Caminhada
4 Lar, doce lar
Faltava exatamente uma semana para o Natal, como todos os anos eu passaria as festas com a minha família, em Patriotic Island. Minha cidade natal ficava a apenas 40 minutos de onde eu estudava, embora a distância fosse pequena, eu não visitava minha família há alguns meses.
Era uma cidade extremamente pequena, com cerca de trinta mil habitantes apenas. O típico lugar onde todo mundo conhecia todo mundo, um lugar muito tranquilo, onde meus pais se conheceram e decidiram passar a vida, longe do barulho e da agitação da cidade grande. Tinha um pequeno shopping center com pouquíssimas lojas, uma praça, algumas igrejas e uma avenida que iluminava toda a área central na época do natal.
A casa da minha família ficava num bairro afastado, onde costumava haver um grande bosque. Algumas áreas ainda tinham muitas árvores, o que separava o local do resto da cidade. O terreno era de longe o maior das redondezas, a casa era grande demais para apenas meus pais e os gêmeos. Tinha três andares e um grande espaço para festas no fundo. Com direito à piscina, um grande jardim e uma cozinha, onde meu pai fazia seus churrascos famosos.
No momento em que entrei na cidade as pessoas começaram a me cumprimentar, eu passara toda a minha vida naquele lugar até ir para a faculdade, praticamente a cidade toda me conhecia. Apolo estava com a cabeça para fora da janela do carro, com a língua de fora e latindo para crianças que acenavam e gritavam.
– Mal chegou e já fez sucesso, né campeão? — Passei a mão na cabeça do cão, que parecia se divertir com toda a situação. — Com o tempo você se acostuma.
Pouco antes de estacionar o carro na frente de casa eu consegue ver Nick debruçado na janela, no momento em que ele me viu desapareceu, reaparecendo na porta apostando corrida com Collie para ver quem chegava antes até mim. Os cabelos loiros parecendo relâmpagos no meio do gramado. Nick estava de shorts preto e uma camiseta estampada, Collie vestia o vestido florido que eu dera para ela de aniversário.
– Caleb! — Nick me abraçou, ele havia crescido desde a última vez que eu o vira, sua cabeça encostava um pouco acima da minha cintura. Eu ainda tinha que me abaixar para abraçá-lo. — Que saudade.
– Eu também estou, Nick. — Baguncei seu cabelo. — Como você está grande! Será que ainda consigo carregá-lo? — Agarrei-o pela cintura e passei seu tronco por cima de meu ombro.
Collie estava esfregando a barriga de Apolo, triste por ter perdido a corrida contra Nick.
– Ei, princesa, não vai me dar oi? — Perguntei me aproximando por trás. Seu sorriso se acendeu feito estrelas no céu, porém com uma delas faltando na frente. — E essa janelinha? Perdeu o dente numa briga?
– Mamãe disse que ele caiu porque eu estou virando mocinha! — Ela me abraçou, assim como Nick. — Logo eu vou para a faculdade, igualzinha você!
– Claro que vai. — Dei um beijo em sua bochecha e a levantei do mesmo modo que fizera com Nick, carregando um em cada ombro. — Onde está a mamãe?
– Lá dentro, terminando seu bolo. — Nick falou, tentando dar nós em meu cabelo.
– Nick! — Collie gritou, ao lado de meu ouvido. — Era para ser surpresa!
– Tudo bem, eu finjo que não ouvi. — Murmurei enquanto entrava em casa. A cozinha ficava integrada à sala de estar, logo na entrada de casa. Mamãe estava debruçada no balcão, vestindo uma camiseta branca simples e um avental com desenhos do papai-noel.
Mamãe era sem dúvida a mulher mais linda que eu já vira, estava nos seus quarenta anos mas parecia não ter trinta, tirando os cabelos brancos que apareciam aqui e ali e as rugas em volta dos olhos, de tanto sorrir. Tinha o cabelo negro como o meu, cortado um pouco acima dos ombros, olhos também azuis e um sorriso perfeito. Qualquer um que a visse diria que era uma empresária de sucesso, que passava o dia todo sentada atrás de uma mesa, não uma mãe de três filhos que passava o dia em casa cuidando do jardim e tomando chá com algumas vizinhas. O empresário era meu pai. Mas uma coisa que poucas pessoas conheciam sobre minha mãe, era que ela treinava muay thai todas as quartas e sextas-feiras à noite.
– Mamãe. — Coloquei os gêmeos no chão e dei um beijo nela, envolvendo-a num abraço apertado. — Quanto tempo.
– Nem me fale. — Ela apertou ainda mais, apoiando a cabeça em meu ombro, tentando apertar minhas costas. — Você está magro, tem comido direito?
– Pode ficar tranquila, eu almoço pelo menos duas vezes na semana.
