Caminho Para o Olimpo - A Espada Perdida

1 Capítulo 1 - Coisas Estranhas Acontecem


Notas iniciais
Heyyyyy Corujas *u* Este capituloé narrado por Alex Thompson. Uma garota legal, engraçada, irônica, mas ao mesmo tempo explosiva, ranzinza e temperamntal. Muitos segredos e revelações ainda estão pra acontecer, mas esse é apenas o começo. Espero que gostem. Boa leitura!

Alex Thompson

Eu me chamo Alexandra Thompson, mas prefiro ser chamada de Alex, prazer. Nasci no Novo México quatorze anos atrás, mas atualmente estou morando em Manhattan com minha tia, Mary Thompson. Faço a sétima serie no CICA, sigla para Colégio Interno para Crianças e Adolescentes; uma escola interna para deficientes mentais. Se eu sou deficiente? Aí depende de seu ponto de vista.

Nasci com TDAH e dislexia ― eu acho que não é nenhum problema pra mim e para a sociedade, já que vivo no ano de 2020, mas já fui expulsa de quatro escolas diferentes por conta destas patologias, o que me torna uma delinquente juvenil com problemas mentais.

Aquele era mais um dia comum, em que eu estou levando uma das broncas semanais do diretor, o Sr. Kingman. Ele era um cara alto e gorducho, com barba bem―feita, cabelos cortados no estilo militar, pele morena e uma aparência séria ― só tinha aparência mesmo, porque eu o conheço melhor do que a maioria dos estudantes da CICA.

Uma vez entrei na sala do diretor e ele estava dançando Just Dance Sete no seu vídeo game sensorial recém―saído da loja. Tenho que admitir que achei horrível, mas ele foi o único que me aceitou depois de ler meu “histórico de doer os olhos”. Então continuei calada.

Desta vez ele estava reclamando comigo por mais uma briga com Laura Johnson, minha arquiinimiga do colégio. Aquela lhama sardenta havia colocado minha cabeça no sanitário, e, quando o Sr. Kingman chegou à cena do crime, falou que eu havia caído de cabeça no vaso. Ele, como sempre, acreditou nas palavras da mentirosa e me carregou para sua sala só para me dar uma bronca logo no começo da manhã. Ali estava eu, entediada, com os cabelos molhados e sentada na cadeira da diretoria.

―... Alex, você não pode ficar arranjando brigas por aí! ― ele exclamou.

Eu suspirei e, pela terceira vez, disse:

― Mas não foi eu Sr. Kingman, foi a...

―Você tem que tentar ser melhor que isso, mocinha. ― interrompeu.

Desisti de falar e cruzei os braços. Eu odiava quando uma pessoa me interrompia, então, para não discutir com o diretor resolvi ficar de boca fechada. No espelho no canto da sala eu pude ver a imagem de uma garota loura, com mechas azuis no cabelo, olhos azuis ―elétricos, sobrancelhas arqueadas e queixo bifurcado vestindo uma jaqueta, calças jeans pretas e surradas e um par de All ―Star’s velhos indo de lá pra cá na cadeira giratória da secretaria; uma Alex louca pra socar a cara do diretor pamonha e fugir dali. Embora esse fosse o meu maior desejo nessa hora, tive que me contentar com o fato de que não seria mais aceita em escola nenhuma se quebrasse a cara do Sr. Kingman — então, novamente preferi ficar na minha. Levantei―me da cadeira em direção a porta. Quando coloquei a mão na maçaneta, o homem falou:

― E eu não quero mais ver você metida em confusão, Alexandra. Isso foi apenas um aviso. Lembre―se que você já tem três advertências. Mais uma e você já sabe o que acontece ― ele lembrou. ― Já estamos no penúltimo dia de aula! Faça um esforço para não ser expulsa tão perto das férias. Pode ir.

― Está bem, Sr. Kingman. ― respondi. Tive uma imensa vontade de gritar “Está bem, seu bosta, me deixa!”. Mas, como sempre, tive que me contentar com uma resposta mais meiga.

