Califórnia
4 Capítulo 4 - O corredor
Notas iniciais
Los Angeles, antigas docas. 30 de Março 2016
Percy desligou o motor de seu carro e saiu para o que Nico chamava de "selva". Mulheres carentes por sexo e a procura de dinheiro o rodavam, enchendo-o de carícias e cantadas idiotas.
Enquanto se preparava psicologicamente para atravessar o mar de pessoas em direção ao bar improvisado, ele varreu o olhar pelo local.
Percy se assustou, havia uma garota lá, uma totalmente deslocada. Era sempre comum encontrar pessoas sentadas ou encostadas nas unidades na doca. A maioria bebia, alguns se pegavam e a minoria se drogava. Mas aquela garota não fazia nada daquilo. Ela passava os olhos pelo local, como se estivesse o sondando. E vez e outra, dava um gole em sua cerveja. A blusa que usava era simples, mas provocante, e o short jeans tinha fiapos em todas as direções. O cabelo loiro era cheio, e ondulado. Annabeth o encarou de volta, e daquela distância Percy não conseguia saber a cor de seus olhos, enquanto dava mais um gole em sua cerveja ela rolou os olhos e se afastou do local.
— Você ganhou! — uma das garotas se jogou nele assim que se virou. — E você sabe que ganhadores ganham recompensas.
Ela era morena, porém magra demais. Com a cara fechada, Percy passou pelo mar de mulheres que insistiam em puxar sua blusa e seus braços.
E aquilo se repetiu, vezes e vezes. A mesma loira, no mesmo local. E ela sempre rolava os olhos para si, o que frustrava Percy.
Docas, 10 de Abril de 2016
Ele foi andando ao bar, ou o que poderia ser um, e logo avistou Leo Valdez e seu irmão Charles Beckendorf.
— Ei, cara! — Leo o cumprimentou encostado na lateral da caminhonete prata. — Bela corrida.
— Valeu — Perseu respondeu. — Me dá uma cerveja, Leo.
— Tem certeza? Sua cara está meio acabada.
— Eu não sou as garotas para quem você empurra bebidas — Jackson disse duramente.
— Tem razão — Leo confirma enquanto abria a cerveja. — Você não é tão bonito quanto elas.
Com um sorriso maldoso ele empurra a garrafa marrom para Percy e se vira para checar o estoque na traseira de uma das caminhonetes. Jackson se encaminha para um carro preto, com uma figura notória a sua frente.
— Não acha que forçou muito a junta* com aquele drift? — Nico pergunta.
— Acho, mas posso concertá-la depois — responde, encostando-se no capô, ao lado do amigo.
— Como está Poseidon?
— Por que pergunta?
— Você foi se encontrar com ele hoje, não foi? — di Angelo vira o rosto para si.
— Como sabe disso? — Perseu perguntou apertando os olhos.
— Eu te conheço a muito tempo, não acha?
— E... — Percy o incentiva a falar.
— Eu estava lá.
— O que Hades te disse?
— Que nós estamos com problemas — responde. — Eles estão chegando perto, e não sabemos até quando poderemos esconder nossos segredos.
— Como? — Percy pergunta, agora abalado.
— Pegaram Harvey, de algum modo conseguiram a informação dele.
— Merda... — Perseu murmurou. Harvey era o gerente deles, ele sabia de tudo e tinha acesso a tudo. — Onde está Jason?
— Trabalhando — fala, com os braços cruzados.
— Já fazem 3 meses, e ele não descobriu nada.
— Isso prova que Ares sabe muito bem esconder suas coisas — Nico diz duramente. Seus olhos estavam desfocados, e ele parecia imerso em pensamentos.
Enquanto deixava o amigo pensar, Percy passou os olhos pelo local. Ele não tinha visto a loira naquele dia, mas uma cabeleira loira se destacou rapidamente entre a multidão. Ela estava saindo de um carro, a não muitos metros de onde estava.
— Percy, meu garoto! — Malcolm grita alegremente, enquanto se aproximava rapidamente.
— Olá, Malcolm — ele responde duramente.
— Foi uma bela corrida aquela, ganhou o quê? 10 mil?
— Isso — Percy falou, olhando sobre o ombro do loiro. Annabeth conversava freneticamente com o motorista, e após puxar seu casaco, bateu à porta fortemente.
— Você sabe que o organizador sempre ganha...
— Claro — Jackson mete a mão no bolso, e do maço de dinheiro tira 2 mil e 500 para Malcolm.
— Valeu, cara — ele diz e percebe o olhar de Percy. — Ah, não é bom se meter com ela.