– O quê?!
– Brincadeirinha. — Pisquei para ela.
– Quanto tempo demorou para um dos gêmeos te falar sobre o bolo?
– Mais do que da última vez.
– É um começo pelo menos.
A mesa estava arrumada com tanta comida que eu mal pude acreditar. Eu estava tão acostumado a ver comida apenas para mim, e no máximo para Josh, que esquecera como é alimentar uma família inteira. Havia pães, um bolo ainda soltando fumaça, alguns salgados que eu sempre comia quando era criança, chás e muito café.
– Nós vamos dar alguma festa e eu não fiquei sabendo? — Perguntei, colocando um pão de queijo na boca.
– Só fiquei animada para te receber, filho. — Mamãe deu um tapa em minhas costas. — Não fale de boca cheia!
– Falar de boca cheia é feio. — Gritou Collie, que tentava montar Apolo como se fosse um cavalo.
– Eu falo, às vezes. — Nick resmungou, sentando junto a mim na mesa e também pegando um pão de queijo.
– Você é feio. — Collie respondeu.
– Nós somos gêmeos.
– Mamãe!
– Os dois são lindos, fim de história. — Mamãe se serviu de um pouco de chá. — E ninguém vai falar de boca cheia.
– Papai está trabalhando? — Perguntei, tomando um gole de café para evitar continuar a pergunta. “De novo?”
– Está, mas ele disse que vinha para casa cedo hoje. — Ela respondeu. Revirei os olhos. — Caleb, dê uma chance para ele, ele se esforça para dar o melhor para nossa família, você sabe disso.
– Tudo bem, eu sei. — Respondi. — Por um instante eu criei expectativas de que ele estaria me esperando junto com vocês.
– Quem estaria esperando? — Uma voz grave, mas suave, falou, e meu pai apareceu na porta.
– Olá, papai.
~~~
O cheiro de churrasco inundava o ambiente conforme chegava a hora do almoço, Eu passara a manhã toda na piscina de casa com os gêmeos e já sentia meus dedos enrugando. Deitei-me numa espreguiçadeira e assisti enquanto Collie e Nick competiam para ver quem ficava mais tempo debaixo da água. Crianças poderiam ser inocentes, mas ninguém pode ser tão competitivo quanto dois gêmeos de sete anos numa piscina.
Papai estava diante da churrasqueira, com um avental de chef que dizia “Melhor pai do mundo (e ainda cozinha)” feito pelos gêmeos para o último dia dos pais. Ele virava as carnes de um lado para o outro, bebendo cerveja e assoviando um acompanhamento para a música que tocava. Ele estava num humor tão bom que nem parecia o homem que me criara. Mamãe estava na cozinha, preparando a parte do almoço que não envolvia carne, ocasionalmente ele aparecia no jardim para roubar alguns pedaços que meu pai cortava para servir como aperitivos.
– Desse jeito você não vai estar com fome na hora almoçar. — Meu pai brincou, quando ela apareceu pela quinta vez, pegando um pedaço de carne e ainda tomando um gole de sua bebida.
– Não subestime meu apetite, Sid. — Ela piscou para ele, da mesma maneira como eu fazia com Josh, quando tentava irritá-lo. — Você não sabe do que eu sou capaz.
Papai e mamãe se conheceram num café de Patriotic Island, ele estava com alguns amigos após terem voltado de um jogo de futebol. Ela era garçonete e estava anotando os pedidos da mesa deles, meu pai ficara tão encantado por ela que anotou seu telefone no dinheiro que ele pagou a conta, na esperança de que ela ligasse algum dia. Como num conto de fadas moderno, ela ligou. Eles marcaram de se encontrarem no mesmo café para irem ao cinema, mas ficaram tão entretidos conversando que perderam o horário do filme, então continuaram conversando, tentando se conhecer melhor até o café fechar. Desde então, o lugar se tornara especial para a família.
Despertei com o barulho de Apolo pulando na piscina, tentando se livrar do calor. Não é necessário dizer que os gêmeos piraram com a ideia de ter um cachorro dentro da piscina, logo estavam tentando jogar polo aquático tendo um labrador como goleiro.
Mamãe preparou a mesa do almoço no jardim, para aproveitar o sol e a música, a comida estava uma delícia como sempre, o perfeito almoço em família.
– Como está a faculdade? — Meu pai perguntou, enquanto cortava pedaços de carne.
– Está ótima, obrigado. — Respondi. — Consegui terminar o ano sem ficar devendo nota em nenhuma matéria.
– Ah, Caleb! Isso é ótimo. — Mamãe segurou minha mão em cima da mesa. — Estamos orgulhosos. — Ela virou o olhar para meu pai.
