Calm The Storm
27 Death and Rebirth
Notas iniciais
Lucy Hearthfilia
Eu seguia para o metrô com os fones de ouvidos faltando pouco para o volume máximo, procurando alguma música no celular para ouvir.
Totalmente distraída.
Nem vi o farol abrindo e fui logo atravessando levando uma buzinada no ouvido. Voltei dois passos e respirei fundo vendo que o motorista me xingara.
Continuei esperando.
Vários estudantes estavam no mesmo farol que eu, mas...
Ok.
Eu estava completamente maluca.
Por algum motivo eu sabia que Natsu estava ali. Talvez porque sentia um par de olhos encarrar minha nuca. Passei a mão por ela e suspirei.
Estava até suando.
Fingi que ia pegar algo no bolso de trás e o vi parado a dois passos de mim desviando o olhar.
Sorri internamente e voltei a olhar pra frente.
Comecei a pensar em quantas vezes na vida já tinha me apaixonado daquele jeito.
É, apaixonado.
Apaixonada...
De novo. Eu que pensava ter esquecido tudo quando paramos de nos falar. Que ele nunca mais teria aquele efeito sobre mim, e lá estava eu quase sendo atropelada por tanto pensar nisso.
Suspirei de novo vendo o farol abrir.
Continuei parada e me virei subitamente pra trás.
—Tá perdido? – questionei
Ele me olhou com a sobrancelha erguida, em uma expressão indiferente enquanto rasgava o papel do pirulito e colocando o na boca.
—Depende do sentido.
Mordi minha boca e voltei a andar com ele do lado.
Mesmo sem se falar na saída da escola, percebia ele andando no mesmo nível que eu. Até quando eu optava por não pegar metrô ele esperava.
Levy me disse que ele devia estar de olho em mim pra não acontecer nada...Ou, algum garoto.
Sorri me lembrando disso.
No começo foi estranho, mas eu estava, infelizmente, acostumada a andar com ele.
—Lucy.
Estava tão concentrada que não vi que ele tinha parado no caminho.
—Que?
Silêncio.
—Seu dedo está melhor?
—Dedo? – ri de leve – Ah!Claro, está faz tempo. Faz umas semanas...
—Que bom. – ele voltou a andar.
—Não era isso que você ia perguntar. — arrisquei quase mordendo a língua de nervoso
—Tem razão. Eu ia dizer que minha avó agradece a muda.
—Ah claro. – engoli seco – Eu teria dado mais se elas não estivessem com dificuldade pra crescer.
—Estavam mesmo.
—É... – cocei a cabeça e pisei na escada rolante um degraus abaixo dele. — Podíamos... – mordi a língua de novo.
O que eu estava prestes a dizer?!!
Ao menos ele não ouviu.
—Será que...digo, — ele pigarreou — você quer sair? Um dia desses? Faz muito tempo que não saímos.
—An?!!
Senti o salto quadrado da bota enganchar no fim da escada rolante, fazendo eu ir pra trás cambaleando. Quase cai de costas se não tivesse abraçado Natsu com tanta força pelos ombros.
Ele segurou minha cintura e saímos da passagem das pessoas com pressa.
Eu ainda estava agarrada nele quando senti o cheiro do perfume que ele usava, me lembrando de como eu adorava aquele cheiro...
—Me desculpa. – pedi soltando ele.
—Não foi nada... – mas, ainda sim ele não tinha me soltado.
Pisquei várias vezes.
Sair com o Natsu?
Eu sabia que meu orgulho queria deixá-lo como ele me deixou quando eu pedi desculpas na casa dele.
Mas, sabia que se fizesse aquilo seria de zero a negativo a chance de um dia voltarmos a ser como éramos antes.
Amigos, bons amigos, que saiam juntos, que eu gostava em segredo e que ao que parece ele também. Que eu gostava de abraçar por ele ser tão quentinho.
Mas eu realmente...
Não tinha coragem.
Não consegui olhá-lo.
Senti ele segurar meus dedos apertado.
—Lucy, me perdoe por tudo tá legal? Eu, — ele respirou fundo – realmente me sinto um idiota por como falei com você naquele dia e por não ter pedido desculpas antes, mas eu sentia medo de você me rejeitar também... E eu queria voltar a falar com você, só não sabia como... Queria poder esquecer toda aquela história do Lyon. Acho que você tem todo direito de duvidar de mim, eu fui um idiota mesmo.
—Natsu... – Senti meus olhos marejarem e tentei disfarçar.
—Mas naquele dia, que te vi chorando no apartamento, fiquei sem reação. Queria estar com você e ajudar, queria ter te dito tudo isso no dia das flores e da praia... Eu, ouvi sua conversa com a Juvia. E...
—O que?! – senti meu rosto avermelhar na hora.
Toda aquela conversa?!! Aquela?!
Então era mesmo ele e o Gray aquele dia!
—Eu sei! – ele começou a gaguejar e se defender – Isso é horrível, mas a ideia foi toda dele. E eu... Eu também não gosto da ideia de ser só seu amigo, de ver você com outras pessoas, de ver você longe de mim. – fiquei mais vermelha ainda! Como ele podia lembrar disso?!De tudo isso? – Eu gosto de você Lucy.
Eu tinha travado.
—Gosto muito de você, nunca deixei de gostar, nem ser apaixonado por você, apesar de ter desejado não gostar de você. Eu estava aqui pra estudar e tudo mais, e tinha saído de um relacionamento, só que... Foi inevitável e preciso saber se você ainda gosta de mim também.
—Nunca disse que gostava. – soltei emburrada secando uma lágrima traíra que caía do meu olho.
