Café, Ciúmes e os Acasos do Amor
13 O que você aprontou, Damien?
Notas iniciais
John passou maus bocados para dar um jeito na boca ferida. Depois de lavar e colocar o remédio, ele foi tomar banho e ficou um bom tempo embaixo do chuveiro, com as mãos apoiadas nos azulejos enquanto o jato de água fria caía sobre a sua cabeça.
O que Sam havia dito para o idiota desocupado continuava se repetindo, se repetindo e se repetindo em sua mente. John estava com ódio de Sam, com ódio de Damien e principalmente com ódio de si mesmo por não conseguir parar de sentir ciúme e de desejar que fosse ele a ouvir aquelas palavras.
Sam era a personificação completa de tudo o que sua família sempre o ensinou a desprezar. Não era como um homem deveria agir. Um homem devia ser sério, centrado e, acima de tudo, um homem devia casar com uma mulher de bem e ter uma família com vários filhos.
E, mesmo assim, John não conseguia parar de pensar naquele loiro. Não conseguia parar de desejá-lo.
Ele suspirou enquanto fechava o chuveiro.
Seu casamento havia sido um desastre. Só por isso seu pai, se ainda estivesse vivo, o chamaria de fracassado. Como poderia se permitir ir mais fundo naquele poço e se deixar envolver com Sam?
Abriu um sorriso amargo. Bem, ele não tinha mais que se preocupar com isso. Sam amava Damien, Damien amava Sam. Os dois ficariam juntos.
Quando saiu do banheiro, John deu de cara com Davi sentado em sua cama.
– O que houve, Davi? – Ele perguntou em um tom neutro na tentativa de não descontar no menino as suas frustrações.
– Eu... Eu... – Davi olhava para todos os lados, menos para o pai.
– Vamos. – John se aproximou e pegou o filho no colo. – Vou colocá-lo na cama.
Davi não se opôs e encostou a cabeça no ombro do pai enquanto era levado até o próprio quarto.
– Você realmente me deu um susto muito grande hoje. Nunca mais faça algo parecido. – John falou enquanto ajeitava o menino na cama e o cobria com o edredom.
– Não vou. – Davi murmurou. – Eu ainda posso ser amigo do Sam, não posso? – Perguntou ansioso.
– Pode. – Respondeu, ainda que demonstrando um pouco de contrariedade. – Você sabe que eu não costumo voltar atrás no que falo.
– É que você brigou com ele de novo e aí eu pensei...
– Você pode ser amigo dele. Só evite convidá-lo para vir aqui. Nós não nos damos bem, você sabe.
– Por quê?
– Por que o quê?
– Por que vocês não se dão bem?
– Coisas de adultos. – John encolheu os ombros.
– Eu queria que vocês se dessem bem. – Davi sussurrou e até então ele estivera mantendo os olhos afastados, porém os fixou nos do pai, encheu o peito de ar e soltou: – Eu queria que você namorasse o Sam.
John engasgou com o ar e ficou olhando embasbacado para o filho. De onde Davi havia tirado coragem para dizer aquilo? Ele sempre havia sido tímido demais para falar suas vontades. Para ele externar aquilo, era porque deveria querer muito que tal fato acontecesse.
– É que o Sam entende quando eu falo com ele. – Davi explicou. – Eu gosto de falar com você e com o Teo, mas não é a mesma coisa. Eu não te amo menos por isso, papai. Não te amo menos por amar o Sam também. – Apressou-se em dizer.
“Céus. Crianças. Sempre tão sinceras!” John pensou enquanto levava uma das mãos à testa.
– Vou dormir. Boa noite, papai! – Davi disse em um tom animado. O menino presumiu que o silêncio do pai era um bom sinal e que ele iria pensar no assunto.
John se inclinou e deu um beijo no topo da cabeça do filho.
– Boa noite, filhote. – Disse antes de desligar a luz e voltar para o próprio quarto.
John precisava dormir. Apagar completamente. Caso contrário começaria outra vez a pensar bobagens envolvendo um loiro que amava outro homem.
XxxX
Era meio da semana, final de tarde. Sam havia pedido para sair um pouquinho mais cedo, pois receberia visita de uma tia e a mãe havia pedido a ele para ajudar a preparar o jantar. Sozinho, Taylor se despediu da última paciente da tarde. Haviam sido apenas três durante toda a tarde, quatro pela manhã. Ao que parecia, finalmente a demanda acumulada pelos meses sem nenhum médico começava a diminuir um pouco, entrando num ritmo mais tranquilo.
