Café, eu, e ela
1 1 - Ai, Amor (Lilian & Joanne)
Notas iniciais

O apito ensurdecedor declarava o início da partida de vôlei, os alunos que não estavam na quadra se agitaram na arquibancada para animar a torcida, e eu suspirei deixando minhas anotações de lado. Seria impossível estudar para os exames durante a aula de educação física com o campeonato acontecendo.
Eu não desmerecia o esforço e capacidade dos atletas, apenas não gostava de me distrair com outros assuntos durante a semana de testes para as bolsas de estudo.
Deixei de lado meu caderno e tirei da mochila um dos livros da lista para a prova de literatura. De acordo com meu cronograma de estudos, eu teria a véspera da prova como dia de descanso se eu não perdesse tempo, como aquele, e tentei focar na leitura.
A arquibancada se agitava a cada ponto marcado por alguma equipe. Os times eram mistos, sabia que alguns atletas ali também concorrem a bolsas de estudos, mas usariam o esporte como base para avaliação, então de certa forma, esse jogo servia como um treino para a competição oficial, onde a equipe ganhadora teria pontos extras na prova.
Entre uma página e outra, minha visão se focou na levantadora do time que trajava camisetas vermelhas. Ela se movia rapidamente de um extremo ao outro de seu campo de atuação, como se estivesse diretamente ligada com o clímax do jogo, e soubesse cada ação futura e direção da bola.
Ela sorria orgulhosa após cada ponto arrematado por seu time, vez ou outra acenava para a precisa. Seu nome é Joanne e é uma das atletas que definitivamente merecia a bolsa de estudos.
Nós estudamos na mesma sala há uns seis meses, porque ela mudou de turno no colégio e passou a estudar no mesmo período que eu. Apesar de todos a conhecerem, ela é bem na dela, consegue interagir mais apenas com o pessoal de seu time de vôlei.
Sem que eu percebesse, o livro no meu colo já estava fechado, e minha atenção total para a garota na quadra. O cabelo castanho preso em uma trança que balançava com cada movimento, o modo com que franzia os lábios calculando rapidamente a próxima jogada, e a extrema leveza que seu corpo tinha ao se movimentar.
Por estar com os olhos colados nela, notei quando sua expressão se modificou, com um ar preocupado, testando alguns minutos para o término do primeiro tempo.
Durante o intervalo, houve uma substituição. Joanne ficou no banco de reservas e outra levantadora assumiu seu lugar. Alguns dos alunos estranharam a mudança, mas continuaram a torcida, imaginando que a estrela do time estava sendo poupada para o jogo principal.
Quase despercebida pela torcida que comemorava mais um ponto, Joanne se levantou e saiu da quadra. Não sabia ao certo, mas senti vontade de falar com ela, para ao menos parabenizá-la pela performance.
Sem que meu lado racional pudesse agir, coloquei minha mochila nos ombros, e segui para a escadaria da arquibancada, ouvindo o som da torcida diminuir conforme eu me aproximava da saída.
— x-
Grande parte do colégio se concentrava nas arenas esportivas, por causa da partida de vôlei. Cruzei com alguns alunos no pátio, enquanto procurava por Joanne, e parecia que éramos as únicas estarem fazendo o caminho contrário aos demais.
Fui encontrá-la sentada próxima a uma das máquinas de refrigerante, no corredor que levava ao refeitório. Joanne estava com a cabeça baixa, seus lábios travados em uma expressão pensativa. Ela pressionava uma lata de Coca-Cola contra o pulso e tentava movimentá-lo.
— Joanne? — chamei ao notar que ela sequer notou minha chegada — Está tudo bem? — eu quis bater em mim mesma ao perceber o quão estúpidas essas palavras soaram. É claro que não estava tudo bem. Caraca Lilian, pense antes de abrir a boca.
Para minha surpresa, Joanne sorriu e balançou a cabeça para tirar dos olhos os fios de cabelo castanhos que soltavam de sua trança.