— Quem é ela? — pergunta. Nico desperta de seus pensamentos e observa a loira.
— Eu não sei — Malcolm diz, levemente. — Mas Hanna a apelidou de Smokey.
Hanna era uma das "amigas" de Malcolm.
— Fumaça? — Nico pergunta.
— As vezes ela está lá e no segundo seguinte não — o loiro comentou.
— Mas qual é o nome dela? — Percy fala.
— Não sei, ela não é de conversar muito.
— Isso ajuda bastante — o moreno de olhos verdes mar murmurou.
— Bem — Malcolm dá um tapa amigável em seu ombro. — Já estou de saída.
Assim que o organizador se distancia, até onde não podia ouvi-los, Nico diz:
— O que quer com a garota? — ele vira o rosto em direção a Percy.
— Nada — Perseu da de ombros. — Só a vi por vários dias e fiquei curioso.
— O que descobriu? — di Angelo perguntou.
— Ela saiu de um Subaru preto e roxo.
— O carro é dela?
— Não, alguém estava dirigindo. E ela estava bem chateada.
Nico faz uma careta.
— As mulheres que não cobram são as que mais saem caro — ele fala. — Se ela tem um rolo com alguém não vá atrás.
— Você tem experiência com isso, não é mesmo? — Percy brinca.
Nico tinha uma mulher que ele fodia frequentemente, ela se chamava Drew e era casada. Mas isso não impedia di Angelo de encontrá-la.
Ele olha feio para Perseu porém nada diz.
Annabeth andava decidida por entre as pessoas e os carros até o bar. Ela estava sem carro e seu plano já estava estragado mesmo. Não fazia diferença se bebesse um pouquinho a mais da conta.
Ela havia apostado uma corrida contra Dean, um de seus "seguranças", e tinha perdido feio. Seu lindo Dodge Demon 340 estava acabado.
Naquela noite, ela usava uma ankle boot verde musgo, um short jeans e uma blusa preta, rasgada em alguns locais. Como sempre, Annie carregava o seu inseparável casaco verde musgo na mão. A bolsa carteiro marrom estava pendurada em um dos ombros, e alguns caras observavam sua bunda quando passava.
Annabeth passou tão rápido por Percy que nem deu tempo dele observar a cor dos seus olhos. Ela parecia um furacão com raiva.
— Cerveja? — Leo perguntou para ela no bar.
— Não — Annie balançou a cabeça enquanto encostava numa pequena mesa. — Vou querer algo mais forte hoje, você tem whisky?
O moreno mexicano faz uma careta.
— Talvez não, mas se tivermos, vai ser um pouco mais caro — disse.
— Tudo bem.
Annabeth sabia que era somente uma desculpa para cobrar mais caro de si. Ela havia visto, em outra noite, as várias garrafas de whisky dentro da unidade atrás deles. Se fosse para casa, ela se martirizaria por não estar trabalhando, e pagando o que deve à Ares.
Uma mão em sua bunda a tira de seus pensamentos.
— Eu não sabia que garotas tão gostosas frequentavam esses lugares — um homem fala em seu ouvido.
Virando levemente a cabeça, Annie diz:
— Tira a mão — ela foi curta e grossa.
— Eu sei que você gosta — o moreno atrás de si apertou sua bunda.
— Ela vai matar o cara — Nico diz ao seu lado.
— Hum? — Percy murmura, tirando os olhos cheios de raiva de Declan Hotch.
— Olhe as mãos dela.
Os olhos verdes mar são direcionados às mãos da loira, que moviam-se em direção a uma garrafa de cerveja vazia, deixada em cima da mesa. Decidido a acabar com a confusão, Jackson dá dois passos em direção ao bar. Porém Malcolm chegou lá primeiro.
— Declan — Malcolm diz. — Eu acho que já chega.
— Chega? — Declan Hotch levanta uma sobrancelha.
— Isso, vamos deixar a Smokey em paz por um tempo — o organizador fala, abraçando Annabeth pelos ombros.
Annie ficou muda assim que encarou Declan. Ele era estupidamente bonito e idiota. Sua pele era pálida, muito pálida, chegando a ser confundida com cinza. Seus olhos chamavam atenção por serem dourados, eles brilhavam na noite, queimavam como chamas inquietas. Seus cabelos eram negros, e chegavam a ser azulados com a pouca luz, ele deveria ter 1,74m.
— Ela estava gostando — Declan reclama.
Annabeth franze o cenho, não importava se ele era bonito, quando Declan abria a boca só saia "merda". Seu momento de fantasia foi rapidamente cortado.
