Caminhando entre os mortos
6 Capítulo 6 - A primeira vitória
Notas iniciais
Pov – Alice
Me deito na minha cama abraçada a foto de Cassie e Andy, desabo em lágrimas mais uma vez, está muito difícil sem eles, nunca achei que seria assim, sempre imaginei que morreria para salvá-los, que com certeza eu iria primeiro e que então os quatro seguiriam em frente, mas eles se foram e eu fiquei.
Queria muito desistir, mas algo sempre me empurra para lutar, não consigo abrir mão de viver, simplesmente não consigo.
Eu fico um tempo olhando para os rostos delicados e sorridentes que me encaram, naquele noite nenhum de nós poderia imaginar o que o mundo se tornaria, não sei o que teria feito de diferente se soubesse, talvez nada, sempre fui em busca do que queria, do que acreditava e ainda faço isso.
O problema é que agora eu não sei mais de nada, meus sonhos se foram, e é apenas uma sucessão de dias intermináveis, com dolorosas noites no meio, detesto sentir tanto medo.
Encontrar esse lugar foi como um milagre, e mesmo Daryl me garantindo que posso ficar eu sempre acho que vão me mandar embora, e isso me apavora, por que se acontecer eu sei que vou continuar sozinha, mesmo com medo eu vou seguir em frente porque sou assim.
Daryl me vem à mente, aqueles olhos azuis são de tirar o folego, mas ao mesmo tempo que me hipnotizam me deixam totalmente furiosa, ele tem o dom de me tirar do sério, me desafia e eu reajo, tento não reagir, mas então quando me dou conta estamos nos engalfinhando feito dois idiotas, medindo forças, uma tolice, já que ele sempre vence, afinal esse é seu território, ele sabe disso, mais do que isso, usa isso para me vencer.
Quando estamos bem, nos minutos de paz é tudo perfeito, o problema é que só dura uns minutos, mesmo assim eu estou sempre consciente dele, procurando por ele, pensando nele e me preocupando com o que ele pensa sobre mim, o que é uma grande novidade já que nunca dei a mínima para a opinião dos outros.
E já deu para perceber que sua opinião sobre mim é a pior possível, já me chamou de idiota, estúpida, boca suja e sei lá mais quantos adjetivos negativos ele ainda conhece para me descrever.
Eu me refaço da crise de choro e decido descer e ajudar ao meu novo grupo, eles são muito organizados, e quero me adaptar logo, felizmente as pessoas são muito gentis comigo, Maggie e Beth são como amigas para mim, ao menos é assim que as vejo, Rick é muito solicito e Glenn mesmo sem querer me diverte, e Hershel deve ser muito especial, conversei pouco com ele mas já sinto que é alguém que se pode confiar.
Do lado de fora as pessoas pareciam envolvidas com o trabalho, vejo Daryl e Tyreese carregando troncos de árvores, Rick e Maggie fazendo um tipo de segurança para eles, e me aproximo, ofereço ajuda.
−Fique de segurança com a Maggie e eu vou ajudar os dois com essas madeiras.
Rick avisa e paro com minha pistola do lado oposto de Maggie, ela me acena e sorrimos uma para outra, as toras de madeira são trazidas para dentro, e depois entramos.
−O que faço agora? Pergunto desejando ser útil.
−Vamos cortar as madeiras para fazer as estacas, não acho que possa ajudar é um trabalho pesado! Rick me avisa e Maggie me puxa pela mão.
−Achamos algo lá dentro!
E realmente tem muito a ser feito, ajudo no trabalho durante todo o dia, vez por outra minha mente segue até Daryl, penso no que está fazendo, mas logo Maggie me chama a atenção fazendo algum comentário e eu retorno a terra.
