Caminhando entre os mortos
2 Capítulo 2 - Perdendo tudo
Notas iniciais
Pov – Alice
Estamos a duas horas caminhando, o dia amanhece felizmente, as crianças estão cansadas e famintas, sem contar a sede, mesmo eu me sinto esgotada, Cooper no entanto parece achar que apenas caminhando sem destino ou direção vai nos livrar de sermos devorados.
−Estou com fome papai! Cassie se arrisca, Cooper olha para ela de mal humor.
−O que quer que eu faça? Ele pergunta – Emma dê um jeito nisso, eu preciso pensar.
Minha irmão afaga o rosto abatido da filha, dá um sorriso fraco, e depois apenas continua caminhando.
−Acho que devíamos seguir para a estrada, quem sabe achamos uma casa ou coisa assim, as crianças precisam descansar.
Cooper me olha de cima do ombro, não se dá ao trabalho de responder, mas uns minutos depois se vira para o norte em direção a estrada.
Respiro aliviada, ninguém mais conversa, nem mesmo nos olhamos, apenas seguimos em frente quando pegamos uma pequena estrada de terra batida, alguns minutos e então casas começam a aparecer depois de uma curva leve, paramos na primeira delas, um sobrado pintado de verde com a grama crescida e a caixa do correio quebrada, ela pendia para o lado e fazia um barulho irritante de metal enferrujado.
Cooper dá um chute na caixa que cai com um pequeno estrondo.
−Shiu! Resmungo e ele caminha para porta, nada de planos, ou um olhar mais atento para termos certeza do que iriamos encontrar, mas Cooper não costumava sair nas buscas, era um líder covarde que sempre se preocupava em ficar seguro enquanto o resto do grupo saia em busca de suprimentos.
Ele gira a maçaneta e seguro sua mão.
−Espere, vamos olhar primeiro, ver se é seguro, podemos entrar pelos fundos, estamos com as crianças não é boa ideia arriscar assim.
−Alice se quer liderar um grupo vá em frente, ache um para você, essa é minha família e eu decido como vamos agir.
Ele me responde abrindo aporta, no instante seguinte um zumbi salta para fora e avança sobre ele, Cassie como era de se esperar grita assustada se abraçando a mãe, Cooper luta com o zumbi segurando seu pescoço tentando afastá-lo, eu devia deixar que se virasse, mas não posso, ele é a vida de Emma e ela é tudo que tenho, enfio a faca no crâneo podre do zumbi que cai, Cooper cambaleia para o lado, olha o corpo inerte e sequer me dirige um olhar, prepara o machado e caminha para dentro.
−Esperem aqui! Digo a minha irmã, estendo a pistola a ela que a recusa com um movimento de cabeça – Droga Emma! Eu praguejo antes de entrar atrás de Cooper, a sala está limpa e a cozinha também, subimos as escadas e ele fecha a porta de um dos quartos sem nem ao menos olhar.
−Não precisamos nos preocupar com isso, esses merdas não sabem sequer abrir uma porta! Me avisa quando entramos no outro quarto, tudo parece limpo e descemos, Emma e as crianças entram, tranco a porta e puxo as cortinas, encontramos comida enlatada, alguns potes de frutas secas e bebemos água da torneira, devia ser quase meio dia, nos sentamos na sala, todos reunidos e em pouco tempo as crianças dormiam.
−Você fica aqui com eles! Cooper me diz pegando Emma pela mão e subindo as escadas em direção ao quarto, como o cara pode pensar nisso num momento como esse? Eu me sento próxima da janela, preciso ficar de olho, não andamos muito pela cidade, não sabemos como esse lugar está, anoitecia quando minha irmã e o marido descem e então me estico um pouco no chão, adormeço e quando acordo era manhã, corro para janela, a rua parecia tranquila.
−Não vamos a lugar nenhum! Cooper me diz, me assusto e quando me viro ele está de pé me olhando irritado.
−Pensei que eles podiam ficar por aqui enquanto damos uma olhada na região, quem sabe achamos um carro, combustível, é sempre mais seguro de carro.
−Já disse, nós não vamos a lugar nenhum, aqui parece um bom lugar para nos estabelecermos.
Emma se senta, sabe que vamos discutir e se prepara para interferir, Andy revira os olhos e Cassie me olha suplicante.
Fico com pena dela e busco me controlar antes de falar, me afasto da janela e caminho até perto dele.
−Cooper este não é um lugar seguro, não tem qualquer proteção, se uma horda, ou mesmo um grupo menor, se nos acharem aqui, se forcarem a porta ou as janelas, não podemos arriscar, além disso, deve haver um motivo para estar tudo abandonado, se fosse seguro teríamos mais pessoas.
