aqui também vai ter arma e cirurgias mas não pelo mesmo motivo. E terá Connor na cardiologia novamente. No próximo capitulo darei mais detalhes do que acontecerá neste e outros fatos se desenrolarão. Estou seguindo meus instintos aqui pois não faço a menor idéia de qual desculpa esfarrapada aquelas antas escritoras da série usarão para justificar a saída de Connor e até da víbora da Ava. Desculpa quem simpatiza com ela, mas é difícil vê-la como inocente na morte de dad e outras coisas que aconteceram. Aqui não será, já aviso e não porque não goste dela, basta vê a série e verão que culpar outra pessoa será no mínimo ridículo! Vou parar porque este assunto me irrita profundamente. Se morasse por lá já teria espancado aqueles lerdos duma figa! Minha vingança, doce vingança, será ver a série definhar lentamente sem meus dois amores por lá. Aliás, vê não porque não acompanharei a S5...só verei algum ep se um dos dois, ou os dois, fizerem parte. Nada mais. Mas vamos ao que interessa. Obrigada pelas rewiews.... Aguardo e espero que continuem porque preciso muito do retorno de vocês (em todas mas aqui em especial)....espero que gostem ....Boa leitura...Bjinhos flores

“I was walking down the street the other day;

Trying to distract myself;

But then I see your face;

Ooh, wait, that´s someone else;

Trying to play it coy;

Trying to make it disappear;

But just like the battle of Troy;

There’s nothing subtle here...”

Bad Liar

Selena Gomez

Cafeteria Chicago Noir (sexta, 12/4/19- 9:55 a.m)

Sarah

—Não olhe agora Sarah, mas aquele coroa do qual te falei outro dia voltou! – o comentário feito por Beca, minha colega de turno na cafeteria, faz com que me volte olhando o salão como um todo, tentando descobrir a quem se referia posto que da última vez não consegui ver sobre quem falava – Acho que ele está te paquerando!! Não te falei que este novo corte iria te trazer sorte? Ficou ainda mais bonita do que já é – acresce e rio sem vontade, entregando o copo de papel com o café fumegante ao cliente da vez.

—Seu café – chamo atenção do homem, que desvia os olhos do celular apenas o suficiente para pegar o pedido e me agradecer.

—Obrigado – diz, já me dando as costas e saindo apressado.

—Próximo – chamo, retendo o ar ao ver quem se aproximava do balcão – Bom dia. Qual seu pedido senhor? – digo, agradecendo por minha voz, sair natural sustentando o olhar inquisidor de ninguém menos que Cornelius Rhodes!

—O que recomendaria? – devolve, me encarando.

—Se gostar do tradicional temos o expresso simples ou duplo. Se preferir algo mais leve temos o late em duas versões. Se preferir arriscar ou algo mais adocicado e com toque de canela temos desde o cappuccino ao mocha – sugiro, agradecendo mentalmente por minha voz soar normal.

Mesmo o tendo visto algumas poucas vezes e de longe, este homem causava-me temor. Não medo, medo. Temor. Não sei bem o porquê, mas era assim que me sentia.

—Vou querer um mocha, para sair do tradicional cafezinho – decide (finalmente).

— Pequeno, médio ou grande? – pergunto, mostrando-lhe as opções em copos sobre o balcão, ele indicando o médio – São doze dólares – cobro, recebendo a nota de cinquenta que me estendia – Seu troco – entrego-lhe juntamente com uma ficha – Pode aguardar aqui ao lado. Seu pedido será entregue em alguns minutos – aviso, me voltando para a fila outra vez – Próximo – chamo, sentindo seu olhar sobre mim..., Mas que merda!! Com tantas cafeterias em Chicago ele tinha de vir justamente nesta!!, resmungo mentalmente, sacudindo a cabeça antes de dar atenção pra loira a minha frente.

—Por que está aqui? – ouço a pergunta e volto a cabeça em direção ao Rhodes pai, franzindo o cenho – É médica não é? – inquire e anuo lentamente, querendo saber aonde pretendia chegar – O que uma médica faz servindo cafés ao invés de salvando vidas? – reformula a questão, apoiando-se ao balcão sem nunca deixar de me olhar.

—Trabalhando para pagar as contas, é isto que uma médica desempregada faz servindo cafés! – respondo, levemente mal-humorada. Que merda ele tinha a ver com o que faço ou deixo de fazer com minha vida?

Depois de aguardar por um mês inteiro o telefonema de Miss Garrett, de tentar uma vaga em outro hospital quando percebi que este não viria e me decepcionar a cada Não recebido, aceitará a oferta de emprego feita pela irmã de minha vizinha. Se estivesse em meu período paranóico diria que fora feito um complô contra mim ou alguém propositadamente espalhara algum boato ou mesmo meu histórico pelos hospitais da cidade. O lado negativo apenas.

—Hummm.... entendo – diz de uma maneira que me faz questionar se não teria verbalizado meus pensamentos – Até qualquer dia doutora Reese – despede-se após receber seu pedido, sorrindo de forma misteriosa, piscando antes de me dar as costas, deixando-me confusa.

—Não falei que estava te paquerando!! – Beca cochicha – Que sortuda hein. Chamar atenção justamente de um dos homens mais ricos da cidade! Inveja branca viu!! – declara em tom de brincadeira e rio sem vontade, tentando imaginar o que levara Cornélius Rhodes até ali.

Sigo meu turno normalmente depois que o pai de Connor vai embora. Bem, nem tão normal assim já que a “visita” do senhor Rhodes me trouxe o filho e doutor Charles a mente. Um pela noite e dia que passara a meu lado em casa e da forma como me fizera sentir especial pela maneira como o flagrei me olhando algumas vezes. O outro porque dissera que iria interceder por mim junto a diretoria do Med a fim de conseguir a recontratação, mas pelo visto, esquecera. Ou talvez não estivesse em alta ante os mesmos. Ou tivesse levado a sério quando pedi que não intervisse. Seja lá o que tiver acontecido, o fato é que nenhum dos dois dera notícias novamente nos últimos meses.

