Parte um

Joshua Devenau e Caleb Petralia

Nunca gostei de rock muito pesado, polui demais a cabeça na minha opinião. Infelizmente esse é o único tipo de música que funciona para que eu acorde com o despertador.

Acordei num solavanco, não com raiva por ter acordado com a gritaria daquela música, mas sim por ter esquecido de desativar o despertador no meu primeiro dia de férias. O alarme indicava que eram 7h38, meu horário de me arrumar para ir para a faculdade. Armar o despertador em horários quebrados era uma mania que eu pegara com o Josh, segundo ele era uma maneira de acordar mais disposto. Virei de lado e voltei a dormir, o primeiro sono das férias sempre foi e sempre será sagrado, não existe discussão sobre isso.

Eu estava sonhando algo relacionado a brincar na neve e chocolate, provavelmente resultado do filme que eu assistira na noite anterior quando fui despertado pelo interfone do apartamento apitando feito um cavalo cantando ópera. A tela do celular me indicava que eram 9h13, ao doce som de música cavalesca eu pude chegar a conclusão de que sonhos que envolvem neve podem render algumas horas de descanso. Pulei da cama xingando mentalmente qualquer um que fosse responsável por me acordar daquela maneira.

– Acho bom ter um ótimo motivo pra tocar meu interfone nessa hora da madrug… — Fui interrompido pelos berros familiares de Josh

– ABRA LOGO ESSE PORTÃO, CALEB! Está frio aqui em baixo.

– Mas que diabos você está fazendo aqui, seu moleque? — Murmurei enquanto apertava o botão circular do interfone que abria o portão do prédio.

– Moleque não, não se esqueça de que eu sou praticamente dois anos mais velho que você.

Ele pareceu falar mais alguma coisa após isso, mas eu já desligara o interfone e estava indo destrancar a porta para a minha conveniente visita.

Meu apartamento ficava no 12° andar do edifício Petterson, localizado no centro da cidade que eu morava, Saint Valley. Estava perto de iniciar o meu terceiro ano morando sozinho, desde que começara a cursar Jornalismo e tivera que partir de minha cidade natal, deixando pais, irmãos e amigos para começar uma vida nova numa cidade diferente. Até porque “começar uma vida nova” com 19 anos não era de maneira alguma arriscado. Meu devaneio foi interrompido por Josh abrindo a porta e entrando no apartamento, como se já fosse sua casa, embora ele passasse tanto tempo lá que não se sentir em casa era impossível.

– Josh, você não deveria estar trabalhando? — Perguntei enquanto me dirigia à cozinha para preparar algo de café da manhã.

– Hoje é sábado, decidi me dar o dia de folga. Você vai fazer algo para comermos? Estou morto de fome.

– Então você tira o dia de folga e vem roubar a minha comida?

– Mais ou menos isso. — Josh foi até a sala e ligou a televisão enquanto eu preparava algumas panquecas, cafés da manhã clichés sempre foram meu forte.

Josh poderia muito bem passar como meu irmão por algum observador desatento, tínhamos praticamente a mesma altura e os mesmos cabelos negros, mas as semelhanças paravam por aí. Ele tinha os olhos cor de âmbar e cabelo curto. Pele ligeiramente bronzeada resultante de anos andando debaixo do Sol auxiliando o pai a entregar leite nas casas da cidade. Eu já tinha os olhos azuis, cabelo um pouco mais comprido e gostava de usar a barba rala. Pele branca vinda do meu pai, com sangue italiano. Embora os olhos e cabelos tenham vindo do sangue grego de minha mãe. A barba me fazia parecer mais velho do que as outras pessoas da minha idade que não usavam esse estilo, mas dificilmente alguém me confundia dizendo que eu era mais velho que Josh, que tinha 21 anos. Seu olhar carregava tantas experiências que ele poderia passar por 25 tranquilamente.

Terminei de preparar a comida e encontrei Josh esparramado no sofá, babando. Derramei um pouco de café quente por dentro de sua camisa para acordá-lo e fui para a mesa.