—Mas eu sempre soube, graças a Levy. – ele sorriu divertido
—Ela mente.
—Tá, vamos ver então.
Eu podia ter dito que minha vontade era de empurrá-lo e dar um belo tapa na cara dele. Mas toda a minha raiva tinha sumido.
Todo o orgulho, que se dane.
Eu não estava nem ai.
A minha vontade era aquela!
Era sentir todas essas borboletas no meu estômago, quando eu finalmente correspondi o beijo dele, e fomos nos aproximando cada vez mais e mais.
Me afastei dele quando coloquei os pés no chão me lembrando que ali era um metrô e não um quarto.
—Eu gosto de você. – sussurrei sorrindo
—Eu tenho certeza disso.
Gray Fullbuster
Eu achava aquilo maluquice e realmente era se alguém me visse.
Mais ou menos cinco dias haviam se passado desde a minha conversa com Juvia.
E agora eu estava parado na porta da escola, pela quinta vez na semana, mais precisamente do outro lado da rua observando ela sair.
Estava linda e radiante.
E aquilo parecia ter socado meus sentimentos. Porque era tão difícil vê-la, tão difícil atravessar a rua e falar com ela?
Talvez tenha ficado ainda mais quando eu vi um cara conversando com ela, no primeiro dia, e nos cinco outros...
Não fazia ideia de quem era ele, mas automaticamente fiquei com raiva.
Entrei no carro ligando o CD mais pesado do meu repertório e dei meia volta dali.
Talvez agora as palavras do Natsu fizessem mais sentido na minha cabeça.
E se nós nos separássemos por isso? Ou nada voltasse a ser como antes?
Ou o término a fizesse despertar para uma nova vida cheia de outras pessoas? Por um lado, eu achava isso bom. Ela sempre fora muito retraída e fechada, isso a iria fazer bem com certeza... Mas.
Não era isso que eu queria.
É óbvio que não era isso.
~~
—Certeza que você está reagindo a isso do pior jeito.
—Nunca imaginei você assim...
—Gajeel...
Escutei Natsu repreendê-lo e suspirei. Ele tinha razão, os dois.
Continuei deitado de ponta cabeça no chão e os dois sentados na cama com uma garrafa de cerveja na mão, enquanto eu já tinha bebido... várias. Não estava contando.
—Ele tem razão... – murmurei – Eu também não imaginava estar assim.
—Conte o resto, você até agora só falou sobre a ida a escola, mas como você está?
—Bem, — solucei – tenho dormido e comido pouco. Quase não tenho vontade de fazer nada, e fico pensando se devo ou não ligar pra ela...
—Tem trabalhado?
—Não...
—É, normalmente, é assim. – Gajeel começou – Mas, acho o lance de ir vê-la na escola, um pouco psicopata. – Natsu riu – Sei lá, vindo de você.
—Gajeel! – o repreendeu outra vez.
—Deixa ele falar é verdade, não é? Eu era um garanhão idiota e agora estou chorando por uma garota. Não é de se esperar... Não tem mentira nenhuma nisso.
—Não pode ficar assim. Ache outros hobbys, algo pra fazer que ocupe sua cabeça. – Natsu aconselhou — E volte a trabalhar também, seu pai precisa de você.
—Eu só queria saber quem é...
—Quem é quem? – Gajeel questionou
—Aquele cara...
Os dois fizeram um coro de “aaah” e começaram a comentar sobre não ser nada de mais. Não ser ninguém...
—Na boa, até parece que você não conhece a Juvia. – Gajeel disse – Sabe que ela não da conversa pra ninguém.
—Eu sei...
—Por que não vai falar com ela simplesmente?
—Ela quer que eu converse com o Lyon, e me entenda com ele... Meio que ela quis que eu tivesse um tempo pra mim, mas ficar sem ela é horrível...
—Sinceramente, — Natsu tinha um olhar pensativo – acho certo isso. Afinal, vocês haviam discutido na praia e agora isso. Entenda, não é um tempo pra vocês decidirem algo sobre vocês, que vocês se gostam isso qualquer um sabe, é só da vida, das coisas. Pensa se ela tivesse namorando com você e você nervoso pelo Lyon, ia ta sempre de cara amarrada perto dela, e ela? Que está em época de finalizar o trabalho de pesquisa científica dela, nem nós quase a vemos de tanto que ela estuda. Só espere, não se desespere.
“Não quero esperar” pensei sentindo o sono querer me pegar.
Eles foram embora uma hora depois, e eu continuei bebendo no sofá. Até meu pai ordenar que eu não beberia mais nada hoje.
No banho, pela primeira vez me masturbei pensando nela. Pela primeira vez, depois da minha adolescência onde era considerado normal isso pra um menino, eu fiz “adulto” pensando numa mulher. De repente. No som da sua voz, no cheiro do perfume, as roupas que ela usava, o jeito que o cabelo ficava solto e bagunçado. Pensando em como seria ter ela. Como acariciar e beijar aquele corpo, os sons que ela poderia fazer...
E nunca, em toda minha vida, o sentimento de culpa me tomou com tanta força. Sai do banheiro mais nervoso do que já tinha entrado. O que me fizera sair do “transe” fora o celular tocar do lado de fora.
Houve umas três batidas na porta antes do meu pai perceber que nada me faria levantar daquele sofá e ir atender a porta.
Ele atravessou a sala com a camisa da oficina me lançando um olhar nervoso, e eu nem me importei. Continuei a comer minha pipoca assistindo Capitão América – Soldado Invernal pela quarta vez. Sei que daqui a pouco ele se irritaria com a minha depressão, mas eu esperaria até ele surtar, já que dependendo de mim...
