Caminhando entre os mortos
28 Capítulo 28 - Intrusa
Notas iniciais
Pov – Alice
Adoro dirigir, simplesmente adoro, me deixa leve e feliz, gosto de me sentir livre, chego quase a esquecer que o mundo acabou, não passo dos velhos limites de velocidade, não quero que Daryl me tire esse prazer, também não desgrudo os olhos da estrada, preciso manter tudo sob controle.
−Eu dirijo bem não é? Pergunto sorrindo.
−Sim! Ele me responde – Mas pode relaxar um pouco! Daryl brinca, eu relaxo os ombros.
−Tenho medo de achar que não sou capaz!
−Alice é uma das mulheres mais capazes que já vi, nunca duvidei de seus talentos, acontece que tem uma nuvem de confusão sobre sua cabeça, o que posso fazer?
−Eu sei! Respondo e então olho para Maggie pelo retrovisor, ela me sorria, falamos muito sobre admitir sentimentos, ela acha que devo dizer a ele o que sinto, eu acho que nunca vou conseguir e nós duas achamos que cedo ou tarde vou dar com a língua nos dentes.
Demoramos duas horas na estrada, falamos sobre muitas coisas, na verdade eu e Maggie falamos, Glenn, Daryl e Sasha ficam calados, apenas nos ouvindo debater sobre melhores bandas de rock, filmes favoritos e melhor cena de beijo do cinema, tudo isso enquanto os três ficavam silenciosos com os olhos grudados na estrada.
Olhamos de longe a grande loja na beira da estrada, diminuo a velocidade, não acho boa ideia entrar no estacionamento.
−Vamos entrar lá? Pergunto.
−Para aqui um pouco! Daryl diz decidido, paro a uns trezentos metros da entrada, descemos todos e Glenn sobe no capô do carro com nosso binóculo, nessa hora acaba toda minha leveza, fico séria, de modo algum vou colocar a vida de alguém em risco.
−A porta está arrebentada, só dá para ver a grande porta da frente, mas essas lojas costumam ter portas laterais! Glenn avisa.
−Alguma movimentação? Sasha pergunta.
−Por enquanto nada! Ele diz muito atento – São poucos carros no estacionamento e a saída e a entrada estão livres, dá para parar o carro bem na porta.
−Está vendo algum zumbi? Eu pergunto, isso sim é problema.
−Espera um pouco, tem dois entrando na loja, mais nenhum, nem em volta, vamos?
Glenn pergunta descendo do carro, nos olhamos decidindo, Sasha dá de ombros, e Daryl concorda.
−Certo, somos cinco, então não vamos nos afastar uns dos outros de jeito nenhum! Daryl pede — E nada de conversa, silêncio total!
Concordamos e voltamos para o carro, dessa vez Daryl dirige, não me importo, estou mesmo muito tensa, fico o tempo todo me lembrando das horas que passei sozinha nas ruas e chega me arrepia lembrar.
O carro para sem muito barulho bem na frente da loja, é dia, mas ainda assim não tem muita luz do lado de dentro, descemos do carro, Daryl com a Besta armada, levo meu machado firme na mão, completamente atenta a tudo a minha volta.
Os zumbis que Glenn tinha visto caminhavam dentro da loja, param no momento que nos sentem, o primeiro nem consegue virar, Daryl o acerta pela nunca, o outro ainda se vira, mas não chega a dar nenhum passo, outra flecha o derruba.
Daryl vai buscar suas flechas e só então nos deixamos explorar o lugar, a loja é gigante, tem todo tipo de departamentos, e vamos seguindo juntos de um por um, derrubamos mais dois zumbis, que surgem em nossa direção, Maggie um e Glenn o outro, passamos por um departamento de roupas, mas isso não nos interessa no momento, depois seguimos em direção a alimentação.
Nos demos bem, eu penso, tem muita comida enlatada ainda, e bebidas, o leite de Judith faz meus olhos brilharem, é tão estranho se emocionar por conta de uma lata de fórmula para bebês.