Mas havia uma coisa que Taylor não aguentava mais: o barulho da reforma no andar de cima. Os empregados começavam a descer as escadas, também finalizando seu horário de trabalho.
– Tudo certo por hoje, doutor. Até amanhã! – Disse Brian, um dos empreiteiros.
– Brian! – Taylor se aproximou do rapaz. – Qual a previsão para o fim da reforma? Já era para vocês terem terminado tudo há uma semana pelo que você tinha dito após o problema na encanação... – O lembrou, querendo sutilmente colocar uma pressão no trabalho.
Brian coçou os cabelos castanhos curtos com um ar estranhamente culpado, o que deixou Taylor desconfiado.
– Ah, doutor, sabe como que é obra. Sempre acaba acontecendo uma coisinha ou outra inesperada e acaba atrasando. – Ele lamentou, soltando uma risadinha.
Taylor ergueu uma sobrancelha, mas também não queria ficar brigando com os rapazes. Os outros dois haviam praticamente fugido da clínica quando chamou pelo nome de Brian.
– E quando vocês terminam, Brian? Atrapalha as consultas todo esse barulho. Sei que é parte de toda obra, mas se vocês puderem acelerar um pouquinho... – Pediu, mantendo o tom cordial.
Brian pensou nas notas gordas que o ruivo louco havia dado para ele e os outros dois obreiros para que, além de estragarem a encanação, ainda trabalhassem em um ritmo mais lento.
– Pode deixar, doutor. – Mentiu e, nervoso, também escapou rapidinho de perto do médico, antes que ele fizesse outras perguntas difíceis.
Taylor suspirou cansado quando ele saiu e acabou se jogando num dos sofás da sala de espera da clínica. Tudo que queria agora era ir para casa, estudar um pouquinho sobre o que a terceira paciente do dia, Sra. Rodrigues, poderia realmente ter (provavelmente era alguma doença mais rara, porém não grave), brincar um pouco com Fubá e depois ir dormir. Mas ele ainda precisava trocar alguns móveis de lugar.
Taylor era preciosista com seu lugar de trabalho e a forma como os móveis estavam em seu consultório estava lhe incomodando. A maca deveria ficar mais próxima da janela, para que a luz natural do dia o ajudasse a analisar com maior cuidado a pele dos pacientes; a mesa também tinha de ser reposicionada, logo o armário com os materiais também teria que mudar de lugar.
Arrependendo-se de não ter pedido ajuda aos rapazes da reforma antes que eles fugissem, Taylor voltou ao escritório, retirando o jaleco. Ele começou pela mesa e a maca, ok. Mas na hora do armário, havia tanta coisa ali que, mesmo que ele quisesse apenas movê-lo alguns centímetros para a direita, seus pés escorregaram pelo chão e o móvel mostrou que, de móvel, ele não tinha era nada.
Damien estava passando perto do prédio da clínica antes de ir para academia e resolveu dar uma entrada para verificar como estava indo a obra. Talvez ele devesse dar mais algumas notas para que os caras quebrassem alguma outra coisa e atrasassem ainda mais a reforma. Um deles já havia dito que Taylor andava demonstrando impaciência e perguntando quando receberia o apartamento.
Ao entrar, ouviu um barulho vindo do consultório. Procurou por Sam, mas o loiro não estava em lugar algum e também não havia mais nenhum paciente esperando. Damien resolveu arriscar e abrir devagarzinho a porta do consultório, e não conseguiu conter uma risada ao ver que Taylor estava tentando, sem nenhum sucesso, mover um armário do lugar.
– Você realmente não tem um músculo nesse corpo. – Zombou.
Taylor pulou de susto com a chegada silenciosa do ruivo. Ele olhou brabo para Damien.
– Quero ver você mover isso sozinho, Sr. Eu malho todo dia e tenho mais músculos que você! – Desafiou, sentindo-se bastante infantil por conta disso. Mas ele não era assim tão fracote, nem tão magrelo! Pelo contrário, ele tinha um corpo bem-desenhado e seus músculos eram proporcionais à sua altura. Tudo bem que Damien era duas vezes seu tamanho, mas...
Damien ergueu as sobrancelhas com a provocação.