−Alice, essa é minha família, eu decido, não vamos sair daqui, gostei do lugar é onde vamos morar de agora em diante.
Ele segue para cozinha, abre a lata de pêssegos e come um despreocupado.
−Emma! Eu apelo para o bom senso de minha irmã.
−Cooper sabe o que está fazendo Alice, dê algum crédito a ele, estamos seguros agora.
Balanço a cabeça e me sento no sofá, não posso vencer o cara se minha irmã é incapaz de lutar contra ele, inconformada me levanto de novo.
Fico andando de um lado para outro, de má vontade, me decidindo sobre como posso resolver essa porcaria sem ferir o orgulho de nosso grande líder.
−Vamos fazer uma busca! Ele me diz e concordo com um aceno, ao menos isso, logo aquelas frutas chegariam ao fim e as crianças precisariam comer – Todos! Ele diz quando apenas eu me prontifico.
−Acho que eles podiam nos esperar aqui!
−Não sei o que me deu para convencer minha mulher a ir buscar você, viajei da Virginia até aqui só para ficarem juntos e passa o tempo todo me contestando, eu não devia ter sido tão generoso.
Meu sangue ferve, ele não achava mesmo que eu tinha acreditado nisso nem por um segundo.
−Como pode ser tão cínico? Pergunto irritada – Vi os documentos que trazia no segundo dia de viajem.
−Do que está falando?
−Vamos Cooper, vamos ser honestos ao menos uma vez, o mundo está acabando, você achou que isso seria só um contratempo, achou que logo tudo se resolveria, não foi? Ele me olha atônito – Então pensou, vou enganar aquela idiota, fazê-la me passar todo o direito de cuidar dos bens da família, os zumbis voltam para o inferno e eu fico com tudo.
−Sabe, o que está dizendo
−Sei, vi os papeis, e precisa saber que nunca liguei a mínima para nada daquilo, sai de casa a muitos anos, me virei sozinha seis anos, tenho vinte quatro anos e sou completamente capaz de me virar, eu nem mesmo pretendia ficar com nada, iria doar tudo que meus pais deixaram para seus filhos, como vê não precisava se esforçar tanto e agora nada disso importa, perdeu tudo!
−Alice! Emma se aproxima de mim quando percebe o olhar feroz que ele me lançava, eu sei o quanto deve ser difícil para ela ficar entre nós, e me seguro ao máximo, mas aquilo realmente foi demais.
−Desculpe Emma, isso agora é só uma tolice, não tem mais escritório nem imóveis, só o que importa é o que vamos comer e se vamos ser devorados.
Me afasto de todos, volto para janela, e me controlo para não chorar, detesto me sentir assim, sem controlo sobre minhas emoções, mas no momento me sinto cansada demais.
−Vai ficar ai? Ele me pergunta me fazendo voltar a realidade, estão todos na porta e sem alternativa eu os sigo.
Caminhamos uns dois quarteirões e então um pequeno mercado surge diante de nós, estava ainda inteiro por fora, nada de janelas quebradas e portas arrombadas, quem sabe tivesse sido esquecido.
Me viro e quando ia abrir a boca para me oferecer para a busca com ele, Cooper entregava a Ak nas mãos de Andy.
−Qualquer coisa atire já ensinei como funciona, vamos entrar e ver o que encontramos.
−Ele...
−Já disse essa é minha família! Cooper me corta – Vocês duas ficam aqui fora.
−Então Andy fique com a minha pistola, ela é mais leve, e terá mais precisão.
−Está se achando a militar, ele fica como está, essa dispara mais tiros e se ele errar tem mais chances que com essa coisinha que carrega.
Eu não vou vencer nunca essa porcaria de discussão então mais uma vez me controlo e olho para Andy.
−Fique perto! Peço e ele revira os olhos, está se achando algum desses heróis de vídeo game que ele tanto gostava.
Entramos, e assim que passamos para o lado de dentro nos separamos, sigo ao lado de Andy, tudo parecia tranquilo, mas as prateleiras impediam uma visão melhor do ambiente e cada corredor oferecia um risco.
Recolho algumas latas e coloco na mochila que carregava, quando me viro Andy não estava mais ao meu lado, me apresso em procura-lo, dois corredores e nada, então ouço seu grito e tiros vindos em minha direção me abaixo, a arma parecia fora de controle.
−Andy! Cooper grita, tento seguir na direção dos tiros e dos gritos.