Decidimos encher carrinhos, é o paraíso, pegamos tanta coisa que precisamos sair para deixar tudo no carro e depois voltar para encher mais dois carrinhos, ainda encontramos, um departamento de camping com barracas, lampiões, lanternas, e coisas muito boas, estamos silenciosos mais muito felizes.
Antes de sair tentamos a farmácia, não tem muito ali, mas saímos pegando tudo que encontramos, Hershel é que vai decidir o que é útil ou não.
A melhor missão da minha vida, eu penso quando chegamos no carro e despejamos o restante das coisas, meia dúzia de zumbis começavam a aparecer vindos das laterais e apenas pegamos a estrada.
Dessa vez Glenn dirigia com Maggie a seu lado eu ia atrás com Daryl e Sasha.
−Perfeito, simples assim! Maggie diz sentada de lado nos olhando e sorrindo – Alice foi uma ideia ótima!
−Obrigada! Eu respondo muito feliz – Dava até para levar mais coisas!
−Só de pensar nos lampiões e o querosene, já me sinto feliz! Sasha responde.
−E vamos ter leite para Judith para todo inverno! Glenn lembra a todos feliz.
Olho para Daryl ele me sorri, passa o braço por meu ombro e me encosto nele, meu coração descompassa um pouco, é tolice ficar assim emocionada com essas demonstrações de carinho em público, mas eu fico, chego a sentir lágrimas nos olhos.
Ficamos mais calmos depois de meia hora de estrada, eu nem abro mais a boca, gosto de ficar assim, recostada em Daryl olhando a paisagem na estrada.
−Caramba! Glenn reclama diminuindo e olho automaticamente para frente, umas duas dúzias de zumbis fechavam a estrada a nossa frente – Vou dar a volta, vamos ter que pegar alguma secundária no caminho! Ele diz fazendo a volta, todos imediatamente tensos.
Daryl se afasta de mim, gruda os olhos na estrada, Glenn volta por onde viemos, e demora mais de uma hora para encontrarmos uma secundária e então seguir em direção a prisão, a viagem ganharia mais pelo menos duas horas, temos combustível, mas isso não é garantia de muita coisa.
Toda tranquilidade desaparece e ficamos em silencio, seguimos com os olhos vidrados, depois de uma hora passando por um zumbi ou outro na estrada assistimos uma pequena confusão.
No começo só o que vemos são dois carros parados, mas depois percebemos pessoas, dois homens, duas crianças e uma mulher.
Glenn diminui, eles fazem sinal para nosso carro.
−O que acham? Glenn pergunta.
−Tem crianças lá, pelo amor de Deus, vamos ajudar! Eu digo irritada, como se pode ter dúvidas sobre cuidar de crianças?
Ninguém diz nada contrário e Glenn se aproxima, três zumbis saiam da floresta, os dois homens os acertam com facões e as duas meninas se abraçam.
Paramos finalmente, Descemos atentos e olho em volta, um zumbi caminhava a uns metros, além disso tudo parecia bem.
−Lembre-se, nada de ficar de refém! Daryl sussurra quando nos aproximamos.
−Problemas? Sasha pergunta, se fosse eu daria uma bela resposta, mas eles parecem assustados demais para isso.
−Estamos fugindo, ficamos sem combustível! Um dos homens nos diz.
−De que estão fugindo? Daryl pergunta e começo a achar meu grupo péssimo em fazer perguntas, penso em outra ótima resposta, mais uma vez fico calada.
−Uma horda desses monstros nos alcançou a alguns quilômetros, foi uma loucura, conseguimos fugir, estávamos na floresta num pequeno acampamento com umas pessoas, acho que foram todos atacados!
−Por favor, essas são Mika e Lizzie, minhas filhas, eu preciso de ajuda, são só crianças, não nos deixem aqui! O desespero de um pai comove qualquer um.