Eu teria continuado ali, se não tivesse reconhecido aquela voz fininha de criança na porta.
—Meredy?!
Ouvi meu pai exclamar cheio de felicidade enquanto eu levantava do sofá contando até onde podia.
Ele estava aqui...
—Você lembrou de mim! – ela provavelmente tinha o abraçado forte agora porque escutara ele engasgando.
Comecei a ficar inquieto e me coçar. Até lembrei da Juvia quando ficava nervosa ou ansiosa. Se a sensação era aquela, não sei como ela aguentava.
Suspirei.
Queria correr dali.
Tabom, sei que adiei essa conversa tempo demais, mas assim de repente! Como eu iria conseguir conversar agora?! Como assim ele estava aqui agora?! Que porra ele fazia aqui?
—E você? Quanto tempo... Como está?
—Bem pai.
Meu corpo incendiava de raiva, mas não era uma raiva só dele, por mais que isso me deixasse furioso, ele ter me escondido isso tanto tempo, piorava a situação! E agora que eu sabia, veria até onde ele poderia aguentar escondendo isso.
Ia propositalmente contar sobre a Juvia pra ele, até ele não aguentar mais.
Eu já não estava aguentando.
Sinceramente, não sabia como lidar com nenhuma daquelas situações. Ficar sem falar com ela, depois isso, lidar com o Lyon...
Decidi que ia seguir os conselhos do Natsu antes que ficar dentro de casa me deixasse louco.
Mas os planos ficariam pra depois, já que naquela hora meu irmão entrava pela sala com uma mochila e Meredy do seu lado fingindo não estar nervosa.
Meu pai foi pegar suco pra eles e ela foi junto depois de me dizer um Oi animado e eu retribuir com essa cara horrível que eu estava.
Continuei a encará-lo.
Ele sentou na poltrona e tossiu.
—Não me ligou mais depois daquele dia. – finalmente abri a boca me referindo ao dia da sua consulta com o psicólogo. Percebi o quanto minha voz saíra rouca e meio enrolada por ter bebido demais.
—Verdade.
Ergui a sobrancelha.
—Eai? Como foi? – insisti
—Está sendo difícil. – ele engoliu seco – Mas, Meredy ajuda muito.
—Sorte a sua.
Meu pai voltou com o suco e entregou pra ele, fazendo piada sobre meu estado vegetativo no sofá, de como eu estava reagindo ao meu primeiro pé na bunda...
Deixei eles brincarem um pouco com a minha cara. Afinal, era verdade...
E eu nem sabia se teríamos outro momento feliz desses, depois que eu falasse que sabia de tudo e obviamente, meu pai também saberia.
Lyon explicou que precisava falar com ele, queria um lugar pra deixar sua mala e Meredy disse que precisava voltar.
Os três ficaram no debate de estar cedo pra ela ir, que o sótão estava sujo desde a última vez então, onde ele ia dormir e coisa e tal.
Eu só observava a inquietação dele, a minha, as paredes da casa girando de tontura.
Levantei indo para os fundos o que chamou a atenção dele que me seguiu minutos depois.
Aposto que meu pai daqui a pouco viria perguntar o que estávamos escondendo dele.
Era sempre assim, desde crianças.
Me sentei no chão exatamente no mesmo lugar onde eu e Juvia conversamos.
—Então você está reagindo mal ao seu término? – ele se sentou ao meu lado – Era aquela garota depois da Melissa?
—É.
—Uou. Bastante tempo.
Pensando bem, era mesmo...
Eu não contava, mas sabia que já faria um ano que a conhecia.
—O que aconteceu? Quer dizer, — ele desistiu – acho que você não quer fala disso. A gente pode sair pra tomar alguma coisa, Meredy pode ir, ou não também, faz tempo que não saímos nós dois... Ou melhor não sair também, acho que você já vem bebendo muito, pelo jeito...
—Você mudou.
Ele me olhou confuso, como se não soubesse se aquilo era uma coisa boa ou ruim.
Era boa, não para o momento, mas sentia ele diferente em dois minutos de conversa.
Lyon deixara de ser aquela pessoa arrogante que ele era, sempre procurando uma oportunidade pra me tirar do sério e não levando nada a sério. Eu não fazia ideia do que Meredy ou o tempo tinha feito a ele, mas iria agradecer.
Nem conseguia pensar em brigar com ele assim. Eram dois Lyons diferentes. Duas pessoas, e eu não podia descontar a atitude de uma na outra.
Mas ainda queria explicações, ainda tinha raiva.
—Gray?
—Hm?
—Perguntei porque acha isso?
—Porque acho... – suspirei – Não posso esconder mais isso.
—O que?
—Juvia, era a minha namorada e ela me contou tudo. Por favor, não se faça de desentendido estou com mais aflição do que você.
O choque na cara dele foi automático.
Mas não me importei continuei a falar tentando não aumentar meu tom de voz já alto, explicando a situação em poucas palavras.
—Você tem que me dizer algo Lyon.
—Você não está muito bem pra fala disso acho...
—Quem tem que achar isso sou eu.
—E-eu não tenho o que falar já que você já sabe.
—Não tem o que falar?!! – gritei e soquei o chão logo depois trincando o maxilar pra não gritar de novo. Respirei e voltei a falar normalmente — Depois de cinco anos me escondendo uma merda dessa você não tem o que falar?
—O que quer eu diga?! – percebi sua boca tremendo de nervoso — Não vou pedir desculpas porque isso não tem perdão! Não quero que me desculpe.