Acho que as coisas começaram a se acalmar para mim, de noite me sento sozinha para comer, Beth está com o bebê e não me sinto pronta para me aproximar muito, Maggie come sentada ao lado de Glenn e como eles parecem muito envolvidos um com o outro eu prefiro deixá-los sozinhos, termino rápido e já estava subindo quando vejo Daryl chegar para jantar, Carol se senta com ele na escada, eles parecem bem próximos, fico pensando se são só amigos, mas isso não é da minha conta, ou não deveria ser.
Nesse caso por que me sinto triste com a hipótese de serem mais que amigos? Decido não pensar nisso, e ao invés de subir para minha cela saio para o pátio, me sento no chão e fico um pouco observando a noite, olho para o céu estrelado, se fixar meus olhos nas estrelas quase dá para esquecer onde estamos.
Não fosse os zumbis gruindo de um lado para outro seria tudo perfeito.
−Calem a boca, seu bando de mortos de fome, que chatice! Eu reclamos com eles.
Fico um bom tempo ali, percebo que aos poucos o movimento na prisão diminui, vejo as pessoas seguindo para suas celas, e me levanto para ir me deitar, detesto a solidão da minha cela, sinto falta de companhia, dos meus sobrinhos ressonando ao meu lado, dos cutucões que recebia no meio da noite.
−Se não parar de pensar neles nunca vai superar! Eu me condeno quando já entrava na minha cela, tiro os sapatos, me enrosco toda na hora de ajeitar a cama, esqueço que é um beliche e quando vou levantar bato a cabeça na cama de cima – Que po... Merda! Eu me controlo – Aprende que é uma boca suja e melhore isso!
Me deito de má vontade, me reviro um pouco na cama, bem que podia ter alguma lanterna, assim eu poderia ler até apagar de cansaço como fazia antes quando morava sozinha e assistia algum filme de terror – Alice você vive dentro de um filme de terror, aceita e segue em frente!
Acabo por adormecer, não é um sono revigorante, pelo contrário, pela manhã estou mais cansada que quando fui dormir, acho que nunca mais vou me acostumar.
Vejo Daryl tomando chá e comendo uma pedaço de alguma massa que não sei como se chama, eu caminho até ele.
−Bom dia! Tento sorrir.
−Parece cansada! É o bom dia dele, Daryl começa o dia me chamando de algo parecido com feia.
−Obrigada! Respondo e ele ergue a sobrancelha como se não entendesse – Se pareço cansada acho que deve querer dizer que não estou bem.
−Do que está falando? Ele me pergunta.
−Porque pareço cansada? Cruzo os braços diante dele.
−Sei lá, olheiras e... E está talvez pálida!
−Viu, é adorável acordar e ouvir que está feia, ajuda muito a autoestima de uma garota!
−Alguém como você precisa ser muito estúpida para ter problemas com a aparência! Ele me dá as costas e fico tentando entender o que aquilo quis dizer.
−Ele quis dizer que é bonita! Maggie para do meu lado e sou obrigada a sorrir, ela pisca e se afasta, será que ele me acha bonita?
Depois de comer eu vou para fora, ando pelo pátio sem muito o que fazer, o grupo de busca vai sair e sinto um pouco de inveja, mas fui vetada e não tem nada que possa fazer sobre isso, vejo a moto estacionada e paro ao lado dela, sempre gostei de motos, aprendi a pilotar com quinze anos e meu pai ficou doente de raiva quando aos dezesseis eu comprei uma moto ao invés de um carro quando tirei a carteira de motorista.
Mas eu trabalhei dois anos como garçonete e babá só para juntar dinheiro para ter meu próprio meio de transporte.
Toco a moto, é linda adoraria conhecer o dono dela, quem sabe ele me deixava dar uma volta um dia.
−Garota você é perfeita, adoraria sair por ai com você! Eu digo tocando o guidom
−Nem sonhando! Me viro e lá está ele parado atrás de mim, com uma jaqueta bem legal e a besta nas costas, além dela ele carrega outra arma e a prende na moto, eu sabia, é claro a moto era dele, mereço isso.
−Devia saber, é o dono da moto?
−Agora sou! Ele me diz arrumando suas coisas para sair – Foi do meu irmão!