—E a tonta aqui achando que algo poderia ter mudado, que era especial! – murmuro baixinho enquanto limpo a máquina de café expresso localizada no canto do balcão, deixando um suspiro escapar.

—Sarah, vamos sair para beber. Quer ir com a gente? – Beca convida me fazendo erguer os olhos para ela – E nem vem com desculpa de trabalho porque amanhã está de folga que sei!! Também estou – adianta-se e enrugo o nariz, o toque de meu celular livrando-me, momentaneamente, de precisar inventar uma desculpa.

—Alô – atendo, um frio se formando em meu estômago ao escutar a voz do outro lado da linha.

< Doutora Reese, aqui é John Sutter, do departamento de RH do Gaffney Chicago Medical Center > identifica-se o homem < Estou entrando em contato para saber se ainda está disponível e deseja trabalhar conosco novamente > informa e sinto meus joelhos tremerem.

—Eu...- titubeio, fechando os olhos um segundo – Estou. Estou sim e quero muito voltar ao Med – digo, mordendo meu lábio com força.

< Ótimo. Apresente-se ao setor de RH na segunda pela manhã com sua documentação atualizada. Se tudo estiver em ordem poderá começar no mesmo dia, caso queira > avisa e preciso me segurar para não pular de alegria.

—Ok. Estarei lá – anuo, respirando fundo a fim de tomar coragem e fazer a pergunta que se formara em minha mente – Poderia me adiantar para qual setor estou sendo contratada? – pergunto, o temor de que isto pudesse me prejudicar surgindo apenas quando já a tinha feito – Não que faça alguma diferença. O importante para mim é voltar a trabalhar na minha área – apresso-me dizer, xingando-me mentalmente.

< Psiquiatria > revela, direto e um leve tremor me acomete < Nos vemos na segunda. Bom final de semana doutora > despede-se, desligando quando retribuo.

—Então vamos te perder – a afirmação me tira do transe e sacudo a cabeça a fim de reorganizar as ideias antes de responder.

—Sim – digo, direta – Preciso falar com Helena – declaro, despindo o avental azul claro, começando a caminhar na direção do escritório, estancando e me voltando para a ruiva, que me observava num misto de tristeza e divertimento – Eu vou com vocês sim. Se puderem esperar. Quero resolver essa questão logo – argumento, ela sorrindo complacente.

—Vai. Te esperamos lá fora – avisa, me dando uma piscadela.

—Certo – anuo, retomando o caminho para o escritório um pouco tensa. Apesar de ter deixado claro a Helena que se fosse chamada por qualquer dos hospitais aonde fiz entrevista iria aceitar, era desagradável ter de dar essa notícia assim, tão repentinamente. Mas não podia perder esta chance nem deixar para segunda-feira. E ela teria o final de semana para procurar alguém. E se for preciso, darei um jeito de trabalhar nos dois lugares por uns dias – Só não sei como, mas darei!! – exclamo, batendo a porta do escritório.

Lá dentro, a conversa é bem mais tranquila do que esperava e para minha surpresa Helena já até tinha alguém em mente, o rapaz que tirava minhas folgas. Restava saber se ele estaria disponível.

Após acertarmos tudo, deixo o local pela última vez (ao menos como funcionária) indo ao encontro de Beca e os demais e daí para um barzinho próximo, do qual saio apenas de madrugada, triste pois tinha me habituado a meus colegas de trabalho, mas feliz pois estaria voltando a exercer a profissão que escolhi.

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Apartamento Connor (sábado, 13/4 -8:36 a.m)

Connor

Suspiro, assistindo ao nascer do sol na varanda em meu apartamento, tomando o último gole de cerveja.

Depois que chegara do hospital, havia preparado um jantar simples (para mim apenas), tomara um banho demorado e depois me sentei aqui tendo o cooler com algumas cervejas, meu celular e alguns petiscos como companhia (não repetiria o erro de beber sem ter nada para beliscar outra vez), passando a refletir sobre os acontecimentos recentes tanto no Med quanto em minha vida.

Depois que havia descoberto de onde viera o dinheiro para viabilizar a sala híbrida e tudo que se seguiu, incluindo meu rompimento definitivo com Ava, pensei que teria um pouco de sossego e que até mesmo poderíamos, ela e eu, sermos colegas de trabalho sem maiores problemas além dos que já existiam antes mesmo de nos envolvermos emocionalmente (um erro do qual me arrependo amargamente), mas aparentemente estava enganado.

Em primeiro lugar, ela não aceitava o término e insistia em me cercar com convites para conversarmos, que deveria (isso mesmo, Deveria) dar-lhe uma nova chance de provar estar enganado sobre ela e meu pai. Mas àquela altura isso nem era o mais importante diante das desconfianças que se formaram lentamente em minha mente. Estava descobrindo, da forma mais desagradável possível, que Ava não era nem de perto a pessoa que pensei ser.

Tinha ciência do quanto detestava perder (passou a levar ainda mais a sério a competição estabelecida por Latham para escolher seu segundo). Sabia a péssima imagem que fizera, e ela não disse o contrário em momento algum muito menos ter-se arrependido das acusações feitas contra mim quando do caso das gêmeas. Mas agora estava seriamente desconfiado que era bem mais que um simples caso de má perdedora. Poderia ir bem além disto. Coisas estranhas passaram a acontecer comigo e a minha volta deixando-me extremamente estressado e preocupado não apenas com minha carreira, já que o último acontecimento me deixara em maus lençóis com a diretoria e o conselho do hospital, mas com meus amigos, especialmente Robin, que estava de volta a cidade acompanhando a mãe para tratamento e exames para controle de seu câncer a princípio, no entanto, havia acabado por necessitar de uma cirurgia cardíaca no decorrer dos dias.

