Cafés e Gatos
12 Capítulo 12
Sua cabeça ficou oscilando entre pensamentos relacionados a estranheza e o fascínio pelo novo. De um lado, a maneira como Edgar parecia querer fugir da presença de Ricardo lhe causou curiosidade. Os dois eram amigos, se conheciam há anos. Mesmo sendo apenas a segunda vez vendo os dois juntos, não imaginaria que ele estaria agindo como um fugitivo da polícia diante da presença policial. “Mas não é da minha conta”, decidiu antes de abrir a boca e perguntar se havia algo errado. Do outro lado, uma feira medieval. O que poderia ser? Parecia algo interessante e fascinante! Nunca tinha ouvido falar de nada parecido antes. Esses momentos o faziam perceber como seu mundo era pequeno. Por isso aceitou sem questionar ou pensar duas vezes.
Foi com grande ansiedade que esperou os dias passarem até o final de semana chegar. Depois de procurar um pouco sobre o evento, a animação cresceu ainda mais para conseguir vê-lo pessoalmente. Parecia divertido, ou, no mínimo, interessante.
Na segunda, Edgar lhe avisou que não poderia correr nos dias daquela semana. Inicialmente, Theo imaginou que estava ganhando uma folga para ficar deitado em sua cama até mais tarde e descansar, porém percebeu que não seria assim quando acordou no dia seguinte. Havia se acostumado a dormir cedo e acordar de madrugada, mas sentia-se inquieto deitado na cama. As horas pareciam demorar uma eternidade para passar e o sono estava longe demais para retornar. Decidiu então levantar e correr pelas ruas próximas. Podia não ser tão agradável como na lagoa, mas o clima estava agradável e até conheceu um pouco mais do bairro de sua avó.
Mais tarde, foi até a livraria móvel de Felipe conseguir mais um livro. Seu muito tempo livre e sem internet lhe permitia até mesmo terminar dois livros por semana! Não pretendia ficar muito mais tempo na casa da avó, mas ainda precisava de uma fonte de entretenimento até isso acontecer.
— Ah, cara, soube que você também vai à feira com a gente — disse Felipe, lhe entregando um caixote com livros de fantasia. — Esse tipo de coisa é sempre melhor com os amigos. Então… Por que não convida aquela sua amiga também?
— A Bia? Não sei se é o tipo de coisa que ela gostaria, mas posso chamar sim.
— Perfeito! Quer dizer, show. Legal… Vai ser legal.
Chegando em casa, mandou mensagem para Bia. Depois de receber uma dúzia de figurinhas de reações, onde a maioria eram de animais ou personagens encarando, ela disse que iria. “Achei que estava inventado”, comentou depois.
Os dias seguintes foram igualmente tranquilos. Não houve muito o que lidar. Fez um bolo de laranja para os amigos de sua avó, uma outra faxina no lugar, leu bastante, seu irmão entrou em contato apenas para pedir dinheiro emprestado e comentar que a mãe reclamava por ele não voltar para casa.
Quando chegou o sábado, estava desejando que o relógio avançasse mais rápido. O evento começava cedo, mas precisavam esperar Nathália ficar livre da responsabilidade de olhar o sobrinho.
Parecia que sua pequena obsessão por limpeza surgia naqueles momentos, quando estava inquieto. Andava pela casa, olhando e procurando pequenas coisas que poderia arrumar ou limpar, mas tudo parecia impecável. Cogitou até mesmo dar banho nos gatos, mas os dois pareciam ter lido seu pensamento e o olhavam como se estivessem prestes a cometer um assassinato. Ao chegar à cozinha para beber água, encontrou sua avó sentada com alguns papéis e uma calculadora, anotando os resultados em um caderno.
— Tudo bem, vó? — perguntou Theo.
— Sim, querido — respondeu Lua, exibindo seu sorriso habitual. — Estou apenas organizando algumas pequenas coisas… Ando recebendo ofertas de pessoas interessadas em comprar a loja, ou mesmo o terreno inteiro.
— Jura? — o garoto pegou o copo e se sentou de frente para a avó.
— Sim, mas eu não tenho essa vontade. Até poderia alugar, como fazia antes, porém… Não acho que seria a melhor das ideias, entende?
Talvez ele não entendesse. O único motivo que conseguia imaginar estava relacionado a ter o espaço para se reunir com os amigos. Theo estava morando ali há pouco mais de um mês e conseguia ver como Lua gostava daquilo. Todos eles, na verdade. Seus parentes estavam trabalhando ou haviam se mudado para longe, estavam sozinhos sem a companhia uns dos outros. Assim como sua avó esteve sozinha naquela casa há tanto tempo desde que sua filha se mudara. “E eu também deixei de visita-la”, pensou apertando o punho.
— De qualquer forma, estava cogitando a possibilidade de reabrir o negócio para não o deixar abandonado como está, mas ainda não sei o que poderia fazer. É um pouco difícil chamar atenção nos dias de hoje.
— Eu… Eu posso tentar ajudar — Theo ouviu-se dizer e sentiu o rosto ficar vermelho. — Ter uma ideia, quero dizer.
— Seria ótimo, querido — Lua esticou o braço e tocou em sua mão. Ela sorria, encorajadora e gentil. Assim como sempre fora. Assim como sempre fazia nos momentos em que o Theo criança dava uma ideia idiota. Mas nunca era idiota para ela, mesmo quando deu a ideia de fazer um bolo de sorvete e ele derreteu, sujando tudo. Ele ficou frustrado, mas a avó se divertiu com a situação. Ela riu e isso o permitiu fazer o mesmo.
— Certo! Eu vou tentar pensar em algo!
Teria começado a tentar procurar algo naquele momento, porém uma ligação o despertou da nova animação para lembrá-lo dos seus planos para o dia! Precisou se apressar para o banheiro e se arrumar antes que Ricardo chegasse para busca-lo! Infelizmente não podia dizer que tinha alguma roupa para a ocasião. Sua única camisa de série medieval havia ficado na casa dos pais, por isso optou por vestir seus jeans e uma camisa com dois donuts policiais. Imaginou ser a coisa mais “mágica” disponível e limpa no momento.
Ricardo estacionou em frente à casa e Beatriz colocou a cabeça para fora, gritando:
— Vamos, safada! Estamos indo para a terapia!
— Acho que eu deveria ter me vestido melhor para ser internado — retrucou Theo, rindo enquanto entrava no veículo. — Pelo visto, está bastante animada.
— Pelo hálito, eu diria que duas taças de vinho foram o suficiente para fazer esse trabalho — disse Nathália, sentada no banco da frente.
