Notas iniciais
Usei os nomes originais apenas para os dois protagonistas. Para quem não sabe, Satoshi = Ash, Shigeru = Gary. -------------------------- Fic escrita há vários anos, quando era mais cru literariamente e afetivamente mais fofo. Mesmo assim, tenho uma relação de amor com ela, porque me remete a um momento importante da minha vida, então dei uma revisada e repostei. Tenho vontade de voltar a escrever, mas aquela vida à toa que eu tinha ficou pra trás haha E cá pra nós, dá uma preguiiiça...

Satoshi seguia sozinho.

Os amigos de outrora...Brock, Misty, Tracey... cada um tomou um rumo, para cuidar de assuntos próprios.

Misty foi passar um tempo com as irmãs e outros parentes que há muito não via. Talvez demorasse um pouco a voltar. Tracey conseguiu uma vaga num renomado instituto de pesquisa, onde trabalhava e estudava ao mesmo tempo. Nem tão cedo voltariam a se cruzar. Brock, assim como Misty, passaria um tempo com a família. Prometera retornar, mas não deu certeza sobre quando.

Com Pikachu a seu lado, seguia sua jornada de mestre. Esporadicamente esbarrava com amigos e conhecidos, gente que já havia cruzado seu caminho em algum ponto no tempo. Esses encontros o distraíam por algum tempo, mas pouco, bem pouco. Satoshi era jovem, bem-sucedido como mestre pokemon e querido pela maioria das pessoas que o conheciam.

Mesmo assim, não parecia muito satisfeito.

Que bom se surgisse uma desculpa para ir embora para casa, como os outros. Alguma visita aos parentes, estudos, urgências, qualquer coisa. Mas nada disso acontecia, então Satoshi seguia em frente. E a coisa toda parecia já perder um pouco do seu sentido.

Ir de cidade em cidade, de ginásio em ginásio, já não era mais a tarefa divertida de sempre. Ainda aproveitava, mas não como antes. Capturava menos, treinava menos, batalhava menos, andava menos...

Nos acampamentos e hospedagens, onde ficavam outros treinadores, já não era mais a figura elétrica e sociável. Ao contrário, começava a cultivar uma certa reclusão. Ficava muito mais sozinho, e notava-se que estava mais triste.

Mas por que sentia-se assim?

Aquilo tudo era uma etapa importante da sua vida. Não era pra perder a graça naquele momento... por que perdia?

Já sabia a razão. Suas andanças lhe deram tempo suficiente para refletir e descobrir o que o incomodava.

Definitivamente, outras coisas tinham ficado atrasadas. Outras etapas haviam sido negligenciadas.

Seguia sozinho e estaria sozinho, ainda que acompanhado. Sua solidão já vinha de antes de seus amigos partirem. A apatia já batia-lhe a porta tempos atrás, tanto que Misty conversara com ele sobre isso. Não foi uma conversa muito franca, já que Satoshi escondeu o que o incomodava. Se tivesse dito, teria esclarecido tudo para a garota, mas... sabe-se lá o que ela pensaria.

Ainda que sem ter em mente o motivo real daquela depressão, o conselho foi certeiro:

"Talvez você esteja precisando de outras coisas, Satoshi... ser um mestre era seu objetivo quando você partiu, o seu único objetivo. Mas talvez agora não seja mais o único e você precisa dar atenção aos demais "

Seguia sozinho e sozinho estaria, mesmo que acompanhado, a não ser que ... a não ser que...

“Bobagem...”

Cruzou a entrada de mais uma cidade, morosamente.

(...)

No terminal de vídeo, o rosto do professor Oak.

– Você anda um pouco desanimado, Satoshi... estou certo?

– É... apenas estou dando um tempo. Mas logo eu volto ao meu ritmo normal.

– Bem... isso é por sua conta. Não se cobre muito. Você é só um garoto de quinze anos.

– Eu sei ... Ah! Professor!

Fingiu que só agora tinha lembrado daquele item, como se fosse algo secundário...

– E o Shigeru? Tem dado notícias?

– Tem sim. Ele estava numa cidade vizinha a essa onde você está agora... e já estava de saída.

– Vem pra cá?!

Uhhh... aquilo escapou e quando Satoshi deu por si, já era tarde. Preferiu não dizer nada para não piorar.

O velho Oak interpretou como uma prova de que Satoshi ainda gostava de seu neto, apesar de não se darem muito bem há tempos. Até era verdade, porém o que o velho nem desconfiava era como Satoshi gostava de Shigeru. Pra ele, apenas uma amizade entre dois garotos.