– Precisava mesmo de tudo isso? Era só ter me chamado, você sabe que eu tenho sono leve. — Ele reclamava enquanto tirava a camisa e pendurava na janela que dava para um dos parques da cidade.

– Leve como uma pedra de quase 1,8m e 75kg. — Apontei para a janela com a boca cheia de comida. — Você vai perder outra camisa por causa de pendurar na janela. Não vou mais te emprestar roupas, qualquer dia desses faço você ir embora só de shorts.

– Seria um grande favor para as mulheres daqui, elas estão precisando ver algo de bom pelas ruas.

– Ah cale a boca. Vai me dizer o que veio fazer aqui ou não?

– É assim que você trata seu melhor amigo? Se você quiser eu posso ir embora agora e…

– Vá.

– Naomi está de TPM de novo, dessa vez ela quase quebrou nossa televisão. Eu realmente precisava de um ar.

– Morar com a sua irmã não vai funcionar por muito tempo, você sabe disso. É a lei natural da vida os irmãos brigarem.

– Sei disso, mas eu precisava de um lugar para morar, ou eu bancava um apartamento ou eu comprava um carro. Eu lá tenho cara de quem anda a pé?

– Você tem cara de quem divide apartamento com a irmã temperamental de 25 anos.

– Então tudo está no lugar certo! — Ele terminou sua xícara de café e de repente ficou com um semblante sombrio. — Agora nós temos um problema maior.

– Diga.