— Meu lado nerd diria que foi uma poção mágica, mas me disseram que iriam me agredir se eu começasse a dizer coisas desse tipo no aparato mecânico enfeitiçado… Quer dizer, carro — Ricardo olhou para a namorada pelo canto do olho, com um sorriso zombeteiro.
— Alguém quer ficar sem maquiagem na próxima feira nerd… — Nathália olhou para suas unhas, fingindo grande interesse.
— Eu sempre posso raspar a cabeça e desenhar uma seta azul pelo meu corpo. Quer mesmo lidar comigo careca por meses?
— Você? Careca? Se tocar um dedo nesse cabelo lindo, eu não apareço na sua frente até ele crescer de novo!
— Está apaixonada por mim ou pelo meu cabelo? — Ricardo a puxou para mais perto e começou a dar vários beijos pelo seu rosto. Ela tentou se desvencilhar, mas perdeu a luta e começou a rir.
— Tudo bem, tudo bem! Sua mágica e automóvel enfeitiçado, ou seja lá o que for, ganharam por hoje!
— Certo! — sorrindo, ele se virou para os dois passageiros no banco de trás. — Senhoras e senhores, sejam bem-vindos ao meu querido e poderoso dragão de metal! Apertem os cintos e obrigado pela preferência!
O caminho foi bastante tranquilo, com Nathália colocando músicas populares e que todos sabiam cantar. Beatriz e ela pareciam as protagonistas do show, pois faziam uma grande performance em seus assentos. “Como se a vida delas dependesse disso”, pensou Theo rindo enquanto as duas balançavam a cabeça e jogavam o cabelo para todos os lados.
— Cuidado, amor. Sua peruca vai cair — brincou Ricardo, levando um tapa no ombro.
“É divertido”, pensou Theo. Havia conhecido os dois individualmente e os viu juntos rapidamente no Starbucks. Era a primeira vez vendo a dinâmica dos dois como um casal e pareciam bastante… Normais. Os dois se divertiam como podiam, com suas brincadeiras e piadas internas. Isso deixava o ambiente mais leve, vibrante.
Conhecia Nathália há mais tempo, devido aos anos estudando juntos. Pertencer ao grupo de Bia lhe levava a fazer parte dos mais variados grupos, e muitas vezes ele apenas ficava quieto observando as pessoas. Nunca teve uma grande opinião sobre a garota por conta disso. Não eram amigos, apenas estavam presentes no mesmo grupo e sabiam da existência um do outro. E, diferente de outras pessoas, Nathália nunca o incomodou ou fez brincadeiras de mal gosto com ele. Vendo-a agora, se perguntava se poderiam ter sido amigos se ele tivesse tentado.
***
Não foi muito fácil achar um lugar para estacionar. Era possível ver ao longe várias pessoas indo de um lado a outro, usando roupas bastante incomuns. Também podia-se ver algumas tendas montadas, provavelmente por conta do sol. O evento acontecia em uma grande área aberta, concentrado principalmente nas áreas de grama.
— Certo! Acho que você vai gostar bastante — disse Ricardo, tocando em suas costas quando desembarcaram. — Como é sua primeira feira, preparei algo para te colocar no clima! Nathália?
— Desse jeito, vou acabar virando uma especialista no assunto — a garota puxou um estojo de maquiagem e um par de orelhas pontuda. Sem saber o que fazer, Theo tirou os óculos e ficou imóvel enquanto ela ia para à sua frente e começava a prender as orelhas de elfo. — Tenho um par extra pra você, Bia.
— Não! Não, não, não… Obrigada. Já acho minhas orelhas grandes demais sem isso — disse a garota balançando as mãos à frente do corpo. — Além do mais, sou uma humana barda e minha única preocupação é beber na taverna da cidade. Eu vim pelos drinks.
— E terá aos montes, minha cara barda. Fico feliz de tê-la em meu grupo — Ricardo voltou do porta-malas do carro, trazendo consigo uma espada, escudo e um embrulho que parecia conter roupas. — Eu vou indo na frente para alcançar os outros. Encontrem a gente na arena de combate quando terminarem aqui, tudo bem?
Ele sumiu da vista, mas Theo estava mais concentrado na estranheza de ser maquiado pela primeira vez. Imaginava que ficaria sentindo o pó que ela colocou em suas orelhas, ou nas batidas que deu em seu nariz, mas não. Podia-se dizer que era imperceptível, com exceção da vontade inicial de espirrar ao sentir o cheiro daquilo.
— Tudo bem… Acho que só falta uma coisa — Nathália voltou para dentro do carro e retornou para colocar um creme em seu cabelo. Theo não sabia se ela estava bagunçando seu cabelo ou arrumando, mas o cheiro era bom. — Certo! Precisa passar creme de pentear com mais frequência. Seu cabelo fica mais bonito e arrumado assim.
— O… Obrigado — sentindo seu rosto ficar vermelho, ele desviou os olhos para a tela do próprio celular. Usou a câmera para dar uma olhada melhor em seu rosto. Achou impressionante como as orelhas ficaram e engraçada a pequena vermelhidão e sardas feitas em suas bochechas. Colocou novamente os óculos e se virou para Bia. — E então? Como estou?
— Parecendo um elfo — respondeu a amiga, com um sorriso zombeteiro.
— Está pensando em elfos domésticos, não é?
— Eu? Você está colocando palavras na minha boca. Ou melhor, na minha mente.
Era surpreendente a quantidade de pessoas vestidas com roupas de estilo medieval ou que pareciam saídas de uma história de fantasia, com suas orelhas pontudas e armas de espuma. Tudo parecia um pouco inacreditável para ele, e igualmente incrível. Por um instante agradeceu pelas orelhas colocadas por Nathália. Estar vestido a caráter teria sido incrível, mas apenas aquela pequena caracterização lhe dava uma sensação de pertencimento.
Haviam várias barracas espalhadas pelo meio da feira e um pequeno mapa do local para ajudar os perdidos a se orientarem. Lojas, cartomantes, arena de batalhas, arquearia… Parecia haver de tudo um pouco. Seria difícil decidir o que ver primeiro! Sem dúvidas queria ver tudo o que podia!
— Ah! Uma cobra! — exclamou Beatriz, o usando como escudo para se proteger contra uma mulher. Ela estava conversando com um casal e tinha uma cobra enrolada em seu braço. Sorria e interagia normalmente, como se o animal não estivesse ali. — Que horrível! Como ela consegue?
— Parece bonitinha — comentou Nathália. — Querem chegar perto para olhar melhor?
— Não! Pelo amor de Deus! Ficou louca? E se ela picar alguém? Não estou aqui para ficar chupando veneno de ninguém!