– Sim, claro. — Ele concordou, com esforço. — Muito bom.
– E você? — Respirei fundo antes de perguntar, era difícil manter um diálogo com meu pai. — Como está a empresa?
Papai lançara uma marca própria de roupas íntimas estampadas com alguns amigos na época da faculdade, ao serem desafiados por um professor a deixarem uma marca na sociedade. O que ninguém esperava era o sucesso que aquilo trouxera, após o término do curso os amigos do meu pai largaram o projeto, mas ele achava que era algo interessante para se investir. Aos poucos foi comprando máquinas cada vez melhores, usando da herança que meu avô deixara. A moda pegou e a marca passou a ser vendida por todo o país, e estava prestes a começar a ser exportada também.
– Sempre melhorando. — Seus olhos se iluminaram com a minha pergunta, o que significava que ele estava prestes a começar a contar vantagem. — O laboratório está desenvolvendo um novo tipo de tecido capaz de se moldar ao corpo de qualquer pessoa, facilitando o acesso dos clientes, pois será um tamanho único.
– Genial. — Murmurei, minha mãe me chutou debaixo da mesa.
– Você trata minha empresa com ironia mas é ela que vem sustentando nossa família desde antes de você existir. — Ele soltou. — Está te dando a vida luxuosa que escrever para um jornalzinho não vai te dar.
– Eu nunca pedi por uma vida luxuosa. — Retruquei. — Prefiro escrever para um jornalzinho do que ficar vendendo cuecas do super-homem para o resto da vida.
– Chega, vocês dois. — Mamãe interveio, como ela sempre fazia, antes que as situações piorassem. — Vamos continuar almoçando como uma família normal.
– Eu já terminei. — Falei, levantando da mesa embora mal tivesse mexido na minha comida. — Com licença.
Fui direto para o banho. Eu sabia que havia sido eu quem iniciara a discussão. Mas durante toda a minha vida meu pai tentara me forçar a assumir seu lugar na empresa, embora eu dissesse que não queria. Eu dizia que não havia nascido para ficar atrás de uma escrivaninha fazendo contas e pensando em novas estampas para cuecas e ele retrucava dizendo que não era muito diferente de ser jornalista, atrás de um computador escrevendo sobre a vida dos outros. Com o tempo eu começara a perder a paciência com mais facilidade, e a evitar conversas muito longas com ele para não acabar em discussão. Mas algumas vezes era inevitável, como acabara de acontecer, então eu me retirava e ficava sozinho por um tempo. Tentando colocar os pensamentos em ordem. Eu acabaria pegando a empresa do meu pai de um jeito ou de outro, garantia um dinheiro muito bom, que poderia pagar por um estilo de vida confortável, sem preocupações com os gastos. Mas se tornara uma questão de orgulho não fazer o que ele desejava, eu queria ser o responsável pelas decisões que tomava, e pelo meu futuro. Josh sempre dizia que eu era cabeça dura e que meu orgulho acabaria me afastando da família permanentemente, mas era algo que eu ainda não aprendera a controlar.
Saí do banho e peguei as chaves do carro, minha cidade natal tinha o melhor lugar do mundo para se colocar os pensamentos em ordem, me despedi de minha mãe quando passei pela cozinha, ela estava levemente abatida, já acostumada com as discussões, mas como se todas as vezes tivesse esperança de ter um almoço em família pacífico.
– Onde papai está? — Perguntei, depois de dar um beijo em sua bochecha.
– Foi para o quarto. — Ela não me olhou nos olhos. — Você conseguiu irritá-lo.
– Desculpe.
– Não é para mim que você deve desculpas, Caleb. Você sabe disso.
– Sei, mas preciso colocar a cabeça no lugar, vou dar uma volta ok? Te amo.
– Não volte tarde.
Eu já estava quase na metade do caminho quando meu celular tocou, era Josh. Nós não nos víamos desde que retornáramos da praia, alguns dias antes. Ele voltara à Patriotic Island pouco antes de mim, também para rever sua família.
– Onde você está? — Ele perguntou, logo que eu atendi.
– Indo dar uma volta, por quê?
– Vou com você, pode passar aqui em casa?
– Claro. Está tudo bem?
– Só preciso colocar os pensamentos em ordem.
– Ótimo, então entre para o time.
~~~
Peguei uma estrada de terra que contornava a cidade. Patriotic Island ficava no meio de uma cadeia de montanhas, se você soubesse procurar, encontraria o lugar perfeito para observar o vale.
– Você tem alguma coleção de lugares que gosta de ir ou algo do tipo? Como funciona isso? — Josh perguntou, ao meu lado no carro. — Parece que todo lugar que você vai, tem uma fortaleza da solidão. Já te disso que isso soa meio patético, certo?