– Não, Satoshi... creio que não. Pelo que me disse, pretendia seguir para o norte. Ou seja, vai exatamente na direção oposta.

Satoshi disfarçou a decepção.

– Eu só perguntei porque, se ele viesse ... eu poderia pedir uma batalha contra ele ... é um bom rival e...

– ...e poderia aproveitar para vê-lo de novo também, estou certo?

Engasgou com aquele inesperado aparte. Simplesmente não conseguiu dizer nada.

Ouviu a risada do velho cientista ...

– Não seja orgulhoso, Satoshi... Francamente, você e o Shigeru têm alguns problemas, mas acho que no fundo são bons amigos. Estou dizendo alguma mentira?

– Não, professor... não está...

Já não eram amigos, mas desmentir isso não ajudaria em nada.

– Bom, professor... obrigado. Era só isso.

– Ok. Dê notícias sempre, Satoshi, e se cuide!

– Certo.

–-END OF CALL-- TIME-11:15 -- CREDITS-6,3 -- 15:35 --

Shigeru iria em outra direção...

Ao lado do terminal, havia uma máquina de refrigerantes. Passou seu cartão no sensor e pegou a latinha gelada. Estava um calor miserável. Ali mesmo encostou-se à parede, ajeitou o boné e repassou o que poderia fazer naquele dia, naquele lugar. Mas tudo lhe pareceu excessivamente sem graça. Talvez fosse o calor irritante. Sentiu-se desanimado.

Resolveu dar por encerrado o dia e procurar logo um lugar pra ficar. Era cedo ainda, estava terrivelmente quente e já se armava uma tempestade.

A massa de nuvens negras se avolumando no horizonte era a desculpa perfeita. Depois que passasse a tempestade, aí pensaria no que fazer.

Mas o que desejava fazer? Arrolou as possibilidades e obteve uma lista vazia. Não queria nada. Já estava chegando ao limite, já não queria nada. E não era o calor que o fazia sentir-se assim.

Não, não era o calor.

Lembrou-se do refrigerante, que esquentava em suas mãos. Bebeu, devagar... enquanto bebia não pensava em nada. Bebia apenas, e nesse tempo só um pensamento chegou a invadir-lhe – por que não voltava pra casa? Bem, em primeiro lugar porque teria de inventar uma boa desculpa para todos. Não tinha obrigação de ser mestre pokemon, porém seria estranho que logo ele resolvesse parar... assim... por nada. Estava indo tão bem.. por que parar? Todos perguntariam, e teria de responder todos com sua habitual cordialidade.

Em segundo lugar, persistia por saber que, mesmo voltando, não se livraria do que o incomodava. E pelo menos como viajante, podia, vez por outra, esbarrar com ele e olhá-lo, mesmo que de longe. Se voltasse, não o veria tão cedo. Não suportava essa idéia. Se bem que já não o via há algum tempo... mas sempre havia a chance. Quem sabe na próxima cidade...

“ Isso é obsessão...”

Pegou-se novamente estático, a lata nas mãos... Quis chorar por um momento, mas passou, e bebeu o que restava.

Teria voltado para casa naquele exato momento, se tivesse um pouco mais de impulso. Porém, a exemplo de outras vezes, preferiu a solução mais fácil — dormir um pouco, aliviar-se daqueles pensamentos ruins, deixar o dia seguinte para o dia seguinte e nada mais.

(...)

Lá fora chovia pesadamente, mas não dava a mínima.

Uma pequena hospedaria, muito aconchegante. Exalava uma atmosfera caseira... Satoshi precisava daquilo. Tinha entrado na primeira que apareceu à vista, mas felizmente a sorte o ajudou e não precisaria escolher outra.

Rapidamente arrumou um quarto. Ouvidas as indicações de praxe, não sem alguma impaciência, tratou de trancar-se em seu canto.

Tinha pressa em ficar sozinho.

– Pika..?

– Não é nada...

Pikachu, já acomodado, achou aquilo estranho... seu mestre e amigo ali parado, o olhar perdido, ainda a mochila nas costas.

“ Até que é bom...”

O quarto era simples, mas bem confortável. Reparou vagamente nos detalhes... a estampa do lençol, a moldura da janela, em madeira escura, o armário, a porta do banheiro, os ladrilhos... só vagamente, como forma de distrair a cabeça de algo maior, que ameaçava voltar.

É melhor eu descansar...”