— Se ela está segurando, não deve ser perigosa — disse Theo segurando a mão da amiga e a puxando, apesar da resistência. — O máximo que pode te acontecer é ser picada por uma cobra venenosa e morrer. Não deve ser tão ruim.
A amiga lhe deu dois tapas no ombro, mas seguiu com receio. Ficou distante o suficiente de Dengoso, a cobra. Ele não poderia deixar de concordar com a ideia de que o animal era apavorante, principalmente colocando sua língua para fora. Mas os pequenos olhos do animal lhe davam uma certa fofura incomum…
Os três continuaram seu caminho, passando por mais pessoas fantasiadas, até chegarem às barraquinhas. Algumas delas vendiam itens para presentes ou recordações. Podiam variar, como escudos e espadas, até bandeiras temáticas com algum símbolo da cultura pop. Theo ficou tentado a comprar um estandarte da Corvinal e uma caneca com um dragão de três cabeças. Nathália, por sua vez, acabou comprando uma caneca em formato de crânio. “Esses nerds adoram essas coisas. É sempre um bom presente de aniversário”, comentou enquanto enrolava bem a embalagem para esconder.
Beatriz, por sua vez, se interessou mais pela barraca ao lado. Ela vendia o que chamavam de “hidromel”. A moça que vendia lhe deu uma degustação e a garota ficou como uma boa sommelier bebericando e girando o líquido dentro do copo, como se apreciasse o sabor. Por fim, ela terminou virando todo o restante da bebida de uma só vez.
— Nossa! É melhor do que eu esperava — comentou com um sorriso de satisfação. — Podemos ficar aqui enchendo a cara?
— Compramos umas garrafas depois do combate. Melhor não ficar andando por aí totalmente bêbada — disse Nathália a puxando para longe da barraca. — Devem começar… Daqui a pouco.
— Todos eles irão participar? — perguntou Theo pegando sua amiga pelo outro braço. Ela fazia bico e resistência para andar.
— Geralmente o Felipe costuma ficar na competição de arco e flecha, enquanto os outros ficam no combate — respondeu os guiando até uma barraca que vendia cachorro-quente. — Só espero que não seja igual da última vez…
— Alguém acabou sem um olho? — questionou Beatriz ficando interessada nos acompanhamentos. Iam desde passas, até ervilhas e ovo de codorna.
— Que horror! Não! Vocês também vão querer? Okay, boa tarde! Vamos querer seis cachorros-quentes! O de vocês é completo? Tudo bem, um deles é sem passas! Obrigada… Onde eu estava? Ah! Digamos que o Ricardo tem um… “Arqui-inimigo”. Ele frequenta as feiras também e gosta de se colocar como rival durante esses combates. Agora imaginem esse homem fingindo ser um bruxo que está jogando uma bola de fogo… Durante um combate de espadas! Começaram um grande debate sobre se isso seria ou não permitido.
— Isso deve ter sido bem constrangedor — disse Theo, sorrindo.
— Perto disso! Ricardo ficou parado, olhando, enquanto o cara fazia sons de fogo com a boca. Ninguém esperava por aquilo.
Andando um pouco mais, chegaram até onde seria a arena. Estava mais para um campo aberto, apenas com um arquibancada montada para o público assistir. Várias pessoas já estavam ali, treinando com espadas e escudos de isopor. Os que mais chamavam atenção eram duas pessoas vestidas de gatos, mas achar os outros três que procuravam não foi uma tarefa difícil.
Felipe estava de braços cruzados, observando os amigos. Estava vestindo uma fantasia de arqueiro, com direito a arco e aljava. Edgar estava usando uma túnica verde-escuro e parecia estar ganhando o hábito de deixar as lentes de contato de lado e usar seus óculos com mais frequência. Ricardo agora usava uma túnica branca e vestia uma longa capa preta, que combinava com seu escudo com desenho de um dragão vermelho. Os dois se golpeavam ou se defendiam, focados.
— Ah, olha quem chegou! Nossos convidados vieram torcer — anunciou Felipe, olhando diretamente para Bia. Levou um tempo para notar que a encarava e desviar o olhar. — Olha só o nosso pequeno elfo! Está muito bonito.
— Está mesmo — disse Ricardo, indo se juntar a eles. Edgar pareceu revirar os olhos e o seguiu devagar. — Ficou ainda melhor do que eu imaginei!
— Espera aí… Eu conheço você de algum lugar… — Bia cerrou os olhos, observando o rosto familiar por trás dos óculos. Àquela altura, Theo havia normalizado a presença dele e esquecido de contar a amiga que ele estaria ali. — Tem algo diferente, mas me parece bastante familiar.
— Lá vamos nós de novo…
— Ele era o nosso chefe lá no café — sussurrou Theo, com um sorriso forçado.
— Não sabia que Theo e ele são amigos agora? — questionou Felipe.
— Não, eu não sabia — a garota encarou o amigo, erguendo as sobrancelhas, mas não obteve qualquer resposta. — Pelo visto, não ando sabendo de muitas coisas.
— Antes de entrarmos novamente em acusações, sinto muito por ter tirado seu emprego.
— Ho, ho, ho, mas é claro que sente muito. Até mesmo imagino que tenha dificuldades para dormir, não é? Faz muito tempo que tenho vontade de te dizer algumas coisas, mas agora…
— Vamos comer — interrompeu Nathália, se colocando entre eles. — Comprei alguns cachorros quentes para vocês! Sim, Felipe, são de linguiça. Não importa quanto tempo você ache que a salsicha demora para sair do seu corpo! Não vamos entrar nesse assunto novamente!
O grupo achou alguns lugares na sombra para sentar, deixando Bia e Edgar em extremidades opostas. Era visível os olhares raivosos lançados por ela em sua direção. Quando não o fazia, encarava seu melhor amigo com os braços cruzados e sobrancelhas erguidas, aguardando as desculpas que viriam. Isso não abalou os demais, que comiam e conversavam. Felipe continuava animado contando sobre a competição de arco e flecha que participaria.
— Não torçam por mim, ou ficarei nervoso e não acertarei nenhuma flecha! — dizia, sorridente.
— Por que não me contou? — questionou Bia ao amigo.
— Não sei. Apenas não vi oportunidade de mencionar — mentiu. “É uma meia verdade”, disse a si mesmo. Inicialmente não a queria insistindo sobre a possibilidade de “amor da sua vida”, como fizera com Ricardo. Com o tempo, se esqueceu sobre o assunto. Até lembrar que ele era dono do café onde trabalharam parecia ser algo distante, de outra vida. — Relaxa, ele não é tão ruim quanto parecia.