Abri a porta da diretoria e saí, batendo a porta.

Lá fora, no corredor, Fred me esperava.

Fred era meu melhor amigo na CICA ― na verdade, ele era meu único amigo. Ele era um garoto magrinho e alto, moreno, de cabelos pretos e encaracolados, que na maioria do tempo viviam cobertos por um boné verde. Ele andava de um jeito estranho, e usava uma velha bengala de madeira. Tinha uma distensão muscular nas duas pernas, o que o impedia de andar sem apoio. Tinha um sério problema com acne, e repetiu a mesma serie diversas vezes, pois já tinha uma barbicha crescendo no queixo. Ele veio mancando até mim e perguntou:

― E aí? O que ele falou?

― Só a reclamação de sempre. Graças a Deus eu não assinei advertência essa semana ― falei.

― Quantas advertências você já assinou?

― Três ― respondi. Ele fez cara de espanto. ― O Sr. Kingman me considera. Só espero não assinar mais nenhuma daqui pra frente.

O sinal escandaloso a nossa direita tocou, e eu senti uma pontada no ouvido.

― Argh! Vamos sair de perto desse sinal estúpido! ― gritei, tentando sobrepujar minha voz sobre o apito agudo.

― Sim ― concordou ele, rindo. ― Vamos.

Nós descemos as escadas o mais rápido possível e entramos na sala de aula. Ninguém havia entrado ainda ― como sempre, fomos os primeiros a chegar.

O zelador, o Sr. Fleatcher, que estava limpando os armários do corredor, olhou para mim seriamente enquanto eu pisava sobre o chão recém―encerado. Ele era um cara alto e magricela, careca com uma cara horrível cheia de manchas amarelas. Era corcunda e tinha o dedo indicador torto, talvez que de tanto apontar alunos e acusá―los de fazer coisas que nunca fizeram na vida. Assim que entrei seus olhos negros se estreitaram e ele saiu resmungando, como se não aguentasse estar perto de nós. Ainda bem.

Fred me olhou como quem diz “Uau!”, mas eu apenas me limitei a revirar os olhos. Joguei minha mochila sobre uma carteira na última fileira e Fred, por sua vez, sentou―se três fileiras à frente. Eu não gostava de ser vista nas aulas, e não gostava que ficassem prestando atenção em mim nem nada. Naquele dia os professores estavam faltando às suas aulas como se fosse algum tipo de feriado nacional, o que era eletrizante. Como era o penúltimo dia de aula, e amanhã a maioria dos alunos iria embora para suas casas para passarem as férias e tudo mais, os professores também estavam tirando uma folga. Na verdade, foi bem legal.

Os exames já haviam acabado, e aquele era o dia escolar da bagunça. Aproveitei que todos estavam se entretendo, conversando uns com os outros, os garotos agindo como bobões idiotas e as garotas agindo como patricinhas exibidas, e fiquei brincando com cabos partidos na parede do canto da sala.

Eu enrolava uns nos outros e depois tornava a desenrolar, criando assim, a brincadeira mais chata, irritante, besta e entediante de todos os tempos. Finalmente, o sinal tocou pela última vez no dia e todos saíram eufóricos. Peguei minha mochila e saí. Fui até o dormitório feminino, entrei no meu quarto e joguei minha bolsa em cima da cama. Lá estavam minhas três companheiras de quarto na qual eu quase nunca falava: Kary, Izzy e Lucy. Kary e Izzy eram melhores amigas e passavam o tempo livre fofocando besteiras sobre a vida dos garotos. Lucy era uma garota de cabelos negros como a noite, com olhos castanho ―claro, linda a única garota naquele internato de porcaria que parecia realmente notar quem eu era. Aparentava ter uns quatorze anos. Dava-me um olá aqui e ali, fazia atividades comigo às vezes, porém eu nunca tive como conversar com ela muito bem. Saí do quarto e desci as escadas, indo para o pátio da escola. Lá fora não tinha quase ninguém, apenas Fred e Norton, um amigo de Fred que era um andarilho.

