Caminhando entre os mortos
1 Capítulo 1 - Mais um ataque
Notas iniciais
Pov – Alice
−Isolada como sempre! Emma me diz sentando-se ao meu lado, eu finjo sorrir, depois volto meu olhar para frente, apenas observando a mata, o dia está quente como de costume, e na floresta esse calor fica mais intenso por conta da mata fechada.
−Só pensando um pouco – Respondo sem muito entusiasmo, a minha volta apenas uma paisagem verde, todo tipo de plantas e a floresta de pinheiros, adoro o cheiro que desprende dos pinheiros em dias quentes como o de hoje, uma cerca de arame farpado nos protege, não que ache isso muito seguro, mas é assim que vivemos agora – Onde estão as crianças? Pergunto sem me interessar muito pela resposta, apenas para não parecer tão irritante como Emma costuma me acusar de ser.
−Cassie está na barraca, lendo um livro que Chase trouxe, Andy como sempre está atrás do pai.
Meus sobrinhos são sem sombra de dúvidas a única coisa que presta na porcaria do casamento de minha irmã com Cooper, aquele babaca se acha o centro do universo, o senhor da razão.
Nunca nos entendemos, não seria agora que caminhamos entre os mortos que começaria a funcionar.
−Alice você podia se esforçar um pouco não é, Cooper está tentando, não estaríamos aqui se não fosse ele.
Olho para minha irmã mais velha, não escondo meu espanto, o cara é um babaca e por conta de sua mais completa falta de noção já perdemos mais de dez membros do grupo só nas duas últimas semanas.
−Ás vezes acho que não se ouve falando ou teria noção do quanto isso soa estúpido! Eu olho de novo para a mata a minha frente, pego minha faca e começo a riscar o chão de terra vermelha, desenhos desformes, meu único objetivo é me distrair das tolices de minha apaixonada irmã – Escute! Peço a ela –Está ouvindo?
−Só o que ouço são os homens trabalhando! Ela me responde confusa.
−Exato, o mesmo que esses merdas escutam, deve ter um monte deles pela floresta e nesse exato momento estão como de costume caminhando para nós!
−Mas Cooper quer terminar de montar nosso acampamento ainda hoje, por isso estão frenéticos!
−Terminar hoje para corrermos amanhã, se é que temos um amanhã! Ela então me sorri e já sei que caminho nossa conversa vai tomar, bufo com vontade de deixar Emma falando sozinha, mas amo minha irmã, mesmo detestando o quanto é submissa e dócil a todas as vontades do imbecil do marido.
−Sabe você precisa de um namorado! Ela brinca, encosta seu ombro no meu me dando um empurrãozinho leve, sorrio a contra gosto – Mas não pode ser qualquer um.
−Principalmente agora quando temos tantas opções! Eu zombo.
−Tem que ser um cara de personalidade forte, para conter seus ímpetos, um homem decidido e corajoso que lute ao seu lado, já que você adora uma ação! Ela me diz e devo concordar com isso, não sou do tipo que senta e espera, gosto de ser dona das minhas escolhas – Mas ao mesmo tempo ele tem que ser bondoso, por que minha irmã aqui, nunca deixa ninguém para trás.
−Não é mais um mundo para se viver sozinho.
−Não mesmo e além disso ele mesmo sendo durão, precisa ser sensível o suficiente para saber que às vezes, na verdade quase sempre, você é delicada e quer carinho e cuidado, que como toda garota quer ser amada e protegida!
−E então o que, eu vou dar de cara com ele e vou saber que estou diante do homem da minha vida e vamos ser felizes para sempre matando zumbis?
−Você? Emma ri com gosto – Cega como é, nunca vai se dar conta nem que ele esfregue na sua cara o quanto é perfeito para você, mas não se preocupe, vou estar lá para dizer a você.
−Esse homem não existe Emma, ele está apenas nos seus devaneios, se um dia existiu já foi devorado a muito tempo.
−OH! Você não sabe? Ela me dá outro empurrão – Essa é a melhor parte, ele não morre, é o tipo que nada pode deter!
−Acho que estamos falando do Superman! Ela me faz uma careta.