— Está defendendo ele? Mesmo depois do que ele fez?
— Você não está com raiva de verdade. Até mesmo riu quando soube que o café iria fechar!
— Você gostava! E se sentia bem trabalhando lá, não é? — ela respirou fundo e olhou para longe, fazendo bico. — De qualquer forma, se está tudo bem para você, não tenho o que fazer. Porém fica a promessa de acertar as partes baixas dele.
A breve conversa pareceu suficiente para fazê-la baixar a guarda e entrar em conversas paralelas. Incentivada por isso, Nathália começou a contar uma história sobre a época da escola envolvendo alguns garotos jogarem uma bombinha no banheiro masculino quando um professor estava lá dentro. Eles não sabiam quem era, caso contrário, nunca teriam provocado o professor de matemática daquela maneira. O homem era um terror! Saiu vermelho igual um tomate e com as roupas molhadas. Se pudesse, teria matado todos sem pensar duas vezes. Um deles, inclusive, era namorado de Bia.
— E ela fez protesto em frente à sala dos professores todos os dias contra a suspensão. Dizia ser injusta! — contou.
— Fazemos grandes idiotices quando somos adolescentes, tá bem?
Felipe concordou, rindo, e começou a compartilhar uma história de quando era criança. Sua tia gostava de julgar as pessoas por conta de seus comportamentos, apontando o pecado de todos. Isso a fazia ser uma das pessoas mais detestáveis em reuniões familiares. Vivia perguntando sobre a vida alheia e apontando dedos, dizendo o que deveriam fazer. Quando ele a ouviu conversando com alguém e comentando sobre quantos anos de casada estava fazendo, não demorou muito para notar que a idade de seu primo mais velho era superior. Sem pensar duas vezes, na frente de todo mundo, perguntou “então a senhora deu antes de se casar?”. Houveram muitas risadas nervosas e expressões desconsertadas. A tia nunca mais falou com ele depois do ocorrido.
Várias pessoas ainda continuavam treinando seus golpes de espada, e era possível notar a chegada de novas. Era uma visão bastante divertida, principalmente pela dedicação daquele grupo de pessoas com suas fantasias e armas. Todos pareciam gostar bastante do que estavam fazendo e alguns investiam bastante tempo na confecção de suas roupas e armas.
— Se divertindo? — perguntou Ricardo, sentando-se ao lado dele. — O que achou do que viu até agora?
— Parece tudo incrível — respondeu Theo, abrindo um sorriso tímido. — Talvez algum dia eu também participe. Deve ser divertido!
— É mesmo! Se quiser, posso ensiná-lo. Não sou grande coisa, mas sou melhor do que o Edgar em tudo o que ele faz. Aliás, soube que vocês dois correm juntos. Se quiser ajuda com alguma coisa, só dizer. Sei que ele não gosta de praticar atividades ao ar livre.
— Não?
— Ah, não. Tento convencer ele a fazer isso há anos, mas sempre nega. Diz que prefere fazer o que precisa na academia — respondeu de maneira casual. Seus olhos se voltaram para alguma parte no queixo de Theo. — Está um pouco sujo… Aqui, deixa que te ajudo.
Havia algo estranho em ser tocado por outra pessoa. Quando o polegar de Ricardo tocou em sua pele, seus olhos desviaram e acabaram encontrando o rosto de Nathália. A garota estava com o queixo apoiado em sua mão e seu rosto virado na direção dos dois. Isso deixou a situação um pouco mais desconfortável do que deveria ser.
— Parece uma criança. Fofo — a maneira casual, com o grande sorriso, fez o rosto de Theo corar de imediato. — Nunca usou uma espada antes, não é? O que acha de me ajudar a praticar um pouco?
— Ah… Por mim tudo bem.
— Certo! — sem qualquer necessidade, ele estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar e depois se virou para Edgar, não muito distante. — Ei, me empresta a sua espada um momento.
— E por que eu faria isso? — questionou, mal-humorado. Se os olhares representassem ações, Edgar perderia seu réu primário.
— Porque você é um ótimo irmãozinho — respondeu, de bom humor. Ricardo não esperou respostas, apenas caminhou em sua direção e pegou o objeto.
“Irmãozinho?”, pensou Theo, mas não disse nada. Apenas o acompanhou até fora da arquibancada e esperou alguma instrução depois de receber a espada. O objeto era bastante leve, mas o formato deixava que se movesse sem dificuldades pelo ar.
— Certo! O segredo é o movimento. Não precisa ficar tímido e mexer apenas os braços. Pense o que um jogador de beisebol faria!
— Mas eu não sei o que um jogador de beisebol faria… — disse Theo.
— Como eu disse, o importante é o movimento — Ricardo se colocou atrás dele e segurou suas mãos. Ter alguém tão perto… — Quando for fazer algo, evite usar apenas as mãos. Coloque não apenas os seus braços, mas todo o seu corpo nisso.
Depois de fazê-lo realizar alguns movimentos, ele o soltou e foi pegar a própria espada. Fez alguns ataques bastante lentos para Theo se acostumar a defender. Era um pouco mais estranho do que parecia visualmente. Sentia seu corpo contido, não querendo se mover, e precisava se esforçar e se soltar aos poucos. Os ataques foram ficando mais rápidos. Quando posicionou a espada para defender um ataque vindo de cima, Ricardo mudou o movimento e acertou a lateral de seu corpo. Os dois se encararam alguns segundos, em silêncio. Foi o suficiente para se distrair e não notar quando a espada voltou a se movimentar e acertou sua cabeça de leve. Isso o fez começar a rir.
— Segunda lição: pegue os inimigos desprevenidos.
— E onde fica o código de honra em atacar uma pessoa que não está tentando se defender?
— Código de honra, não é? Então prepare-se para o meu ataque surpresa!
Theo ergueu a espada e esperou, mas Ricardo se aproximou dele e deixou sua própria espada cair no chão. Enquanto ainda tentava entender o que seria o golpe, as mãos o alcançaram em um ataque de cócegas. O garoto se contorcia, tentando se livrar enquanto ria, mas não conseguia. Mesmo tentando se afastar, ele o perseguia e não o deixava.
— Ora, ora, ora… Se divertindo antes da sua derrota de hoje? — alguém perguntou atrás deles. O homem parecia ter saído de um filme. Tinha cabelos pretos e longos e se vestia como rei, com direito a coroa.
— Olha só… Voltou preparado para perder? Dessa vez, sem os feitiços, imagino?