Ele morava na rua da escola, e sempre ia falar comigo e com Fred durante o intervalo. Parecia ter um interesse especial por mim, como se me achasse legal. Acredite, não é fácil socializar com moradores de rua sem ofendê―los, mas eu tinha o jeito.

― Olá Norton ― cumprimentei, acenando através das grades do internato.

― Olá, Alex. ― respondeu, sorrindo.

Por mais que ele fosse um mendigo, Norton usava cadeira de rodas. Seus olhos eram profundos e tinham um ar sábio, como se já tivesse visto de tudo nesta vida. Eu, ele e Fred ficamos conversando por um bom tempo, e eu nem percebia a noção do tempo. Ele conseguia falar de coisas simples ― como um cachorro que havia fugido de casa, por exemplo, ― de uma maneira tão culta que fazia qualquer um se sentir obrigado a ouvir.

De repente, um caminhão gigantesco apareceu no início da rua. Norton, que estava na frente do meio ―fio, falou:

― Alex, me ajude aqui. Aquele caminhão não vai passar se eu ficar no meio da rua assim.

― Por que os humanos são tão ignorantes? Poderiam fazer mais rampas para deficientes! Plantar mais árvores! ― exclamou Fred, com raiva.

Norton olhou para o garoto como se dissesse “Você está falando demais”, e ele disfarçou.

― Ah, o que é? Árvores são legais. Vai logo Alex, o caminhão está mais perto.

Eu sempre pulava o portão para passear secretamente do lado de fora da escola ― tanto que já sabia como evitar as partes pontiagudas com certa agilidade ― e não hesitei em fazer o que Norton pedia. Empurrei a sua cadeira de rodas contra o meio―fio e encostei―o no muro bem no momento em que o caminhão passou rapidamente na rua.

Quando eu já estava de volta para o lado de dentro da CICA, um grito agudo me desconcentrou e eu caí por cima da perna machucada de Fred, que grunhiu e se apressou para esconder seu casco esquerdo dentro do All ―Star.

Sim. Um casco.

Não tive tempo para pensar direito, pois o Sr. Fleatcher já gritava o meu nome no meio do pátio para que todos ouvissem, apontando seu dedo torto para mim.

―FALANDO COM PESSOAS DA RUA! Srta. Alexandra, venha aqui! AGORA! ― bradou.

Levantei―me rapidamente e percebi que eu havia rasgado cortado o cotovelo durante a queda. Eu bufei e tirei a terra da camisa enquanto pensava: “Estou morta. Vou ser expulsa. Acabou vida, acabou tudo.”

― Alex, antes de você ir, tome. ― disse Fred, puxando um anel de ouro do bolso e enfiando―o no meu polegar.

― Cara, eu estou prestes a ser expulsa e você me pede em casamento?! Eu só tenho treze anos! ― indaguei sem saber o que estava acontecendo.

― Não é isso, Alex. ― Falou Norton, calmamente, do outro lado do portão. ―Este anel pode conservar ou acabar com sua vida. Quando se sentir em perigo, gire―o.

― Mas, isso é só um anel! O que cargas d’água eu vou fazer com um anel? ― perguntei. O Sr. Fleatcher gritou meu nome mais uma vez.

Norton saiu apressado com sua cadeira de rodas pela calçada, e Fred saiu correndo em seu passo manco. Grandes amigos.

Inspirei profundamente e segui o zelador, enquanto metade da escola me observava.

Ele me guiou ate o salão de festas da escola, que só tinha alguém durante comemorações especiais (o que é óbvio). Era lá que seu dobermann de estimação, o mascote do colégio, dormia em sua casinha de madeira. Quase que automaticamente, o enorme cão negro acordou e começou a rosnar para mim, o que me deu arrepios.