Eu me lembro de Maggie me contando que ele perdeu o irmão a pouco tempo.
−Gosto do modelo, uma Triumph, é muito boa, modelo bem antigo, com alguma customização, mas bem interessante! Quando olho para ele, Daryl parecia surpreso – Que foi, eu gosto de motos!
−Bom para você! Ele me diz – Eu tenho que ir.
−Nenhuma chance de me deixar dar uma volta nela um dia?
−Zero! Ele responde – Talvez um dia, se servir, te levo para uma volta, pilotar nem pensar.
−Melhor que nada, pode ser quando voltar? Ele suspira.
−Não, mas quem sabe um outro dia.
−Eu queria muito ir.
−Tchau Alice.
Ele sobe na moto, e liga, adoro o barulho do motor, respiro fundo e depois olho para ele.
−Tudo tem sempre que ser do seu jeito, é irritante, insuportável, eu...
−Depois você continua, agora tenho que ir! E simplesmente dá a partida e me deixa feito uma completa idiota no meio do pátio, definitivamente ele me tira do sério, odeio como ele... “Tem que ser um cara de personalidade forte para conter os seus ímpetos” a frase de minha irmã surge do nada na minha cabeça, será possível que eu esteja... Não claro que não, eu nunca vou me deixar envolver por um cara como ele, não, isso é tolice, ele é insuportável, sem dúvida é o único que contém os meus ímpetos afinal eu queria estar saindo e estou aqui, então ele faz isso, mas mesmo assim isso não o torna o cara que esperei a vida toda, claro que não, esse cara não existe era fruto da imaginação de Emma, e de tanto ela falar nisso eu mesma comecei a acreditar.
Detesto ser deixada falando sozinha, e passo o dia pensando nisso, conheço várias pessoas durante o dia, trabalho ajudando do lado de fora, fico de segurança para Rick e Tyreese, mato alguns zumbis que se aglomeram nas grades e no meio da tarde já estava ficando preocupada com a demora do grupo, o trabalho é interrompido, estavam todos cansados e depois de tomar banho pego meu livro e sigo decidida até a cela de Daryl se ele pensa que pode me deixar falando sozinha está completamente enganado.
Quando ele chegar vou estar a sua espera, eu sei que na verdade o que me faz estar deitada em sua cama com o livro aberto sem conseguir sair do mesmo parágrafo a dez minutos é a minha preocupação e não o fato de ter sido abandonada no pátio, mas nunca vou admitir isso ao menos não para ele.
−O que diabos faz aqui! Ele me pergunta quando entra na cela, eu reprimo um sorriso de felicidade ao vê-lo chegar, mas acho que o alivio não dá para esconder.
−Estava a sua espera! Anuncio me sentando.
−E quando foi que marcamos um encontro?
−Acontece que hoje pela manhã eu o estava ofendendo e me deixou falando sozinha, vim terminar.
−Certo, eu sou irritante, insuportável e o que mais?
Fico um pouco pensativa, lindo e completamente sexy eu gostaria de dizer, mas apenas dou de ombros.
−Irritante e insuportável está de bom tamanho! Eu cruzo as pernas e coloco o livro de lado, gosto de ficar ali é melhor que ficar sozinha na minha cela – Sabe o que estive pensando, podíamos ter cortinas nas celas, já que não tem portas, teríamos mais privacidade.
−O que? Ele me olha meio estranho, será que falei alguma bobagem?
−Cortinas, para servirem como portas, não gostou da ideia?
−Admita, seu plano é me deixar maluco, só pode ser isso! Ele me diz apoiando a besta no chão e me encarando – Veio aqui para terminar de me ofender porque eu te deixei falando sozinha pela manhã, não fiquei parado ouvindo seus insultos e agora fala sobre cortinas?
−Você está de mal humor?
−E você, está maluca? Ele me pergunta
−Você não? Ele abre a boca depois fecha – É que todo mundo ficou um pouco maluco, mas se não está é bom, eu acho.