— Nada nas regras impediam uso de magia! Foram totalmente injustos naquela decisão! — exclamou, quando deixando sua coroa cair. Ele a ajeitou e recuperou a compostura. — Não irei perder esse ano. Treinei e estou preparado para qualquer um dos seus truques.
— Tenho certeza que sim! — Ricardo sorriu e colocou a mão no ombro do homem. — Que o melhor Ricardo vença.
— Ricardo? Jura? — Theo observou o homem se afastar. Fazia uma grande encenação de pessoa orgulhosa, mas vez ou outra quase deixava a coroa cair.
— Pois é! É divertido ter um “rival”, mesmo que ele seja só um cara com o mesmo nome e tenha jurado me vencer depois de perder a primeira vez. Nunca conseguiu me ganhar, coitado — Ricardo recolheu sua espada e passou o braço ao redor do pescoço de Theo, o conduzindo de volta para onde os amigos estavam. — Vamos descansar um pouco antes de começar.
***
Uma mulher com um microfone apareceu para dar as boas-vindas a todos e explicar algumas regras. Golpes na cabeça e no tronco eram considerados fatais, e era estritamente proibido qualquer tipo de magia. Ela foi bastante enfática nessa última parte, até mesmo encarando o segundo Ricardo enquanto repetia mais uma vez. O último homem que ficasse de pé ganharia uma taça como recompensa. “Uma taça ornamentada com uma garra de grifo”, anunciou com grande entusiasmo antes de dar um tempo para os participantes se reunirem.
— Vai torcer por mim, não é? — perguntou Ricardo. Ele tirou um lenço do bolso e amarrou no pulso de Theo. — Me deseje sorte — e lhe deu uma piscadela.
De canto de olho, Theo conseguia ver o rosto de Nathália olhando para a paisagem distante. Seu sorriso enigmático o deixou desconfortável. Era impossível saber o que ela estava pensando naquele momento, e foi a pior parte. Sua mente começou a tentar encontrar justificativa para aquela expressão, criando diversas teorias.
— Ei, você aí… — chamou Edgar, olhando diretamente para Bia.
— O que é? — perguntou rispidamente, erguendo as sobrancelhas e fechando a cara.
— Te pago 100 reais se torcer por mim.
— 200 reais.
— 150. Minha última oferta.
— Vai, Edgar! — gritou a garota, mudando sua expressão de imediato para um rosto animado. Ergueu os braços da maneira mais dramática e histérica que conseguiu, tentando fazer as letras de seu nome. — Eu quero um E! Agora um D! E lá vem um G! Depois o A! E um R pra finalizar! O que isso dá? Edgar campeão!
— Pelo amor… — resmungando de cara fechada, ele se afastou para o centro.
— Sabe que você não bebeu o suficiente para chegar nesse estado, não é? — rindo, Theo balançou a cabeça. Viu os garotos se afastarem uns dos outros, se posicionando de maneira segura. Imaginou que seriam combates individuais, mas pelo visto seria um caos total de uma arena.
— Bem-vindos à septuagésima sexta edição dos Jogos Vorazes… — comentou Nathália, casualmente.
— Acaba com eles, Edgar! — berrou Bia, fazendo as pessoas se afastarem aos poucos dela. Felipe, ao seu lado, apenas ria da situação.
Ao som de um apito, as espadas e escudos ganharam movimento. Cada um acabou encontrando um oponente e tentava derrota-lo rapidamente antes de acabar sendo pego desprevenido por outro participante. Edgar acabou esbarrando primeiro com o cara fantasiado de gato. Aquela roupa deveria ser muito calorenta e desconfortável para uma atividade de tanto movimento, pois ele se movia pouco e vez ou outra tentava ajeitar a cabeça.
Era incrível como todos eles levavam aquilo a sério. Gritavam em golpes e se enfrentavam como se as espadas fossem reais e os golpes pudessem ser fatais. Isso ganhava um certo tom cômico quando algum participante fingia que seu sangue estava jorrando enquanto saía do meio do combate depois de “morto”.
Ricardo estava em seu terceiro oponente. Havia derrotado dois sem muitas dificuldades, pegando-os desprevenidos em contra-ataques. Imaginava se tratar daquelas cenas de filmes, onde o mentor ensinava o aprendiz a usar a força do oponente contra ele. Nesse caso, o garoto esperava um ataque para se defender e arrumar uma abertura. O terceiro oponente foi mais fácil. Ele perdera seu escudo em outro combate e não teve tempo de se recuperar antes de sentir a espada bater em seu peito.
— Parece que finalmente nos encontramos! — disse o rapaz fantasiado de rei. Ricardo olhou para seu autoproclamado “rival” e se preparou. — Aguardei o ano inteiro por esse momento! Minha revanche será gloriosa e você será humilhado diante dos meus pés! Nenhum de seus truques sujos serão suficientes para impedir a vitória do grande e poderoso…
Ele parou de falar e olhou para baixo. Uma espada havia atravessado abaixo de seu braço, vinda pelas costas. Seu rosto virou-se lentamente, olhando por cima do ombro, para encarar a expressão mal-humorada de Edgar.
— N… Não pode ser… Derrotado por um ataque covarde, vindo das costas… Logo eu, o grande e poderoso… — o Ricardo segundo ajoelhou de maneira teatral, colocando a mão no peito, onde a espada “teria” atravessado. — Minha morte… Não será em vão. Um dia serei vingado! Todos os meus descendentes saberão… Como fui corajoso e…
— Cala a boca e morre logo — disse Edgar, ríspido. Pegou sua espada e acertou a cabeça do homem, que o olhou de cara feia, mas se ergueu e saiu do combate.
— Veio me salvar? — perguntou Ricardo, sorrindo. Talvez fosse apenas impressão sua, mas Theo enxergava alguma coisa provocadora em sua maneira de falar e sorrir.
Nenhuma outra palavra precisou ser dita, pois as ações foram rápidas e precisas. Os dois começaram uma dança de golpes, onde um atacava e o outro defendia. Se fossem espadas de verdade, faíscas estariam saindo em meio aqueles movimentos.
Àquela altura, poucas pessoas ainda continuavam de pé e o duelo entre os amigos se tornara tão intenso que chamava a atenção dos outros participantes. Os gritos de Bia e Nathália, cada uma torcendo por um deles, não eram capazes de tirar Theo de sua imaginação. Conseguia vê-los perfeitamente em um combate, usando armaduras e espadas de verdade. O cenário, rodeado por uma plateia em um torneio de justas organizado por um nobre… Parecia tão incrível!