Largou suas coisas no chão, abriu os armários, retirou todos os travesseiros extras que encontrou, mais um lençol branco e perfumado, e atirou tudo na cama. Ligou o ar-condicionado, ajustando-o ao mais frio possível.

Depois deixou-se cair no colchão... os tênis voaram para um canto, o boné igualmente, afroxou o cinto... foi enrolando-se naqueles lençóis, vagarosamente, como um bicho preguiçoso... pensando... e pensando... e se acomodando... adormecendo...

Quando parava de mexer-se, observava a chuva, através do vidro ligeiramente fosco da janela. E ficava só aquele som da chuva misturado ao do ar condicionado... aquele som gostoso... manso e constante... vontade de dormir... o quarto tinha tv, mas sequer passou por sua cabeça ligá-la.

Pensando, pensando... apertando aqueles travesseiros... fechando os olhos pra fingir que não estava sozinho... ouvindo a chuva...

Quinze anos. Tinha bem pouco daquele garotinho que começara sua jornada tempos atrás. O rosto de criança ainda conservava e, de certa forma, a índole também. Porém de resto, aquele corpo que movia-se languidamente na cama nada tinha de infantil. Satoshi já possuía uma beleza natural, e a idade só a tinha feito florescer sob matizes adolescentes. Suas andanças lhe deram algum porte, nada exagerado, mas sim na medida certa, para em conjunto com sua carinha de anjo, deixar caídas algumas meninas.

E muitas já tinham se interessado e avançado, discretamente ou não, para tentar conseguir o jovem mestre. Raras vezes as intenções delas se concretizaram, graças ao que aparentemente era distração da parte dele. Essa distração e essa ingenuidade só lhe davam mais charme. Harmonizavam com seus traços de menino bobo, emprestando-lhe um ar muito próprio.

Se as tantas pretendentes pudessem vê-lo naquele momento, enrolado nos tecidos como num casulo, a olhar a chuva com olhinhos tristes, sem dúvida correriam a consolá-lo.

Sem saber que no fundo, pouco poderiam fazer por ele.

“ Até quando vou ficar nisso...?”

Perdeu-se mais um pouco pelos próprios pensamentos... depois aquele amálgama de sons o conduziu até o sono.

(...)

A platéia gritava seu nome.

No centro da gigantesca arena, ele, Satoshi, todo-poderoso, acenando vigorosamente para a multidão em delírio.

No ombro direito, Pikachu, e no esquerdo, um manto, que caía até a cintura. Preso a esse manto, de um pesado tecido escarlate, uma infinidade de insígnias, com sua riqueza de formatos, cores e símbolos, provas de suas vitórias.

Vitórias... tinha vitórias aos montes, e sua supremacia era incontestável. Tinha sido um longo caminho até ali, mas agora chegara ao ápice. No rosto um sorriso, sorriso de general que acena para os civis depois de mais uma batalha vencida.

Tudo perfeito. Irretocável.

Continuavam a gritar seu nome, quando por um dos portões das arquibancadas, entrou um garoto.

E tudo que Satoshi viu foi esse garoto. Apesar da imensa distância que os separava, enxergava seu rosto nos mínimos detalhes.

" Shigeru...? "

Era Shigeru quem entrava, todo de preto, e permanecia parado próximo ao portão. A multidão naturalmente não deu a menor atenção a isso, ainda que Satoshi já não desse a menor atenção à multidão.

Olhavam-se... a multidão parecia sumir, e os gritos tornavam-se silêncio. As pessoas ainda gritavam, porém se ouvia cada vez menos.

Continuou observando o rosto de Shigeru e viu formar-se um sorriso... um sorriso de escárnio.

Debochava daquilo tudo, ria e, numa desproporção inacreditável, seu riso suplantou os gritos de todas as milhares de pessoas presentes.

Satoshi só via Shigeru, só ouvia seu deboche...

" Agora não, Shigeru... por favor... agora não... "

E prosseguia o riso, cada vez mais alto... as vitórias e a pompa, Satoshi já tinha esquecido tudo... tudo fora substituído, num átimo, pela mais penosa humilhação.

Todos o reverenciavam, e Shigeru zombava dele... ainda...

...ainda, e provavelmente sempre...

...provavelmente para sempre...

Quis chorar, segurou-se, virou para o outro lado... e uma nova surpresa o aguardava.

Do outro lado, na arquibancada, na posição exatamente oposta a de Shigeru, apareceu um outro garoto, todo de branco. Não precisou forçar a vista, sua visão sofreu um zoom natural e logo pôde ver quem era aquele...