O Sr. Fleatcher olhou para mim, furioso, como se eu acabasse de ter quebrado o seu troféu de “Zelador mais feio do mundo”. Eu dei dois passos para trás. Não queria ficar perto o suficiente dele enquanto ele estivesse daquele jeito, parecendo tão... maluco. Ele apontou o dedo torto pra minha cara e questionou:

― Você gosta de cachorros? ― sua voz soou fria e malvada.

― S―Sim, por quê? ― perguntei, tentando pensar em alguma coisa que fizesse sentido. Ele era assustador.

― Então acho que vai querer brincar um pouquinho com o Spike não é?!

Spike. Espinho, em inglês. Um nome bem convidativo.

Ele sorriu, friamente, mostrando um monte de presas pontudas e assustadoras. Ele apontou as garras sujas para o cachorro e ele saiu da casinha. Espere aí... garras? Grossas garras sujas e brilhantes nasciam. O cachorro começou a latir para mim, enfurecido. O Sr. Fleatcher me olhou friamente e ralhou:

― Adeus, garota!

Duas asas surgiram das suas costas, rasgando seu uniforme de zelador. Ele tinha o corpo coberto de couro, com uma cara horrível e duas asas de couro enormes. Agora ele não era mais o zelador Fleatcher, mas sim um monstro horrível. Ele levantou voo e foi para cima de mim com as garras abertas, prontas para me rasgar e espalhar pedacinhos de Alex pelo chão.

Eu estava pálida e tremia. Podia sentir meu coração bater aceleradamente abaixo do peito. Aquela criatura estava vindo para cima de mim.

Por instinto, me abaixei antes que ele passasse voando por cima de mim, errando o golpe. Fleatcher fez a volta e saiu rindo como um louco que acabou de fugir do hospício. Olhei para o cachorro, que latia e aumentava de tamanho. Literalmente.

Na minha frente, estava um cão negro e gigante com três metros de altura, com as presas de 10 centímetros de comprimento escapando de uma boca que tinha meu tamanho.

Eu poderia fazer algum ato heróico como ir embora daquele lugar, mas não conseguia mover um músculo sequer. O zelador Fleatcher estava empoleirado no globo de luz, pendurado ao teto, pronto para me cortar ao meio caso eu tentasse fugir. E Spike só aumentava.

Então, lembrei―me do anel que Fred e Norton me deram; ele estava ali, no meu dedo. Tirei―o e girei; um movimento simples que causou um incrível resultado. Uma espada dourada com frio duplo aparecera em minha mão, pesando o dobro do peso de um taco de beisebol feito de ferro. Antes que eu pudesse admirar o que havia acontecido, o cão avançou contra mim.

Como se eu despertasse de um sono profundo, resolvi segurar a espada firme e correr. O cachorro gigante pulava de um lado para o outro, furioso, fazendo com que filetes de baba voassem por todo o salão de festas. Eu corria de um lado para o outro tentando desviar―me do bicho sem cortar as minhas próprias pernas com a espada, mas era bem difícil.

Fleatcher gargalhava acima de mim, observando a minha tentativa desesperada de continuar viva. Eu olhei para ele, mas este foi o meu grande erro: o cão gigante pulou sobre mim e prendeu suas presas em meu uniforme, impulsionando meu corpo para frente e fazendo―me voar. E, quando eu digo voar, digo voar mesmo.

Flutuei vertiginosamente pelo ar e, quando estava prestes a cair, planei sobre o chão e fiquei de pé. A parte boa: eu não me esborrachei. A parte ruim: o sangue que saía do ferimento havia ensopado meu uniforme.

Spike latiu confuso em algum local atrás de mim, mas eu não me importava mais; meu braço havia ganhado um profundo corte logo acima do cotovelo, o que provavelmente deixaria uma cicatriz permanente. E eu não gostava nem um pouco de quando alguém me machucava.