Emma se levanta, limpa um pouco a sujeira das calças, me sorri e bagunça meu cabelo, resmungo qualquer coisa e afasto sua mão.
−Vá ficar com sua sobrinha um pouco. Cassie está louca para te contar sobre o livro e vou mandar Andy encontrar vocês, essa é sua noite de folga não?
−Parece que sim, Ethan e Chase estarão de guarda.
Emma me deixa sozinha mais uma vez, o dia está acabando, a luz do dia cada vez menos encontra espaço por entre as copas das árvores, suspiro, detesto as noites é quando ficamos mais vulneráveis, e o imbecil continua a coordenar a sinfonia de martelos.
Deixei a Virgínia aos dezessete anos simplesmente por que não me encaixava na vida suburbana e hipócrita que meu pai Jorge Carlson mantinha e exigia como padrão. Nunca me encaixei e assim que juntei dinheiro o bastante caí fora, pretendia viajar pelo mundo, mas cheguei apenas até a Geórgia, lá consegui um emprego e meu objetivo era apenas ficar tempo o bastante para juntar dinheiro para continuar, mas as coisas foram se encaixando e fiquei.
Gostava da vida simples, sem glamour, tinha um emprego razoável, um apartamento pequeno e sem nenhuma decoração que ficava sobre uma floricultura, tinha vizinhos dedicados e gentis, que agora estão com certeza mortos.
Emma me ligava uma vez por semana, sempre nas noites de domingo, conversávamos por muito tempo, ela me contava sobre sua vida perfeita com o babaca do meu cunhado e me dava notícias dos meus pais.
Jorge era advogado, Emma também e esse seria meu destino se não fugisse dele, talvez me arrumasse um casamento como o de Emma com um jovem promissor e então nos reuniríamos aos domingos para um almoço em família, onde as mulheres cozinhavam e falavam de romances e os homens discutiam negócios e a bolsa de valores, mesmo que nenhum deles negocia-se com ela.
Mas eu disse não, estava sufocada e fugi, acho que ele nunca me perdoou por isso, mamãe era como Emma, na verdade minha irmã é a cópia fiel dela em tudo, sempre dispostas a atender seus maridos nas mínimas vontades, não nasci para me submeter.
Então um dia o telefone tocou no meio da semana, eu estava chegando em casa e corri para atender com um péssimo pressentimento e era isso, papai estava morto, uma parada cardíaca no escritório no meio da tarde, peguei um avião para o funeral, mamãe estava abatida, entregue, era como se o mundo dela tivesse ruído, me abraçou e pediu que voltasse, pedi um tempo, fiquei uns dias com ela, mas a tristeza dela foi consumindo toda sua vontade de viver e ela simplesmente se deixou morrer, eu nunca vou entender isso, esse amor é para mim algo impossível, então voltei para minha casa, meu emprego e a vida solitária que me acostumei a ter.
Emma diz que fujo, que tenho medo, não sei o quanto de verdade tem nisso, acho que é apenas falta de alguém que me faça tremer.
Dois anos se passaram quando mais uma vez o telefone tocou fora de hora, mas dessa vez era esperado, há duas semanas só o que se ouvia era o tal vírus assassino que estava fazendo as pessoas enlouquecerem e atacarem outras pessoas desejando comer suas entranhas.
Eu assistia o noticiário, via cenas de ataques, mas não conseguia acreditar no que estava acontecendo, você é mordido, morre e depois se levanta para atacar outros, qual é, só podia ser uma piada, mas pelo visto não era, porque na segunda semana três funcionários da empresa em que eu trabalhava foram atacados em um único dia e fechamos as portas.
Minha irmã me ligou aos prantos, Cooper e ela tinham decidido sair da cidade, pegar as crianças e deixar o caos em que tudo estava.
−Alice, está decidido, vamos de carro te buscar, estamos saindo daqui agora, por favor, fique no seu apartamento, não abra para estranhos, temos que ficar juntas nesse momento! Ela chorava e só pude concordar.