— Tchau — Malcolm diz, balançando a mão no ar, com um sorriso amarelo.
Se ele se indignou, não falou. Hotch saiu com a cara amarrada de perto deles.
— Obrigada — Annabeth fala, olhando para Malcolm de lado.
— Disponha — ele responde deixando de abraçá-la. — Mas não deveria estar vestida desse jeito por aqui, se não quiser arranjar confusão.
— Não tive escolha — Annie responde dando de ombros.
Malcolm sorri minimamente, e mesmo escorada na mesinha e com o copo de whisky na mão Annabeth reconheceu seus traços. Seus cabelos eram loiros, um pouco grandes e com cachos nas pontas, e seus olhos marrons claros. Annie não sabia porquê, mas seu sorriso era familiar.
— Sou Malcolm — diz, estendendo a mão.
— Eu sei quem você é — ela responde.
Ele levanta as sobrancelhas, mas não abaixa a mão. O loiro a sua frente parecia amigável e Annabeth estava disposta a socializar naquela noite.
Por que não? Pensou.
— Sou Annabeth — fala, apertando sua mão.
— Annabeth — ele disse, como se testasse seu nome. — Belo nome.
— Obrigada.
— Então, Annabeth. Por que está bebendo nessa noite?
— Problemas com o trabalho.
— Trabalho? Vestida desse jeito?
Annie deu de ombros.
— Longa história.
— Bartender ou acompanhante? — Malcolm pergunta.
— Bartender — responde, abaixando seu olhar ao copo de whisky a sua frente.
— Não era mais fácil beber em um bar do que aqui?
— Aqui as pessoas não fazem perguntas — Annabeth disse friamente.
Malcolm logo entendeu a indireta e com um aceno de cabeça se afastou da loira.
Um toque de celular irrompe na noite, chamando a atenção de Annie. Era o seu, em algum lugar dentro da enorme bolsa carteiro. Empurrando as coisas para o lado, enquanto tateava com a mão, ela o encontrou no fundo da bolsa.
Era Dean, e depois de pensar duas vezes atendeu:
— Olá, Dean.
"Annabeth, onde você está?" ele perguntou raivosamente.
— Por aí — Annabeth respondeu enquanto olhava ao redor.
A bolsa carteiro estava aberta e um estranho brilho chamava a atenção de Percy.
"Estou falando sério, onde você está?" Dean disse.
— Em um bar — respondeu tranquilamente. — Houve alguma coisa?
"Seu tio quer falar com você, urgentemente"
Annabeth levanta uma sobrancelha.
— Ele nunca quer — ela falou. — Por que meu tio quer me ver agora?
"Eu não sei, só arranje um jeito de fazê-lo feliz porque ele já socou Marvin"
— Ok, eu vou arranjar.
Annabeth nunca falava o nome de seu tio. A linha de seu celular não era segura e ela não queria atrair problemas para si. Annie gostava da liberdade que tinha, com a qual ninguém a associava a nenhuma máfia. Era muito melhor do que ser perseguida. Se qualquer pessoa a associasse a Ares, sua vida se resumiria a ficar em casa 24h's por dia, vigiando constantemente suas costas.
Percy se aproximou do bar e olhou de esguelha para Annabeth. A luminosidade que vinha da bolsa chamou rapidamente sua atenção. O iPad de Annabeth trabalhava a horas, tentando quebrar o código de seis dígitos que a levaria para mais perto dos arquivos de Wayne.
Quatro números já haviam sido decodificados. Aquele código tinha mais seis senhas, que precisavam ser descobertas, e aquela era somente a segunda. Aquilo estava dando dor de cabeça a Annabeth a muitos meses.
Os números passando rapidamente pela tela chamavam a atenção de Percy. A loira não era quem parecia ser, ela não era simplesmente uma pessoa qualquer.
Ele desviou o olhar rapidamente, e com um movimento, Annie empurrou o celular para dentro da bolsa e a fechou. A loira terminou a bebida rapidamente enquanto espiava Perseu. Ele era um bom corredor, ela já o vigiava a um tempo, e tinha que concordar que era bonito. De perto sua mandíbula era mais definida e sua barba estava por fazer.
Suspirando, Annabeth se afasta e vai andando entre os carros.
— Aonde está indo, loira? — Malcolm pergunta se aproximando, ele estava encostado em um carro pelo caminho.
— Embora — Annie responde, olhando mais uma vez para seu rosto.
— Já?
— É — ela diz rapidamente.
— Está indo para onde, Annabeth?
— Downtown.
— Quer carona?