– Você tem uma camisa para me emprestar?

~~~

Apolo era um labrador dourado de nove meses de idade que eu adotara durante o ano. Eu sabia que não poderia criar um cachorro daqueles dentro de um apartamento, mas ele estava numa situação tão deprimente que eu não pude ir embora sem levá-lo comigo. Eu estava voltando da faculdade numa tarde em que a aula terminara mais cedo, era um dia tão lindo que eu resolvi deixar meu carro no apartamento e passear pela cidade. Saint Valley era uma cidade tipicamente universitária, sua grande universidade trazia um curso de Jornalismo reconhecido por todo o país, tinha bairros seguros e um comércio bom. Nada surpreendente, mas aconchegante. Eu estava caminhando pelo centro comercial quando vi diante de uma loja uma caixa de papelão com os dizeres: doa-se. Dentro dela havia, com uma corrente presa à grade da loja, um pequeno filhote que dormia tranquilamente, sem demonstrar preocupação, como se nem tivesse percebido que havia sido abandonado. Aquela cena ia tão contra meu estado de humor que eu simplesmente não poderia ter passado reto por ele. Quando voltei ao meu prédio, logo o síndico veio querer arranjar problemas.

– Nós até aceitamos que os moradores do prédio tenham animais de estimação, mas você percebeu que está trazendo um labrador para o seu apartamento, certo Caleb? — Franz Charpei era um homem louro e alto, devia ter uns 35 anos e era o síndico do prédio desde antes de eu me mudar.

Honestamente? Fiquei chocado com a capacidade dele de reconhecer cães, por um instante acreditei que estava levando um Yorkshire no meu colo.

– E qual é o problema nisso?

– Qual é o problema? Você nunca assistiu Marley e Eu?

O filme sobre o labrador que destruia secretárias eletrônicas passou pela minha cabeça.

– Eu poderia deixá-lo no depósito de gás do prédio enquanto eu estiver na faculdade, tem um gramado com um espaço muito bom para ele.

– Sem chance.

– Por favor! Vamos pelo menos tentar! Se não der certo nós encontramos outra maneira.

– Eu não posso permitir que você crie seu animal num espaço que não seja seu, eu teria que abrir exceções para todos que quisessem ter um cachorro de grande porte, daqui um tempo nós teríamos um canil no prédio.

– Não seria uma má ideia…

– Não vai acontecer.

– Eu te pago, quanto você quer? — Naquele momento a conversa começou a fluir. Franz era um homem de negócios nato. Negociar com ele era um desafio e tanto, mas eu fora abençoado pela oportunidade de tornar-me sócio de meu próprio pai em sua empresa quando comecei a faculdade. Era a maneira que ele encontrou de me sustentar, sem que eu me sentisse sustentado. Porcentagem de todo o dinheiro lucrado ia direto para a minha conta bancária. Mas essa é uma história que eu contarei num momento futuro.

Combinamos que eu pagaria 10% do meu aluguel para que eu pudesse criar meu cachorro em paz no depósito de gás do edifício. Apolo foi o melhor nome que eu pude pensar para ele, o dourado de seus pelos era tão intenso que eu acabei fazendo a comparação com o deus grego do Sol.

Nove meses e várias dezenas de quilos de ração se passaram e Apolo já estava do tamanho de um cachorro adulto, com a energia e o temperamento de uma criança de cinco anos. Convidei Josh para darmos uma volta no parque que ficava em frente ao meu apartamento, parque “Albert Roussak”, homenagem ao homem que fora o fundador de Saint Valley. Era um local enorme, com o grande lago Roussak cintilando ao centro, à direita do lago havia um bosque, local de encontro de casais apaixonados e paraíso de crianças que gostavam de se aventurar subindo nas árvores, todo o restante do parque era coberto por um gramado tão verde quanto a grama poderia ser. Enfeitado com algumas paineiras aqui e ali, criando ótimos pontos para se fazer piqueniques. A calçada que circundava o parque era ótima para quem gostaria de fazer uma caminhada ou sair para correr. Com plaquinhas no chão a cada cem metros para aqueles que viviam uma vida ativa poderem se localizar. Eu já conhecia o casal de idosos que todo fim de tarde passeava de mãos dadas pelo parque, era uma meta de relacionamento para mim, contanto que eu encontrasse alguém para ter um relacionamento.

– Você se lembra de quando esse garotão aqui mastigou o pneu do carro do Franz? Aquele cara quase ligou para a carrocinha. — Josh interrompeu meus pensamentos, eu tinha uma facilidade imensa em me perder dentro da minha própria cabeça.

– Claro que eu lembro, tive que pagar um pneu novinho para ele. — Ao ouvir meu tom de voz Apolo baixou as orelhas e colocou o rabo entre as pernas. — Mas está tudo bem. — Dei um tapinha em suas costas enquanto passávamos pela placa de 200m da praça. — Já estava na hora de trocar aqueles pneus.

Fomos até a margem do lago e sentamos na grama aproveitando o calor do sol de inverno. Josh deitou ao meu lado e fechou os olhos debaixo dos óculos escuros, Apolo apoiou a cabeça no meu colo.

– Era essa a paz que eu estava precisando. — Ele murmurou como quem tentava absorver o máximo possível daquele momento.

– Você está parecendo aqueles hippies esquisitos da universidade, que matam aula para ficarem deitados no gramado do campus. — Me deitei ao seu lado e fiquei observando as nuvens por um tempo, num silêncio confortável. Uma vantagem da amizade com Josh era que poderíamos passar horas em silêncio um ao lado do outro sem ficar esquisito.

– Hoje é a festa de encerramento da empresa. — Josh comentou enquanto passava a mão na barriga de Apolo. — Todos os funcionários devem ir e podem levar um acompanhante.

– Essa é a parte em que você se dá conta de que está solteiro e me convida pra ir junto?

– É mais ou menos por aí. — Josh riu envergonhado. — Eu sei que você não é chegado em festas, mas vai ser na chácara do meu patrão, é um lugar enorme. Dá um desconto, vai ser legal.

– Tudo bem, mas eu dirijo. Do jeito que eu te conheço no final da festa você não vai conseguir dar dois passos sem tropeçar nos próprios pés.

Josh riu baixinho.

– Passa lá em casa às 20h?

– Combinado.