– Patética é a sua vida, e não. Não tenho uma coleção de lugares que gosto de ir. Para mim qualquer lugar isolado o suficiente, é capaz de clarear meus pensamentos. Eu simplesmente encontro algum que me identifico, e acabo indo parar lá todas as vezes que preciso. — Respondi, enquanto tentava me concentrar na estrada. Havia tantas pedras e morros que era impossível não se sentir desafiado pela mãe-natureza. — Você disse que precisava colocar os pensamentos em ordem… o que houve?
– Minha família. — Ele respirou fundo. — Você sabe como ela é problemática. — Minha mãe está tendo acessos de raiva cada vez com mais frequência. Não consegue mais manter a calma com tanta facilidade, meu pai está ficando louco com tudo isso, essa madrugada eu ouvi ele discutindo com ela. A coisa está feia, não sei como aquela mulher consegue manter as rédeas da casa enquanto eu estou fora.
– Se você quiser, pode ficar na minha casa, tem um quarto sobrando. — Ofereci. — Pelo menos para fugir de tudo isso.
– Obrigado pelo convite, mas eu não posso fugir disso. É a minha família, eu já deveria estar acostumado. É só que… nunca muda, sabe? Meu pai continua agressivo, Naomi não dá a mínima e mamãe precisa segurar tudo sozinha. É demais para ela. Parece que tem vinte anos a mais do que deveria.
– Ela é sem dúvida uma grande guerreira, Josh. — Falei enquanto posicionava o carro no mesmo lugar de sempre, entre duas árvores, atrás de um pequeno cercado que marcava os limites da montanha. — Venha.
Saí pela janela e subi no teto do carro, deitando-me de costas. Logo Josh apareceu, parecendo confuso, mas logo que ele se sentou e olhou para frente, suspirou.
A visão era sem dúvida, linda. Mostrava as montanhas ao redor, verdes como nunca. Abaixo de nós havia o vale, tão profundo quanto um precipício, mas era possível ouvir o barulho do rio correndo lá em baixo. Durante a noite o céu se enchia de estrelas. O lugar era tão isolado de qualquer luz artificial que revelava até a mais fraca das estrelas, numa noite limpa. Naquele momento, durante o dia, as nuvens manchavam o azul do céu, formando diversas formas, que eu poderia ficar decifrando por horas.
– Você definitivamente tem um ótimo gosto para lugares. — Ele se deitou ao meu lado. — Por isso parece tão pacífico sempre.
– Eu? Pacífico? — Ri, virando a cabeça para ele. — Você não faz ideia.
– O que houve? — Perguntou, sem tirar os olhos do céu. — Por que estava vindo para cá quando eu te liguei?
– Problemas de família, também.
– Seu pai continuar tentando te forçar a assumir a empresa?
– Sim. Ele acha que vou passar fome fazendo jornalismo. Vou ser bem sincero com você, Josh. Na verdade eu acho que tenho medo de tentar assumir e acabar perdendo tudo que ele construiu. Está muito grande, há lojas em quase todas as cidades do país, eu não daria conta.
– Eu tenho certeza que você daria conta. Você não somente é capaz como cresceria ainda mais do que ele. Seu pai precisou de coragem quando decidiu levar o projeto adiante, você só precisa de um pouco de coragem também.
– Por enquanto eu estou bem como estou.
– Caleb, seu orgulho ainda vai…
– Me afastar permanentemente da minha família, eu sei. Mas não é uma decisão que eu vou tomar de uma hora para a outra, eu também tenho o direito de seguir meus sonhos, não tenho.
– Sem dúvida. — Ele se virou de lado e encostou uma mão em meu ombro. — Esse é o único direito que ninguém nunca pode tirar de nós.
Eu não fazia ideia de há quanto tempo estávamos deitados sem falar nada. A presença de Josh era tão familiar para mim, assim como a minha era para ele, que nós poderíamos passar horas em silêncio, um ao lado do outro, sem nos sentirmos desconfortáveis. Apenas perdidos em nossos próprios pensamentos. Eu apenas voltei à realidade porque meu celular começou a vibrar em meu bolso. Josh estava concentrado nas nuvens, perdido em seu próprio universo de pensamentos.
Acendi a tela do celular, havia uma mensagem da minha mãe. O sinal da rede do celular estava fraco, mas suficiente para que eu respondesse.
Mamãe:
Onde você está?
Você:
Saí com Josh, estamos em uma estrada de terra fora da cidade.
Mamãe:
O que vocês foram fazer aí?
Você:
Nada, eu apenas precisava de um pouco de ar, ele me ligou enquanto eu estava no caminho e pediu para vir junto.
Mamãe:
Entendi. Não demore para voltar, estou fazendo o jantar.
Você:
Pode deixar. Como o papai está?