— Você não tem que trabalhar? — Annie pergunta, se concentrando nos buracos do caminho de cascalho.
— Sempre arrumo tempo para meus amigos — Malcolm fala, dando de ombros.
— Desde quando somos amigos?
— Não sei. Eu quero ser seu amigo — ele diz amavelmente.
— E mais o quê? — ela fala desconfiada.
— Mais o quê? — Malcolm pergunta sem entender.
— Homens nunca querem só amizade, no final, eles procuram por sexo.
— Você é a primeira que fala isso.
— Eu sou direta — ela diz. — Não tem por quê enrolar, se no final é o que você quer.
— Bem — Malcolm disse, pondo as mãos nos bolsos. — Eu só quero a sua amizade. Você me lembra alguém.
Annabeth se surpreende, mas nada comenta.
— Tchau, Malcolm.
Ela vira a esquina escura, onde alguns carros estavam parados, e segue andando em frente. Seus saltos batiam no chão, produzindo um barulho já conhecido.
Los Angeles, West LA (Residência de Ares Harvenshaw)
Eram 23:22h quando Annabeth entrou pela porta da frente de sua casa. Lucy já devia estar dormindo, então ninguém veio recebê-la no hall de entrada. Ela subiu as escadas, escutando as batidas abafadas das pancadas no saco de areia na academia. Ares devia estar descontando sua raiva no saco, como muitas outras vezes.
Annie deixou a bolsa no quarto, e tirou seus sapatos. Andando descalça e lentamente, ela caminhou pela casa até a academia. Ela apreciou os quadros e os móveis no caminho.
A porta da academia era a última do corredor. Era azul céu e conseguia isolar muito bem o som alto dentro do cômodo. Assim que abriu a porta, uma lufada de ar a atingiu, assim como a música alta e o som abafado dos socos de seu tio.
Era algo típico de Ares. Ele não conseguia relaxar, simplesmente não era de seu feitio. Annabeth tratou logo de desligar o som, que tocava algo dos Ramones. Ares para de bater no saco e a olha com raiva. Se fosse qualquer outra pessoa, ela não sairia viva dali, mas Annabeth era um caso diferente.
— Você demorou — a raiva tinha sumido, mas seus olhos ainda tinham uma expressão feroz que por vezes, lembrava-a a de um javali.
— Estava sem carro — respondeu.
— Podia ter ligado para Dean, é por isso que eu o pago.
Annie deu de ombros, sem expressão alguma.
— É bom andar pela cidade às vezes.
— Eu estou a ponto de atirar em alguém e você age como se a vida estivesse ganha — Ares diz acidamente.
— Desculpe — a loira fala. — O que queria comigo?
— Como está com a decodificação dos arquivos de Wayne?
— Mal — ela respondeu meio em duvida. — É mais difícil do que o esperado.
— Como assim?
— O hard drive tem uma cópia de todos os arquivos de Wayne, de dois meses atrás. Além de arquivos, tem cópias de e-mails de todos os servidores que estavam conectamos à internet no momento em que Harvey fez a cópia. O problema é o algoritmo que protege os arquivos.
"É extremamente complexo, e ele tem um mecanismo de defesa impressionante. Toda vez que alguém consegue acessar os dados, ele manda um alerta para a fonte informando a localização do invasor."
— Ele é difícil, já entendi… — Ares responde mau humorado.
— Imagine um labirinto — Annabeth diz gesticulando com as mãos. — No primeiro dia você provavelmente vai acabar em um beco sem saída. Mas no segundo, você tenta de novo, por um caminho diferente. É isso o que acontece comigo! Toda vez que eu consigo decodificar algo, o sistema me empurra para o lado, no caso para um beco sem saída.
— E você fez isso por dois meses?
— É, quem escreveu aquilo é simplesmente um gênio — ela fala entusiasmada. Nunca na vida, Annabeth tinha se deparado com algo do tipo, e ela adorava desafios.
— E você não sabe quem é esse gênio — Ares murmura com uma mão sobre a testa. Muitas coisas rodavam sua mente e aquilo já estava começando a dar dor de cabeça.
— Se era tudo… — Annie diz. — Eu estou indo, tio.
— Espere — ele a chama. — Me responda com sinceridade. Onde você esteve todas essas noites?
— Nas antigas docas, acontecem corridas lá quase todas as noites — ela falou timidamente.
— Está chamando atenção?
— Não.
— Ótimo. O que você faz lá?
— Eu vejo as corridas e ganho alguns trocados com apostadores, apostas baixas e não muito recorrentes — mas aquilo não era a verdade.
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