~~~

O relógio marcava 19h45 e eu tinha acabado de sair do banho. Pontualidade nunca fora meu forte. Josh estava certo quando disse que eu não gostava de festas. Não é que eu não goste, mas ao ser perguntado entre ir a uma festa e passar a noite assistindo filmes e comendo pizza, eu responderia já com o telefone na mão escolhendo os sabores a serem entregues. E naquele momento, colocando a roupa para ir a uma festa que eu não havia sido, de fato, convidado, minha pressa não era das maiores.

Escolhi jeans pretos e uma camisa amarela, combinando com meu fiel par Timberlands que nunca me abandonava, não pretendia impressionar ninguém, estava indo na realidade por medo de Josh arriscar voltar para casa dirigindo com excesso de álcool.

Milagrosamente eu consegui estar pronto às 20h, quando tranquei meu apartamento e peguei o carro para buscar Josh. Eu tinha uma TR4 preta que fora presente de aniversário de 18 anos, no começo eu não gostava dela, mas fomos nos acostumando à companhia um do outro. Cheguei até a cogitar chamá-la de Lola, mas Josh me impediu.

– Vire homem, Caleb.

Josh morava a 15 minutos de meu apartamento num pequeno loft junto com sua irmã mais velha, Naomi. Já estava na metade do caminho quando peguei meu IPhone e disquei seu número.

– Desculpe pelo atraso, já estou chegando aí. Está pronto?

– Fique tranquilo, chegar atrasado é um charme nos dias de hoje. — Ele falou com a voz meio abafada. — Estou terminando de escovar os dentes, vou te esperar na frente de casa.

– Certo. Não demore.

– Cale a boca.

Nós nos tratávamos com tanto carinho que de vez em quando eu me surpreendia. Cheguei em seu prédio e estacionei bem na frente do portão, depois de alguns minutos ele se aproximou cantando alguma música eletrônica que havia lançado nos últimos dias.

– Preparado para esta noite Caleb? — Ele estava com uma camisa polo violeta e jeans também pretos porém levemente rasgados.

– Você caiu no caminho para o carro? Acho que sua calça está um pouco rasgada ali ó.

– Isso é puro estilo, você não entende dessas coisas. — Ele mexeu nos botões do rádio e colocou numa estação que estava tocando a mesma música que ele cantara momentos antes. — Eu tô falando que essa noite promete!

– Prometer promete, só não sabemos o que ainda. — Dei partida no carro. — Vamos passar na farmácia para eu pegar alguns chicletes antes de irmos.

– Quais são suas intenções com esses chicletes? — Perguntou com uma piscada.

– Não cair no sono no meio da festa.

– Sua paixão pela vida noturna me fascina. Como você consegue ser tão animado?

– Acredite, tenho que me esforçar muito.

Paramos no estacionamento de uma daquelas farmácias 24h que vendem até objetos de decoração se você souber procurar.

– Você vem? — Perguntei já abrindo a porta do carro.

– Por que não? Vou garantir minhas balas de menta. — Josh tinha uma relação com balas de menta muito mais estável do que muitos namoros do século XXI.

Ao entrarmos na farmácia uma das atendentes nos olhou de cima a baixo e comentou algo no ouvido de sua parceira, que estava ao seu lado. Provavelmente tentando descobrir se Josh e eu éramos um casal, situação que não era tão rara quanto deveria.

Alguns meses antes nós dois fomos ao cinema para comemorarmos o meu aniversário, concordo que talvez não tenha sido a programação mais máscula do mundo, mas nenhum de nós devia satisfações a ninguém.

– Dois ingressos para a sessão das 21h, por favor. — Naquela noite eu que iria bancar tudo, afinal, era o meu aniversário que estávamos comemorando. Mas a senhora provavelmente entendeu que eu estava comprando meu ingresso e de meu namorado, como um casal normal faria.

– Um do lado do outro? — Ela nos encarou por cima dos óculos.

– Com certeza. — Josh respondeu, antes de mim. O que provavelmente piorou a situação.