−Vamos ajudar! Digo rápido – Eu sou Alice, não tenham medo! Digo me aproximando das meninas, elas balançam a cabeça ainda abraçadas.
−Eu sou médico, posso ser útil! O outro homem avisa, Daryl me olha e concorda com um movimento de cabeça, olhamos todos para a mulher.
−Meu nome é Theresa, mas podem me chamar de Tess! Ela sorri, olha fixamente para Daryl, e decido que por mim ela bem pode continuar na estrada.
−Vamos arrumar um pouco de combustível para vocês e podem nos acompanhar se quiserem! Daryl avisa, Glenn segue até nosso carro pega um galão de combustível e começa aquele processo de derramar gasolina, depois ele se certifica que o carro está funcionando e voltamos para a estrada, Theresa até estarmos dentro do carro não tira os olhos de Daryl me deixa bem nervosa.
A mulher está no meio de um apocalipse, parada numa estrada sem combustível e correndo risco de ser devorada e fica vidrada em um homem?
−Não tem nada de Tess, para você ela é Theresa! Eu não resisto a dizer assim que nos acomodamos no carro e Glenn dá a partida.
−Do que diabos está falando?
−Não se faça de bobo, não é nenhum idiota entendeu perfeitamente o que eu disse!
−Agora não sou idiota? Ele diz confuso, seu não conhecesse a cara de pau dos homens podia até achar que ele está mesmo confuso.
−Quem disse que não é idiota? Digo sem olhar para ele – É o rei dos idiotas!
−Puxa que alivio! Fico o resto do caminho silenciosa, a mulher era bem bonita, mexicana com certeza, dava para sentir um leve sotaque quando falava, tinha cabelos castanhos escuros, olhos também escuros, era magra e cheia de curvas, além disso usava uma calça tão justa que seria incapaz de correr de zumbis se fosse preciso, mal entendo como conseguiu sentar no banco do carro.
−Não gostei nada dessa mulher! Maggie diz no banco da frente – Não ficou olhando para ela ficou Glenn? Ele arregala os olhos para Maggie.
−Está falando sério? Pergunta confuso.
−Melhor ficar longe de encrencas, estou avisando! Maggie diz se virando para frente e prestando atenção na estrada, eu faço o mesmo.
−As duas menininhas pareciam bem assustadas não achou? Daryl me pergunta.
−Sim! Eu respondo.
−Coitado do pai, sozinho com as filhas!
−É! Respondo de má vontade.
−Está monossilábica?
−Que observador!
−Não está falando comigo?
−Pareço não estar falando com você?
−Já me deu essa resposta antes! Ele diz rindo.
−Nossa Daryl Dixon está contentinho! Eu digo fixando meus olhos na estrada.
−Sasha? Glenn a chama ela olha para ele.
−Sim?
−Está tudo bem com você, é por um acaso alguma revolta feminina?
Sasha apenas ri, bem faz ela em ficar sozinha, aposto que os dois estão bem curiosos sobre a mexicana de calça apertada.
Nenhuma palavra mais é dita no carro Daryl me olha a cada cinco segundos, abre e fecha a boca sem coragem de dizer realmente nada, então chegamos a prisão, Carl nos abre o portão e descemos, Rick e Carol vão como de costume receber as pessoas que trouxemos, Tyreese se junta a Karen para ajudar a esvaziar o carro e eu encaro a mulher que passa por nós e acena para Daryl.
−Sabia que trouxe um presente para você? Ele me diz muito docemente o cara de pau – Não quer ver?
−Daryl eu estava lá, não pegou presente coisa nenhuma!
−Se não quer sei de alguém que vai adorar! Ele diz começando a se afastar.
−O que é! Maldita curiosidade feminina, me condeno.
−Vai voltar a falar comigo?
−Deixa de ser infantil, ficar de mal é coisa de criança! Eu o imito e acabo sorrindo.