― O que está esperando, cachorro idiota? ― bradou Fleatcher, abrindo suas asas de couro. ― Ataque!

Spike obedeceu e veio até mim, mas eu estava preparada; abaixei―me rapidamente e desferi um golpe com a mão livre bem no meio de seu focinho peludo, fazendo o cão cambalear a cair por cima da casinha de madeira. Ops.

Então eu percebi que a espada estava leve e totalmente ajustada à minha mão ― muito diferente de como estava no momento em que eu girara o anel. Acho que era a hora de usá―la.

Eu ainda estava com medo e tremendo, minhas pernas pesavam mais que chumbo e meu braço pulsava como se fosse explodir, mas precisava salvar a minha vida. Corri até o cachorro caído e desci minha mão com força, fincando a espada em seu pescoço. Com um suspiro arfante, seu corpo se desintegrou em pó e cinzas.

Cremado automaticamente. Bem legal.

―Verme idiota! Como ousa destruir o meu cão infernal de estimação?! ― gritava o ex ―zelador, voando ao redor do globo de luz e exibindo suas garras brilhantes.

Achei que ele viria voando contra mim para me estraçalhar, mas ele fez algo pior; transformou ―se em um corvo negro e saiu voando, quebrando a janela logo ao meu lado. Pude jurar ter ouvido ―o dizer um “Até mais tarde, Alexandra”, dentro de minha cabeça.

Mas eu não tinha que pensar naquilo. Minha visão estava embaçada e eu estava cada vez mais fraca. Sem pensar duas vezes, saí correndo do salão de festas até a enfermaria, ignorando todos os alunos que observavam, boquiabertos, uma garota ensopada de sangue.

A chuva fina molhava a grande janela da enfermaria ― uma pequena casinha de madeira localizada perto da cantina. O Sr Chesterfield, enfermeiro da CICA, passava um algodão molhado com algum remédio que cheirava a limão no ferimento. Eu estava bem melhor.

O Sr. Chesterfield é bonito. Ele é alto, forte e com cabelos bem ―penteados, além de ter uma pele morena que faz um lindo contraste com seu sorriso brilhante. Resumindo: o cara é um gato, por mais que seja adulto.

― Você ainda não me disse onde conseguiu esse ferimento, Alex ― articulou ele, preocupado, enquanto enfaixava o corte.

― Foi... no pátio. Eu tropecei e bati o braço em uma pedra pontuda. É, foi isso ― eu não era boa em mentiras, mas se fosse falar a ele que um cachorro de três metros de altura havia me atacado com certeza ele não iria acreditar.

Ele suspirou, percebendo que eu mentia

―Não importa mais. Já foi feito... espere aqui.

Alguém estava batendo na porta da enfermaria. Chester (para os íntimos) foi até lá para atender, mas a porta abriu ―se antes e uma garota colocou sua cabeça para dentro. Era Lucy.

― Ah... Oi papai ― ela disse.

― Olá, Lucy ― respondeu o enfermeiro, sorrindo.

Ela me viu e acenou, um pouco tímida. Seus olhos foram diretamente para o meu braço enfaixado e sua cara passou de um “olá” para um “o que aconteceu?” preocupado.

― O que foi isso no seu braço?! ― perguntou Lucy.

― Ela caiu em uma pedra ― respondeu Chester, indo até um cômodo do outro lado da enfermaria e fechando a porta.

― Mas não parece corte de pedra.

― As aparências enganam ― eu disse, dando um ponto final ao assunto. ― Então... O Sr. Chesterfield é seu pai?

― Sim. ― ela respondeu, corando. ― E você é aquela garota que...

― Caiu da escada do dormitório feminino? Deu um soco na cara de Laura Johnson? Viu o diretor dançando Just Dance 7 de regata dois tamanhos a menos que o normal? Sim, sou eu ― respondi. Ela riu.

― Você é a Alice, certo?

― Alex ― corrigi. ― Meu nome é Alexandra, mas todos me chamam de Alex. Quer dizer... a maioria.