—Acredite não passou isso pela minha cabeça.
Percebi que agora ele chorava e eu já estava prestes.
—Por que... Por que não me contou?
—Eu escondi porque seria como a Ariane. E juro que não... Eu não sei o que acontece! Mas eu tô melhorando, tem que acreditar em mim. Olha, nem sabia que vocês dois estavam juntos, se não eu...
—Você teria contado?
—Não...
Cocei a cabeça nervoso. Meu peito inchava de vontade de chorar, mas eu não conseguia, ou não queria.
—Sabe o que me dá mais raiva?! – questionei – Porque você nunca falou comigo sobre, porque nunca tentamos mudar isso antes?!Por que não me contou que tinha feito isso?! Antes de você fazer qualquer coisa, eu achei que minha mãe tinha ajudado você... – desabafei começando a chorar -Achei que nós tínhamos ajudado você!
—Ela me ajudou! Todos vocês! Mas quando...quando elas morreram foi como se eu voltasse a ser criado por ele... Seu pai me odiou por anos! Ele me rejeitou!
—Ele não te odiou...
—Você não sabe o que é ser rejeitado pelo seu pai! – Lyon gritou – Duas vezes! Você não sabe como é ser rejeitado por ninguém! Sempre teve sua vida perfeita! Está feito um bebê chorão agora pela sua namorada!
—Que vida perfeita?!!Minha mãe e minha irmã morreram! O que eu tenho de perfeito na vida?!Só porque você sofreu, não significa que esteja no pior estado do mundo!
—E não estou! Eu vou mudar! – ele fungou –Não preciso, nem mereço seu perdão. Eu escondi de você isso? Sim, em partes nunca disse quem foi, mas você sabia o que era! Eu preciso do perdão dela e só.
—Que?! – quase gritei – Tá, você acha mesmo que você vai falar com ela depois de tudo isso?! Você nem vai reconhece-la!
—Acha que eu durmo uma noite se quer sem lembrar do rosto dela?! – ele soluçou
—Não vou permitir isso.
—Você não tem que permitir nada.
—Eu quero te bater. – sussurrei
—Ela não é nada sua agora, — ele continuou como se não tivesse me escutado — vou falar com ela como se não soubesse de vocês, como se eu só voltasse anos depois! Quero esquecer isso de uma vez por todas-
Na total falta de controle eu soquei a cara do Lyon com bastante força, me arrependendo logo depois.
—Você está se tornando possessivo! – ele cuspiu segurando o nariz, o que me fez socar a cara dele de novo, e levar um soco também dessa vez.
— Olha quem fala. – retruquei com tanta raiva que nem sentia a dor do soco.
— Olhe só você, indo todos os dias na porta da escola dela, bebendo toda hora, sem trabalhar!
—Como sabe?
—Seu pai me falou.
—O que?
—Nós...Eu conversei com ele outro dia, fora daqui... Ele já sabe de tudo.
Balancei a cabeça negativamente várias vezes.
Ele já sabia?!
E não falou nada pra mim? Como ele conseguiu fingir que estava tudo bem...
—Quando foi isso.
—Uma semana atrás, foi antes de vocês terminarem.
Por isso ele não comentou nada.
Meu pai sempre fez o estilo, sei de tudo mas vou esperar você me falar. Mas agora ele me magoara...
—Vocês dois... Que teatro foi esse hoje?!
—Não foi teatro nenhum! Ele sabia que eu estava aqui na cidade, comentei que viria pra cá essa semana...
Me sentei no chão ofegante, tentando achar alguma conclusão ou sentido pra aquilo.
O que eu devia fazer?
—Por que voltou? Por que decidiu voltar e falar com ela?
—É parte do processo...
—Ah claro seu processo de reabilitação por acaso... Escuta, sabe que eu ia ficar puto, por que não foi direto lá?!
—Por que eu sabia que de alguma forma vocês se conheciam... Eu sabia pela festa da Lucy, sabia pela Lucy, ela conhecia você, Natsu... Todos. Eu sabia que você a conhecia...
—E achou que eu fosse te dar o endereço pra ela, pegar na sua mão e te levar até lá?!Acha que vou fazer ela passar por isso?!
—Achei que você ia me ajudar!
—Te ajudar!!Eu estou ajudando ela a ficar longe de você seu... – fechei a boca.
—Vai fala. Eu sei que você quer me xingar de monstro, de doente qualquer cosia, anda xinga! Xinga Gray! É isso que eu sou pra você não é? Sempre fui!
—Sabe que não...
—Que se foda, quem fez teatro a vida inteira foi você!
—Eu não ia dizer...
—Achei que você fosse meu irmão, achei que ia me ajudar a não ser mais assim...
—Eu sou seu irmão inferno! – comecei a chorar – Droga Lyon!... Eu sempre fui e sempre vou ser. Você... Eu sempre te ajudei, estive com você e o que você fez, a nossa mãe morreu e você fugiu pra outra cidade. Você olhou pra mim e disse que não aguentava morar aqui nessa casa com as coisas dela, com meu pai que você diz que te odiava, comigo... Você me deixou também pra ir morar numa república cheia de droga e prostituição!
—Eu não entrei na república... Morei com um amigo dele.
—Que inferno olha o que você faz. – chutei a cadeira – Como quer eu confie em você? Como eu posso acreditar que você vai mudar? Como eu vou deixar vocês se falarem sem saber que você não vai ter um surto de...