– Você falou num tom igualzinho ao da Charlie agora. Deve ser por isso que se dão tão bem e me convenceram a ficar com aquela bola de pelo que vocês chamam de cachorro. – Damien retrucou enquanto caminhava até o armário. – Onde é que você quer que eu coloque isso? – Taylor apontou e o ruivo empurrou o móvel com bastante facilidade, levando-o para onde Taylor indicara. – Viu? Sem suar. – Damien esticou os braços para baixo, comprimindo-os para que seus músculos ficassem ainda mais marcados.
– Exibido. – Taylor resmungou, desviando o olhar dos músculos fortes dele. Aqueles braços eram chamativos, o médico já havia percebido isso em seu primeiro dia em Canmore. Pensando nisso, Taylor ergueu o queixo, com uma ideia em mente. – Vou para a academia com você hoje!
– Será que você dá conta? – Damien riu ao imaginar o médico fraquinho tentando levantar os pesos. – Acho que vai desistir na primeira semana.
Taylor deu um soco no estômago do ruivo que o fez se curvar ao meio, sentindo quase todo o ar escapando de seus pulmões.
– Não fale como se eu fosse um fracote, ruivo idiota. – Reclamou e saiu do consultório. Agora sim que ele iria malhar até alcançar os pesos do ruivo! Até certo ponto da faculdade havia feito musculação, assim como corrida e, inclusive, um curso de mágica. Ok, não que um curso de mágica desse músculos a alguém. A questão é que até aí ele tivera tempo para essas coisas, mas chegara um determinado ponto que sua vida convergira apenas para o trabalho, manhã, tarde e noite, não havia tempo para mais nada.
Três anos... Três anos que não focava em nada além do trabalho. Nem mesmo alguma relação, namoro, sexo... Taylor tomou um choque ao perceber que faziam três anos que ele não transava com ninguém! Desde o término de seu último namoro... Seu ex-namorado começou a reclamar de falta de tempo e o chutou. Taylor realmente gostava dele e aquilo o magoou muito. Ele teve medo de se relacionar com alguém de novo enquanto não tinha tempo nem para comer direito.
“É por isso que não consigo parar de reparar nos bíceps do Damien.” Pensou, chegando à conclusão que a musculação o ajudaria a diminuir o estresse, além de que, exercícios físicos faziam um bem enorme à saúde. Agora que tinha mais tempo, precisava aproveitar.
– Ok, se você faz tanta questão... Vamos para academia. Vou te acompanhar até em casa para você trocar de roupa. – Damien disse enquanto ia atrás do médico massageando a barriga emburrado pelo soco. – E o Sam? Já foi?
– Sim, já foi. Você deveria saber, já que vocês... Você sabe. – Taylor deu de ombros, escondendo bem o desconforto que sentiu com a pergunta. Ele esfregou o rosto, repreendendo-se novamente. – Você não precisa me acompanhar até me casa.
– Não, eu não sei. Eu e o Sam o quê? – Damien o segurou pelo braço e o encarou com ar de dúvida.
Taylor arregalou os olhos. Céus, ele não deveria saber daquilo! Provavelmente os dois estavam em meio a um romance escondido, John havia flagrado alguma coisa e, homofóbico como era, falara alguma merda! Sam e Damien deviam até ter brigado pela crise de sonambulismo de Damien, que o levou até sua cama! Taylor se sentiu uma pedra no sapato dos dois. Sam também não deveria gostar dele morando com Damien depois daquilo... Devia apressar os rapazes da reforma um pouquinho mais a partir de amanhã.
– N-Nada. – Forçou um sorriso. – São amigos... Amigos bem próximos. Achei que soubesse da visita que uma tia do Sam fará para ele e a mãe hoje. – Desconversou, fingindo ignorância.
Damien estreitou os olhos não se sentindo lá muito convencido, mas deixou passar por hora. Desde aquele dia em que o ruivo e John quase derrubaram a cozinha do restaurante, Taylor andava estranho.
“Vou perguntar ao Sam se ele também notou isso”, pensou.
– Não. Eu não falo com Sam desde aquele dia no restaurante. – Informou em um despreocupado. – E vou com você até em casa sim e depois vamos juntos pra academia. Você acha que eu vou perder um segundo sequer do seu maravilhoso primeiro dia? – Damien cantarolou bem humorado.
Taylor suspirou aliviado, mas depois torceu os lábios.