O rosto de Edgar parecia totalmente focado, enquanto Ricardo continuava a provocá-lo com seu sorriso. Foi o suficiente para alguém chegar por trás e golpeá-lo duas vezes pelas costas. Os dois pararam por um instante, enquanto Edgar assimilava o que havia acontecido. Sua expressão de ódio quando olhou para a garota que o acertou a fez se encolher e se afastar devagar.
— Conhece as regras, irmãozinho — disse Ricardo, batendo em sua cabeça com a espada. Ele bufou alto. Fechou os olhos como se estivesse tentando se conter. Largou a espada e se afastou. — Isso, bom garoto!
— Que marmelada! Roubado! — gritou Bia.
— O combinado foi apenas torcer, não? Mesmo com ele perdendo, você ainda vai ganhar o dinheiro — disse Felipe.
— Eu sei. Os 150 reais mais fáceis da minha vida, por isso estou entregando um pouco mais do que preciso. Sou uma excelente atriz, não é?
Os últimos combates aconteceram de forma rápida. Alguns participantes aproveitavam para atingir os outros por trás, e Ricardo acabou sendo pego por um desses ataques surpresas. A disputa final acabou ficando entre a garota que derrotou Edgar e um homem que parecia ter o dobro de seu tamanho. Algumas pessoas poderiam imaginar que ele acabaria com ela em questão de segundos, mas foi o contrário: um corpo grande apenas aumentava a quantidade de lugares vulneráveis para serem atingidos. Ela o acertou de forma tão rápida e sutil, que até o adversário ficou sem ação. Gritos e uma salva de palmas foram emitidos com grande afinco pela plateia. Theo se sentiu incentivado por isso e acabou fazendo o mesmo.
— Devo dizer, foi bem divertido — disse Ricardo, bem-humorado. Nem mesmo a derrota fora capaz de fazer seu sorriso desaparecer.
— Se você diz — sibilou Edgar, ainda de braços cruzados e com aquele olhar ácido. Quando olhou para Bia, a garota estava com a mão estendia, esperando pelo dinheiro. — Só trabalho com transferência bancária.
— Melhor ainda, meu amor! Pode mandar!
— Parece que eles se divertiram muito, não é? — perguntou Nathália à Theo. O garoto se surpreendeu ao vê-la tão próxima e com um expressão contente no rosto. — E você? Está se divertindo também? Vi que não conseguia parar de olhar…
— Ah… É… Estava muito interessante… — retrucou, nervoso. Seus olhos percorreram todas as direções sem encontrar um novo tópico de conversa. — De assistir, não é? Estava legal de assistir. As lutas, quero dizer.
Suspirou aliviado, quando a viu se afastar na direção de seu namorado. “Não quero acabar careca”, Theo pensou indo se reunir a Bia e Edgar. Ela estava com uma expressão muito satisfeita, verificando seu próprio celular.
— Não basta ser humilhado em público, agora também é extorquido — comentou Theo, se colocando ao lado de Edgar. Ele o observou pelo canto do olho, mas não disse nada. Continuou fazendo a transação em total silêncio e mal humor. — Não foi tão ruim assim, foi?
— Só sei que para mim foi ótimo! — exclamou Beatriz, se afastando em direção à Felipe.
— E então…?
— O que foi? — questionou Edgar com rispidez. Ele virou-se de costas, como se procurasse algo.
— Sabe… Eu não tenho culpa da sua derrota. Não precisa vir com essa ignorância para cima de mim.
— Desculpe — ele se virou, ainda de braços cruzados, e suspirou. — Só estou estressado com algumas coisas de trabalho. Foi uma semana difícil.
— Fale comigo assim mais uma vez e eu chuto sua canela — respondeu lhe dando um soco fraco no braço. Isso fez o outro rir. — É sério! Eu posso ser menor e mais fraco, porém sei onde machuca. Tente brincar de bola com uma criança sem saber jogar e você verá! Descobrirá lugares que nem mesmo sabia que eram possíveis sentir dor.
— Claro, papai. Vou me lembrar disso — Edgar fez uma pausa, o encarando em silêncio. Depois balançou a cabeça e desviou o olhar. — As orelhas. Ficaram bem em você.
— É mesmo, não é? Agora sou um elfo! Me dê um arco e flecha e serei o próprio Legolas… Mas sem enxergar muito bem! Se eu fechar um dos meus olhos, o mundo fica embaçado.
— Só você mesmo para me fazer querer rir depois de ser humilhado publicamente — sua mão tocou o cabelo de Theo, bagunçando-o. — Vamos ao estande de arco e flecha para você terminar sua caracterização estereotipada de elfo.
— Prefere que eu roube uma meia sua e diga que sou um elfo livre?
— Se conseguir lidar bem com o chulé…
O estande de arco e flecha era composto por um instrutor e três mesas, cada uma com um arco e uma aljava, com alguns alvos à metros de distância. Também havia uma área para tirar fotos e um homem vestido de arqueiro acompanhado de uma coruja. Ela fazia um grande sucesso, pois formava uma fila de pessoas para vê-la.
Segurar um arco parecia uma tarefa fácil, colocar a flecha não muito. Theo tentou, de maneira desajeitada. A flecha continuava saindo do lugar antes mesmo dele tentar puxá-la. Teria sorte se conseguisse fazê-la voar alguns centímetros que fosse.
— Está indo muito bem, Legolas — disse Edgar, sarcástico. Ele se posicionou atrás dele, ajustando a mão que segurava o arco antes de segurar a da flecha e posicioná-la, apoiando a seta em cima do polegar. O rosto deveria estar muito próximo de sua nuca, pois sentia a respiração fazendo sua pele arrepiar. — Não sou muito bom nisso, mas vamos lá… Respire fundo e prenda a respiração. Segure a flecha entre seu dedo médio e o indicador… Agora puxe e mire.
Seu coração estava acelerado, batendo forte nos ouvidos. Não sabia qual fora a última palavra dita do Edgar, pois não conseguia mais ouvir nada além de seus próprios batimentos. Quando soltou a flecha, ela voou alguns metros, atingindo a parte de baixo do alvo. Somente notou o afastamento de Edgar quando o viu entrar em seu campo de visão.
— Não foi tão ruim para uma primeira vez. Poderia ter errado ou atingido o olho de alguém…
— Eu… É… Pois é! Eu acertei! E você duvidando das minhas habilidades! Sou um verdadeiro arqueiro! — ouviu as palavras saírem atropeladas de sua boca. Duvidava que alguém pudesse tê-lo ouvido e entendido. — Eu… Vou atirar mais uma.