−Fica aqui! Ele volta para o carro, remexe nos sacos e pacotes, Tyreese se afastava com algumas coisas na mão e ele o chama – Espera Ty, tem uma coisa minha ai! Eu fico de longe esperando então ele volta em minha direção – Aqui está como prometido! Me estende uma boneca Barbie ainda na caixa, não resisto a isso, sei que só quer me provocar, mas devo admitir que adoro o presente.
−Que linda! Digo emocionada pegando a boneca tentando tira-la da caixa – Tinha uma assim quando era criança, mas eu matei a pobre afogada! Entrego a caixa a ele −Abre aqui, ela quer respirar!
Daryl estava com os olhos tão bonitos eu noto, eles sorriam mais que seus lábios e sorrio de volta.
Ele abre a caixa e pego a boneca, algumas pessoas me olham intrigadas, dou de ombros, que se danem, isso é tão especial quanto a lanterna, abraço Daryl, ele até que retribui, mais parece que está abraçando um porco espinho, mas ainda assim é um abraço, então me afasto e caminhamos para dentro.
−Matou como? Me pergunta.
−Afoguei na banheira na hora do banho, ela ficou tipo Barbie zumbi!
−Sei!
−Sério não se pode lavar os cabelos de uma Barbie, acredite.
Entramos e passo por Theresa, ela se aproxima de nós.
−Obrigada Daryl, você foi muito gentil em nos receber! Tem um sorriso todo sedutor, pisca sexy, joga os cabelos para trás num movimento claramente estudado, me arranca um olhar matador.
−De nada! Eu respondo por ele, depois puxo Daryl escada a cima ele me segue confuso.
−Você está com ciúme da mulher é isso? Sua pergunta soa como se eu fosse maluca, como se não tivesse razão nenhuma para isso.
−Óbvio que não! Minto descaradamente.
−Que bom! Ele diz e posso sentir seu alivio – Foi um dia muito bom o de hoje, saímos e olha você aqui, de volta e inteirinha!
−E dirigi, não bati o carro, não atropelei nenhum zumbi! Ele me sorri – Perfeito e ainda ganho um presente, obrigada! Me aproximo dele e Daryl me envolve, me beija longamente, correspondo e então sinto um medo de perder Daryl, se apaixonar é uma merda.
−Só aquela mulher estraga a felicidade do dia! Eu não sou muito boa em esconder meus sentimentos.
−Deixa de tolice, a mulher acaba de chegar, você e Maggie estão exagerando.
−Certo, bom vou na minha cela guardar o meu presente e depois descer, adoro a felicidade das pessoas quando chegamos.
−Prefiro o seu sorriso de felicidade quando chega! Ele me beija de novo e depois eu o deixo, mas dúvida me acompanha, Daryl não é o tipo carinhoso, e uma frase como essa me confunde, na verdade tudo nele me confunde.
A nossa comunidade está cada dia maior me reúno ao grupo, fico sabendo que o médico se chama Caleb e que tem um sobrenome muito esquisito e então decido que doutor S é um bom jeito de chama-lo, ele é muito simpático, Carol se encanta pelas meninas, acho que faz com que se lembra da filha que perdeu, fico feliz por ela, também me lembram minha Cassie e isso não chega a ser bom, pelo contrário me deixa melancólica.
Theresa se aproxima com seu sorriso sexy, se junta a todos, Daryl vem logo em seguida se senta do meu lado e ficamos então ouvindo as histórias de todos. A cada história vamos nos dando conta do quanto tudo foi igual para todos, os dias do mais completo assombro, os primeiros zumbis que vimos, as primeiras perdas, quando a morte ainda nos deixava de luto, hoje nem isso temos mais.
O apocalipse nos pegou do mesmo jeito, não sei porque sobramos, se somos mais fortes ou apenas demos mais sorte, talvez azar, nem sempre dá para ter certeza, mas o fato é que estamos aqui, ainda de pé, ainda caminhando por entre os mortos, e ninguém sabe até quando.
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