– Em algum momento da nossa convivência eu parei de te achar irritante, mas hoje estou com esse sentimento de novo, sabe, de querer esfregar a sua cara na calçada. – Admitiu mal-humorado. É, seu humor não estava dos mais brilhantes nos últimos dias. E não, ele não queria pensar no porquê disso.
– Pra fazer isso você vai ter que malhar, malhar, malhar e muito. Viu o que eu fiz com o John. – Damien estufou o peito todo convencido. – E vamos que está ficando tarde. Academia lotada é o inferno. – Sem perceber, segurou-o pela mão e começou a puxá-lo para fora do prédio. Ao perceber o que fazia, Damien soltou a mão do médico e o encarou sem jeito.
Taylor olhou para a própria mão, depois para o ruivo.
– Não me toque assim. – Falou seco, enquanto sentia a mão formigar. “Não quando já está com outra pessoa” pensou de maneira amarga. – Por favor. – Completou para não parecer tão mal-educado, mas passou por Damien e caminhou rapidamente para a casa-mansão do ruivo, que ficava bem próxima.
Damien sentiu como se vários cubos de gelo tivessem sido atirados no seu estômago. Ele ficou parado, sem reação, observando o médico descer a rua. Taylor nunca havia o rechaçado de tal forma antes e doeu muito ouvi-lo falar naquele tom enquanto o olhava com aquela expressão de... Raiva? Nojo? Damien não conseguia identificar. Talvez fosse por isso que ele estava apressando os caras da obra para sair da sua casa o mais rápido possível: Taylor queria distância. Será que ele havia percebido o interesse do ruivo? Ou estava apenas incomodado com a forma com a qual Damien ficava inventando desculpas para tocá-lo? O engraçado era que esse toque que causou a irritação do médico havia sido totalmente inocente.
Mais confuso do que nunca, Damien começou finalmente a andar e seguiu Taylor, à distância, até a sua casa. Quando chegaram, Fubá ficou dando pulos em volta do médico e Damien foi pegar o cachorro porque se Taylor começasse a brincar com aquela bola de pelo iria esquecer completamente do treino.
Eles foram para a academia em silêncio. E isso estava deixando Damien malucou. O ruivo pegou o celular e, mesmo sabendo que Sam deveria estar ocupado, enviou uma mensagem para ele dizendo: “Taylor andou estranho essa semana?”.
– Vem. Vou te apresentar ao gerente. Ele vai te dar um desconto já que sou eu quem está te trazendo aqui. – Damien falou mantendo o tom mais impessoal possível, enquanto se mantinha longe do médico.
Taylor notou a mudança de tratamento. Isso o deixou com uma vontade devastadora de puxar o ruivo e pedir desculpas. Aquele ar impessoal, em comparação ao jeito brincalhão e descontraído de antes... Céus, era possível sentir falta de alguma coisa ao perdê-la há menos de alguns minutos? Taylor suspirou. Aquilo era para melhor, tinha de ser. Continuaria vivendo com Damien até a reforma terminar, mas sem estar metido entre o ruivo e Sam.
– Ok. – Taylor assentiu e o acompanhou. “Mas não quero perder sua amizade”, pensou olhando para as costas de Damien e mordendo o lábio inferior com força.
Damien o apresentou ao gerente e se afastou, indo realizar o próprio treino. Taylor, por ser amigo do ruivo, não precisaria pagar a taxa de matrícula da academia e teria direito a um mês de graça, se realmente assinasse contrato! Ele ficou surpreendido. Damien e o gerente deviam ser bons amigos. Depois disso, o gerente o entregou nas mãos de um dos instrutores.
A academia era de médio porte e bem organizada. Taylor gostou do ambiente.
– Prazer, sou Milles. Seu primeiro dia? – Perguntou o rapaz de uns trinta e poucos anos e cabelos pretos presos em uma fitinha, estendendo-lhe a mão.
Simpático por natureza, Taylor sorriu, aceitando o aperto.
– Primeiro dia sim. Sou Taylor.
– O médico! Claro! Minha mãe consultou com você! A Karen Harsten! Ela falou muito bem de você. – Milles deu um tapa no ombro de Taylor que quase o desmontou por pegá-lo desprevenido. Taylor riu, contente em ouvir aquilo.
– Eu lembro. Um doce de senhora. – Disse.