Aliás, tê-la por perto mexeu comigo. Muito. Mas depois do falso sequestro fiquei ressabiado. Em diversos sentidos. E se Ava não fosse apenas uma mulher que não aceitava a derrota quer fosse no campo pessoal, quer no profissional? E se fosse vingativa? Algo do tipo Glen Close em Atração Fatal, como Will sugerira, de maneira descontraída, quando desabafei com ele dois dias atrás? Não tinha como provar por hora e somente a polícia (entenda-se Jay e Adam) poderia me ajudar a esclarecer de fato o que acontecera bem como quem o fizera, mas não via nenhuma outra pessoa no Med que tivesse interesse em me prejudicar daquela maneira. Tal qual acontecera com a denúncia anônima, ninguém além dela poderia questionar com tamanha precisão (consegui uma cópia da denúncia) o que se passara dentro da SO aquele dia a ponto de contestar minha conduta profissional.

—Se estiver certo, estou lidando com uma pessoa extremamente perigosa, capaz de qualquer coisa, sem importar-se em quem vá magoar ou ferir no processo – murmuro, abrindo outra garrafa, o toque da campainha me pegando de surpresa.

Enrugo o cenho ao verificar a hora, um arrepio frio se espalhando por minha coluna ao pensar que poderia ser Ava, os dois toques seguidos demonstrando que a pessoa lá fora estava impaciente, me pondo ainda mais tenso.

Levanto-me devagar, caminhando sem pressa em direção a entrada de meu apartamento, torcendo para quem quer que fosse desistir, um novo toque levando embora minha esperança. Encosto o rosto na madeira fria ficando mais confuso ao ver, através do olho mágico, de quem se tratava. Mudando de postura, rapidamente abro a porta dando de cara com uma aflita Claire parada no corredor a retorcer as mãos, tique característico seu quando estava nervosa.

—Claire? O que houve? Algo errado com você? – pergunto, me pondo de lado num convite mudo.

—Comigo não...- diz, passando por mim como um furacão – Mas acho que papai não está bem – declara, me fazendo reter o ar nos pulmões.

—Não está bem como, em que sentido? – questiono-a, fechando a porta, seguindo seu olhar reprovador – Não comece!! – advirto, erguendo as mãos – Veio falar sobre nosso pai, então fale, e somente sobre ele – admoesto, indo sentar-me no sofá, ela me acompanhando com um profundo suspiro.

—Vocês dois são muito cabeça dura sabia? – sugestiona, não me deixando responder – Mal do tipo...- titubeia, mordendo o lábio, tensa – Do tipo que põe a vida em risco – diz, finalmente, me deixando em alerta.

—O que há? – quero saber, encarando-a.

—Não sei bem, não quis me dizer e quando o questionei se esquivou...

—Como sempre – a interrompo, ganhando um olhar bravo – Ok. O que notou nele, quais sintomas, quero dizer? – pergunto, deixando de lado meus problemas pessoais com ele.

—Anda mais cansado do que o normal, não tem se alimentado bem e o flagrei comprimindo o braço depois de uma reunião relativamente tensa com um fornecedor – enumera minha irmã, suspirando triste – Sabe Connor, as coisas não andam fáceis na Dolan. As vendas tiveram uma queda considerável nos últimos meses. Mesmo no Natal, período que sempre vendemos bem, notamos uma leve queda. Nada que afete nossa fortuna...por hora. Mas sabe o quanto papai é duro em relação a metas e produtividade. Tive que me esforçar para manter duas de minhas gerentes que ele considerou estarem abaixo do esperado para a loja. E seu humor anda pior desde que....- vacila, parecendo escolher as palavras que diria a seguir – Bem, desde o incidente entre vocês naquela bendita festa – revela e é minha vez de suspirar, tomando um longo gole de cerveja sob novo olhar reprovativo – Não sei o que aconteceu, mas posso garantir que o afetou de uma forma como nunca vi antes – constata, apertando as mãos novamente – Sei que não acredita nisto, mas nosso pai ama muito você. De um jeito meio torpe, eu sei, mas ama. É o jeito dele Connor e espero que possam se entender...antes que algo ruim aconteça – conjectura, abaixando o olhar, me deixando verdadeiramente preocupado.

Meu pai e eu tivemos momentos bem ruins no passado e recentemente estávamos no que posso chamar de calmaria mesmo depois de tudo que houve entre ele e Ava. Saber que pode estar com a vida em risco e que posso não ter tempo de tentar concertar nosso relacionamento (ao menos por Claire) é doloroso, admito. Posso não sentir por ele o mesmo que minha irmã, mas é meu pai droga...ainda que aja como um crápula na maior parte do tempo.

—Acha que consegue fazê-lo me procurar no Med? Posso tentar realizar algum exame ou pelo menos fazer eu mesmo uma avaliação de sua condição – proponho.

—Não sem dar início à terceira guerra mundial!! – exclama e ambos rimos discretamente – Vai dizer que estou exagerando, que não deveria ter te procurado com suposições e coisas do gênero – diz, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha e somente então noto o quão comprido estava. E que o pintara – Vi na agenda dele que terá uma reunião com o conselho administrativo do Med na segunda pela manhã, no primeiro horário. Pode tentar falar com ele por lá – sugere e reflito um segundo.

—Me envia o horário exato. Chego mais cedo e peço para avisarem quando sair da tal reunião – me prontifico e ela sorrir minimamente.

—Mando sim e Connor...- hesita um segundo – Não quero aquela mulher perto de meu pai caso ele esteja doente. Foi depois do jantar entre eles e da briga entre vocês que o estado de papai piorou bastante. Não costumo me meter na vida pessoal do papai menos ainda na sua, mas quando elas se cruzam e interfere diretamente em minha tentativa de aproximar vocês bem como na saúde de um...bem, não vou hesitar em agir em defesa da minha família – avisa de maneira enfática e franzo o cenho.

—Do que está falando? – inquiro, encarando-a.