—Eu procurei ajuda, isso já é um bom sinal. Assumo que tudo o que eu fiz foi... doentio e por influência do meu pai me tornei um doente. Admito que no começo foi difícil lidar com Ariane e a Mica, mas juro que nunca quis e nunca fiz mal pra elas! – ele respirou pela boca – Eu machuquei a Lucy porque ela falou do assunto e aquilo me deixou em outro estado, como sempre acontece e ela ficou com medo... – ele balançou a cabeça como se afastasse os pensamentos — Foi quando soube que precisava mesmo de ajuda. Eu estou gostando da Meredy... e nunca a machuquei. Eu só queria falar com ela, e dizer tudo, contar tudo, dizer que eu sou horrível e que ela não precisa me perdoar por isso mas eu, preciso falar.
Aquilo na minha cabeça era impossível e eu estava prestes a falar sobre isso quando vi a porta abrindo.
Lucy? Eu não me lembrava disso, talvez nem tivesse ficado sabendo, mas não queria saber o que era.
Meu interior colocava total confiança naquelas palavras, mesmo com mínima desconfiança eu queria acreditar.
É claro, quem queria acreditar no pior. Eu tinha fé. E colocava fé no Lyon como sempre, e como sempre quebrei a cara.
Meu pai saiu da cozinha nos xingando pela gritaria, por assustar os clientes e brigou comigo por já ter arrumado briga com o Lyon.
—Que merda! Vocês parecem crianças!! – ele continuava olhando pra cara do Lyon avaliando o quão grave era o machucado – Eu viro as costas dez segundos e olha isso!
Cruzei os braços sentindo só agora minha mão e cara arder pelo soco.
Tentei acalmar minha respiração, mas o nervosismo não deixava e agora pra variar eu sentia uma leva vontade de vomitar.
—Ninguém tem nada pra dizer?
—Não vem se fazer de desentendido... – disse.
—Ah... – ele coçou a cabeça e suspirou alto – Então já conversaram.
—E obrigado por me contar pai.
—Entenda Gray que é uma coisa entre vocês, eu não ia correr e fazer fofoca pra você, nem precisa pedir minha opinião porque é só você que pode decidir isso.
Aposto que ele perdoou o Lyon. Era óbvio eu nem precisava perguntar... Só...
—Por que? – questionei
—Quando vocês eram pequenos sempre que um levava a bronca o outro chorava. – meu pai começou – Isso nunca mudou. Mesmo com todas as brigas, nunca tive raiva de vocês. Fiquei chateado algumas vezes, mas nada de ódio. Eu nunca odiei você Lyon, nunca achei que você fosse o culpado pela morte delas. A Mica estava tão assustada que se precipitou com a situação. Infelizmente ela nunca conseguiu enxergar a inocência em você, essa é a verdade, mas eu enxerguei, desde o começo e ainda enxergo quando você chora feito criança. Todos cometemos erros, alguns perdoáveis outros não. E, não eu não o perdoei. – arregalei os olhos e olhei pra Lyon que fazia uma cara mais triste do que antes – Ele tem que se perdoar, conviveu com isso, tem pesadelos com isso, é um bom castigo. Quando você estiver melhor, consigo mesmo — ele se virou para o Lyon – vou te perdoar. Essa é minha posição, não posso te perdoar sem ter certeza de que vai realmente mexer essa bunda pra melhorar. Isso não significa que eu não confie em você, eu confio... Por isso vou esperar, porquê sei que consegue.
Escutei Lyon chorar mais ainda.
Fiquei sem reação. Não sabia...
Não sabia o que fazer...
Comecei a chorar também.
—Vem – senti meu pai pegar no meu ombro e me levar até lá me fazendo sentar no chão – Tudo tem seu tempo, certo. Gray vai te ajudar quando conseguir e eu estou aqui pra te perdoar quando estiver pronto Lyon.
Juvia Lockser
—E como você está?
A voz dele era relaxante pra mim depois de um dia estudando. Eu estava um caco, dentro do quarto as 21hrs ainda com o pijama, sem tomar banho ou comer.
—Eu estudando feito louca... temos que mostrar o que fizemos até agora.
—E você tem algo?
—Não muita coisa, Kagura e eu fizemos sozinhas. Meu grupo era cinco pessoas, a maioria saiu, e eu só sobrou nós duas.
—Estou aqui se precisar de ajuda, nunca fui bom em química, mas...
Dei risada.
—Uma companhia é sempre bem-vinda. – sussurrei
—Posso ir te ver, se você quiser. Na verdade, não conversamos desde aquele dia.
Cocei a cabeça.
—É, verdade...
Gray ficara em silêncio e eu não sabia como dizer aquilo.
—Acho que devemos ficar assim por enquanto...Quer dizer seu irmão acabou de ir pra ai, por que não fica um pouco com ele? Ele precisa de ajuda, imagino pelo o que você me contou...
Gray havia me contado sobre toda a confusão, a briga e a conversa deles dois, que Lyon estava morando lá dormindo no porão por enquanto, e fiquei estranhamente feliz, por ele ter me contado sem rodeios e pelos dois estarem juntos. Mas não passou disso.
—Ah claro... Mas não impede nós ou impede?
—Não... mas — suspirei – Acho que você deve ficar com ele. Tipo sério, não é como se eu fosse ficar chateada, mas eu queria que ficassem mais juntos e... eu realmente preciso estudar 24hrs por dia, é bem... chato.
Tinha certeza que do outro lado da linha Gray estava pensando que eu queria terminar tudo.
E como eu achava isso, pensei até em dizer que não era isso, mas ele podia não estar pensando nada e ai começar a pensar...
Eu sou a pior pessoa
—Acho que você tem razão.