A senhora torceu o nariz e entregou os ingressos para mim, passei o cartão e fomos comprar pipoca. O homem que vendia pipoca aparentemente demonstrava esperanças de que fôssemos um casal. Pois logo que nos aproximamos ele já ofereceu o combo.

– Uma pipoca big e dois refrigerantes grandes. A pipoca é o suficiente para duas pessoas, e caso não seja, um de vocês pode vir buscar mais durante qualquer momento do filme. — Ele deu uma piscada rápida e discreta para Josh, que pareceu não perceber. Quando percebeu que eu o encarava enrusbeceu e virou o olhar.

Nem eu mesmo tinha percebido que o encarava.

– Por mim pode ser, acrescente mais algumas balas de menta e aquele chocolate da direita. — Josh apontou para o balcão.

– Você usa e abusa do meu dinheiro, seu cafajeste. — Murmurei na intenção que só ele ouvisse.

– Seu dinheiro é o meu dinheiro, não reclame.

Aparentemente o rapaz da pipoca estava prestando atenção em nossa conversa, pois deu um sorriso malicioso e saiu para preparar o pedido.

– Eu acho que ele pensa que nós estamos juntos. — Comentei.

– Você acha? Eu tenho certeza. — Eu precisava parar de esquecer que Josh não era tão inocente quanto aparentava. — Por isso estou me divertindo tanto. Entre no improviso.

Nesse momento o rapaz voltou carregando um balde de pipoca que podia alimentar a população de uma cidade pequena. — Mais alguma coisa?

– Acho que não… Você precisa de mais algo, Caleb? — Josh me encarou, me forçando a entrar em seu teatro.

– Está ótimo, já tenho tudo o que eu preciso. — Dei meu melhor sorriso na direção de Josh, depois virei para o moço do balcão. — Vocês passam cartão?

– … balas de menta sabor cereja. Faz sentido? — Josh me despertou, mais uma vez.

– Oi? Ah, não, nenhum sentido. — Comentei quando ele ergueu uma sobrancelha para mim. — Já peguei meus chicletes, você vai querer algo? — Me arrependi no momento em que perguntei.

Voltamos ao carro cada um bebendo uma latinha de energético e carregando metade do estoque de balas de menta da farmácia, inclusive as com sabor de cereja.

A chácara ficava fora da cidade, numa estrada rural que iniciava do lado direito da rodovia. Chegamos lá em trinta minutos, o relógio marcava exatamente 21h10 quando descemos do carro.

O local estava decorado para o Natal, com luzes por toda a área a céu aberto, combinando com as estrelas que pareciam tão mais brilhantes longe de toda a poluição da cidade. A casa principal era como um salão de festas particular, de estrutura circular e com dois andares, pintados de marrom claro. Luzes de natal pendiam das janelas e varandas, formando uma grande cascata de led. Dentro da casa o clima era praticamente o mesmo, um gigante pinheiro de natal enfeitava o centro da sala de estar, com diversos sofás repletos de gente estranha. Mesas estavam dispostas aleatoriamente pelo local, com pratos repletos de salgadinhos, sanduíches e pizza. A maior concentração de pessoas estava em volta do bar, onde um barman servia drinks, ponche e chopp para os convidados.

Me deixei acreditar durante uns trinta segundos que a festa estava tranquila, mas estão nós atravessamos a casa e saímos no jardim do fundo.

O local era enorme, podia abrigar centenas e mais centenas de pessoas tranquilamente. Numa estrutura elevada à nossa esquerda dois DJ’s animavam os convidados, que dançavam e pulavam freneticamente, como numa have.

– Eu não te disse que estaria o máximo? — Josh quase gritou no meu ouvido, em algum momento ele pegara um copo com algum líquido brilhante dentro. — Vou cumprimentar o pessoal, não desapareça de vista!

– Tudo bem! — Gritei de volta. Naquele momento eu percebi que a noite seria longa.

