Caminho para a distância
4 Como quem não quer nada
– Ei! Pra que tá andando tão rápido?
Nem respondeu.
– Tô falando com você!
– Mas eu não tô falando com você.
– Eu hein, Satoshi...
Logo estavam na entrada da cidade. Ainda não se via ninguém nas ruas, mesmo porque o céu indicava que ainda poderia chover bastante.
– Você é fresco...
Sentiu uma vontade enorme de acertar-lhe a cara. Mas não faria isso. Já tinha se arrependido por ter rolado na lama e não pretendia repetir a dose. Simplesmente continuou andando. Pretendia ignorá-lo, até que ele tomasse um outro rumo. Aliás, que rumo ele pretendia tomar?
“Pouco me importa...”
Mentira. Claro que se importava. Só não seria tolo de perguntar. Não desejava dar a deixa para outro gracejo.
– Satoshi.
Não iria olhar... não iria olhar...
– Satoshi!
Contrariado, virou-se, cruzou os braços e aguardou. Estava certo de que Shigeru não tinha nada útil para dizer, então muniu-se de paciência para ouvir mais alguma bobagem.
– Onde você está hospedado?
– ... ali... — apontou a pequena hospedaria logo adiante, ainda desconfiado.
– Posso ficar com você?
..............
....engoliu seco....
– Ficar comigo...?
– É...
– ...
– Se não quiser, tudo bem...
– Não, é que ...
– ...?
– Pra quê...? Você sabe que a gente não se entende e...
– Ah, sei lá, eu queria dar uma descansada da minha jornada de mestre e achei que seria uma boa idéia ter alguém pra conversar... – disse aquilo como se dissesse qualquer outra coisa trivial. Satoshi, que não conseguiu responder nada, simplesmente continuou de braços cruzados e forçou-se a conservar a cara fechada, olhando pra baixo. Enquanto não conseguia digerir a proposta, era melhor simular não ter entendido. Shigeru tinha voltado a mexer nas suas coisas, aparentemente relaxado. Entretanto, percebendo que Satoshi continuava em silêncio, retomou:
– Você exagera. Tivemos desentendimentos mas já fomos amigos. E não é sempre também que a gente se desentende. Vai dizer que em todo lugar que cruzo com você nós brigamos?
O silêncio continuou.
– Mas se não quer, beleza.
Satoshi ponderou rápido. Tinha de dar uma resposta.
– Bem... é legal poder conversar com alguém...
– Posso então?
– Não sei... do jeito que você fala de mim, acho que seria melhor pedir isso a outro.
– Talvez, mas por enquanto só tem você, então me viro com o que tenho... – rebateu rindo.
Nossa... sabia mesmo ser irritante.
– Já pensou que posso não querer você por perto, depois de tudo?
– Já, você é meio sensível demais. Por isso eu tô perguntando.
“Sensível demais”. Continuava aproveitando todas as chances para alfinetá-lo. Mas diante da inusitada proposta, era até bom, pois mantinha um resto de normalidade.
Refletiu só mais um pouco.
"ah... não tenho nada a perder mesmo..."
– Vem comigo...
(...)
– Nossa! Mas vocês dois estão terríveis!
A senhora da recepção assustou-se, e não era pra menos. Os dois garotos estavam com um aspecto pouco animador. Assim que os viu entrar, levantou-se de sua cadeirinha e veio olhar mais de perto. Tinha no rosto a preocupação digna de uma vovó. E por uma ponta de intuição suspeitou que aquilo tudo não era só devido à chuva.
– Vocês andaram brigando?
– Nada sério... — Satoshi cortou, sem jeito.
– Bem... você vai pro seu quarto, imagino... mas e ele?
– Ele também vai ficar aqui — respondeu, ainda mais sem jeito.
– Vejo outro quarto pra você?
– Não tem para duas pessoas? — Shigeru interrompeu, bem tranquilo.
Satoshi corou. Aquilo, dito dessa forma, soou estranhamente... agradável?
– Naturalmente — andou até o porta-chaves numerado da parede, olhou-o e depois tornou aos dois — Vão ficar no mesmo quarto, então? Bom... vou fechar a conta no outro quarto e vou dar-lhes o 302 — virou-se para Satoshi — Leve seus pertences para lá, certo?
– O quarto é bom? — perguntou Shigeru.
– Claro! Se não gostar, poderão trocar... tem vários vagos.
– Ok...ok...
– Posso fechar sua outra conta?
Satoshi não ouviu...
– Jovem...?
– Acorda, criatura!
– Ahn? Desculpe... pode fechar a conta sim...
– Sempre distraído... — resmungou Shigeru.
Enquanto a senhora procurava por algo, Satoshi tentou esboçar como agiria. Shigeru já tinha sido seu amigo, mas isso na infância, há longos anos atrás. Desde que começaram suas jornadas, brigaram muito e conversaram pouco. Shigeru tinha razão, no entanto, quando disse que nem sempre brigavam. Às vezes as provocações de Shigeru vinham num tom mais saudável, sem agressividade. Às vezes – mas isso era mais raro – sequer provocava. Estava mais calmo, ou mais triste ou mais desanimado, e nessas horas simplesmente conversava com Satoshi. Não viravam melhores amigos e nem se abria sobre suas tristezas e angústias, mas simplesmente conversava para distrair a cabeça e aparentemente conseguia isso com Satoshi, talvez por já estar acostumado com ele. E o pobre Satoshi, a despeito de sempre prometer para si mesmo, a cada vez que era insultado, que iria pagar na mesma moeda quando o outro precisasse conversar, nunca conseguia negar-lhe um diálogo. Gostava dele, afinal, e esses momentos de trégua eram seus momentos mais felizes.
