Cameo

1 45% - Aparição?


CONTO FANTÁSTICO

Entendo que a estória que estou prestes a lhe contar pode parecer como estranha e sobrenatural, mas acredito que quando se está sempre perto da morte e dos mortos da forma como todos nós estávamos dentro daquele hospital coisas estranhas e sobrenaturais se tornam cotidianas.

Primeiro, antes de contar o que aconteceu, acho prudente explicar a lenda que rendeu no fato. E, antes da lenda, o local onde o mito nasceu.

Tudo se passou no Hospital Santa Maria. Criado em 1796, o grande estabelecimento fora primeiro usado para abrigar os leprosos, os dando uma boa condição de vida e, futuramente, de morte. Com o passar do tempo, houveram alguns surtos de pneumonia e doenças contagiosas, além da diminuição do número de leprosos, o hospital passou a conter um novo tipo de doentes.

Por volta dos anos que sucederam 1920, o Hospital fora particularizado por uma família que mantinha seus entes queridos e próximos da morte em um local confortável distante da família. Situação que perdurou até os dias de hoje.

Atualmente, o Santa Maria abriga adolescentes com doenças terminais, que buscam viver uma vida normal junto de outros adolescentes, mas precisam de atendimento médico constante.

Sem muito o que fazer, adolescentes criam estórias, criam lendas que perduram dentre àqueles poucos que sobrevivem, que passam aos próximos. E, fora assim, que o fantasma de Santa Maria se tornou vivo – ou é o que escolho acreditar.

Quando fui transferida para o hospital, sabia que a minha família não queria lidar mais com a minha doença, não queria mais lidar comigo. Somando a isso, eu estava me mudando para um local novo, com pessoas novas, com tudo novo. A ideia de ir passar o que possivelmente seriam meus últimos dias vivas confinada em um hospital não me agradava.

Chegando lá, fiquei incomodada com o ambiente estéril, os corredores calados, as alas completamente divididas e as enfermeiras constantes. Lá seguíamos uma rotina de estudos, íamos em grupos a parques, explorávamos nossas comodidades e sobrevivíamos, porque não chamaria aquilo de viver.

Sobrevivíamos tanto que ninguém nunca passou mais de 5 anos ali, todos partiam antes, exceto Violet.

Com longos cabelos loiros escuros, um corpo alto e magro, sobrancelhas grossas, humor irritadiço e existência sarcástica, Violet estava internada há 6 anos, com uma condição rara no pulmão e um tanque de oxigênio que a acompanhava em todos os lugares.

Violet era como uma heroína para aqueles outros que estavam aguardando o dia de sua morte, porque ela parecia ter sobrevivido o tempo necessário para sair daquele lugar, uma vez que, completando 18 anos, ela não precisaria seguir as normas que sua família havia a imposto, como morar em um hospital.

Ouvia falar dela pelos corredores quase que diariamente, a vi algumas vezes indo de classe em classe, sempre acompanhada do seu melhor amigo. Sua voz grossa e risada alta percorriam os quartos durante a noite. Ela era a sabedoria de todos aqueles que não queriam mais ouvir seus médicos.

Eventualmente, fomos convocados a uma despedida. Eu, tola, não saberia o que era uma dessas despedidas. E, então, conheci pela boca de Violet a lenda de Santa Maria.

Não posso falar com exatidão como toda essa estória começou, mas tenho a certeza de que todos que vieram depois de mim passaram pela mesma experiência e a contam da mesma maneira. Ouvi isso de todos, todos que vi partir – e foram muitos. Quando você está prestes a morrer, você vê a aparição em um sonho. Uma mulher pálida, branca, com longos cabelos negros cacheados vai te chamar para se sentar em um sofá vermelho e te falar um número e nada mais, esse número é a quantidade de dias que você tem antes de morrer”.

O sorriso malicioso no rosto me fez desacreditar do conto, mas sempre que alguém sonhava com a aparição havia uma cerimônia de despedida. Todos se juntavam em uma sala pequena abandonada em um dos últimos andares do prédio e falavam coisas boas sobre a pessoa, para que ela pudesse resolver suas pendencias e ir em paz.

De primeira, eu não acreditei. Não havia como acreditar. Mas em meus primeiros meses ali vi cada um dos meus conhecidos, vi pessoas distantes, vi desconhecidos, vi pessoas que eu sabia que não tinham conhecimento da estória, vi todos que vi contarem a mesma estória. Uma mulher pálida, com longos cabelos negros te chama para um sofá vermelho e te diz um número, o número de dias que você tem antes de morrer.

Todos a vinha, todos se despediam, todos morriam.

Depois de quase um ano, notei. Tive a realização de algo maravilhoso e precisava contar para a única pessoa que achava que o fenômeno da aparição era tão interessante quanto eu. Violet.

Não havia conversado com ela muito depois do dia da despedida, mas não hesitei em bater na porta do seu quarto perto do toque de recolher para que ela abrisse a porta com a cara amassada já de deitada e gritar em sua face:

—Todos falam o mesmo número!

—O que?

—A aparição, ela só fala o número 5! Todo mundo morre em 5 dias!

Seus olhos se abriram em espanto. Ela sorriu meio de canto de boca.

—Eu acho que você precisa ver isso.

Violet me tomou pela mão e nos escondemos em um armário de utilidades até que o toque de recolher e as rondas dos enfermeiros acabarem. Ela não era uma grande faladora, ficou em seu telefone durante muito tempo sorrindo meio abobadamente. Haviam rumores de que ela estava com outra garota, uma garota quase cega. Eu não entendia com ela podia ter uma vida normal, ser uma pessoa normal em todas aquelas circunstâncias.

Depois de quase uma hora de espera, saímos para o telhado. Violet costumava ficar ali em cima com seus amigos, o que sempre resultava em algum problema e medida de proteção nova – que nunca os parou. De lá, havia uma pequena portinhola, da qual ela tinha a chave. Entramos por lá e descemos alguns lances de escada – não muito rapidamente por conta dos seus pulmões falhos. Chegamos a ala da diretoria.

Lá, havia um corredor extenso com várias saletas. Este corredor continha as fotos de todos os diretores passados daquela instituição. Andamos vagarosamente, não sabíamos de havia alguém ainda em serviço, mas sabíamos que o tanque de oxigênio fazia barulho e sabíamos que Violet ofegava. Chegamos a primeira diretoria do Hospital Santa Maria e, para meu espanto, lá estava ela.

Rosalinda Maria Silva Rodrigues II. Pálida, com longos cabelos cacheados e com um vestido branco.

—A aparição é ela, a própria Santa Maria!

Assim que Violet fechou os olhos e sorriu em minha direção, uma enfermeira apontou no corredor. Minha companheira de crime soltou um ou dois palavrões, brincou um pouco, mas cedeu a ir ao seu quarto. E, eu, com medo de punição fui de boa vontade.

Lembro-me disso com vivacidade, porque fora alguns dias antes de Violet finalmente sair do Hospital e nos mostrar que havia alguma esperança. Esperança que iluminou minha estadia de 2 anos ali, que resultou na minha saída, tão poética quanto a dela.

Lembro-me da sua animação e do mistério. E, hoje conto isso, por uma manchete que lia: Hospital Santa Maria no interior do estado é acusado de água contaminada pós caso de histeria coletiva ser comprovado: adolescentes que viviam na instituição contavam a lenda de uma aparição que os dizia em sonho quantos dias eles tinham de vida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.