Fui até o barman e perguntei quais bebidas sem álcool estavam disponíveis, ele me olhou estranho e me deu uma garrafinha de vidro de Coca-Cola. Vaguei aleatoriamente pela festa buscando algum lugar em que eu pudesse sentar e desfrutar de minha própria companhia.

Sentei num dos sofás da sala de estar, que ficava cada vez mais vazia conforme a festa no quintal dos fundos ficava mais animado. Agradeci mentalmente por não ter deletado aquele joguinho inútil de passarinhos do meu celular.

Eu não fazia ideia de quanto tempo havia se passado desde que eu começara a jogar, mas levei um susto ao ouvir uma voz feminina no meu ouvido esquerdo.

– Você vai ficar a festa toda sentado aí?

Dei um pulo tão alto que quase bati na garota que estava atrás de mim. Ela era pequena, mas o que não tinha de altura tinha de beleza. Cabelos cor de fogo e sardas espalhadas pelo nariz, poderia ser confundida com uma menina extremamente delicada se não fosse por sua roupa. Usava um vestido preto justo e curto, que acentuava curvas em locais que eu nunca imaginei que pudessem haver curvas. O decote não fugia do padrão do vestido. O preto do tecido intensificava o vermelho de seus cabelos, que estavam presos numa trança que descia pelo seu ombro.

– Não sou muito chegado em dançar. — Olhei em seus olhos, que refletiam as luzes da árvore de natal. — Qual é o seu nome?

– Milla. — Ela parecia ter a minha idade. — Milla Crews.

– Milla… Milla de Camilla?

– Exatamente. — Ela se sentou ao meu lado. — E o seu?

– Caleb Petralia. — Ela realmente estava sentada muito perto de mim, seu hálito era de hortelã, com um pouco de vodka. Que tipo de chá era aquele? — Também não gosta de dançar?

– Eu adoro dançar. — Ela se aproximou ainda mais. — Mas eu estava te observando desde que você chegou, esperei alguma abertura da sua parte… Mas quando percebi que você ficaria aqui sentado até o fim da festa, tive que fazer a minha parte. — Ela sorriu. Um sorriso tão branco de hipnotizar qualquer um, na verdade todas as cores se destacavam mais no corpo dela.

Tentei desesperadamente numa maneira simpática de dizer “Eu não tinha nem percebido que você existia até o momento em que falou no meu ouvido”. Por que não poderiam vender cartões para isso? Seria muito conveniente.

– Puxa… — Abri meio sorriso. — Então eu acredito que a melhor parte da festa tenha acabado de começar.

– Você está definitivamente certo! — Seus olhos brilharam de satisfação, ela pegou minha mão e ficou de pé. — Vamos! A festa de verdade está lá fora.

Por algum motivo não aparente, eu não senti vontade de dizer não ao seu pedido. Levantei-me e deixei-a me levar para o jardim dos fundos, onde todos estavam dançando. Entramos tão no meio daquelas pessoas que eu teria me perdido dela, se não estivesse agarrada ora à minha mão ora à minha camisa. Quando finalmente paramos, ela começou a dançar tão freneticamente que eu me peguei encarando seus movimentos.

– Que foi? — Ela gritou enquanto tirava fios de cabelo de seu rosto, no ritmo da música que os DJ’s puseram para tocar. — Vai ficar aí me encarando a noite toda ou vai dançar comigo?

Se aquilo era dança ou não eu não pude descobrir, mas cada vez mais ela estava mais perto de mim, como se fôssemos um só corpo. Lentamente deixei a música me levar e entrei no mesmo ritmo de Milla, fazendo um esforço para me lembrar das festas que eu costumava ir quando estava no ensino médio.

– É isso aí! — Ela passou os braços em volta do meu pescoço de modo que dançássemos juntos de um modo que não ficasse estranho ao som de música eletrônica.

Muito tempo se passou até que eu cansei de dançar. Não estava acostumado a gastar tanta energia de uma vez.