—Essa mulher faz mal a ele. E a você também, pelo pouco que consegui descobrir e sim, pedi para nosso chefe de segurança te espionar um pouquinho assim, já que se afastou de novo nos últimos meses – confessa em tom de queixa – Sabe meu irmão, eu diria que tem o dedo podre para mulheres. Primeiro a Robin, de quem até gostava no começo, admito, se mostrou além de tudo uma ingrata! Fez de um tudo para ajudá-la, se dedicou, estava tão apaixonado e o que ela fez? Na primeira crise te deu as costas – queixa-se.

—Não é bem assim Claire. Também tive minha parcela de culpa na fuga da Robin. Um dia te conto – defendo-a.

—Por ter tentado protegê-la de nosso pai e dela mesma? – questiona-me, rindo de meu espanto – Você sempre teve tendência a defender e ajudar as pessoas especialmente dele e depois do que houve na loja tenho certeza de que se armou como um leão para protegê-la – declara, trazendo-me a lembrança as palavras de Robin no bilhete de despedida – Agora essa médica loira. Não a conheço, mas já não gostei dela devido a forma arrogante com que tratou Cora na manhã seguinte a ter dormido em nossa casa e ...

—Espera, como é? Ava Dormiu na casa de papai? – corto-a, tenso. Aquela era a prova definitiva de que haviam transado. Não dá mais para ela negar.

—Dormiu – afirma, emendando depressa – Veja bem Connor, não estou dizendo que transou com nosso pai mesmo porque não a vi saindo do quarto dele especificamente. Já estava na sala, sendo grossa com nossa governanta, quando a vi. Seria leviano de minha parte fazer qualquer acusação neste sentido – afirma, suspirando – E se isto aconteceu, serve apenas para reforçar minha opinião negativa sobre ela. E meu pedido também. Não a quero perto de meu pai – reitera.

—Não a deixarei – tranquilizo-a, sorrindo gentil – Quanto a ter dedo podre, acho que terei de concordar com você nisso maninha – admito, fazendo-a rir.

—Talvez, se parar de buscar mulheres tão independentes, duronas ou que te tratem de igual para igual se dê melhor, já pensou nisso? – sugere, fazendo uma careta de desagrado – Ou ir atrás de alguma que precise de cuidados médicos e não de amor – sugere, fazendo aspas no ar.

—Não acredito que em pleno século vinte e um, com toda esta onda de empoderamento feminino, minha irmã, empresária de sucesso, independente e durona, está sugerindo que procure uma mulher submissa para namorar, uma verdadeira Amélia! – devolvo, rindo torto, tomando mais um gole de cerveja.

—Não ponha palavras em minha boca Connor, não foi isto que disse – ralha, me estapeando – Apenas sugeri que deveria procurar alguém mais suave, menos parecida com você e com nosso pai e mais parecida com...nossa mãe – retifica, o tom saudoso em sua voz me tocando – Lembra como ela era gentil, romântica, doce, sensível, carinhosa ... Eu lembro do sorriso dela, o quanto me transmitia calma, a voz mansa cantando pra você dormir...- relembra, para minha surpresa, suspirando profundamente, enxugando uma lágrima teimosa.

—Não pensei que...não sabia que sentia falta dela – digo, o nó em minha garganta sufocando, me impedindo falar.

—Era minha mãe Connor, evidente que sinto – revela, podo suas mãos sobre as minhas – Tivemos bons momentos. Quando estava bem, mamãe era maravilhosa e amava tanto quanto você. Naquela noite, quando os pais de Lorena me acordaram dizendo para ser forte, sabia que algo horrível tinha acontecido, mas jamais pensei que encontraria minha casa, meu lar, destruído da forma como encontrei. E depois, ver você e papai se afastarem, as brigas constantes...- se cala, mordendo o lábio, visivelmente emocionada.

—Claire, não sei se já pedi o suficiente e se algum dia conseguirei te compensar por todo o tempo que fiquei ausente, mas espero que possa me perdoar – declaro, deixando a cerveja de lado e segurando suas mãos, beijando-as.

—Eu já te perdoei seu bobo! – garante minha irmã, sorrindo, sincera – E justamente por isto quero te vê bem, feliz. Eu te amo Connor e nada me faria mais feliz do que ver você e papai se entendendo – declara.

—Vai com calma aí. Uma coisa por vez – peço, soltando-a, erguendo as mãos em rendição – Deixa tentar acertar minha vida pessoal e depois, quem sabe, me entendo com o todo poderoso, caso ele também queira. Mas oh, sem pressão ok? – condiciono, feliz por tê-la feito sorrir.

Conversamos mais um tempo, fazemos recomendações um ao outro, mal percebendo o tempo passar. Quando faz menção de ir embora, a convenço ficar comigo e tomarmos café da manhã juntos. Prepararmos nossa refeição aproveitando para conversar mais, matando a saudade.

Claire acaba indo embora somente quando seu telefone toca, lembrando-a de um compromisso assumido antes. Quando sai e me vejo envolto no silencio, percebo o quão solitário me sentia. Sento-me no sofá refletindo sobre nossa conversa, das lembranças que minha irmã trouxera à tona chegando a conclusão de que estava certa. Preciso me desprender, me libertar de algumas coisas e relacionamentos, zera tudo que for possível para poder tentar me entender com meu pai e principalmente buscar um outro relacionamento.

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Chicago Med (segunda, 15/4 – 6:34 a.m)

Connor

—Reese? – chamo enquanto travo o carro, ela voltando-se com seu sorriso simples e cativante – Hei, bom dia. Como vai? – cumprimento, postando-me a frente do veículo, aguardando-a fazer o mesmo.

—Bom dia. Bem, obrigada – responde, travando seu carro, pendurando a bolsa no ombro displicentemente, o gesto chamando minha atenção para aquela parte de seu corpo e enrugo o cenho notando algo diferente nela.