Mamãe:
Calmo. Dessa vez a discussão não foi tão feia, poderia ter sido pior.
Você:
Com certeza.
– O que vocês vão fazer no Natal? — Josh perguntou, me assustando, depois de tanto tempo em silêncio.
– Vamos receber as famílias do meu pai e da minha mãe na minha casa. Como todos os anos, e vocês?
– A família do meu pai mora longe demais. Eles nunca conseguem se ver nas festas de fim de ano. Minha mãe é filha única, depois que vovó morreu, meu pai, Naomi e eu somos tudo que ela tem.
– Entendi. Se vocês quiserem podem ir lá em casa também, tem espaço para todos.
– Vou falar com eles.
Voltei para casa a tempo do jantar, mamãe fizera as batatas com queijo que eu tentara imitar com Josh na praia, mas as originais eram muito mais deliciosas. Papai estava com um humor melhor, ou talvez fosse eu que estivesse mais disposto a conversar. Nós ficamos até tarde na mesa conversando, os gêmeos estavam sentados lado a lado, encostados um no outro tentando permanecer acordados. Papai e mamãe bebiam vinho e contavam histórias enquanto eu ouvia e contava sobre minhas experiências morando sozinho.
Talvez minha família não fosse tão ruim, eu só precisava encará-la com mais amor no coração.
~~~
Era véspera de Natal, a casa estava mais enfeitada do que antes, desde a grande árvore no centro da sala de estar, até a escada que levava aos quartos e o quintal dos fundos.
Nick e Collie corriam por toda a casa tentando encontrar seus presentes, que minha mãe escondia no mesmo lugar desde que eu era criança. Eu tinha a idade deles quando encontrei por acaso os presentes escondidos atrás de uma estante de livros no escritório do meu pai. O lugar ficava num cômodo isolado da casa e servia como uma biblioteca particular, toas as paredes estavam recobertas de livros de todos os gêneros e épocas. Tinha um piso de madeira e teto de vidro, que iluminava o local durante o dia e permitia observar as estrelas durante a noite. A fascinação por observar o céu eu herdara de meu pai, que ganhara um telescópio de meu avô quando era jovem e desde então passara a tentar desvender os segredos do universo.
Eu estava brincando de esconder com alguns primos meus, também na época das festas de fim de ano quando decidi entrar no escritório. Sempre ficava fascinado ao entrar naquele lugar, parecia mágico, totalmente distante do mundo real. Me apertei atrás de uma das estantes para tentar me esconder e me deparei com uma pilha de presentes escondida lá. Obviamente eu abri e mexi em todos, mas nunca revelei aquilo para ninguém, desde então todos os anos, na véspera de natal eu ia escondido até lá e abria os presentes antes da hora.
– Quer dar uma volta comigo, Caleb? — Papai estava sentado numa poltrona da sala de estar, assistindo a um de seus filmes favoritos na televisão. — Preciso comprar algumas coisas para a ceia de hoje a noite.
– Claro. — Respondi. — Eu dirijo.
Mamãe piscou discretamente para mim enquanto saíamos de casa, num sinal de aprovação.
Dirigir o carro do meu pai fora o ponto alto do meu dia. Ele tinha um Porsche 911 vermelho, sonho de consumo para qualquer jovem que gostasse de carros.
– Tenha cuidado com ela. — Papai disse enquanto ligava o rádio do carro. — Você não vai querer riscá-la.
– Claro que não. — Sorri. — Para onde vamos?
– Vamos até aquele mercado perto daqui, não precisamos de muita coisa.
Enquanto meu pai tentava encontrar as coisas que minha mãe anotara na lista de compras eu o seguia, pegando coisas aleatórias nas prateleiras.
– O que você vai fazer com tudo isso? — Ele perguntou, olhando para a pilha de doces e salgadinhos que se formava no nosso carrinho.
– Tenho alguns planos para os gêmeos esta noite. — Respondi. — Vou passar um tempinho com eles.
– Eles se inspiram muito em você, sabia? — Ele disse, escolhendo algumas frutas. — Nick e Collie.
– Por que alguém se inspiraria em mim?
– Porque você faz o que quer. — Ele respirou. — Não aceita ordens, se arrisca sem medo do que vai acontecer.
– E isso é algo bom?
– Você vai conseguir as melhores coisas da vida sendo assim. Mas também pode perder muita coisa se não tomar cuidado de vez em quando.
– Você também é assim, não é, pai?
– Nós somos mais parecidos do que você imagina, Caleb. Por isso acredito que você levaria a empresa para um patamar totalmente diferente.
– E você confia em mim para isso?
– Se eu não confiasse, não insistiria tanto.
Permanecemos em silêncio até voltarmos para o carro.