Damien, pelo canto do olho, viu Taylor todo sorridente pra cima do instrutor e fechou ainda mais a cara enquanto colocava mais dez quilos em cada lado da barra totalizando em um peso de 90 quilos. Ele não estava irritado. Não. Não mesmo. Estava FURIOSO! Taylor o tratava daquele jeito por causa de um toquezinho de nada na mão e agora ficava todo se querendo pra um cara que ele nem conhecia!
Com raiva, ele começou o movimento de subir e descer a barra. Precisava extravasar aquele sentimento antes que fosse até lá acertar um soco em Milles. O pobre rapaz só estava fazendo seu trabalho! Taylor era quem não deveria ficar todo derretido.
Enquanto fazia o movimento, Damien sentiu o celular vibrar no bolso. Terminou a série e pegou o celular para checar o que era.
"Sim, ele parecia me evitar um pouco. Fugia do assunto quando eu queria falar sobre vocês dois! Isso me deixou pu-to!", dizia a mensagem de Sam.
O ruivo começou a mastigar o lábio inferior.
“Eu não sei o que diabos aconteceu com ele. Tô tão fulo que você nem imagina. Estamos na academia e ele está todo sorrisos pra o idiota do instrutor sendo que, quando estávamos vindo para cá, eu inocentemente peguei na mão dele e ele foi frio comigo e disse para eu não tocá-lo mais daquele jeito! Eu não estou entendendo mais nada!”, enviou a resposta.
– Damien, gatinho, nada de celular durante o treino! – Dominika, uma das instrutoras, o repreendeu. – Será que vou ter que fazer que nem como se você fosse um menino do primário e tomá-lo de você?
– Ajuda a passar o tempo, Dom. – Damien respondeu e levou um tapa no braço como resposta.
– Se comporte! – Dominika falou, mas estava rindo da cara de abandono que ele fazia para que ela não tomasse o celular dele.
Taylor começou a fazer os aparelhos que o instrutor lhe indicava após alguns minutos de aquecimento e alongamento. Milles os fazia primeiro, para demonstrar, e depois lhe dava as orientações. O cara era um pouco biruta, pois não lhe poupou muito nos pesos. Apesar de, claro, ao ver Damien fazendo o supino com 90 Kg, Taylor percebeu que estivera muito iludido em sonhar que algum dia alcançaria os pesos dele. Nos seus melhores dias, anos atrás, havia conseguido colocar no máximo 60 Kg.
Ao ver uma morena linda e peituda flertando com Damien, Taylor fechou a cara. Não por ele, mas por Sam. Sam não gostaria nadinha de ver aquilo. Não mesmo. Taylor tentou ignorar completamente a presença de Damien na academia e se concentrou em Milles e em seu treino. Aproveitando, começou a puxar papo com o instrutor para tornar o tempo mais agradável.
– Vou fazer um treino de um mês para você se acostumar. É um treino base. Depois disso, vou aumentar o número de exercícios. Cada dia, um treino diferente. Três na semana. Se puder vir mais vezes na semana melhor, pois aí repetirá um dos treinos. – Milles falava empolgado. Parecia gostar muito daquilo em que trabalhava.
– Você está tentando me matar. – Taylor reclamou em meio a um dos exercícios para o bíceps. Milles riu e apertou o bíceps do médico.
– Você tem um braço fortinho ao natural. Não pode vir com drama. Já estou facilitando nesse treino inicial. – Milles falou sem qualquer consideração.
Damien estava de frente para um dos espelhos com os halteres de 30 kg treinando o tríceps quando viu, pelo reflexo, Milles apertando o bíceps de Taylor. O choque e a raiva (ok, Damien admitia, era CIÚMES com letras garrafais mesmo) foram tão grandes que ele deixou um dos halteres cair e por pouco não foi bem em cima do seu pé. Foi um barulhão daqueles e todos pararam de treinar para ver o que havia acontecido. O ruivo xingou baixinho enquanto erguia a mão em um sinal de “Foi mal. Voltem para as suas vidas!”.
Só pra completar o conjunto, Sam resolveu responder a mensagem naquele momento: "Como assim?! O que você aprontou para ele te tratar assim, Damien?!".
O ruivo grunhiu baixinho. O que ele tinha feito? Como assim o que ele tinha feito? Ele deu casa, comida, cama e um cachorro para aquele médico mal agradecido que estava se derretendo todo para o instrutor depois de ter surtado por causa de um toque inocente! Foi isso que ele fez. O ruivo resolveu ignorar a mensagem de Sam e responder depois.