—Sério? – questionei relutante
—Sim, é bem, ele está numa situação complicada.
—Claro que está....
Por minha causa quase acrescentei.
—É, entendo, faz sentido... Vou deixar você estudar.
—Por hoje eu meio que acabei... – apertei o telefone só de pensar que ele iria desligar
—Não quero te atrapalhar... – ele riu leve – é melhor não?
—É,ta... Tudo bem.
—Boa noite, Juvia.
—Boa noite...Gray.
Mesmo quase um mês depois, tudo ainda estava do mesmo jeito.
Eu me dedicava cada vez mais ao meu trabalho final da faculdade e tinha cada vez menos tempo de falar com ele, porém sempre tínhamos assunto, sobre coisas aleatórias, literalmente qualquer coisa, e eu adorava isso. Nos meus minutos de folga, tudo o que eu queria era correr e pegar o telefone pra discutirmos como foi o último episódio da série, o que eu havia achado das bandas que ele me passara e que eu passara pra ele.
Mas sem tocar no assunto de se ver, sair ou voltar...
Lidava com essa situação como eu podia. Chorava algumas vezes, mas nada que fosse grave, já que eu estava feliz de poder falar com ele. Normalmente chorava pelo trabalho dar errado, por sentir saudades da parte física dele, dos abraços...
Passei a sair mais com as meninas – Lucy, Levy, Kagura e Erza, elas vinham pra cá quando eu não tinha que estudar. Isso era muito bom, conversávamos sobre tudo e qualquer bobagem.
Ultimamente, tinha ficado extremamente feliz por Lucy e Natsu terem começado a namorar, e finalmente pararem de putaria. Levy e Gajeel também era só romance e eu também ficara feliz por eles. E Kagura cada dia mais estava entrando num verdadeiro desespero por não saber se gostava ou não da Erza, se era só uma fase, se ela sempre gostou de meninas e nunca soube.
Eu tentava ajuda-la e não perder o foco do trabalho.
E sempre que o assunto era eu...
—Tô bem.
Gajeel começara a estudar recentemente pra passar em fisioterapia. Repentinamente ele havia parado de dar aula de história, e usava o tempo pra estudar. Cada dia eu o via mais se aproximando do lado da medicina e ele dizia como sempre “É que é bem legal saber sobre”. Eu não duvidaria de ele seguir a carreira de médico pro resto da vida.
Natsu conseguira um estágio – que eu arrumara pra ele falando com Kinana — numa outra filial de onde eu trabalhava. Estava super empolgado com isso e com Lucy.
De verdade, eu não sabia mesmo como esconder a minha felicidade perante os dois, no começo sentia eles triste e agora a felicidade que saia do Natsu chegava a ser contagiante, se ele não estivesse tentando falar comigo sobre o Gray.
—Gray está estudando pra passar na faculdade.
Olhei pra Natsu quase engasgada com o cappuccino.
Nós estávamos dentro do Starbucks do shopping num banco aconchegante e quentinho. Eu com meu par de botas novas e cachecol que tinha acabado que terminar e ele com aquelas tocas com cordões do lado me lembrava o Chaves.
Natsu estava tendo problemas com uma matéria, e eu como veterana e quase formada, estava ajudando ele a entender e estudar pra prova que viria na semana que vem.
Fazia um frio da porra lá fora e ninguém entendeu de onde ele veio com tanta força em pleno outono, tipo qual é?
—Ele vai me xingar por isso porque queria te contar. Mas pelo que sei ele não ia contar porque você ia achar que ele ia estar seguindo a vida dele sem você. Então... Eu falo demais mesmo, você sabe.
—Faculdade... – suspirei – Realmente, ele deve seguir a vida dele. Não há mal nisso.— pensei comigo
—Ele está em dúvida entre Engenharia Mecânica e Arquitetura.
—Sempre disse que ele tinha que investir em desenhar. Já viu os desenhos dele?! – perguntei eufórica
—Claro que já! – Natsu sorriu alto
—Por que deu risada?
—Sei lá, é como se você... Você fica radiante quando fala dele, só isso.
Pisquei várias vezes e voltei a tomar meu café.
—Ele sente sua falta Juvia.
—Não é como se tivéssemos terminado... ou que nunca mais vamos nos falar.
—E o que é? Vocês finalmente tiveram a conversa esperada do ano, e se afastaram por que?
—Ele precisa de um tempo pra ele.
—Perguntou isso a ele?
—Natsu...
—Talvez, você precise pensar. Talvez os dois precisem, mas tem que ser sincera com ele.
—Eu estou sendo! Não é nada demais, só disse que ele precisa pensar, ficar mais com o Lyon e...
—E você disse que não quer atrapalhar. Mas a verdade é que você tá com medo de não saber lidar com o Lyon não é?
Gelei e tomei outro gole do café pra ver se descia junto aquele nó na minha garganta.
—Não viemos aqui pra falar de mim.
—É claro que viemos ou você acha que eu tirava dez em química no ensino médio todo porque eu burlava o sistema da escola. Eu sei essa matéria.
—Você me enganou. – ri nervosa
—Você tá enganado a si mesma também.
Eu já estava cheia de tudo aquilo.
E quando achei que ia explodir, levantei do café e simplesmente fui embora.
Por que claro que tudo que eu queria era brigar com o Natsu e ir chorando até o ponto de ônibus por não poder ligar pro Gajeel porque sabia que aquela hora ele estava no cursinho preparatório do vestibular e chorar de saudades do Gray.
Saudades dele.
Do cheiro.
Dos beijos.