– Vamos para um lugar mais quieto? — Sussurrei em seu ouvido. Não esperei uma resposta, peguei-a pela mão e levei-a até o fundo do quintal, onde havia bem menos gente. Lá havia uma árvore totalmente iluminada, com um daqueles balanços de pneu preso em um de seus galhos. Sentei-me nele e Milla se acomodou sentada em minha perna e ficamos assim por um tempo, balançando suavemente ouvindo a música ao longe. Minha mão descia e subia lentamente em suas costas.

– Você é lindo. — Ela encarava a região mais profunda de meus olhos. Como resposta eu posicionei minha mão em sua nuca, ela automaticamente fechou os olhos. — Esse é o momento em que você me beija?

De repente, pelo canto do olho eu vi um relance violeta se afastando cambaleando da multidão. Poderia ser coisa da minha cabeça, mas meu alarma de melhor amigo nunca falhava. Algo estava errado.

– Desculpe. — Dei um beijo no canto da boca de Milla. — Mas meu melhor amigo precisa de mim.

Então eu sai na direção que eu achara ter visto Josh, deixando para trás uma ruiva confusa e sozinha balançando num pneu.

– Josh? — Atravessei o pequeno caminho de pedras que levava a um playground abandonado. — Você está aqui?

Não obtive resposta.

– Josh, sou eu, Caleb. Onde você está? — Encontrei-o sentado sozinho num carrosel enferrujado. Sentei ao seu lado. — Ei, cara, você está bem?

– Acho que exagerei na bebida… ou na dança. — Ele começou a ficar verde. — Ou em tudo.

Por alguns centímetros ele não vomitou em meu sapato. Ficamos em silêncio enquanto eu segurava sua cabeça durante os refluxos.

Quando ele pareceu melhorar um pouco, apoiei seu braço em meu pescoço e o levei até o banheiro masculino.

Tranquei-nos dentro de uma das cabines do banheiro e esperei enquanto Josh terminava de vomitar dentro do vaso. Se nós não fôssemos tão próximos um do outro eu provavelmente estaria vomitando junto.

– Cara… que vexame. — Josh murmurou enquanto limpava a boca, mas ele não parecia estar com consciência suficiente para se arrepender.

– Ei, relaxa. — Passei a mão em seu cabelo tentando transmitir segurança. Ele estava ajoelhado ao lado do vaso sanitário. — Acontece com todo mundo, e aliás, ninguém nem viu.

Josh murmurou que eu não entendi.

– Vamos para casa?

Mais múrmurios.

Apoiei-o em meus ombros novamente, praticamente carregando-o no colo e com um pouco de dificuldade conseguimos chegar no carro. No caminho eu encontrei Milla agarrada com algum outro rapaz atrás de um carro. Me segurei para não fazer algum comentário maldoso, eu não estava na melhor condição para isso.

Ajudei Josh a se sentar no banco do passajeiro e passei o cinto de segurança. O caminho para casa foi rápido, liguei a rádio e Josh começou a roncar nos primeiros cinco minutos. Até que a festa não tinha ido tão mal, eu conhecera uma garota bonita e nós quase ficamos. Tudo bem que depois de mim ele encontrou outro com facilidade, mas o que valia eram as intenções.

Estacionei a TR4 na minha vaga do prédio e tentei acordar Josh. O relógio marcava 4h. Soltei seu cinto de segurança e agarrei Josh pela cintura, passando seu tronco por cima de meu ombro, como quem carrega um saco de farinha gigante. Dei graças por ele estar em forma. Não me lembro de qual desafio foi maior, apertar o botão do elevador ou abrir a porta do apartamento com um sujeito de 1,8m nos meus ombros, mas consegui realizar ambas as tarefas sem quebrar nada. Ou quase nada.

A primeira coisa que fiz quando cheguei no apartamento foi colocá-lo sentado no meu banheiro.

– Se você falar sobre isso pra qualquer pessoa… — Falei enquanto tirava sua camisa. — Eu te mato eu mesmo.