—Cortou o cabelo!! – exclamo, começando a caminhar juntamente com ela, que leva uma mão ao pescoço num gesto automático, tocando a base.

—Sim. Não foi exatamente uma opção. O filho de um cliente grudou chiclete e fui obrigada cortar porque não conseguia desgrudar – explica e abro a boca, espantado.

-Mas que pestinha!! – brinco, fazendo-a rir minimamente – Ficou bonito – elogio, notando-a ficar sem graça – Escute, desculpe não ter entrado em contato novamente, mas é que aconteceu tanta coisa nos últimos meses – justifico-me, ficando eu mesmo sem graça.

—Sem problemas e obrigada – agradece, retirando os óculos embaçados, limpando-os. Finjo não notar que o fato se deu por ter ficado vermelha com meu elogio.

—Que faz aqui? – pergunto, respondendo a mim mesmo ao lembrar que havia tentado uma recolocação no Med – Espera, vai voltar? Foi recontratada?? – inquiro, ela confirmando.

—Uhum. Estou indo ao RH e depois me apresentar a doutor Charles – comunica, não conseguindo esconder o entusiasmo.

—Que bom. Fico feliz e aposto que Daniel também ficará, ainda mais agora, tendo que lidar com a doença da ex – comento, fazendo-a me olhar com o cenho enrugado – Cecile, mãe da Robin está aqui, em Chicago. Veio tratar um problema cardíaco e dar sequência ao tratamento de um câncer. Está recuperando-se bem em ambos os casos, mas sabe como um tratamento destes é complicado de exaustivo – digo, vendo-a anuir com um aceno discreto, seu rosto se contraindo numa expressão que misturava tristeza e preocupação — Robin também está na cidade, com ela – acresço, adiantando-me em abrir a porta para ela, nós dois estancando ao escutar o chamado de Will.

—Hei, bom dia Connor e....Sarah?? Está de volta? – pergunta, ajustando a mochila ao ombro, olhando de mim para ela alternadamente.

—Sim. Começo, digo, recomeço hoje – Sarah confirma, sorrindo-lhe.

—Legal. Bom ter você de volta. Doutor Charles vai ficar feliz. Andava meio pra baixo desde que se foi – Will comenta, deixando-nos passar antes de nos seguir.

—Will, por que está vindo por este lado e não pela emergência? – quero saber enquanto caminhamos, os três, pela ampla entrada leste do Med ao mesmo tempo que noto, pelo canto do olho, um movimento do lado interno do hospital.

—Evitando Nat e Philip – responde, fazendo uma careta de desgosto e a muito custo controlo a vontade de rir.

—Quem é Philip? – Sarah quer saber, cuidadosa, voltando o rosto para ele, que ri sem vontade.

—Longa história – responde meu amigo, a voz alterada de meu pai rompendo a barreira das portas envidraçadas e chegando a nós, nos fazendo diminuir o ritmo e dar atenção a cena, a qual não daria para evitar a menos que subíssemos para despois descer.

—É imperdoável!! Simplesmente imperdoável – esbraveja enquanto dois homens que não conheço (membros da diretoria talvez) tentavam acompanhá-lo (e acalmá-lo) – Sou um homem ocupado. Um telefonema. Um mero e reles telefonema teria evitado que me deslocasse e perdesse todo este tempo!! – prossegue meu pai, muito irritado.

—Mais uma vez peço desculpas em nome de Miss Garrett senhor Rhodes. Ela, assim como todos nós, fomos pegos de surpresa pela chegada da comitiva do sheik – ouvimos assim que Will abre a porta que dá acesso ao interior do Med – Ela tentou, esteja certo, mas não houve tempo hábil para desmarcar a reunião que teriam, por isto nos mandou a seu encontro e entregar-lhe a planilha com as metas para o próximo trimestre – justifica o homem enquanto sigo ao lado de Sarah e Will.

—Metas que a meu ver são impraticáveis!! – meu pai exclama, gesticulando – Se não conseguiram nada positivo nestes últimos meses como pensam atingir isto?? – ergue uma pasta, parando de frente para os dois homens.

—Parece que alguém está zangado – Will comenta, apertando o botão para chamar o elevador, observando-o juntamente com Reese e eu enquanto aguardávamos.

—Mas já a partir do próximo trimestre veremos estes números mudarem – promete o mais baixo dos homens.

—Disseram a mesma coisa no último tambe...-meu pai começar dizer, calando-se de repente, inclinando-se até sentar-se em um banco ali perto.

—Senhor Rhodes, tudo bem? – o questionamento chega ao mesmo tempo que me agacho junto a ele, deixando minha bolsa pelo caminho, pondo a mão em seu ombro.

—Pai? Hei, devagar pai. Devagar – peço, levando meus dedos direto para a lateral de seu pescoço buscando sentir-lhe a pulsação, os dois homens nos cercando.

—Tudo bem?? – um deles pergunta.

—Estou ótimo – meu pai responde, a voz soando um pouco arrastada.

—Precisamos de espaço aqui, obrigado– ouço Will dizer, fazendo-os afastarem-se e somente então percebo que Reese e ele me haviam seguido. Agradeço com o olhar, dando atenção a meu pai novamente.

—Estou bem – meu pai repete, afastando minha mão.

—Não, não está – o contradigo, encarando-o, sério – Seu pulso está acelerado e respira com dificuldade – relato.

—Que posso fazer se incompetência faz meu sangue ferver – resmunga com dificuldade.

—Está com dor no peito? – pergunto, ignorando-o

—Não – mente, a careta involuntária o desdizendo.

—Sério? – questiono, ele me encarando com certo descaso (como sempre) – Escute pai, claramente há algo errado com seu coração. Deveria procurar um cardiologista o mais rápido...

—Outro dia. Hoje tenho muito a fazer e já me atrasei por demais com este furo – resmunga, fazendo menção levantar-se, sentando-se novamente ante nova onda de dor.