Ficamos uns trinta minutos conversando e rindo até que eu percebi que ela era a única garota legal daquele colégio ― fora eu, é claro. Naquele momento eu nem conseguia lembrar que quase fui morta por um cão gigante.

― Você é uma garota bacana ― disse Lucy. ― Não é como Laura Johnson fala.

Acho que eu estava corando nessa hora, mas apenas dei um sorrisinho.

― Acho que é melhor você ir. Já está anoitecendo, e você precisa arrumar as malas para a saída amanhã ― falei, olhando para o relógio de pulso de Lucy. ― Seu pai me falou que terei que passar a noite aqui.

― Ah, é mesmo ― respondeu. Ela pegou um kit de primeiros socorros acima do armário da enfermaria e colocou dentro de sua mochila. Parecia ser uma garota muito prevenida.

Lucy saiu, fechando a portar com cuidado. Joguei―me contra o travesseiro na maca e dormi em poucos segundos, deixando minha mente voar entre milhões de pensamentos diferentes.

Toc. Toc. Toc. Clash.

Senti uma lufada de vento gelado entrando no local pela janela recém―quebrada. O vidro se estilhaçou e caiu em grandes pedaços sobre o chão da enfermaria, atingindo a minha cama por pouco. Uma chuva fina e eletrizante caía no lado de fora.

Eu estava desnorteada, sem saber o que estava acontecendo ― acredite, acordar no meio da noite com um monstro quebrando a única janela do quarto onde você está dormindo não é muito legal.

― Sentiu saudades, Alexandra? ― disse a voz cortante de Fleatcher, o zelador assustador, aterrorizador e nada galanteador. Suas asas de couro batiam acima de mim, mantendo seu corpo de rã idosa no ar acima de mim. ― Você pode ter tido sorte ao matar Spike, mas eu sou muito diferente. Eu sou má.

Ignorando o fato de que um “monstro homem” (se é que isso existe) referiu a si mesmo como má, respondi:

― Não tenho mais medo de você, Fleatcher! ― menti, posicionando minha mão desesperadamente sobre o dedo onde antes estava o anel que Fred e Norton tinham me dado. Ele não estava mais ali.

Fleatcher riu lá no alto, gritando:

― Procurando por sua arma, garota tola?

Ele desceu calmamente até o chão, mudando sua aparência de uma maneira bizarra. Sua pele começou a borbulhar e suas asas diminuíram gradativamente. Seu sorriso torto e sujo transformou―se em uma boca delicada. Os olhos diminuíram, e roupas pareceram brotar de seu corpo. Longos cabelos negros e lisos nasceram em sua cabeça, e logo eu vi Lucy em minha frente. Ela levantou a mão direita e mostrou um anel brilhando em seu polegar.

Minhas pernas oscilaram; eu havia conversado com o meu pior inimigo durante todo aquele tempo?

― C―Como? Você conseguiu o anel... No meu dedo...

― Você é muito distraída, querida ― disse o monstro, imitando a voz de Lucy perfeitamente. ― Consegui pegar o anel se, dificuldades.

Então ela investiu contra mim, espada em punho.

Por instinto, joguei meu corpo para o lado, mas a Lucy falsa era muito rápida. Suas grandes asas de morcego apareceram mais uma vez e o monstro voou até mim com uma velocidade incrível.

Mas então parou, de súbito. E eu segui seu exemplo, respirando com dificuldade.

Um trovão ribombou no meio da tempestade que castigava a enfermaria, e um silvo agudo ecoou por todo o local. Um vulto disforme desceu rapidamente pelos céus e foi de encontro à Lucy voando vertiginosamente pelos ares.

Uma batalha aérea se iniciou ― enquanto o monstro voava rogando pragas em um idioma desconhecido, a ave piava e seguia o seu rastro por todo o local. Lucy se transformou novamente em Fleatcher, que saiu voando pelo céu tempestuoso da madrugada, com um pássaro em seu encalço.

