Calling Down.
2 Tears Of An Angel.
Notas iniciais
~ Não está revisado, então qualquer erro, por favor, me perdoem.
Boa leitura. ♥
A noite já havia se aconchegado, deixando seu manto estrelado cobrir a imensidão. Já fazia alguns minutos que Ruki parecia refletir o que iria falar, e Kouyou continuava ao seu lado. Até havia pensado em oferecer algo ao outro, mas o menor parecia estar em outro mundo, tão distante de si.
– Há muitos anos atrás essa casa teve seu momento de paz. – A voz suave se fez presente, prendendo a atenção de Takashima. – Mas foi apenas um momento... Esse já foi um lugar de muitas desgraças. Você consegue sentir o clima pesado que existe aqui, Kouyou?
Não havia como responder que não. Aquelas paredes guardavam muitos segredos, disso tinha certeza. Podia sentir que o frio não era por aquela mansão ser tão grande, e sim porque não existiu nada ali que a fizesse aquecer.
– Não há como ignorá-lo. – Foi a resposta que devolveu à pergunta feita. Sem deixar de notar o quanto o outro era pálido, ainda mais envolto pela luz da lua.
– Como eu disse anteriormente, essa casa teve seu momento de tranquilidade, mas durou pouco, até que a mulher que aqui vivia engravidasse do mordomo com quem mantinha relações às escondidas. Como você deve saber, aqui morava a família Matsumoto. O patriarca dessa família chamava-se Matsumoto Shibata, e eu creio que esse nome seja seu pior pesadelo em todos esses anos.
Ao ouvir o nome que tanto odiava, Kouyou comprimiu os lábios e inconscientemente serrou os punhos. Era como se aquele nome fosse tão forte, carregasse tantas coisas ruins, que a qualquer momento Shibata poderia se materializar ali, só por ser citado.
– Um dia enquanto a mulher conversava aos prantos com uma das empregadas da casa, Shibata ouviu e o inferno começou (...)
“ (...)Para não desonrar o nome Matsumoto, Shibata resolveu que assumiria a criança, que o bebê seria um herdeiro seu, e não de um mordomo qualquer. A morte do mordomo foi silenciosa, um feito pelo qual Shibata se orgulhou imensamente. Ele descobriu logo depois que o homem que havia matado era o grande amor de sua esposa, a qual havia se casado por causa de um trato feito pelas duas famílias. Naquela época os casamentos eram arranjados, e para não desonrar a família, ou para não sofrerem como se fossem cães sarnentos, as pessoas se submetiam. Após a morte do amado, a senhora Matsumoto entrou em depressão, o que não aliviava seu lado, pois o marido não sentia pena alguma.
Com muito esforço o herdeiro daquela família nasceu, e foi concebido a ele o nome de Matsumoto Takanori, nome este que com o tempo só o deixava envergonhado e com a certeza de que aquela família havia sido amaldiçoada de alguma forma.
Os anos foram passando, e o pequeno Takanori foi crescendo sendo tratado como uma doença infecciosa por seu próprio pai. Até que um dia ele presenciou a morte da própria mãe, pelas mãos do homem que cresceu aprendendo a desprezar. Com um único corte de uma katana afiada, a cabeça da mulher foi diretamente ao chão, deixando um sorriso sádico percorrer os lábios de Shibata. Após presenciar a morte da própria mãe, Takanori ficou trancado por dias em seu próprio quarto, ainda que recebesse ameaças de Shibata, jurou a si mesmo que se vingaria.
Os comentários que percorriam a cidade eram de que o patriarca dos Matsumoto era um bruxo, que fazia feitiços e conseguia prender a alma das pessoas na terra por milhares de anos. Ninguém ousava contradizer suas palavras, e o que ditava pela pequena cidade era tido como lei e mesmo que vivessem na época de samurais, ninguém se atrevia a cortar a garganta de Shibata por medo de ser castigado de alguma maneira.