−Pai socorro, tia! Um tiro quase me acerta a arma cessa e consigo encontrar meu sobrinho, ele não gritava mais, nunca mais gritaria, dois zumbis estavam sobre ele se alimentando, paraliso e então vejo Cooper passar por mim.
−Desgraçados! Ele grita quando enfia o machado na cabeça do primeiro e o segundo avança em sua direção, mas Cooper o derruba no mesmo instante.
Meu pequeno Andy e toda sua coragem, sua vontade de crescer, agora estava tudo acabado, Emma nunca superaria aquilo, eu nunca superaria aquilo.
O grito de Cassie me desperta, elas estão lá fora e claro depois daquele barulho todo zumbis deviam estar vindo de todos os lados, me viro e alguns já entravam na loja, corro para o lado oposto, pego um corredor e quando pretendia virar um zumbi surge eu apenas o empurro, continuo tentando fugir e de novo outro surge, atiro e empurro uma das prateleiras prendendo outro, então consigo sair.
Mãe e filha gritavam abraçadas, zumbis surgiam dos dois lados da rua, Cooper chega logo atrás de mim, corremos os dois em direção a elas.
−Vamos! Ele grita puxando a esposa enquanto disparava derrubando zumbis e abrindo caminho, eu fazia o mesmo.
−O Andy, não podemos sair sem ele! Emma grita e meu coração dói, não é assim que se diz a uma mãe que seu filho está morto, mas é exatamente assim que Cooper diz.
−Andy morreu, foi devorado! Ele a puxa e vejo as pernas dela falharem enquanto corre obedecendo ao marido, fico ao lado de Cassie e então estamos mais uma vez na floresta, paramos e Emma se entrega ao choro, se senta no chão abraçada a Cassie que assim como ela chorava.
−Meu filho, meu bebê! Ela soluçava.
Sei que Cooper amava o filho, é sim um completo idiota, mas isso não o faz um homem incapaz de amar, ao menos é o que parece já que ele a ajuda a ficar de pé e abraça Emma, fico cuidando do perímetro enquanto a família se entrega a dor, não vou chorar, não agora, eu os olho, e me dou conta que simplesmente não faço parte disso.
Depois de algum tempo seguimos caminhando, não havia mais nada a fazer e apenas caminhamos, a noite cai sobre nós, e chegamos finalmente a beira de um rio, passamos a noite ali, Cooper acende um fogo baixo e nos sentamos, Cassie adormece, minha irmã tem os olhos perdidos e estamos todos em silencio, não temos mais nada a dizer um ao outro, nos perdemos há muito tempo.
Dois dias se passam, tínhamos algumas latas nas mochilas, coisas que pegamos antes de Andy começar a gritar, além disso comemos frutas das árvores, bebemos água no rio que agora seguimos, e descansamos vez por outra, estamos sujos, cansados e perdidos de todas as maneiras.
No terceiro dia depois da morte de Andy nos reunimos para dividir o que restou da comida que eu e Cooper tínhamos recolhido.
−O que vamos fazer agora? Emma pergunta.
−Achar um novo abrigo! Cooper avisa e fica de pé – Vamos não podemos perder tempo, logo achamos um lugar.
No fundo acho que se sente culpado, mas nunca vai admitir, eu o desprezo e ele sabe disso, o homem também me detesta, mas temos algo em comum, Emma e Cassie e por isso temos que conviver.
Cooper representa tudo que mais odeio, é arrogante, machista e egoísta, em nenhum momento colocou as necessidades de sua família em primeiro lugar, nunca abriu mão de nada por eles, lembra meu pai e sua necessidade de comandar tudo.
Ouço o som de passos, passos arrastados, e logo o som de gruídos chega a nossos ouvidos, paramos, aponto a direção do som e Cooper concorda, damos meia volta e começamos a nos apressar, mais uns passos e o som fica mais próximo agora vindo de outra direção, mais uma vez paramos e o primeiro zumbi surge então são vários e pego a mão de Cassie, ela se solta de mim e corre para o pai.
Grita assustada quando um deles toca seu braço, Cooper o derruba, outro vem por suas costas atiro, não queria disparar mas não tenho escolha, e o grito de Emma ecoa pela floresta me volto e ela está sendo atacada.
Acerto o zumbi, mas ela está caída e dois a atacam e então Cooper corre para ela, eu também, pego um com minha faca ele pega outro com seu machado, ela geme, tem várias mordidas, Cassie gritava e quando aponto a pistola um zumbi mordia seu ombro.
−Não! Dou dois tiros nele, nem me passa pela cabeça errar corro até ela, pego minha sobrinha no colo e a envolvo num abraço, Cooper está de pé paralisado, os olhos perdidos, vidrados e distantes.