Senti algo cair com força em minha testa. Peguei com a mão e vi que era o mesmo anel que Fred havia me dado ― sem espada, apenas bronze moldado.

Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ouvi uma porta ao meu lado se abrindo e vi um Chester vestindo pijamas sair do pequeno cômodo.

― Alex? O que diabos está acontecendo aqui? Quem quebrou a jane...

O enfermeiro foi interrompido por Fleatcher, que entrou novamente na enfermaria. Ele gritou, com sua voz cortante, olhando para o céu:

― HADES LHE AMALDIÇOARÁ, ZEUS! VOCÊ NÃO DEVERIA TER AJUDADO A MEIO―SANGUE!

O vulto da ave apareceu no ar mais uma vez e investiu contra a cara de Fleatcher, que guinchou e se desintegrou em pó e fumaça, assim como seu cachorro de estimação. Outro trovão ribombou no céu, iluminando a enfermaria, e eu vi o que havia me salvado.

Era uma águia, com cabeça branca e penas negras. Ela empoleirou―se sobre uma das macas e começou a cutucar as asas calmamente, como se o fato de ter matado um zelador monstruoso que come gente fosse completamente normal.

De baixo de sua asa esquerda ela retirou uma luva de metal e a segurou com o bico, olhando para mim com seus olhos azuis ― estranhamente parecidos com os meus. Seu olhar era feroz, mas completamente sério. Era uma ave bela e com atitude, o que muitos humanos não conseguiam ser.

― Uau ― disse Chester, e eu assenti. Completamente uau.

― Hum... é para mim? ― perguntei à águia. Só me dei conta de que aquilo era extremamente idiota um instante depois.

A ave abriu suas aas e voou calmamente até o meu ombro, jogando a luva em minhas mãos. Não era de metal, pois era muito brilhante para tal. Era prata.

―Obrigado, acho.

Ela piou carinhosamente e começou a mastigar meus cabelos.

― Acho que ela está ferida. A briga foi feia. Não sei como aquele falcão conseguiu fugir... ― disse Chester, sonhador.

― Que falcão? ― perguntei, sem entender merda nenhuma e tentando tirar meus cabelos molhados de dentro do bico afiado da ave, que saiu voando pela enfermaria.

― Aquele falcão, Alex. Aquele que a águia queria matar. Ah, o senhor Kingman vai descontar essa janela de meu salário...

Eu assenti, sem dizer nada. Observei penas douradas no pescoço da ave, o que era muito estranho para uma águia.

― Alex, acho melhor você ir dormir. Já está tarde ― continuou Chester, olhando para mim.

― Ok. Que tal darmos um nome a essa águia? Devonne seria legal. Significa divino em grego ― falei, automaticamente.

― Como você sabe? ― perguntou Chester.

― Hum... li isso em um livro.

― Tanto faz. É melhor você dormir. Amanhã vou arrumar esta bagunça.

E eu obedeci, mesmo que estivesse com medo de cair no sono e ser morta por algum tipo de criatura maligna. Peguei a luva de prata e o anel de bronze que eu havia ganhado inexplicavelmente e coloquei―os dentro de uma gaveta na mesa de cabeceira.

Devonne estava com suas garras pressas no criado―mudo mais próximo. Chesterfield foi até o seu pequeno cômodo e se trancou mais uma vez, provavelmente tendo dormido no minuto seguinte.

Observei a chuva cair ao lado de fora da enfermaria e respingar para dentro através da janela quebrada. Aos poucos, fui esquecendo tudo de estranho que havia acontecido comigo naquele dia e finalmente adormeci.

Só para ter o sonho mais estranho da minha vida.

Notas finais
So lembrando que a cada 4 capitulos um personagem diferente narra. Eu vou postar aqui quando eu quiser, mas esperem para ler o proximo capitulo que estará pronto daqui a alguns dias. Espero que tenham gostado!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.