De andar de mãos dadas.
Do jeito que ele me dava conselhos como um amigo e não um namorado. Das nossas brigas por nunca decidir o que nós éramos. Dos seus carinhos, da intensidade dos seus beijos na sala da casa de praia...
Que droga... Eu só queria ele agora.
Mas realmente tinha medo...
Só que ninguém precisava saber disso também. Natsu me decifrara feito um enigma e eu estava extremamente irritada por isso agora.
Desci uns pontos antes da minha casa e fiquei sentada na praça no banco de pedra que por sinal estava tão gelado que doeu minha bunda. Agora eu chorava pela minha bunda toda molhada do sereno da noite e por ele.
Abri e fechei a droga do celular dez vezes olhando a foto dele, online há alguns minutos atrás mas eu não conseguia chamá-lo.
—É, eu quase não te reconheci.
Ouvi uma voz do meu lado, mas nem achei que era comigo. Até mesmo virei pro lado e pedi pro carinha do churros, um de nutella com confete.
—Ele disse que eu não ia te reconhecer é... seu cabelo tá diferente.
Olhei pro lado na direção de voz.
Era impossível.
Tinha que ser.
Ele deu dois passos tímidos como se quisesse saber se poderia se aproximar de mim. Esperei pelo meu choro excessivo, pelo esforço do meu cérebro de gritar pra correr dali mesmo que minhas pernas não obedecessem nunca, pela tremedeira...
Mas a única coisa que fiz, foi ficar com raiva.
Sequei as minhas lágrimas, nervosa e levantei.
—Melhor você ir embora. – disse firme – Ou o que? Quer um soco na cara? – mordi a língua quando meu lado estressado aflorou. Ia me desculpar mas quer saber foda-se... Um soco não era pior do que ele fez. – O que você quer?
—Eu não devia estar aqui isso é verdade, mas não posso seguir adiante sem isso.
—E espera que eu faça...
—Talvez me escutar? Não quero perdão Juvia, só esclarecer...
—Esclarecer? – ri alto — Tem sorte de eu não te chutar daqui.
—Entendo se você não quiser. Vou embora se você pedir.
—Ah dessa vez você vai? –Lyon pareceu que tinha sido pego por um enjoo momentâneo e colocou as mãos na boca como se segurasse uma ânsia. Percebi que tocara na ferida.
Respirei fundo. Peguei meu churros e guardei na caixinha perdendo toda minha fome.
—Quer falar aqui?
—Onde você quiser.
—Muito receptivo pro meu gosto. – me sentei no mesmo banco e ele do lado, distante.
—Eu estou tentando mudar então... – ele deu de ombros.
—Sua psicóloga mandou você falar comigo?
—Disse que seria bom se eu tentasse.
—Ele nem sonha que você está aqui.
—Óbvio que não. Ele teria me socado.
—Ele disse que faria isso. – quase sorri
—Bem não que ele não tenha feito, mas... – ele apontou um roxo no seu olho e fiquei com pena por alguns segundos. – Eu não faço ideia de como começar. Talvez se eu contasse o que pode ter me tornado ou me ajudado a ser uma pessoa nojenta e horrível, seja mais fácil.
—Fica à vontade. — dei de ombros.
Por mais que não parecesse, no fundo eu estava aflita com a presença dele ali. Mas não a ponto de estar com medo. Ainda sim, era uma sensação horrível.
Eu estava a dois palmos do cara que me estuprou, numa praça deserta! Queria gritar por socorro.
Só que tinha que resolver isso.
Sempre tive a sensação das coisas nunca estarem resolvidas entre nós.
Eu precisava resolver isso.
Fiquei atenta a ele e a conversa, que começara com a história dos pais dele e tudo que ele sofrera com ele.
Aos poucos eu fui perdendo a fome do churros, a pose de marrenta e chorei quando ele começou a chorar.
Lyon chorando, na minha frente.
Ele dizia o quanto tinha se sentido acolhido quando Mica o levou pra casa grávida de Ariane, a falecida irmã do Gray, como ele se sentia diferente vendo Silver e Gray tratá-la tão bem na gravidez. E quando ela nasceu era como se ele tivesse um novo proposito, alguém pra cuidar também.
—Era mágico, isso que eu acreditava. Tinha saído da fossa que era a minha infância e ido pra um lugar totalmente lindo. As minhas cicatrizes ainda estavam lá quando eu tomava banho, mas já não sentia nada por elas. – ele fungou – Ariane cresceu claro, e nós também. Eu comecei a ir pra escolar, andar com alguns meninos mal educados como a Mica dizia, e zuava o Gray quando a gente brincava de cabelereiro, modelo e qualquer coisa de menina. Um dia nós dois ficamos sozinhos. A Ariane estava brava comigo porque não brincava mais com ela. Disse que naquele dia eu brincaria e ela podia escolher. Nós estávamos sozinhos, então Gray não ia me zoar de volta. Pegamos as roupas do Silver e da Mica, os batons, os relógios, todas as coisas que não era pra mexermos e começamos a vestir. Quando a Ariane foi colocar o vestido ele não servia, óbvio era três vezes maior que ela. Eu estava colocando a calça social do terno do meu pai quando ela pediu ajuda pra se vestir... – Lyon soluçou chorando alto — A Mica chegou e abriu a porta. Nós dois sem roupas, eu tentando vestir a Ariane... – engoli seco quando comecei a entender o que houve – Ela surtou. Gritou com a gente e puxou a Ariane de mim mandando ela sair do quarto, juntando todas as roupas e as maquiagens, tentei ajudar quando ela brigou comigo, disse que eu nunca ia mudar e que ela sabia... Que eu era um monstro e nunca mais ia ver a Ari. Comecei a chorar. Só tinha 13 anos, entendi alguns minutos depois que ela achou que eu tinha machucado ela. Comecei a negar soluçando enquanto ela me mandava calar a boca e chorava olhando pelo corpo da filha pra certificar que ela estava bem.