−Vou ficar se não parar de me perturbar!
−Certo, desculpe, eu juro que vou me comportar, como foi lá fora, correu tudo bem?
−Sim.
−Acharam uma prótese para o Hershel?
−Não.
−Está monossilábico?
Ele sorri e gosto de fazê-lo sorrir, pelo menos mais do que de fazê-lo desejar me estrangular como as vezes acho que ele quer fazer.
−Eu decidi não arriscar, o carro do Glenn estava falhando e preferi voltar sem ir muito longe, mas trouxemos algum suprimento e umas latas de fórmula para a bravinha.
−Quem?
−O bebê do Rick! Ele me explica – Eu a chamo assim por que ela lutou muito para nascer e tivemos muito medo de ela não resistir, corri muito para encontrar fórmula para ela, mas ela resistiu e agora está ai, muito forte, Beth e Carol cuidam dela, na verdade todos nós ajudamos um pouco.
Ele simplesmente parece outro homem quando fala do bebê, seus olhos brilham, e quase sinto inveja do bebê, ter alguém como ele assim arrebatado por você é fantástico.
−Eu tenho evitado um pouco ela, ainda não posso me envolver com crianças.
−Entendo! Ele me diz – Isso logo se acomoda! Gosto do modo como ele diz, Daryl não me consola dizendo que vai passar, sabe tão bem como eu que não vai, mas ele diz que se acomoda e nisso eu posso acreditar, essa dor um dia vai se acomodar dentro de mim e vou seguir em frente.
−A sua já se acomodou? Ele mais uma vez se surpreende.
−Sim, muitas coisas aconteceram de uma vez e não tive escolha.
−Me deixa levar você até onde vi as próteses, vamos de moto e prometo me comportar!
Acho que eu o pego de surpresa, ele me olha pensativo, estamos sentados na cama, um do lado do outro.
−Está bem Alice, vai ser um teste.
Eu podia abraça-lo de tanta felicidade, mas acho que ele não é o tipo que gosta disso e abro meu melhor sorriso de gratidão, prometo a mim mesma ficar uma semana sem brigar com ele.
−Obrigada!
−Se fizer qualquer idiotice estará com problemas!
−Certo!
−E não vai dirigir a moto!
−OK!
−E eu dou as ordens!
−Sim!
−E vai...
−Porra a lista não vai acabar nunca?
−Vai começar? Você é intratável sabia?
−Olha quem fala? Eu cruzo os braços, mas me arrependo, quero muito ir e decido me desculpar – Desculpe, eu vou obedecer você cegamente como um cachorrinho de circo treinado, dizer sim senhor para todas as suas ordens, o tempo todo do momento que passarmos pelo portão até estarmos de volta!
−Perfeito! Ele concorda – O que fez hoje?
−Ajudei nas coisas lá fora, nada demais.
Eu devia ir embora e deixar Daryl em paz, mas acontece que não estou conseguindo sair de perto dele e isso está mesmo me irritando.
−Acho que devíamos descer e comer alguma coisa! Ele me diz e concordo.
−Já que vamos sair amanhã podemos procurar umas lanternas?
−Não! Ele me responde tranquilo quando começávamos a descer – Vamos pegar a tal prótese e voltar nada mais, para que quer uma lanterna?
−Ler à noite não estou conseguindo dormir.
−Temos lanternas aqui, eu te arrumo uma.
Ele sabe ser gentil quando quer, o problema é que ele parece que nunca quer, no refeitório Maggie me chama e nos separamos, fico me sentindo um tanto sozinha, mas preciso deixar o cara em paz, ele já me acha maluca, quanto mais longe eu ficar melhor.
E essa coisa de espera-lo chegar na cela dele nunca mais vai se repetir, o problema é que nunca fui boa em cumprir com minhas resoluções, todos os anos eu fazia uma lista das coisas que não faria e nunca consegui cumprir nenhuma delas.
O que importa é que tive minha primeira vitória!
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