Calmaria
1 Capítulo 1
CALMARIA
Como se estivéssemos num barco à vela em alto mar, em plena calmaria, são as noites de “silêncio”. Sim, aquelas que necessitamos dialogar com pessoas interessantes e estas não encontram-se, de nós, próximas. As palavras fluem constantemente, porém não são postas à voz. Nem sequer os lábios as balbuciam.
É numa noite dessas que encontra-se Hermes, um intelectual renomado, enfadado de toda a hipocrisia e mediocridade dos que “enxerga”. Evidentemente não são todos, pois vale ressaltar as raríssimas exceções que merecem ser memoradas. E são com estas que ele precisa comunicar-se, no entanto distam do, no momento. Talvez um telefonema ou um e-mail resolva o problema. Mas, Hermes quer uma conversa presente. Quiçá queira demais? Poderia conversar com o porteiro do prédio de onde mora, ou com o guarda noturno que apita sem cessar, fazendo a segurança do bairro. “Eles não entendem o que exprimo”, pensa. Poderia ir à casa de um amigo: “Ele não é sério, também não entende o que exprimo”, pensa novamente. Poderia visitar outros: “Não adianta, não sabem de nada também, só os que conhecem a verdade é quem entendem-me, e estes estão muito longe”, diz em voz alta. Reflete mais um pouco e diz:
- E se eu aderir de toda essa mediocridade? Não agüentaria tanta ignorância... E seu ler um livro? Não, eu quero ser o emissor e não o receptor... E se eu escrevesse algo, um livro, talvez? Não, não terei resposta opinativa imediata do dito, a qual necessito ter... E se eu deitar-me, a aguardar o sono? Ele não chegará tão cedo... E se eu gritar até alguém me ouvir e discorrer comigo? Bem, para achar alguém do nível que pretendo, acho que levaria a noite inteira... Se ao menos estivesse em Roma... Londres... Ah! Uma biblioteca! É. Numa biblioteca há gente interessante, de discurso provido do amplo conhecimento adquirido nas idas a tal... Claro, poucos o adquirem. São vinte e duas horas. Todas as bibliotecas estão fora de expediente... Por que não abriram aqui uma biblioteca vinte e quatro horas? Engraçado... Quero conversar aonde dever-se-ia fazer silêncio... Eu poderia ir a uma lanchonete com um possível individuo que encontrasse por lá... Mas se ele não tivesse interesse em conversar, todavia em ler? Pois, os que vão a esse local, é obvio que desejam ler e não conversar... Salas de bate-papo intituladas “papo-cabeça” existem na internet. Se fossem ocupadas seria interessante. Numa sociedade onde o capitalismo impera, poderia existir estabelecimentos, com salas onde esperava-se por pessoas solitárias, desejantes de um discurso sério, de alto nível... Pensando bem, quem abrisse iria ruir economicamente, porque não teria lucro pela falta de clientes. Os “atendentes”, coitados, apodreceriam nas salas, por não serem visitados... Agora eu invejo os outros. Por que descobri a verdade? Por que enxergo e discirno os “pólos” invertidos? Não, acho melhor rir do que devo, ao passo que os que riem do que não devem. Ser menos feliz, contudo, feliz de verdade, quando sou. Antes engrandecer-me achando que estou decaindo que decair-me acreditando que engrandeço-me. Pelo menos não sou realmente triste. Apenas na maioria das vezes, fico na transição no meio termo da alegria e da tristeza. Assim desfruto das duas, aproveitando o lado benigno de cada. Tarefa difícil, como a do ourives lapidando um bruto diamante. E, no final, tenho a jóia rara, perfeita: a verdadeira felicidade, não a bijuteria , de fácil confexão, que momentaneamente traz alegria, porém quando a “tinta” revestinte dela desbota ou sai, desaparece, ou até mesmo quando deforma-se e transforma numa peça horrível, de valor desconsiderável. Pior é ver a maioria com essa “peça” nesse estado, igual, ou inferior. Por isso, prefiro as jóias, trabalhosas, que guardo-as com festejo, na galeria da alma ou quem sabe até do espírito. Como são duradouras, na minha partida ainda existirão e poderei compartilhá-las com outros. O inverso das bijuterias, em grande maioria, evidente, são compartilhadas desde a fabricação e logo são gastas. Como deterioram-se e jamais permanecem no “porta-jóias” de quem as possui. Quiçá por orgulho, acreditam estes, estar com peças raras e de alto valor. E, desde já, compartilham da própria desgraça disfarçada e perdura mesmo depois de falecerem, se providências não forem tomadas... Nossa!Falei comigo mesmo, num “diálogo” de nivel preferível. Alcancei a satisfação. Óbvio que seria bem melhor tratar com outros, mas se não foi possível, assim fez-se bem.
Findou Hermes e dormiu. Melhor que se fizesse algo menos produtivo. A calmaria reservou grandes ondas e/ou ventanias, vendavais. Só foi possível com o raciocínio, com o pensamento arbitrário, ajuizado, precavido e pessimista, no sentido de possibilidades descartáveis. Pessimismo este que levou-o ao ponto chave da produção efetiva e benéfica de uma jóia. Se Hermes fosse otimista, de cara, talvez fabricasse, numa opção refletida por ele, uma bijuteria.
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