—Ao menos me acompanhe até o PS e me deixe fazer alguns exames – peço, completando antes que pudesse retrucar – Por Claire. Ela está preocupada – argumento vendo sua expressão suavizar. Ele realmente amava muito minha irmã – Só vai levar alguns minutos – prometo, encarando-o alguns segundos sua resposta.

—Ok – anui finalmente – Mas saiba que estou absolutamente ...- tenta dizer ao mesmo tempo em que se levanta ligeiro, perdendo o equilíbrio a ponto de precisar sentar novamente, respirando com dificuldade.

—Percebe-se! – Will exclama, me olhando preocupado.

—Vamos indo – convido, ajudando-o, e para minha surpresa ele não se opõe – Obrigado – agradeço quando Sarah entrega-me a bolsa que recolhera.

—Por nada – responde, caminhando ao lado de Will.

—Então seguiu meu conselho – indaga de repente olhando para Sarah e franzo o cenho, confuso — Parou de servir café e voltou a salvar vidas. Garota esperta – elogia, apoiando-se a parede, não importando-se disfarçar a dor que sentia.

—Vocês se conhecem? – a pergunta sai antes que pudesse evitar e no tom errado, o que não passa despercebido por nenhum dos três – Desculpe, eu não...- meu pedido se perder com o abrir de portas do elevador.

Suspiro, apoiando meu pai novamente, recriminando-me mentalmente por ter sido rude com alguém que prestara-me um favor sem nada pedir em troca, o familiar som de uma arma sendo engatilhada me trazendo de volta a realidade, fazendo-me estancar entre as portas.

—Entrem. Agora – ordena o jovem de pé em meio ao cubículo portando duas armas, um casal caído a seus pés, o rapaz sangrando enquanto a moça estava pálida e parecia estar com a mesma dificuldade em respirar que meu pai – YALAH!! ENTREM!! – grita, agitando-se.

—Calma. Estamos entrando. Acalme-se – peço, obedecendo, trazendo meu pai comigo, postando-me a esquerda dele, junto a garota enquanto Will e Sarah se espremem num canto do mesmo lado.

Sem dizer uma palavra, o rapaz armado bate no painel com a coronha de um dos revólveres, provocando um pequeno curto. Troco um olhar preocupado com Will ante a cena, refletindo o quanto isto prejudicará o funcionamento do elevador.

—Kaysar, pense bem. O sheik não irá perdoá-lo se algo acontecer a filha. Zaíra precisa da operação – o jovem ferido argumenta, chamando minha atenção para a garota novamente. Estava claro que tinha sérios problemas.

—Cala-se Youssef. Sheik Zarif irá me agradecer ter evitado a filha fugir com um reles empregado – retruca o rapaz armado, que agora sei chamar-se Kaysar – Vai ver nem doente está – insiste, irritando o ferido, Youssef.

—YAlah! Não diga bobagens. Acha que veríamos de tão longe para nada? – questiona, tentando levantar-se.

—Quieto!! – Kaysar aponta a arma em direção a ele, os dois começando uma discursão acirrada em sua própria língua, nos deixando ainda mais como meros expectadores.

—Connor!! – o chamado fraco de meu pai faze-me voltar para ele, surpreendendo-me com a palidez intensa em seu rosto – Eu ... não me sinto...bem – avisa, escorregando lentamente até o chão.

—Pai. Respire. Devagar – peço, afrouxando sua gravata, abrindo os primeiros botões de sua camisa enquanto verifico seu pulso novamente.

—Está piorando rápido – Sarah comenta e somente então percebo que se agachara a meu lado.

—E não é só ele – ouço Will dizer, seguindo seu olhar, notando a jovem incrivelmente pálida.

—Merda!! – solto, me inclinando sobre ela, sentindo sua pulsação, ou tentando visto que os dois cretinos, que sequer notaram nossa movimentação entretidos em uma contenda pessoal, tumultuavam o ambiente deixando-a nervosa e inquieta – Hei...hei...HEI, IDIOTAS!! – grito, irritado, os dois calando-se de imediato e me encarando surpresos – Escutem, não me interessa se querem matar um ao outro, mas temos duas pessoas precisando de atendimento urgente aqui ou irão morrer!! – alerto, ambos olhando de meu pai para a garota, assustados – Will, me ajude aqui – peço, meu amigo atendendo-me rápido – Temos que deixar os dois confortáveis. Sarah, pegue meu estetoscópio na bolsa por favor – peço, estendendo a mão quando o faz.

—O pulso dela está bem fraco Connor, e parece com ainda mais dificuldades em respirar do que o seu pai – Will alerta e respiro fundo, invertendo de posição com ele para dar atenção a jovem, auscultando-a atentamente.

—Há fluídos nos pulmões e ouvi um sopro acentuado no coração – relato, dando atenção a Youssef quando ele fala.

—Coração. Viemos para ela ser operada. Segunda cirurgia – informa, aflito.

—Saberia me dizer quando ela fez a primeira? – questiono, abrindo uma parte da túnica que usava tendo o cuidado de não a expor demais. Sabia o quanto povos de origem Árabe são sensíveis a exposição do corpo de suas mulheres mesmo estando doentes.

—Aos doze – informa ele, agachando-se – Doutor Downey quem fez. Avisou que em breve precisaria de outra – completa, me pegando de surpresa.

—Qual idade dela agora? – quero saber, notando que a cicatriz era antiga.

—Vinte – comunica e respiro fundo novamente. Se David pôs um intervalo entre um procedimento e outro significa dizer que a saúde da jovem não deve ser das melhores – Zaíra muito frágil, sem saúde. Médico aconselhar esperar ela ficar forte para nova cirurgia – Youssef confirma minhas suspeitas.

—Ouço o mesmo no senhor Rhodes – Will avisa, aumentando meu nível de estresse ao máximo.