" Shigeru ...??"

Olhou para o outro lado... o Shigeru de preto continuava lá, zombando, mas seu riso já não ecoava tanto.

Dois...?

Revirou-se. Lá estava o Shigeru de branco. Zombaria dele também?

Assim como com o primeiro, era como se inexistisse distância. Podia distinguir cada detalhe de seu rosto. E viu quando formou-se um sorriso. Mas um sorriso de amigo, não de escárnio. Um sorriso que raramente se via no menino-prodígio de Pallet.

E o Shigeru de branco estendeu-lhe a mão, mesmo estando longe, muito longe.

Satoshi sorriu e deu um passo, ainda meio hesitante, na direção daquela mão estendida...

O riso de escárnio diminuiu mais... foi ficando para o fundo...

No passo seguinte que tentou dar, sentiu um peso imenso sobre os ombros... o manto...

O manto que nada mais era que tecido com insígnias presas, agora parecia pesar como chumbo.

Olhou-o... uma peça bonita, sem dúvida, que falava muito ao seu orgulho. Depois olhou para seu anjo recém-chegado... o sorriso e a mão estendida continuavam lá, convidativos...

O manto voou num segundo, indo parar no chão, lugar nada nobre para algo tão valioso.

– Pikapi!

Pikachu saltou de seu ombro, encorajando-o a prosseguir.

Num minuto desceram da arena, deixaram a área reservada, ultrapassaram uns metros, pularam uma grade e ganharam uma das escadarias da arquibancada, rumo a um ponto certo.

Satoshi sentia-se feliz, feliz como nunca.

Logo estava de pé diante de Shigeru. Parou... olhou bem... prosseguiu receoso, passo a passo, até aquela mão... até aquele sorriso...

......

....e o anjo sumiu.

Repentinamente, sumiu, e nada mais.

– Pika??

Procurou e não o viu em parte alguma.

– Shigeru...?

Nada.

– Cadê você...?

...e foi tornando a ouvir o som do público em frenesi ...Gritavam seu nome, como se ele ainda estivesse no centro da arena ...

Não sentia-se vencedor de coisa alguma.

– Shigeru !!

– Pi...??

Nada de arena, nada de público, nada de Shigeru... estava no quarto, enrolado nos lençóis. Pikachu, num canto, provavelmente tinha acordado com seu grito e olhava-o confuso.

A boca seca, levou as mãos ao rosto, ainda trêmulo. Percebeu que tudo não passara de um sonho. Meio sonho, meio pesadelo. De qualquer forma, ilusão. Os gritos da platéia ainda ecoavam nos seus ouvidos, sendo substituídos aos poucos pelo som do ar-condicionado.

Pikachu ficou observando o "pikapi", tentando decifrar sua expressão atônita.

Que foi passando de atônita a raivosa...

Atirou longe os lençóis e travesseiros, e sentou-se à beira da cama.

Depois de um minuto e meio, Pikachu cutucou ele de leve.

– Me deixa, Pikachu... por favor...

– Pi...

Sentiu-se tomado pelo mesmo mal estar que o levara até ali. Uma falta de perspectiva, uma preguiça daninha...

Olhou Pikachu num canto...

– Bah... tudo bem, amigo. Só preciso sair um pouco.

– Pi...?

O pequeno amarelinho pulou até a janela, olhando alternadamente para a chuva e para Satoshi, tentando indicar que não era uma boa idéia. Porém este já não prestava atenção. Embora o rosto não refletisse, tinha urgência em fazer algo, nada em específico, apenas algo, algo que o distraísse daquela sensação.

Lavou o rosto, colocou os tênis, o boné, realinhou a roupa, e uma vez recomposto, saiu.

– Me espere, Pikachu. Mais tarde eu volto.

Bateu a porta com força.

Descendo, avisou à senhora da recepção que sairia. Ela ia dizer algo, mas não houve chance. Satoshi já lhe dava as costas, tomando a direção da porta.

Ainda chovia muito... o que diabos poderia querer nessas condições?

Nem ele sabia... andaria na chuva, sem rumo, até se cansar.

Depois voltaria ao seu quarto, exausto, e dormiria de novo. Não tinha muito sentido, mas quem se importa?

Preferiria ter outro sonho como aquele, com alguns minutos de satisfação verdadeira, ainda que terminasse na mesma decepção.

Resoluto, escolheu a direção da floresta e saiu.