– Eu não deveria falar isso. — Papai puxou assunto novamente, ele estava me surpreendendo. — Mas você vai adorar o presente que sua mãe e eu iremos te dar.
– Caramba. — Meu coração parou por um instante.
– Você esqueceu de comprar os presentes de natal mais uma vez, não é?
– Exatamente.
Papai riu.
– Vou te deixar em casa com as compras e vou dar um jeito nisso, não quero deixar ninguém sem presentes esse ano.
– Não sei se você vai encontrar alguma loja aberta hoje, nesse horário. — Ele sorriu, revelando dentes tão grandes e brancos que causavam inveja.
– Ainda tem aqui aquela loja de departamentos?
– Sim.
– Acho que vai ter que ser o suficiente.
Deixei-o em casa e ele insistiu para que eu usasse o Porsche para ir às compras, o dia estava cheio de surpresas.
– Mas você já sabe. — Ele começou.
– Eu não vou querer riscá-la.
– Esse é o meu garoto. — Ele piscou para mim, que ergui uma sobrancelha, estranhando o gesto.
– Diga para a mamãe que eu volto logo.
A loja de departamentos de Patriotic Island era a salvação para qualquer um que precisasse de salvação. Desde quem precisava de um pneu novo até quem esquecera de comprar presentes de natal.
Cheguei em casa junto com os primeiros convidados, um irmão de minha mãe chamado David e sua esposa, que estava grávida. Ela carregava alguns presentes nos braços e ele trazia consigo uma garrafa de vinho.
– Caleb! — Ele gritou ao me ver, mostrando a mesma empolgação de minha mãe. — Como você está diferente.
Cumprimentei-o com um aperto de mão e dei um beijo em sua esposa, Cecília.
– Já faz qase um ano desde a última vez que nos vimos, como está a faculdade? — Cecília perguntou, sorridente.
– Está ótima, obrigado. E quem é esse que está chegando? — Perguntei, apoiando minha mão em sua barriga.
– Conheça o Isaac. — David se adiantou, orgulhoso. — Nós acreditamos que ele vá nascer perto do seu aniversário.
– Junho?
– Exatamente. O médico diz que vai ser um garoto muito grande.
– Me lembre de levá-lo para tomar sorvete quando for mais velho. — Sorri para eles e fui para o meu quarto, tomar um banho para o jantar.
Tomar banho sempre era a melhor maneira de fugir dos convidados, para não ter que cumprimentar um por um. Meu lado antisocial falava mais alto quando se tratava de festas com muitos convidados. Passei bons trinta minutos debaixo do chuveiro, quando saí encontrei enrolado numa toalha, encontrei Josh sentado na cama.
Ele estava com uma camisa vermelha e jeans pretos, dessa vez inteiros.
– Cara, você demora mais para tomar banho do que muitas mulheres por aí.
– Quem te deixou entrar aqui? — Perguntei enquanto procurava algumas roupas para vestir.
– Sua mãe. — Ele se deitou na cama. — Acho que ela vai se dar bem com a minha, deixei as duas conversando na cozinha.
– É impossível não se dar bem com a minha mãe, ela é exatamente como eu. — Terminei de colocar uma camisa polo verde. Junto com Josh nós parecíamos uma árvore de natal ambulante.
– Isso é bom?
– Isso é ótimo. — Dei um soco em seu ombro ao me sentar na cama para colocar os sapatos. — Já viu alguém por aí mais simpático do que eu?
Ele ameaçou abrir a boca para falar algo.
– Não ouse. — O interrompi, antes que ele tentasse começar uma lista de pessoas mais simpáticas do que eu. — Vamos descer?
Pela primeira vez eu consegui passar toda a festa junto com a família, arrisquei alguns goles de champagne, embora não gostasse de beber. Depois de algum tempo comecei a sentir o corpo mais leve, estava conversando com todo mundo, dando risada e jogando jogos de tabuleiro com meus primos mais novos. Josh também estava contente, cumprimentava as pessoas que acabara de conhecer e se divertia conversando com as outras. Ele já tinha intimidade suficiente com meu pai para roubar carnes da churrasqueira sem que ele se importasse. Tudo estava ótimo, uma festa de natal nunca fora tão divertida antes.
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– Caleb! Levante Caleb! — Vozes gritavam ao meu redor e eu sentia algo chacoalhar o meu corpo. — É natal! Vamos!
Ser despertado por duas crianças loiras gritando e pulando em cima de sua cama poderia arruinar o humor de qualquer um. Mas era natal, ninguém deveria ser triste no natal.
– Que horas são? — Perguntei, me escondendo debaixo das cobertas, minha cabeça latejava. — Para que acordar tão cedo?
– O que você acha? — Nick pulou nas minhas costas. — Nós queremos abrir os presentes logo.
