Calor.

1 Capítulo 1


-Minha esposa e eu passearemos a cavalo hoje. – disse Berwald sério como sempre.

Tino suspirou. Não lhe agradava muito o modo como Berwald o referia: “minha esposa”. Tudo bem que os dois compartilhavam a mesma casa, o mesmo quarto... a mesma cama.

-É talvez eu seja mesmo a esposa dele. – suspirou, imerso em seus pensamentos – Mas apenas durmo com ele por causa do frio. Aquele cheiro de lenha queimando é insuportável e o aquecedor sempre quebra! Su-san me aquece.

Já havia se acostumado com a presença do sueco, embora este sempre o assustasse com a severa expressão em seu rosto. Mas durante a noite era diferente. Tino já estava acostumado a acordar no meio da madrugada para tirar os óculos de grau do seu “marido”, já que sempre se esquecia e acabava adormecendo com eles. Durante a noite, a expressão do sueco contrastava com a do dia, parecia um ser inocente, quase uma criança, cochilando com os lábios semiabertos.

O passeio foi relaxante, a nevasca abrira brecha para os últimos raios de sol do dia abençoarem os arbustos e árvores do campo.

-Su-san... o que quer de janta hoje? – perguntou o finlandês sorrindo, guiando seu cavalo branco como a neve.

-Hum... o que você quer comer? – Berwald encarava Tino, e este não fazia o mesmo. Montava um cavalo tão negro quanto o ébano.

A mesma comida que o finlandês comia, o sueco apreciava. Eram semelhantes demais, até pareciam “marido e mulher”.

-Ah.. .decido depois. – encarou seu “marido” por dois segundos e voltou a fitar a rédea de sua montaria. Ele o assustava demais, embora nunca tenha feito nada para isso. – Ah, é... mandei consertar o aquecedor Su-san. Hoje poderei dormir no meu quarto, quentinho. – sorriu novamente, sem encarar Berwald.

-Hum... – o sueco limitou-se ao murmuro. Não disse mais nada até que voltassem para casa.

-Farei algumas almôndegas com aquele molho especial, Su-san! Pode ser? – perguntou desmontando seu cavalo. Sempre se enrolava na hora de descer do eqüino. Já perdera a conta de quantas vezes caíra no chão ou ficara com uma perna agarrada no estribo. Nem parecia que já foi um viking.

O finlandês, enquanto tentava tirar um dos pés do estribo, sentiu duas mãos firmes segurando-o pelas axilas e, como se fosse uma criança, erguendo-o e colocando-o no chão. Quando se virou, Berwald arrumava seus óculos.

-Almôndegas... tudo bem. Tomarei um banho antes. – começou a tirar a sela o cavalo de Tino.

-Pode deixar que eu tiro a sela... – murmurou. Mas saiu apressado ao ver a expressão do sueco quando ofereceu a ajuda.

Tino tratou de preparar a janta. Almôndegas com molho especial. As panelas ferviam e o cheiro delicioso impregnava o ambiente. Tino era uma ótima “esposa”, cozinhava muito bem e Berwald sempre repetia.

CRASH.

O barulho fez Tino assustar-se e quase derrubar uma tigela de temperos que tinha à mão.

-Su-san? – perguntou- Su-san? – perguntou novamente quase gritando.

CRASH.

O segundo estrondo fez Tino correr até seu quarto. O aquecedor estava em pedaços, sem chance de conserto. Berwald encarava Tino. Era assustador.

-Sinto muito, Fin. Quebrei o aquecedor. – arrumou seus óculos.

-Ahh, ahh... t-tudo bem... quando puder, compro um novo.

-Não precisa de aquecedores. – o sueco saiu pela porta , dando um firme tapa no ombro do finlandês, que ainda estava em estado de choque.

-E-ele despedaçou o a-aquecedor SÓ COM AS MÃOS. – disse levando as mãos à cabeça.