−Cooper! Eu grito, tento avisar que zumbis se aproximavam, ele não vê ou não se importa e então é derrubado, ainda vejo a primeira mordida no rosto, o machado ser solto e só posso correr, corro com Cassie em meus braços, ela chorava agarrada a mim, me afasto o máximo que posso, caio com ela nos braços, o chão está lamacento, tenho dificuldade de me erguer, mas fico de pé e continuo a correr, só quero me afastar daquilo, sinto o sangue dela escorrer por meu corpo, quente e espesso.
Caio mais uma vez, e demoro a ficar de pé, ela é uma menina de oito anos, mal sinto meus braços e se pensar nisso vou descobrir que não posso carrega-la como estou fazendo, mas simplesmente sigo em frente, vejo uma cabana.
Possivelmente um lugar usado por caçadores nos velhos tempo, é feita de madeira e a porta está fechada, talvez possa ficar ali, abro e está escuro, entro com Cassie nos braços eu a coloco na cama, uma nuvem de poeira se forma, Cassie tosse, está com febre, aperto a ferida em seu ombro, uso uma coberta para estancar o sangue.
−Vai ficar tudo bem querida, não se preocupe! Eu digo a ela.
−Tia eu vou virar?
−Não, claro que não! Eu não permitiria, quero desesperadamente me entregar, mas não posso.
−Cadê a mamãe?
−Ela já vem – Eu faço um carinho em seu rosto, os olhos azuis e doces de Cassie me observam esperançosa.
−Eu estou cansada tia, meu ombro dói.
−Desculpe querida, eu sinto muito! As lágrimas começam a correr, não sobrou mais nenhuma coragem para enfrentar isso, quero só me render, deixar que tudo se acabe para mim também.
Ouço passos do lado de fora, se forem zumbis que se dane podem me esperar eu não vou demorar a sair, então a porta se abre, vejo um homem com uma besta, uma mulher e depois mais um homem, eles me apontam as armas, fecham a porta atrás de si, mas então veem Cassie e estacam, as armas são abaixadas e lhes dou as costas, minha menininha está me deixando e só o que posso fazer é assistir.
−Eles vieram ajudar a gente tia Alice?
Seguro a mão de Cassie, afasto seus cabelos do rosto, é tão linda e delicada, se parece tanto com Emma, queria tanto ter dito a ela o quanto a amava.
−Sim querida! Soluço e beijo seu rosto, a temperatura está caindo, Cassie está me deixando lentamente – Amo você sabia?
−Sim! Ela aperta minha mão – Mamãe está demorando.
As lágrimas escorrem por meu rosto quero controlar aquilo, deixar que ela ache que ficaremos bem, mas simplesmente não consigo.
−Ela vai chegar meu anjo.
−Posso fechar os olhos um pouco? Ela me pede e desabo em lágrimas, Cassie fecha os olhos e me abraço a ela, choro sobre seu corpo uns minutos, mas então me afasto, arrumo mais uma vez seus cabelos, está toda suja de barro, coberta de sangue e ainda assim, me lembra um anjo.
Cassie está morta, assim como o resto da minha família, todos me deixaram, tudo a nossa volta está morrendo, caminhamos entre os mortos e não tem nada que possamos fazer.
Ela não queria virar um zumbi e não vai, eu retiro minha faca da cintura, beijo pela última vez Cassie e então enfio a faca em sua têmpora, depois me sento no chão, fixo meus olhos nela, não choro mais, não penso mais, apenas fico ali, olhando para ela.
−Alice não é? Um par de mãos quentes me tocam, um terrível contraste com o corpo frio que acabei de tocar, foco a visão e a moça me olha, nem me lembrava que eles haviam entrado – Eu sou Maggie, sinto muito, mas precisamos ir agora, temos um lugar segura, venha, pode andar?
Faço que sim, ela me ajuda a ficar de pé, olho mais uma vez para Cassie, minha menininha vai ficar para trás, sempre detestei deixar qualquer um para traz.
−Esse é Glenn! Ela me aponta um rapaz que acena sem jeito – Esse é Daryl! Olho para ele, sinto algo estranho, não compreendo seu olhar, ele não faz qualquer movimento para me cumprimentar e me volto para Maggie.
−Estou bem! Aviso por que ela parecia querer me carregar no colo.
−Não tenha medo está bem, vai ficar segura.
Ninguém mais pode ficar seguro, ela está mentindo ou se iludindo, o mundo acabou, não restou nada e não me importo, acabo de perder tudo.
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