Felizmente ele já estava recuperando a consciência, eu não tinha desejo nenhum de ter que tirar as calças dele sozinho. Após isso eu liguei o chuveiro e o coloquei debaixo. Me molhei tanto quanto ele ao limpar os resquícios de vômito de seu corpo, ajudei-o a colocar um pijama meu e o deitei em minha cama. Meu apartamento só tinha o meu quarto, que contava com uma grande cama de casal, mais uma vez agradeci por nós termos intimidade o suficiente.

– Caleb… — Ele murmurou, meio acordado e meio dormindo. — Obrigado, você é… — Então voltou a dormir.

Nunca descobri o que ele pretendia dizer naquele dia.

~~~

Estávamos no litoral de Sunset Beach, a cidade litorânea mais próxima de onde morávamos. Nós havíamos levado nossas bicicletas para a viagem e estávamos pedalando pelo calçadão que beirava a praia, andávamos tranquilamente um ao lado do outro na ciclovia, após sermos advertidos por alguns policiais por tentarmos apostar corrida pelo meio dos pedestres.

– Que tipo de democracia é essa, onde nós nem podemos apostar corrida onde quisermos? — Josh gritou de sua bicicleta, ele estava apenas com uma bermuda azul marinho e seu rayban de sempre.

– Não acho que isso tenha muito a ver com democracia, Josh. — Respondi, extremamente concentrado em minha bicicleta. Pedalar era um desafio e tanto para mim. Minha regata florida grudava em meu corpo conforme eu suava. O verão daquele ano estava se superando, trazendo consigo manhãs chuvosas e tardes de quase 40°C.

Paramos numa pequena lanchonete e sentamo-nos em uma mesa na areia, Josh balançava em sua cadeira e observava garotas aleatórias por debaixo dos óculos de sol. Eu já estava mais interessado no cardápio.

– Deus é muito bom. — Ele murmurou quando uma mulher de uns 30 anos passou perto de nós.

– E você é um cachorro. — Disse entre os dentes. — Que tipo de pessoa come tentáculos de lula empanados com molho de cereja?

– Deus é bom demais! — Josh se inclinou ainda mais em sua cadeira, observando uma garota que vinha em nossa direção.

– Os garotos vão querer pedir alguma coisa? — A garota, que era a garçonete, perguntou.

– Duas águas de coco, por favor.

– Tudo bem. — Ela se retirou.

Josh se desequilibrou e caiu da cadeira.

– Cara!!!! Ela estava piscando para mim. — Ele levantou limpando areia de seus ombros. — Você viu?

– Não, ela não estava.

– Claro que estava, ela mal tirou os olhos de mim enquanto você pedia suas águas de coco.

– Deixe de ser lunático. Ela é muita areia para o seu caminhãozinho. — De fato, ela era linda.

– Observe então.

A garota voltou, carregando um coco em cada mão, quando ela colocou-os em nossas mesas, piscou discretamente para Josh, que precisou se segurar para não cair da cadeira novamente.

– Eu não te disse?! — Ele se exaltou por um instante, mas logo retomou o controle. — Ela me quer.

– Claro Josh, ela te deseja total e completamente. Vá falar com ela.

– O quê… sério?

– Claro, por que não? Só espere eu ligar a câmera do celular para filmar isso.

– Por que você é tão idiota?

Acordei com alguém me cutucando. Josh estava sentado na beirado da cama.

– Levante logo. — Ele me encarava. — Eu fiz o café da manhã.

O cheiro de ovos mexidos inundava o apartamento, me fazendo não me preocupar com o estrago que ele deveria ter feito na cozinha para poder preparar algo de comer, aquele garoto mal fazia gelo sem se cortar.

Eu não conseguia tirar o sonho de minha cabeça, ele fora tão real que chegava a ser estranho, como um dèja vu.

– Josh. — Falei entre uma garfada de ovos e um gole de chocolate, mistura que não poderia acabar bem. — Quando você entra de férias?

– Entrei hoje. Por quê?

– Porque nós vamos para a praia.