– Presentes? — Agarreio-o pelo pescoço, abraçando-o por trás. — Você disse presentes? O último que chegar na árvore de natal vai lavar a louça do almoço!
O lado bom de ter irmãos muito mais novos era que eu podia voltar a ser criança sem pagar mico. Saímos correndo do quarto e eu escorreguei pelo corrimão da escada até o andar debaixo, ganhando a corrida.
– Assim não vale! — Collie se emburrou, quando chegou perto de mim, junto com Nick.
– Nós mal alcançamos a escada. — Nick completou sua fala, assim como gêmeos deveriam fazer.
– Privilégios de irmão mais velho, me desculpem. — Baguncei o cabelo dos dois. — Agora, quem vai começar a abrir os presentes?
A grande árvore da sala de estar estava repleta de presentes, obviamente a grande maioria era para os gêmeos, que fariam uma festa mesmo que seus presentes fossem pares de meias.
– Estou louca para ver o que vocês têm para mim. — Mamãe chegou, carregando uma grande bandeja com ítens para o café da manhã. — Esse ano eu fui boazinha.
– Claro que foi. — Papai a abraçou por trás, dando um beijo em sua bochecha.
Eu estava sentado de pernas cruzadas no chão, como fazia quando tinha a idade dos gêmeos. Por um momento me assustei ao observar minha família naquele momento. Parecia muito com a família perfeita que eu costumava pedir nas minhas cartas ao papai noel.
Passamos boa parte da manhã trocando presentes, felizmente eu conseguira encontrar tudo o que eu precisava naquela loja de departamentos. Recebi dos gêmeos um grande quadro de fotos. Com imagens da nossa família, eu mais novo com os dois bebês que choravam em meu colo. Meus pais e eu em Sunset Beach antes dos gêmeos nascerem, havia até mesmo uma foto minha com Josh no Elisiu’s.
Elisiu’s era o principal ponto de encontro da minha família quando eu era criança. Depois de grande passei a frequentar o local com Josh quando tínhamos as noites livres. Era a típica cafeteria que te fazia se sentir em casa, fora de casa. Um salão não muito grande que ficava no final da avenida principal de Patriotic Island. Mesas de café e poltronas adornavam o lugar, a iluminação era fraca e aconchegante, perfeita para ler um livro ou ouvir uma boa música enquanto bebia algo. Quando se tratava de música, Elisiu’s era um ótimo lugar para músicos amadores divulgarem seus trabalhos, todas as sextas-feiras à noite havia apresentações, normalmente de pessoas sozinhas cantando e tocando violão.
Foi em uma dessas sextas-feiras que eu fora com Josh até lá, para assistirmos uma amiga nossa que se apresentaria pela quinta vez no local. Dalila era uma garota loira de cabelos cacheados. Tinha a minha idade e crescera junto comigo. Estudamos juntos no colégio e nos tornamos extremamente próximos. Namoramos por algumas semanas mas logo percebemos que o que estava preparado para nós era apenas amizade. Ela fora criada na fazenda, seu pai era fazendeiro e sua mãe dava aula na escola da cidade. Aprendera a tocar violão cedo, e desde então passara a se dedicar à música, quando fez dezesseis anos passou a compor, naquela noite ela estava apresentando uma de suas músicas originais.
– Caleb, ela é ótima! — Josh se admirou enquanto ela cantava e ele bebia um chá gelado. — E gata. Por que vocês terminaram?
– Algumas pessoas simplesmente não foram feitas para serem mais do que amigas. Se nós não tivéssemos terminado naquela época, provavelmente teríamos terminado mais tarde. Não quis correr o risco de perder uma amizade como essa.
– Você e sua mania de transformar em amigas todas as garotas pelas quais se apaixona. Desse jeito você vai acabar sozinho.
– Cale a boca. — Dei um gole em seu chá, já havia bebido todo o meu café gelado. Na época do calor, o Elisiu’s era famoso por conseguir transformar bebidas que normalmente são quentes em bebidas geladas deliciosas. — Nós crescemos juntos, dormíamos um na casa do outro praticamente toda semana. Ela até tentou me ensinar a tocar violão.
– Posso afirmar que não deu muito certo, não é?
– No meu caso as músicas foram feitas apenas para serem ouvidas, deixe que as outras pessoas se preocupem em tocá-las.
– Você é burro.
– Fique quieto, ela vai começar outra música.
Dalila terminara de cantar sua música original e recebera alguns aplausos das poucas pessoas que frequentavam o local, mas pareceu mais que suficiente para fazê-la sorrir. Após isso ela começou a cantar um cover acústico de uma de minhas músicas favoritas.
– Eu adoro essa música.
– Você e seu gosto musical estranho. — Josh murmurou, baixinho, com a boca em seu copo de chá.