A segunda tentativa foi um pouco melhor. A flecha atingiu a marcação de “10 pontos”. Houveram mais três disparos depois desse: um acabou não atingindo o alvo, outro acertou os 10 pontos e o último 20 pontos. Para uma primeira tentativa, havia sido muito bem, mas sua cabeça estava em outro lugar. Sentia-se desconcertado e com o coração acelerado.
“O que está acontecendo?”, se perguntou começando a se preocupar. Estaria sua ansiedade lhe proporcionando mais um daqueles momentos horríveis e estressantes? Sua boca estava seca, as mãos suando e seu coração acelerado… Das vezes que sentiu algo parecido, houvera também falta de ar e formigamento. Era algo diferente. Mas o que poderia ser?
— Ei? Tudo bem? — perguntou Edgar. Ele havia acabado de pegar o alvo com o instrutor e agora o dobrava. — Quer uma água?
— Acho que sim… Estou bem — respondeu tentando mostrar um sorriso, mas acabou saindo vacilante.
Apesar de suas negativas, Edgar fez questão de comprar uma garrafa de água para ele enquanto caminhavam pela feira. Foi um bom momento para se distrair, observando pessoas fantasiadas e as barracas. O cheiro das comidas entrava em suas narinas e lhe proporcionava uma boa sensação de bem-estar. Ficava com vontade de comer algo novo a todo momento, mesmo não estando com fome. Por isso resolveu experimentar apenas os doces. Comprou alguns pastéis doces recheados e a coisa mais incrível que já tinha visto: um churros de 30 centímetros.
— Isso parece muito exagerado.
— Como assim “exagerado”? — questionou Theo, observando enquanto a moça colocava cobertura de chocolate e alguns morangos. Ele recebeu a caixa comprida contendo o doce e seus olhos brilharam. — Isso parece uma delícia! Me dá pena de comer!
— Delícia? Parece nojento…
— Você sabe que churros é bom! Até mesmo um gourmet assim parece um manjar dos deuses!
— Não, eu não sei. Nunca comi — retrucou sem mostrar muito interesse.
— Nunca comeu churros? Está brincando comigo, não é?
— Não. Nunca comi esse tipo de coisa.
— Então você precisa experimentar agora! — exclamou Theo erguendo o doce na direção do outro.
— E o que te faz pensar que quero experimentar? — Edgar fez uma careta e afastou o rosto. — Isso não tem nada de apetitoso.
— Você diz isso porque não sabe o que fala! Vamos lá, uma mordidinha! — Edgar revirou os olhos e resistiu por mais alguns segundos, antes de decidir experimentar. Deu uma mordida e começou a mastigar, fazendo uma careta. — E então? O que achou?
— Tem canela — respondeu depois de engolir. — Detesto canela.
— Agora deixe o paladar de criança de lado e responda! O que achou?
— Sua amiga está te chamando ali — Theo olhou para a direção, mas não havia nenhum rosto conhecido. Voltou-se novamente para Edgar para vê-lo com o rosto sujo de doce enquanto mastigava. Com a boca cheia, ele disse: — Me enganei. Era outra pessoa.
— Mas… Olha… Desgraçado! Se gostou tanto, compre um para você! Não é para comer o meu.
Apesar do protesto, ficou feliz de poder compartilhar o churros. Por mais gostoso que achasse, começou a ficar enjoativo. “E é mais divertido assim”, pensou observando o rosto do seu amigo com uma marca de chocolate. “Amigo… Quando foi que nos tornamos amigos?”, foi a ideia que se passou por sua cabeça. Há quanto tempo ele se divertia em tê-lo por perto? Puxou o celular do bolso e tirou uma foto rápida e um pouco desfocada do momento.
Em uma grande tenda, junto de um pequeno palco, vinha uma música bastante familiar, apesar do som ser diferente. O instrumental e o ritmo estavam irreconhecíveis à primeira vista, mas a letra não enganava. A mulher, vestida com uma coroa de flores, cantava “In the End” da banda Linkin Park.
Ao se aproximarem mais, acabaram encontrando Bia e Felipe reunidos entre as pessoas que assistiam à apresentação musical. A garota tentava desajeitadamente cantar no mesmo ritmo, errando algumas partes e precisando voltar para acompanhar a melodia.
— Isso é o que eu chamaria de cover medieval — comentou Theo, chamando a atenção da amiga.
— Ei! Estive te procurando. Por onde você andou? Acabei comprando duas garrafas de hidromel! Precisamos virar tudo isso qualquer dia desses! — seus olhos acabaram encontrando o homem que o acompanhava e ela voltou sua atenção para o palco. — É incrível, não é? Aposto que você se sairia muito bem também.
— Sou um cantor de chuveiro e de karaokê! Nunca conseguiria algo assim.
— Ah, temos videntes aqui também! Ainda estou traumatizada depois da Ivana, mas se quiser uma possível nova desgraça na sua vida… Sinta-se livre para ir conferir.
— Acho que uma vez foi suficiente para todos nós, não é?
— Uma vez? Qual é a fofoca da vez? — perguntou Felipe, colocando-se entre os dois e os puxando para mais perto.
— Ah, não é nada demais. Minha prima estava aprendendo a ler cartas em um curso online e previu algumas desgraças para nós dois — respondeu Bia. Ela sorria para ele de maneira zombeteira, fazendo Theo se questionar o que podiam ter conversado nesses momentos onde ele esteve ausente. — Ela previu que algo horrível aconteceria comigo e mudaria minha vida, enquanto o Theo iria esbarrar no amor da vida dele.
— Esbarrar? — Felipe forçou uma pequena batida em Theo e fez uma cara de espanto. — Minha nossa! Aconteceu! O amor da sua vida chegou.
— Nossa… Eu finalmente encontrei o que procurei a vida inteira! — retrucou, encontrando na brincadeira. — Bia, você será nossa madrinha?
— É falta de educação ficar fazendo esse barulho quando os outros querem prestar atenção no show — interveio Edgar, de mal humor.
Além das apresentações da cantora, um bardo subiu ao palco para contar algumas histórias que divertiram o público. Muitas delas terminavam com ele precisando fugir com pouca roupa pelas ruas. E, para completar o momento, uma druida celebrou um casamento. Uma cerimônia emocionante que deixou os olhos de alguns marejados e acabou em uma grande festa de dança. Àquela altura, Theo sentia seus pés doendo e o cansaço começava a tomar conta de seu corpo.
Reencontraram Nathália e Ricardo próximos da entrada, em uma barraca de comida. Era bom ver os dois tendo um momento normal depois das situações estranhas que haviam acontecido mais cedo. Ela sorria e o tocava, rindo de alguma possível piada, o olhando de maneira apaixonada. Tudo parecia estar bem.