Takanori cresceu, e com ele cresceu o ódio de carregar um sobrenome que desonrava a própria vida. Uma vez dentro da grande biblioteca, Takanori achou livros de magia negra repletos de maledicências, onde tudo que lia ia contra a vida, contra os sentimentos mais profundos do ser humano. Foi então que entendeu que Shibata era mais que um bruxo, era praticamente um espírito das sombras perambulando em terra, encarregado de fazer mal a humanidade, de atentar a vida de qualquer um. E contra aquele tipo de magia, infelizmente Takanori não podia lutar, e se usasse da mesma que estava escrita nos livros iria se sentir como um espírito cruel, alguém que não seria digno de honra.
Com o tempo o garoto descobriu que estava apaixonado. Mas não por uma bela moça, e sim por um guerreiro que lutava para defender a glória do país. O rapaz pertencia à família Suzuki, um grande nome que carregava um grande fardo. Após um tempo ambos começaram a manter relações às escondidas, onde um amor puro se estabeleceu, ganhando um valor que na época era desconhecido, era julgado, desprezado, era alvo de preconceito.
Até que chegou o dia em que Shibata apresentou a futura noiva de Takanori. Era uma bela moça, sem dúvidas, de feições suaves e delicadas, mas não era ela a quem o coração do pequeno Matsumoto pertencia. Naquele mesmo dia Suzuki havia ido para uma batalha, e havia prometido voltar para buscar seu amado e assim fugir para bem longe, onde ninguém jamais os achasse. Mas o inesperado aconteceu, e logo a notícia de que o grande guerreiro Suzuki havia sido morto enquanto lutava logo percorria a cidade, fazendo com que Takanori desabasse em frente ao grande chafariz, não conseguindo aguentar o golpe que a morte havia dado em seu coração.
Alguns dias mais tardes, com um Takanori já debilitado e abatido pela depressão, Shibata descobriu tudo o que acontecia antes da morte de Suzuki, adentrando o quarto do garoto com os olhos vermelhos, como se estivesse com sede de sangue. Aquilo não assustou o garoto que já esperava por aquilo, esperava ser morto pelo homem que mais odiava em toda sua existência. O que ele não esperava era que antes de morrer, uma maldição lhe fosse lançada, e as últimas palavras que ouviu do homem foram “Já que amou tanto aquele homem indigno de uma vida aqui na terra, já que desonrou tanto o nome Matsumoto, você vai estar ao lado dele em todas as próximas encarnações, porém, não na mesma dimensão. Que sua vida aqui seja eterna enquanto ele dure, Takanori.” E assim como sua mãe, Takanori morreu com apenas um golpe de uma katana afiada, a mesma katana que sabia que havia sido usada para causar tanta tristeza.”
Quando Ruki finalizou a história, os olhos de Kouyou demonstravam um misto de tristeza, irritação incredulidade. Não era possível um homem conseguir jogar uma maldição assim em alguém, era?
– Então... Você é o filho dos Matsumoto?
– Pode-se dizer que sim. Mas, eu não me considero um Matsumoto. O nome do meu pai era Soichiro Hisashi.
Então era isso, Ruki era o suporto filho de Shibata. Lembrava-se que naquela época as pessoas falavam sobre a morte do filho dos Matsumoto, o boato era que ele havia morrido de tuberculose, por isso havia passado seus últimos dias trancado em casa.
Lamentável. Além de morrer de maneira tão cruel, Ruki ainda fora castigado a ficar preso na terra, vendo o amor da sua vida viver e morrer, sem poder amá-lo novamente. A alma de um anjo preso em terrar amaldiçoadas pela existência humana. Sua história era tão infeliz quando a sua.
– Mas como você sabe que é ele? Quero dizer... O Suzuki. Como você sabe que ele nasce mais uma vez?
Takanori o olhou de modo abatido, lhe sorrindo triste. Era impressionante como a tristeza não lhe escondia a beleza.
– Todas as vezes que ele renasce, uma borboleta branca aparece e começa a me guiar. É como uma luz na escuridão.
Kouyou estava definitivamente tocado com tudo aquilo. Era surreal demais. Se fosse um mero mortal talvez nem acreditasse, mas sabia que tudo aquilo era verdade. E lhe doía saber de toda a realidade.