Nenhuma dessas tréguas, porém, foi algo como a situação que tinha diante de si. Tê-lo por perto, no mesmo quarto? Não tinha a menor idéia de como o trataria. E via que Shigeru não parecia nem um pouco preocupado com isso. Será que ele não achava essa situação estranha?
Decerto não... afinal, partiu dele a idéia. O que pretendia com aquilo?
– Tomem... as chaves. Do 302, e do 305. Daqui a pouco vou buscar a chave do 305. Qualquer coisa, liguem cá pra baixo.
– Ok. Obrigado.
– Ok, vovó.
Satoshi pegou as chaves, Shigeru as bolsas, e subiram. Satoshi calado, Shigeru assobiando.
" Por que ele tá agindo assim?"
Chegou a parar por um momento. Mas retomou o passo antes que Shigeru notasse e seguiu mudo até a porta do quarto.
– Aqui. 302.
Girou a chave. A senhora não tinha mentido, o quarto era bom. O mesmo estilo caseiro do outro, só que bem mais espaçoso.Duas camas, uma em cada canto, cada qual com uma pequena mesinha de cabeceira. Dois pequenos armários também, lado a lado, separados por uma bancada redonda de madeira, ar-condicionado... Um banheiro simples mas espaçoso.
– Bom... a vovó dizia a verdade.
– Shigeru... se acomoda aí... vou buscar minhas coisas no 305.
– Tá.
Escondendo ao máximo sua estranheza com toda aquela situação, Satoshi foi até o quarto. Sua entrada sem grandes cuidados acordou Pikachu, que dormia no tapete. Ao olhar o estado deplorável de seu treinador, Pikachu não pôde evitar...
– Kachuuuuu...
Sem dúvida.
– Vem, Pikachu.
Subiu no ombro do garoto, que recolheu suas coisas lentamente. Quando ia entrar no seu novo quarto, a vovó apareceu sorridente.
– Vejo que já pegou suas coisas.
– Sim, senhora. Toma... – estendeu-lhe a chave.
– Não vou lhe cobrar o quarto, porque você ficou apenas algumas horas.
– Obrigado.
– Mas não se acostume, hein?
Riu sem jeito...
– Ok, ok...
Tomaram seus rumos. Satoshi ia entrar no quarto, mas lembrou-se em tempo...
– Pikachu... o Shigeru tá comigo nesse quarto.
– Pika...??
– É... eu sei que é estranho. Mas sem hostilidades, ok?
– Pika, pika.
Entrou devagar e não viu Shigeru. Ao invés disso, ouviu o ruído do chuveiro elétrico e o barulho da água caindo.
" É... ele fez bem. Também tô pedindo por um bom banho "
Sujo demais para sequer sentar-se na cama, optou pelo chão, e mesmo assim fora do tapete. Pikachu encontrou um canto numa das camas e logo cochilava.
Não demorou para que Satoshi se pegasse tendo certos pensamentos com seu novo companheiro de quarto. O fato de ele estar tomando banho era bem fértil à imaginação.
Foram uns vinte minutos que ficou ali, sentado naquele tapete, entre impulsos que tentava espantar e a crescente irritação pela demora do outro no chuveiro.
Quando por fim a porta se abriu, só via vapor... aquilo ali estava uma sauna. Depois, surgindo da névoa, Shigeru apareceu, vestindo uma longa bermuda azul-marinho de taquitel, cheia de bolsos, uma regata azul-claro de malha leve, com uma estampa discreta na altura do peito.
Limpo, penteado, perfumado...
– Demorou, hein...
Disse aquilo mais pra disfarçar o fato de que devorava-o com os olhos. Se sujo de lama ainda lhe parecia atraente, que dirá em perfeito estado...
– Também... aquela lama toda...
– Sei...
– Vai lá... você tá um trapo.
Satoshi apanhou sua bolsa e tomou o caminho do banheiro. Ao cruzar com Shigeru, sentiu seu perfume... podia jurar que ele ainda usava o mesmo de anos atrás. Não pôde evitar e parou no meio do caminho... ombro a ombro com o outro...
– Que foi?
– Shigeru...
Uma tensão se formou entre os dois, na mesma hora.
– Por que você tá aqui, afinal?
Shigeru pensou em resmungar algo, mas olhando bem nos olhos de Satoshi, perdeu a coragem. Algo teria de ser dito. Aquela situação toda não era natural e não poderia fingir que fosse.
– Toma um banho que depois eu te explico – respondeu com uma cordialidade incomum.
– Tá certo...
Entrou e fechou a porta. O banheiro estava pior que a névoa das seis... mal se via o espelho. Mais ou menos como os pensamentos de Satoshi, difusos, sem forma. Shigeru, embora se comportasse basicamente da mesma forma de sempre, deixara muitas pontas soltas desta vez. Satoshi esperava obter uma explicação razoável para tudo isso.
Antes de ligar o chuveiro, ainda ouviu o som da tv, que Shigeru acabava de ligar.
E por fim, o alívio da água quente caindo sobre seu corpo sujo... Soltou um longo suspiro e vieram lembranças de quando ainda era bem menor, de quando Shigeru ainda era seu amigo. Parecia algo bem distante...
Ouviu um som mais alto.
" Tiroteio na tv... "
...se bem que Shigeru estava ali, com ele, no mesmo quarto...
"...é... até que o dia está sendo interessante..."
Talvez já não fosse algo tão distante assim.
Não seria tudo que ele desejava, mas já seria muito.
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