—Precisamos tirar os dois daqui o quanto antes – digo, dirigindo meu olhar ao painel danificado do elevador – Youssef, acha que seu amigo nervosinho permitiria que verificássemos o painel? – pergunto, o gemido da garota tirando atenção dele para ela – Hei, eu preciso que fique atento aqui. Se não a tirarmos rápido pode ser tarde – alerto, o rapaz me surpreendendo ao pôr-se de pé com uma agilidade de dar inveja, desarmando o compatriota e o pondo para “dormir” antes de ir ele mesmo verificar o eu acontecia porque simplesmente o elevador não parou desde que entramos nele.

—Não sei o que ele disse, mas pela expressão não deve ser nada bom – Sarah comenta ante a torrente de palavrões em Árabe.

—Quebrou. Não sei como concertar – declara ele e fecho os olhos, massageando as têmporas.

—O telefone de emergência – Sarah lembra, já levantando e pegando o objeto, apertando o botão seguidamente enquanto rezo baixinho para que estivesse funcionando, o alívio tomando a todos quando a escutamos falar com alguém da manutenção – Aqui é a doutora Reese. Doutor Rhodes, doutor Halstead e eu estamos presos em dos elevadores com duas pessoas em estado gravíssimo. Precisamos sair daqui com urgência – relata, aguardando resposta, afastando-se minimamente e olhando para o alto – Estamos no subsolo... certo.... rápido por favor...

—Peça que avisem Latham e para deixarem duas equipes de prontidão a nossa espera – peço antes que terminasse de falar, ela repetindo com precisão tudo que pedi.

—Irão providenciar tudo. Que faremos enquanto isto? – questiona, arregaçando as mangas de sua blusa, agachando-se perto de Will.

—Em primeiro lugar, se julga que seu compatriota irá atrapalhar caso acorde, melhor dar um jeito de prendê-lo – recomendo, olhando diretamente para Youssef, que assente com um aceno, retirando o próprio cinto com dificuldade, prendendo o outro com firmeza, postando-se ao lado da garota– Enquanto isso vamos ficar atentos aos dois e fazer o nosso melhor – digo, olhando de Sarah para Will, a tensão em ambos sendo reflexo da minha.

—Isso...essa coisa...essa situação é culpa sua Connor. Nunca devia ter deixado me convencer entrar – meu pai acusa, respirando com ainda mais dificuldade – Se eu morrer....

—Ninguém vai morrer aqui pai – corto-o, e como para me desafiar, a jovem Zaíra apaga.

—Zaíra!! Acorde! Zaíra!! – Youssef eleva a voz, alarmado.

—Não sinto pulso – alerto, Will e eu iniciando a PCR de imediato, parando apenas quando sinto a pulsação retornar. Fraca, mas estava lá – Temos de sair daqui – determino, ainda ofegante pelo esforço.

—Talvez possamos forçar a porta, nós três – Will sugere e anuo, pondo-me de pé, Youssef imitando-me – Vamos tentar forçar para os lados – diz, começando a fazê-lo, sozinho, enquanto Youssef me ajuda.

Durante alguns minutos forçamos, apenas os três, conseguindo fazer as portas afastarem-se um mínimo, Sarah unindo-se a nós, junto a Will, forçando. Juntos conseguimos abrir as portas internas e começamos a “brigar” com as externas, precisando parar quando ambos, meu pai e Zaíra solicitam nossa atenção.

—Connor...não me deixe morrer! – meu pai pede e sinto um nó se forma em minha garganta.

—Não deixarei pai – asseguro – Onde diabos eles estão?? – esbravejo, a apreensão lentamente dando lugar ao desespero.

—Eles estão a caminho, estou certa disso – Sarah diz, tentando me tranquilizar – Vai dar tudo certo – declara, otimista, pondo a mão sobre meu braço, transmitindo conforto. Nos encaramos um segundo, o chamado vindo de fora quebrando o laço invisível que se formara entre nós.

‘Doutor Rhodes, pode me ouvir?’ a voz de Latham me alcança ‘Estamos abrindo em um minuto’ avisa ao mesmo tempo em que algo é introduzido na fresta, forçando as portas até estas abrirem por completo, revelando um amontoado de pessoas entre médicos, enfermeiros e outros, a nossa espera.

—O que temos? – é a primeira coisa que Latham pergunta enquanto pomos meu pai sobre uma maca.

—Homem, sessenta anos e mulher jovem, vinte anos, ambos com sinais de falência cardíaca. Ela teve uma parada alguns minutos atrás – relato com o máximo de precisão que consigo – Devemos seguir direto para a SO – recomendo, assumindo a maca com meu pai, melhor dizendo, tentando posto que Latham em impede – Vou com meu pai – aviso, o encarando em desafio.

—Não enquanto eu for o chefe da Cardiologia – rebate ele, não me dando tempo contestar – Mandei preparem as salas geminadas. Irei coordenar ambas cirurgias e poderá igualmente acompanhá-las, mas de forma alguma permitirei que opere seu pai. Sabe muito bem que não é recomendável a um cirurgião operar parente próximo seja o grau que for – discursa, me forçando assumir a maca da jovem Zaíra – Rápido, não temos tempo a perder – determina, empurrando a maca apressadamente, Ava postando-se entre ambas macas.

O sigo, resignado, vendo, pelo canto do olho, Will e Sarah ficando para trás, a preocupação sendo visível em seus rostos.

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Sarah (13:54 p.m)

Respiro fundo mais uma vez espantando o mal-estar que insistia em me perseguir desde que saíramos do elevador.

Já haviam passados horas sem que tivesse qualquer informação a respeito das cirurgias.

Depois que conseguira me acalmar, fora ao departamento de RH, assinara o contrato e fora direto me apresentar a doutor Charles. Este me recebera com um abraço tão forte e demorado que me deixara sem graça. Durante alguns minutos conversáramos bastante, pondo tudo em pratos limpos, por assim dizer, zerando o passado a fim de começar uma nova etapa em minha vida, minha carreira e principalmente minha relação com ele.