Tocou o vidro gélido com uma de suas mãos, como se estivesse diante de um grande sonho, assistindo tudo de camarote. Queria poder quebrar aquele livro e sentir uma dor tão forte para poder voltar ao mundo real, mas não podia. Não podia porque simplesmente era o mundo real que o machucava da forma mais cruel possível.
– Ele nunca viu você?
Takanori fez o mesmo que Kouyou, apoiando a mão na vidraça, como se compartilhasse dos mesmos pensamentos de Takashima.
– Nunca... Até hoje.
A expressão do mais alto se tornou interrogativa, e logo o outro tratou de explicar.
– Sabe Kou... Ele nunca me via, eu sou como um espírito, assim como Shibata disse... Um espírito que está preso a Terra. Mas hoje quando eu o encontrei aqui na cidade, ele estava se despedindo de um amigo e eu apenas o fiquei observando, enquanto as pessoas passavam por mim sem obviamente me enxergar. Mas quando ele se virou, os olhos dele encontraram os meus, e eu tive a certeza de que ele estava me vendo. Eu não sei o que se passou pela cabeça dele, mas quando ele deu o primeiro passo em minha direção eu apenas corri.
– E veio para cá, não foi?
– É, eu vim para cá.
– Mas Ruki, se as pessoas não conseguem lhe ver, por que ele conseguiu? E por que eu estou aqui conversando com você?
Com os lábios comprimidos e uma expressão cansada, Takanori saiu de perto da janela, indo em direção a uma das cadeiras que estavam próximas. Sentou-se abaixando a cabeça, e juntou as mãos largando os braços sobre o colo.
– Eu não sei Kou. Mas algo realmente estranho está acontecendo.
Com a testa franzida Kouyou apenas olhou para o mais baixo, que permaneceu naquela posição. Não sabia o que ele estava querendo dizer, mas algo não se encaixava ali. Por que todas essas coisas no mesmo dia? Sabia que estava faltando algo.
– Ruki, você ainda tem mais alguma coisa para me falar, não tem?
Quando Takanori levantou o rosto, Takashima pode ver claramente as lágrimas que escorriam pelo rosto delicado.
– Reita está correndo perigo, Kou.
– Reita? Quem é Reita Ruki?
– Suzuki Akira...
E então um brilho de entendimento passou pelos olhos de Kouyou. Mas não queria que aquilo fosse verdade. Com um nó na garganta completou a frase de Ruki.
– O guerreiro que morreu em uma batalha há quase setecentos anos atrás.
Então o que eram apenas algumas lágrimas, tornou-se um rio... E o baixinho caiu num pranto profundo, sendo prontamente amparado por Kouyou, que assim que pôs os olhos naquele baixinho teve a certeza de que deveria cuidar dele, amparar aquela alma tão machucada quanto a sua. Não entendia porque o sofrimento tinha que existir, porque o mundo tinha que ser tão injusto.
Por que as pessoas não se contentavam com as coisas boas? Por que o sentimento de ódio, tristeza e tantas outras coisas negativas tinham de existir? Sabia que era difícil se controlar, que as pessoas sabiam ser maldosas, mas se havia aprendido uma coisa durante as centenas de anos em que viveu, foi que coisas negativas eram extremamente desnecessárias, e só levavam as pessoas a auto-destruição.
Ficou ainda algum tempo abraçado ao corpo menor, querendo que tudo aquilo simplesmente passasse. Não lhe dizia que iria ficar tudo bem, pois depois de alguns anos passou a não ter tantas esperanças assim.
– Calma Ruki... Eu estou aqui, e de agora em diante eu sempre estarei ao seu lado, tudo bem? Nós vamos enfrentar isso tudo juntos.
E aos poucos o choro foi se acalmando, e em um sussurro Takanori conseguiu dizer: – Reita está com aquele livro, Kou.
Além do sussurro, a única coisa que se pode ser ouvida foi um gorjear alto de Hoku, que estava de volta ao chafariz.
Notas finais
Quero agradecer aos reviews que recebi, vocês são fofos. E dizer aos leitores fantasmas que apareçam, por favor. A opinião de vocês é deveras importante para eu continuar escrevendo.
Então é isso. Até o próximo capítulo, pessoal. ♥
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