Para não interromper o momento dos dois, Theo foi em direção a barraca com os estandartes. Agora também haviam algumas pelúcias de gatos de armadura e outros itens artesanais. Se pudesse, levaria um pouco de cada coisa para casa… Mas precisava de algo para recordar o dia além de suas memórias. Mas o que poderia ser?
— O que está vendo? — perguntou Edgar, empurrando-o levemente com o braço.
— Ah, pensando no que gostaria de comprar como lembrança, mas é um pouco difícil. Muitas coisas legais.
— Então compre tudo e resolva o problema.
— Sério? — Theo o encarou em silêncio, tentando notar se estava falando sério ou brincando. — Deve ser muito bom ter dinheiro.
— Prefere que eu diga a verdade ou minta? — ele apanhou uma pelúcia feita de crochê. Tratava-se de um gato com roupas de mago. — Olha só! É a sua cara.
— Vindo de você, não sei se trato como elogio ou ofensa.
— Vocês só sabem criticar, não é? — Edgar pegou uma caneca com uma estampa de símbolos rúnicos e entregou para a moça da barraca junto com o gato de pelúcia. — Coloque em sacolas separadas, por favor.
Theo continuou observando os objetos, ainda indeciso sobre o que comprar. Por mais que tivesse dinheiro guardado, sentia-se mal com a ideia de gastar mais do que considerava necessário. “Mas se dar um agrado de vez em quando não faz mal, não é?”, rebateu o próprio pensamento.
Estava em seu debate interno quando Edgar pegou uma das sacolas e colocou em sua mão sem dizer nada. Fez o gesto e depois deu as costas, se afastando em silêncio. Levou alguns segundos para assimilar o que havia acontecido e abrir para ver que dentro da embalagem estava o gato de crochê. Sua boca abriu e fechou algumas vezes, incapaz de emitir som.
— O que foi? O que está fazendo parado aí? — perguntou Bia. Ela olhou para a pelúcia em sua mão com grande interesse. — Que fofo! Combina com você.
— É… Acho que sim.
***
Meia hora depois, Theo encontrava-se calado com a sacola em seu colo. Não sabia bem o que dizer, principalmente sozinho no carro com Edgar.
Depois de todos terminarem suas compras e decidirem ir embora, foi um breve momento de organizar quem iria com quem. Por ter vindo com Ricardo, Nathália e Bia, ele imaginou que a volta também seria com eles, mas os planos foram alterados com uma pergunta bastante simples:
— Edgar, tudo bem se você levar o Theo? — perguntou Ricardo.
Os dois se encararam por algum tempo antes do silêncio ser quebrado por uma resposta afirmativa. Felipe iria com Ricardo, pois morava no caminho de sua casa, e Nathália queria conversar com Bia sobre algum assunto. Isso acabou deixando os dois sozinhos.
Não havia nenhuma novidade na situação, mas o ambiente parecia diferente. Theo sentia um pequeno nervosismo que o forçava a balançar as pernas com mais intensidade do que gostaria. Para tentar se distrair, sua atenção voltou para o lado de fora. As ruas por onde passavam, os rostos desconhecidos vivendo suas vidas, os animais existindo… A vida acontecendo. “A vida acontecendo…”, repetiu para si mesmo como se fosse algo cheio de significado.
— Não vai ligar o rádio e colocar suas músicas desconhecidas? — perguntou Edgar quebrando o silêncio. Seus olhos continuavam fixos no caminho à frente, mas dando um pequeno sorriso de canto de boca.
— Não… Pode escolher dessa vez suas músicas ruins — retrucou se ajeitando no banco. A provocação deveria ser um sinal de que tudo estava normal e a parte estranha só fazia parte de sua cabeça. Isso o ajudou a relaxar um pouco. — Aliás, obrigado pelo presente. Confesso que não me sinto muito confortável em ganhar coisas, mas obrigado mesmo assim.
— Relaxa, é só um pedido de desculpas porque estava sendo um pouco chato.
— Um pouco chato? Eu tenho adjetivos melhores. Reclamão, idiota, mal-humorado, um pouco babaca… Parece se encaixar melhor, não?
— Eu não costumo deixar que as pessoas falem comigo desse jeito, sabe?
— Não gostou? Me processe — disse, zombeteiro. Isso arrancou risadas sinceras de ambos.
Chegar em casa pareceu trazer todo o cansaço que ele não havia sentido durante o dia, mas estava feliz. Conhecer um evento novo, cheio de coisas interessantes para ver e pessoas que realmente se divertiam nele…
Queria contar tudo para sua avó, porém tomou seu merecido banho e foi se deitar. Guardou as orelhas de elfo com grande carinho e posicionou o bicho de pelúcia na cabeceira da cama com muito cuidado. Em seu celular, havia uma mensagem de Ricardo dizendo: “espero que tenha se divertido”. Preparou para se responder quando recebeu uma outra notificação. Havia sido marcado em uma postagem do Instagram. As fotos postadas por Bia, algumas que ele nem sabia que foram tiradas, mostravam alguns momentos do dia. Theo riu ao ver Felipe tirando uma Selfie no momento em que Bia gritava durante o torneio, o grupo inteiro reunido, sua amiga o fotografando enquanto comia um cachorro-quente, ela e Nathália bebendo…
Bigodes entrou no quarto calmamente e subiu na cama, se aninhando pedindo por carinho. Theo abraçou o gato e o beijou, apesar dos protestos e tentativas de fuga.
— Estava com saudades de mim, minha coisinha fofa? Porque eu estava! Senti sua falta, sabia? — ele soltou o gato, fazendo-o se acalmar e deitar novamente ao seu lado. — Foi um ótimo dia, Bigodes. Talvez mais do que isso… Eu diria que foi perfeito.
***
Cair no sono aconteceu de maneira súbita e rápida. O cansaço ajudava bastante uma pessoa apagar totalmente antes que pudesse se dar conta. Theo estava deitado de lado, com o celular ao seu lado na cama. Havia adormecido enquanto observava as fotos postadas, incluindo colocou algumas poucas que ele mesmo havia tirado.
Já passava de 1 hora da manhã quando seu celular começou a tocar. O som suave ganhou força e o visor se acendeu. Demorou algum tempo para Theo despertar, apesar dos seus próprios protestos para ignorar e continuar dormindo. Pegou o aparelho e fez uma careta quando a claridade o atingiu. Apertou os olhos, tentando enxergar melhor, e aos poucos a foto do irmão e seu nome surgiram.
— Alô? — disse sonolento. Era estranho o irmão ligar, pois fazia isso raramente.
— Theo? Cara, preciso da sua ajuda! Por favor!
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