Respirando fundo, Damien tentou se acalmar. Naquela merda de confusão toda, ele só tinha certeza de uma coisa: não deixaria Taylor vir sozinho para a academia. Era um lugar muito perigoso.
– Você não parece muito bem hoje, gatinho. – Dominika disse parando ao lado dele, tocando-lhe o ombro. – Não é melhor fazer só esteira?
– Estou bem, Dom. Não vou derrubar mais nada. – Damien garantiu.
Ele voltou a olhar pelo espelho e viu que Milles havia deixado Taylor sozinho em um aparelho para atender outra pessoa e o médico estava fazendo o exercício errado. Dando um sorriso de canto de boca, Damien largou os halteres e foi até lá. Chegou por trás e corrigiu a postura de Taylor.
– É assim que segura. – Sussurrou. – Precisa manter os braços bem juntos do corpo. – Segurou os cotovelos de Taylor contra o torso dele. Chegou assim de propósito, pois sabia que no meio da academia lotada ele não iria mandá-lo se afastar. Pelo menos não daquele jeito que mandou mais cedo. – Mova os antebraços. Puxa rápido e sobe até em cima devagar...
Taylor sentiu um arrepio na nuca e um frio na boca do estômago tão fortes que chegou a se atrapalhar com o movimento, ofegando baixinho, mas rapidamente se recuperou, mesmo continuando completamente e dolorosamente consciente da proximidade do ruivo. Sua vontade foi de xingá-lo, mas se controlou.
– Obrigado. – Taylor disse, mas com certa hostilidade. – Você pode voltar a flertar com a morena peituda agora.
Damien abriu e fechou a boca diversas vezes sem conseguir formular uma resposta de imediato.
– Pensei que você estivesse tão ocupado sorrindo para o Milles que não estivesse prestando atenção com quem eu flerto ou deixo de flertar. – O ruivo respondeu irritado.
– Não é que eu esteja prestando atenção. Só é difícil ignorar quando você e ela nem tentam esconder. – Taylor falou, se sentindo outra pessoa. Caramba, nunca havia destilado veneno dessa maneira. O que estava acontecendo? Musculação não estava ajudando, só piorando. Ele terminou o exercício e se afastou, procurando por Milles. Seu treino não era muito longo, deviam faltar apenas uns dois aparelhos agora.
O queixo de Damien caiu. Onde diabos estava o Taylor que ele abrigou por todo aquele tempo? Com um suspiro, ele pegou o celular e digitou a resposta para a mensagem de Sam: “Eu não fiz nada. Taylor que ficou louco de uma hora para outra e está me enlouquecendo no processo”. Enviou e voltou para o seu treino. Era melhor não insistir mais em tentar uma aproximação do médico naquele momento. Mas Damien sentia falta... Sentia falta do sorriso dele e da forma como eles conversavam e implicavam um com o outro. Era estranho como haviam feito isso quando ele chegou mais cedo na clínica e que agora parecesse que acontecera há décadas. Pouco depois Sam respondeu: “Irei averiguar amanhã. Agora preciso lidar com minha tia tagarela.” Damien pensou que, se Sam estava chamando a mulher de tagarela, ela devia ser um inferno.
O ruivo ainda treinava quando Taylor terminou. Hesitante, o médico se aproximou e tocou de leve o braço dele, apenas para chamar-lhe atenção.
– Eu vou indo. Chego e tomo banho antes... Fubá deve estar triste sozinho também. – Falou meio sem jeito por toda a cena de antes. Após alongar, alguma serotonina deveria enfim ter atingindo seu sistema e o relaxado um pouco. – Já encomendei comida com o Carl, então não precisa passar lá, se não quiser.
– Ok. – Damien disse sem parar de fazer seu exercício e fingindo que o toque não o havia perturbado. O ruivo não entendia como as coisas podiam estar tão bem em um momento e do nada virar uma grande porcaria. Àquela altura, Damien só estava pedindo para que o dia terminasse de uma vez.
Com um suspiro baixo, Taylor deu as costas ao ruivo e deixou a academia, despedindo-se no caminho de Milles e do gerente. Quando chegou em casa, sentindo-se podre de cansado, alimentou Fubá, comeu alguma coisa da encomenda enquanto assistia um episódio de seu seriado favorito e foi tomar banho.
Depois caiu na cama e dormiu tão mal quanto vinha dormindo nas últimas noites.
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