As coisas estavam mesmo feias e sai em busca de tudo que pudesse ser útil, comida enlatada, combustível, juntei tudo em casa e me tranquei, já tinha desistido deles quando finalmente chegaram, tudo estava um caos, pessoas estavam sendo devoradas em plena luz do dia, o exército atirava ao menor sinal de problemas e todos estavam sendo evacuados para centros de refugiados.
Não havia mais nenhum meio de comunicação funcionando, nada de internet, rádio, tv, tudo fora do ar, helicópteros sobrevoavam as cidades e soldados usavam megafones para nos instruir.
Nem sei o que senti quando os vi descer do carro na porta da minha casa e subir correndo para meu apartamento, tinham os olhos arregalados pelo que assistiram na estrada, fiz chá e passamos a noite em casa.
Pela manhã o cenário que vi da sacada do meu apartamento era de guerra, não podíamos ficar ali, decidimos partir e pegamos a estrada com tudo que recolhi, nos juntamos com um grupo de mais de trinta pessoas, carros em um comboio pelas estradas secundárias, até ficarmos parados num engarrafamento e quando os mortos começaram a surgir, de dentro dos carros, saídos da floresta, apenas pegamos o que conseguimos e fugimos, e desde então é só o que fazemos.
Me levanto e assim como Emma, passo a mão pela calça jeans surrada que uso, tento tirar um pouco a terra, depois caminho para a barraca que divido com meus sobrinhos, Cassie tem oito anos, é delicada como uma flor e adora ler, Andy tem dez anos, é um bom menino, mas cheio de vontade de crescer e o pai acha isso o máximo, deixa que fique entre os homens ouvindo todo tipo de insanidades que eles dizem, e garante que antes do fim do ano ele vai estar pronto para sair nas buscas.
Esse é nosso terceiro acampamento só esse mês, e sei que vai durar tanto quanto os outros, eles simplesmente sabem que barulho chama zumbis, mas não conseguem evitar, e quando um se aproxima é um festival de tiros que só faz atrair mais deles, e então estamos de novo com o pé na estrada, acho que sempre vai ser assim, adoraria manda-los para o inferno, mas não posso deixar minha irmã, e então faço o que posso para mantê-los vivos.
Aprendi a matar e foi do pior jeito, com um deles sobre mim me prensando em uma parede no meio de uma noite escura numa casa que invadimos em busca de abrigo, depois disso passei a fazer parte do grupo de busca e vigia, isso é bom, Chase e eu ficamos amigos, é um bom homem, mas obedece Cooper cegamente e não tem nada que eu possa fazer sobre isso.
Não tem nada que possa fazer sobre coisa alguma.
Entro na barraca, Cassie sorri como de costume, me dá espaço e me deito ao seu lado, tiro a pistola da cintura e coloco ao meu lado, a noite já tinha caído e ela olhava para o teto da barraca entediada.
O cheiro de suor, sangue e comida enlatada estava grudado no tecido da barraca e era sufocante ficar ali nas noites quentes, mas minha sobrinha nunca pôde se acostumar com os zumbis e passava todo tempo encolhida com medo.
−O livro estava tão bom tia, que pena que não posso continuar a ler, acho que vou tentar dormir para a noite acabar logo!
−Faça isso querida, vou ficar aqui com você! Eu beijo suas delicadas bochechas, aspiro aquele cheirinho próprio dela e ela me abraça carinhosa, dividir a barraca com eles nos aproximou muito, amo os dois como se fossem meus e de todas as coisas que me dão medo, perde-los é algo que simplesmente me tira o sono.
Andy entra logo em seguida se deita do meu lado emburrado.
−Que foi? Eu pergunto.
−Minha mãe me mandou vir para cama, mas queria fazer a guarda com o Chase, posso ficar de olho, não sou mais criança.
−Acho que não devia reclamar, estamos apenas cuidando para que fique seguro e protegido, isso é amor.
−Isso é chatice! Ele resmunga antes de me dar as costas encerrando a conversa, sem escolha fixo meus olhos no teto em busca de sono, mas as horas vão passando e não consigo relaxar.