— Não sei ao certo. — ela respondeu, indicando o espaço ao seu lado para eu me sentar, e obedeci, largando minha mochila ao meu lado — O técnico disse que não é uma lesão, mas está dolorido. — ela franziu os lábios, encarando o próprio pulso, que apresentava um leve sinal de inchaço — Pedi para sair no intervalo, não queria ficar impossibilitada de jogar no dia do campeonato.
Mais espontânea do que eu poderia ter planejado, segurei seu braço e me inclinei para mais perto para analisar.
— Um pequeno segredo pelo qual eu vou muito bem na aula de biologia, principalmente na parte de anatomia humana… Minha mãe é fisioterapeuta. — confessei segurando o pulso dela, e segui com as pontas dos dedos toda a extensão dos nervos até o cotovelo.
Engoli em seco ao perceber sua atenção voltada para mim, não na leve massagem que eu fazia, mas sim no meu rosto, e torci para que o rubor em minhas bochechas não aparecerem.
Eu realmente estava segurando a mão dela. Não de uma forma romântica, era quase um check-up médico, mas ainda assim era o suficiente para me fazer sentir uma agitação na boca do estômago.
— É apenas um mal jeito. — respondi, analisando seus braços, mesmo sendo uma jogadora semi-profissional, ela não tinha tantos músculos, na minha mão, parecia até delicada.
— Tem certeza que não precisa de uma avaliação mais detalhada? — ela perguntou, e agora com certeza eu estava vermelha, porque não pude deixar de interpretar a frase dela com um duplo sentido.
— Com essa massagem, gelo, — apontei para a lata de coca cola — E repouso, você irá jogar extremamente bem na partida. — garanti, e era verdade.
Joanne sorriu satisfeita e nosso olhar se cruzou, as íris castanhas me avaliavam com uma certa curiosidade.
— Você será minha médica particular, Doutora Lilian. — ela brincou — Sério, não tem noção das lesões que já tive, no ano passado quase fiquei de fora na final municipal por ter me machucado algumas semanas antes.
— Posso conseguir atendimento para você com a minha mãe, caso precise. — ofereci, querendo estender aquela conversa, quem diria que a estrela do time de vôlei era uma pessoa tão carismática.
— Na próxima semana vou querer falar com ela. — Joanne agora parecia mais despreocupada com sua lesão,mas ainda mantinha seu braço no meu colo, sobre minha coxa, mesmo que eu já tivesse finalizado a massagem — Essa semana preciso terminar as anotações e revisões para a prova.
— Tem estudado? — Perguntei e ela assentiu.
— Não gosto de depender apenas na possibilidade do ponto extra. Quero garantir uma nota boa na avaliação para conseguir a bolsa. — ela explicou e não pude deixar de encará-la com admiração — O que foi? O pessoal do vôlei é dedicado, nosso esporte não é tão valorizado quanto o futebol, então precisamos ralar bastante desde o início.
Concordei com um certo pesar, os atletas do time de futebol já tinham ponto extra garantido nas provas. Não parecia justo com os demais esportistas.
— Você não quer voltar para o jogo? — perguntei depois de alguns longos segundos em silêncio e ela só fez uma careta.
— O pessoal vai querer ir para alguma festa depois comemorar. — deu de ombros — Não quero ter que lidar com uma ressaca enquanto uma pilha de matérias me espera.
— Deixou a matéria acumular, Joanne? — provoquei, fingindo estar decepcionada.
— Eu tenho uma certa dificuldade em matérias que misturam números e letras. — ela ergueu os braços em gesto de rendição, eu já tinha me acostumado com seu toque, e a ausência dele deixou uma brisa fria entre nós.
Eu suspirei, meu lado racional iria me dar uma surra mais tarde por causa da frase que eu disse a seguir.
— Quer ir até lá em casa estudar? Eu posso te ajudar com os tópicos que está tendo dificuldade.
Joanne pareceu surpresa com o convite, mas seus olhos irradiavam uma animação, que eu não precisei de resposta, e muito menos me preocupar com sua reação.
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