“Eu não sabia o que fazer só chorar e chorar. Escutei ela pegar a chave do carro porque queria sair de casa, dizendo que não queria fala comigo, que quando Silver chegasse nós três iriamos conversar. Acho que nunca chorei tanto como naquele dia. Só passava uma coisa pela minha cabeça: ele vai acreditar nela e eu vou embora, vou viver na rua, ficar sem casa, sem o Gray.
Ele chegou da escola uns minutos depois e nós conversamos sobre o que aconteceu. Ele acreditou em mim sem hesitar, disse que se eu não tinha feito nada ele acreditava... Que ia embora comigo se eu fosse.
Naquela noite o Silver chegou em casa as três da manhã, nós dois descemos correndo pra ver porque ele demorara e se tinha encontrado minha mãe... Ele nos abraçou e começou a chorar. Mica tinha batido um carro no poste e o impacto a matou na hora... A Ari voou do banco do passageiro sem cinto e bateu a cabeça na calçada. Tentaram salvar ela no hospital mas não deu”.
—Sabe o quanto eu me senti culpado?
—Sinto muito... – solucei.
—Nada justifica o que eu te fiz Juvia, mas eu era doente e o que aconteceu foi uma centelha de fogo que ligava minhas memórias disso. Depois da morte da Ari nada me deixava com os pés no chão. Eu não sentia o Silver perto de mim como antes, me mudei pra deixá-los em paz e foi melhor, no começo, até mudar o inquilino. Ele era outro louco que sabia da história do meu pai e minha, me ameaçava se eu não pagasse o aluguel. Eu sonhava com aquelas coisas... E, aos poucos me sentia doente de novo. É bem idiota, bem psicopata, mas aquele dia na festa o seu medo me deu a oportunidade de me sentir alguém de novo, e não um babaca que tinha medo de um velho de cinquenta anos porque ele ia me estuprar se eu não pagasse... Nunca entendi que não seria alguém nunca naquele mundo, se eu não mudasse, não buscasse ajuda, me tratasse não sumisse dali.
“Foi pior quando quase machuquei a Lucy, me vi tão desesperado que voltei disposto a me matar. Naquela estação de trem mesmo, mas achei que remédio antes poderia dar como acidente e não suicídio. Eu vi a Meldy dentro da farmácia e... eu não sei...”
—É como se o mundo tivesse outra cor. – completei.
—É... É bem assim. Eu sentia isso na minha infância com ela, mas nunca entendi... Agora eu sei. Ela é alguém que me faz querer ser alguém, ela me ajuda, me melhora, confia em mim... E só por ela que estou aqui sentado do seu lado hoje. Não deve ser bom pra você, mas acredite pra mim é muito. Quando eu me senti assim a primeira vez, foi quando eu voltei a pensar em você.
Me assustei com aquelas palavras de repente e encarrei Lyon esperando uma explicação.
—Eu dormia pensando em como você estava, se estava melhor, em como tinha seguido a vida, se tinha cortado o cabelo, se tinha superado, se tinha alguém que colore sua vida também... E eu nunca fiquei tão feliz de ver você de cabelo azul como hoje. – eu ri secando minhas lagrimas mesmo quando saiam mais – Eu sei que você tem alguém que colore sua vida. Ele tá um saco sem você, fica de cara amarrada o dia todo, mas pelo menos estuda. Ele sente sua falta Juvia, se você sente a dele, não deve parar por mim, por nada. Eu juro – Lyon olhou nos meus olhos – Juro que nunca mais vou fazer nada a ninguém, nem a você. Quero que faça ele feliz, se não se sentir bem eu posso não fica em casa quando você estiver lá, mas não deixe ele assim por minha causa. Por favor.
Eu engoli seco e esqueci toda minha raiva naquele momento.
Me joguei nos ombros do Lyon e o abracei forte chorando, senti que seu peito soluçava perto de mim de chorar. Ele tremia e eu sabia que não era de frio, eu sentia aquilo, sabia o que era estar nervoso, ansioso e com medo.
—Você nem parece o Lyon. – sussurrei
—Ainda bem. – ele me soltou e eu sorri.
—Você vai ficar bem — apertei a mão dele – estarei acreditando em você.
Eu vi o sorriso sincero dele e vi o quanto eu estava mentindo pra mim mesma.
Era como se outra fase houvesse começado e eu queria Gray do meu lado nesse novo tempo.
Depois daquela uma hora sentada ali, foi como se eu houvesse perdido um fardo pesado dos meus ombros, como se por instante tudo parecesse resolvido.
Pelo menos entre mim e ele. Realmente nunca teria justificativa pra aquilo, e eu provavelmente o perdoaria um dia mas se percebesse que ele merecia esse perdão. Todo medo que eu sentia agora de ver ele, tinha se esvaído pelas minhas lágrimas. Eu poderia ver o Gray e ele juntos sem estar tão aflita.
Eu poderia ver o Gray...
—Ele sente... minha falta... — sussurrei
—Todos os dias. – Lyon se levantou. – Sempre fala de você. Ele te vê na escola, sabia.
—O que? – questionei incrédula
—Todos os dias... – ele repetiu – Acho que você precisa ir vê-lo.
—Eu irei.
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