Acho que adormeço porque no meio da madrugada sinto um sobressalto, abro os olhos e tudo parece silencioso, então os passos arrastados se fazem ouvir, pego a arma, uma pistola que agora sei usar, confirmo se minha faca estava na cintura e me sento sem fazer barulho, abro apenas uma fresta da abertura, vejo silhuetas em seu andar característico, meia dúzia só onde posso ver, estão do lado de lá da cerca, gemem tentando atravessar, a cerca pende um pouco, onde estão nossos guardas da noite?
−Querida! Toco Cassie que abre os olhos e me olha assustada, depois faço o mesmo com Andy e os dois já sabem o que fazer, calçam os sapatos apressados – Prontos? Eu pergunto e eles concordam – Já sabem vou levar vocês com a mamãe, sem gritos! Me dirijo a Cassei que já nos colocou em muitos problemas por conta de seu pavor.
Saímos e então percebo o arame começar a ceder, eles querem desesperadamente passar e agora posso ver ao menos dez, pelo lado de dentro um corpo caído era o motivo do desespero, reconheço a camisa azul, xadrez que Chase estava usando mais cedo, tremo um pouco e caminho com meus sobrinhos atrás de mim.
−Cooper acorde, temos problemas! Eu chamo e ele me olha irritado, Emma logo está de pé, abraça os filhos assustada.
Cooper se levanta abotoando as calças e reviro os olhos, ele passa por mim me empurrando, um estúpido mesmo, assim que vê os zumbis forçando a cerca começa seu show.
−Zumbis! Grita criando um alvoroço, as pessoas começam a sair de suas barracas, correndo e se esbarrando, dois homens começam a atirar nos zumbis, péssima mira eu tenho que constatar, alguém tenta passar pela cerca e então ela cede e eles invadem, agora por todos os lados.
Sinto meu sangue ferver, podíamos ter dado um jeito não fosse o destempero daquele infeliz, uma mulher que tentava correr é atacada e cai entre gritos e pedidos de socorro, ela estava conosco a apenas três dias, então procuro minha irmã, ela estava de pé abraça aos filhos olhando de um lado para outro em pânico.
−Cooper! Eu o chamo tentando correr em direção a minha família, mas ele está completamente fora de si, atira para todo lado.
Logo vejo gritos vindos de dentro de uma barraca, uma família sendo atacada, chego até Emma.
−Temos que sair daqui! Aviso tentando puxa-los.
−Não sem ele! Ela me diz e praguejo me virando a tempo de acertar minha faca num zumbi a meio metro de mim.
−Podia ter me avisado! Reclamo com ela, mas seus olhos estão pregados no marido que continua atirando, aquela porcaria de arma nunca ficaria sem munição?
−Emma, as crianças são prioridade! Eu tento convence-la, ela está paralisada no lugar, começo a me desesperar, mais zumbis surgem na clareira.
−Tia! Cassie grita e olho na direção que ela apontava, Ethan é derrubado por dois zumbis, lá estavam os dois homens mais fortes do grupo mortos, Ethan e Chase.
−Emma! Grito despertando minha irmã – Quer matar seus filhos?
Eu arrasto ela pelo braço, em direção a mata, ela grita tentando se soltar, meu cunhado pode nos achar ou ir para o inferno não me importo.
Cinco minutos arrastando ela e então estamos no meio da mata, só o que temos são minha faca e uma pistola, um zumbi surge, está caminhando em direção ao som, peço silencio, e nos afastamos até que ele some de nossa visão, ainda ouço tiros, e gritos, não sei quantos podem ter escapado dessa vez.
Os três se abraçam chorando, eu olho em volta, decidindo se pego a estrada ou se continuo com eles pela floresta.
−Papai! Cassie se solta da mãe e então Cooper surge sujo e cansado, trazia um machado de incêndio na mão e a metralhadora AK qualquer coisa na outra, era um homem alto e corpulento, seria bem útil não fosse sua completa ignorância.
−Vamos o acampamento já era! Ele diz caminhando na frente e lá vão a esposa e os filhos calados e obedientes atrás do patriarca e sem alternativa faço o mesmo, de novo estamos sozinhos, e agora tudo parece ainda pior.
Não dá tempo de pensar nos que morreram ou ficaram para trás, apenas temos que continuar e me detesto por isso.
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