– Eu só gosto de poder ouvir a letra da música, ao invés de ficar ouvindo uma sequência de batidas sem lógica nas músicas eletrônicas, como certas pessoas.
– Viu só? Eu não falei que você tinha um gosto estranho?
Eu estava prestes a derrubar Josh de sua cadeira quando fomos interrompidos por Joana Mervin, a Jornalista da cidade, que nas horas livres servia de fotógrafa nos locais mais animados das cidade, que incluíam o Elisiu’s e de vez em quando o estádio de futebol do time de Patriotic Island, que também servia de parque de exposições quando era aniversário da cidade ou havia algum parque de diversões passando.
– Boa noite, posso tirar uma foto de vocês dois? — Ela perguntou, já com a câmera na mão.
– Não. — Josh respondeu instantaneamente.
– Claro. — Respondi ao mesmo tempo.
– Posso ou não? — Ela erguei uma sobrancelha para nós. Jornalistas não eram famosos por serem muito carismáticos.
– Pode. Fique à vontade. — Eu disse, ajeitando a cadeira.
– Eu não gosto de fotos, Caleb. — Josh retrucou.
– Azar o seu, eu sou bonito.
– Sorriam. — O flash disparou, quase nos pegando de surpresa. Mas no final eu adorara a foto, mesmo com Josh saindo de cara emburrada ao meu lado.
– Mamãe nos ajudou a escolher as fotos. — Collie me despertou do flashback.
– Mas a ideia foi minha. — Nick retrucou.
– Não foi não.
– É perfeito. — Murmurei, passando a mão por cima de uma foto de nós cinco na frente de uma cachoeira, no ano anterior.
– Deixamos um espaço vazio para tirarmos uma foto hoje. — Mamãe sorriu, apontando para o espaço vazio no quadro.
– Então eu acho que escolhi o presente perfeito para os gêmeos.
A loja de departamentos milagrosa nunca falhava, eu encontrara uma câmera que imprimia as fotos instantaneamente e considerara o presente perfeito para os dois, que sempre foram fascinados por fotografias.
– Venham. — Eu peguei a câmera, logo depois de Nick rasgar desesperadamente os papéis de presente e abrir a caixa da câmera. Virei-a ao contrário e estiquei o braço para que todos coubéssemos na foto. — Sorriam.
A foto fez meus olhos lacrimejarem. Papai estava dando um beijo na bochecha de mamãe. Collie estava agarrada ao pescoço de Apolo e Nick sorria tranquilamente ao meu lado.
– Ficou perfeita. — Coloquei a foto, já impressa, no lugar.
– Nós também temos algo para você. — Papai piscou para mim, enquanto tirava uma caixa de debaixo da árvore. — É o último lançamento.
– Recomendado pelos melhores jornalistas do mundo. — Mamãe completou.
Dentro da caixa havia um notebook branco, que acabara de ser lançado. Mamãe estava certa, os melhores jornalistas recomendavam aquele modelo para escrever, diziam que tinha um teclado extremamente silencioso e confortável. Além do fato de ser extremamente leve, o que permitia que fosse transportado sem incômodo.
– Isso é incrível, gente. — Suspirei. — De verdade, não posso agradecer.
– Você merece. — Ela elogiou, então cutucou meu pai.
– Com certeza. — Ele concordou.
– Muito obrigado, vocês são demais. — Abracei-os como uma criança que acabara de ganhar seu primeiro carrinho de controle remoto.
Passamos o resto do dia na piscina, jogando vôlei numa rede improvisada dentro da água. No fim da tarde pedimos pizza e comemos na mesa do jardim, pouco antes de começar a chover.
– Esse foi, sem dúvida, o melhor Natal que já tivemos. — Comentei com os gêmeos enquanto colocava-os para dormir. A chuva estava ficando cada vez mais forte e eles insistiram para dormirem juntos, por medo dos trovões. — Eu senti falta de vocês.
Eles já dormiam quando terminei de falar, dei um beijo na testa de cada um e desci para o andar de baixo, onde meus pais estavam.
Mamãe estava andando de um lado para o outro na sala, falando com alguém no telefone, que eu nem sequer ouvira tocar, por causa do barulho da chuva lá fora.
– Quem é? — Perguntei, sentando ao lado de meu pai no sofá.
– Não sei. — Ele respondeu, tenso. — Acabaram de ligar, sua mãe ficou assustada logo depois de atender.
Alguns minutos se passaram até que minha mãe desligou o telefone, com a respiração acelerada.
– O que aconteceu? — Perguntei, me levantando. Papai estava atrás de mim.
– É o Josh e a família dele. — Ela soltou o ar. — Eles sofreram um acidente no caminho de casa.
Fim da parte um.
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