Aproveitara a presença delas para me apresentar sua ex esposa, Cecile, mãe de Robin, que também me recebera com um abraço forte e até emocionado, sorrindo e agradecendo por todo cuidado que tive quando fora minha paciente. Passamos algum tempo com elas antes que Ceci, como prefere ser chamada, entrasse para sua sessão de quimioterapia. Dali em diante começamos nossa rotina de trabalho, visitando os pacientes dele, antigos (que diziam, para minha surpresa, terem sentido minha falta) e novos, passando pela emergência quando solicitados. Por lá, reencontro Maggie, April e Dóris, sendo prontamente atualizada das novidades pela terceira. Descobri que Ethan e April haviam brigado e agora ensaiavam uma volta. Já Will e Natalie ficaram noivos, quase casaram, ele precisou ser colocado em um programa de proteção a testemunha (essa história era longa e, segundo ela, apenas ele e Nat poderiam me esclarecer melhor caso desejasse), haviam reatado quando ele regressou, mas brigaram novamente e agora pareciam querer seguir cada um seu caminho. Também me atualiza a respeito da sala híbrida, suspirando porque Connor havia retornado ao PS.

Por fim, me põe a par do que seria o romance bomba do hospital: Connor e Ava Bekker. Usando suas palavras: “Dinamite pura!”, posto que viviam as turras dentro e fora do Med.... “Mas agora parece que romperam de uma vez por todas. Mal têm se falado além de cumprimentos cordiais e as vezes nem isso rola. Não se sabe o que aconteceu de fato, mas a coisa começou a desandar depois que ele desceu para cá. E com a volta, ao menos temporária, da Robin então... Já era de vez!” relatara enquanto eu tentava desesperadamente escapar, ela em meu encalço por todo setor de emergência, tagarelando sem se importar se queria ou não saber do que falava, dando-se por satisfeita apenas quando considerou já haver me atualizado sobre todas as fofocas dos últimos meses. O fato é que quando finalmente me deu sossego, estava com uma dor de cabeça de estourar, por isso fora empurrada (literalmente) na sala de repouso por Maggie após me obrigar tomar um analgésico. Era meu primeiro dia, sabia que Miss Garrett estaria de olho e não queria fazer “corpo mole” em hipótese alguma!

—Hei, está se sentindo melhor? – a voz grave que povoa meus sonhos a anos, soa junto a meu ouvido, baixa e calma, fazendo-me abrir os olhos, encontrando aquele azul profundo. Involuntariamente, retenho o ar nos pulmões – Mags me disse que estava com dor de cabeça – conta, acompanhando meus movimentos quando me sento e rezo mentalmente para que não note os botões abertos em minha blusa.

—Estou melhor sim, obrigada – agradeço, sorrindo sem vontade – E seu pai e Zaíra, como estão?? – quero saber, sua fisionomia cansada me dando vontade de o fazer deitar em meu colo e afagar seu cabelo da mesma forma que fazia com Joey quando namorávamos e reclamava do cansaço.

—Estão bem – diz, passando ambas mãos pelo rosto – Acredita que os dois tinham exatamente o mesmo problema? – relata e abro a boca, surpresa – O lado bom é que sabia exatamente qual técnica estava sendo usada nele – acresce e estou para perguntar porque isto era importante quando a porta é aberta e Will entra, atirando-se na cadeira junto a mesa de computadores.

—Caramba, nunca pensei que diria isto, mas lá vai: Eu quero ir pra casa!!! – exclama, de forma dramática, nos fazendo rir – Que dia é este?? Já fiquei preso em um elevador e depois tive de atender um caso esquisito de um cara que veio ao país apenas para doar um rim a outro porque se diz em divida com o cara, que por sinal está pagando, e muito bem, tudo em dinheiro e fez a Garrett me tirar do caso quando tentei averiguar o que havia. E nem foi um colega que me substituiu, mas um estranho, um médico particular pago pelo tal sujeito que, adivinhem só, pagou uma fortuna apenas para usufruir de nossas instalações!! – esbraveja, seu tom aumentando gradativamente – Precisavam ver como os olhos da Garrett brilhavam!! – bufa, terminando seu desabafo.

—Nem me fale!! – exclamo, fazendo uma careta – Não tive problemas com pacientes, mas Dóris me fez sentir vontade de abrir um buraco e me enfiar nele de tanto que falou em meus calcanhares! – resmungo, os dois rindo discretamente.

—Não sei vocês, mas depois de toda esta tensão, estou faminto! – exclama, levantando-se – Que acham de irmos comer alguma coisa? – convida, acrescendo – Eu pago desta vez!! – avisa, apontando Will, trazendo a minha memória a lembrança de quando fizera o mesmo semanas depois de chegar ao Med.

—Se incluir um drink forte, um único que seja, estou dentro – condiciona Will, levantando-se ao mesmo tempo que eu.

—Ok. Por sua conta e risco! – Connor declara, abrindo a porta, pondo-se de lado para me dar passagem – Quer saber? Vou tomar um também. Os três devemos. Merecemos para aliviar um pouco toda tensão do começo de plantão – sugere.

—Um único pode ser – concordo, seguindo pouco a frente deles.

—E também para comemorarmos a volta da filha pródiga, afinal, o bom filho a casa torna!! — ouço Will dizer e sorrio minimamente, sem me voltar, sentindo-me em casa de fato, pois se disser que não senti falta do Med e todos meus colegas, sem exceção, estaria mentindo, e não sou tão boa mentirosa assim....Ou sou???, questiono-me internamente ao sentir meu corpo vibrar sem que possa impedir quando Connor coloca sua mão em minha cintura num gesto displicente e despretensioso, mas que tem o poder de me “acender”... Melhor que seja Sarah. Melhor que seja!

“....I see how your attentions builds;

It’s like looking in a mirror;

Your touch like a happy pill;

But still all we do is fear…”

Notas finais
Até breve flores