Café em Tóquio
1 O Peso dos Silêncios
Tóquio brilhava sob o céu cinzento do final da tarde. Os arranha-céus refletiam as últimas luzes do dia, enquanto milhares de pessoas percorriam as ruas numa rotina apressada e impessoal. Dentro de um dos edifícios empresariais do centro da cidade, porém, existia uma história que começava a nascer no mais absoluto silêncio.
Ele era um homem divorciado, vários anos mais velho do que a maioria dos colegas que trabalhavam naquele departamento. A vida tinha-lhe ensinado a esconder emoções, a viver de forma metódica e organizada, sem esperar grandes surpresas. Os anos tinham-lhe trazido estabilidade profissional, mas também uma solidão que se tornara parte da sua rotina. Entrava cedo, saía tarde e preenchia os dias com trabalho. Era mais simples assim.
Tudo mudou quando ela chegou.
A jovem mulher tinha sido integrada recentemente na equipa que ele coordenava. Desde o primeiro dia demonstrou uma capacidade impressionante de adaptação. Aprendeu rapidamente os procedimentos, assimilou os métodos de trabalho e conquistou o respeito dos colegas pela sua eficiência. Sempre educada, sempre disponível para ajudar, sempre com um sorriso discreto nos lábios.
Mas ele começou a reparar em algo que mais ninguém parecia notar.
Quando estava rodeada de colegas, ela parecia leve e descontraída. Conversava, respondia com simpatia e até soltava algumas gargalhadas ocasionais. Contudo, nos raros momentos em que ficava sozinha, a expressão mudava completamente. O sorriso desaparecia como se nunca tivesse existido. O brilho dos olhos apagava-se. Restava apenas um olhar distante e vazio, carregado por uma tristeza tão profunda que parecia impossível para alguém tão jovem.
Era como se usasse uma máscara durante todo o dia.
Com o passar das semanas, ele começou a observá-la sem sequer dar conta disso. Não por curiosidade profissional, mas porque algo nela o intrigava profundamente.
Todos os dias acabavam por sair praticamente à mesma hora. Ele dirigia-se ao parque de estacionamento, onde o seu carro o aguardava, enquanto ela caminhava sozinha até à paragem do autocarro. Tornou-se um hábito silencioso ficar alguns minutos dentro do carro antes de arrancar. Observava-a à distância, certificando-se de que ela apanhava o transporte.
Nesses momentos, quando acreditava que ninguém a observava, o rosto dela transformava-se novamente. O olhar ficava vazio, perdido algures entre os edifícios iluminados e o movimento incessante da cidade. Havia uma tristeza antiga naquele olhar. Uma tristeza que parecia viver nela há muito tempo.
Durante as pausas do trabalho, também existia um local onde ela costumava refugiar-se.
As escadas de emergência.
Era um espaço pouco frequentado, onde apenas se ouvia o zumbido distante dos sistemas de ventilação do edifício. Sentada num dos degraus, segurava frequentemente um copo de café quente enquanto observava a cidade através da pequena janela existente entre os lanços de escadas.
Naquele dia, porém, algo foi diferente.
Ele encontrava-se igualmente naquela zona quando ouviu o telemóvel dela tocar.
Não pretendia escutar a conversa. Na verdade, nem sequer prestou atenção ao início. Mas o tom da voz dela mudou de tal forma que acabou por perceber imediatamente que algo grave tinha acontecido.
— Entendo…
Foi a única palavra que conseguiu pronunciar.
Seguiu-se um silêncio doloroso.
A mão dela começou a tremer ligeiramente.
— Sim… eu compreendo…
A voz falhou.
Mesmo sem ouvir a outra pessoa do outro lado da chamada, ele percebeu.
Alguém que era querido dela tinha perdido a batalha contra o cancro.
Durante alguns segundos, ela permaneceu imóvel. Respirava profundamente, lutando contra as lágrimas que ameaçavam escapar. Estava no trabalho. Não queria desabar ali.
Quando terminou a chamada, abriu a porta das escadas de emergência sem reparar que alguém estava do outro lado.
A porta embateu contra ele. Assustada, levantou imediatamente o olhar.
Os olhos dos dois encontraram-se.
Por um breve instante, ela ficou presa naquele olhar profundo e sereno que ele sempre possuíra. Um olhar firme, mas estranhamente tranquilo. Não havia julgamento nem curiosidade excessiva. Apenas compreensão.
Talvez por isso tenha sido incapaz de sustentar aquele contacto visual durante mais do que alguns segundos.
Desviou o rosto.
Foi então que ele reparou que o cartão de identificação dela tinha caído ao chão. Num gesto natural, segurou-lhe suavemente o braço antes que continuasse a caminhar e apanhou o cartão.
Ela voltou-se imediatamente. Por um momento, ele viu algo inesperado nos olhos dela. Pânico. Não era apenas surpresa. Era medo.
Um medo que desapareceu tão rapidamente quanto surgiu.
— Obrigada. — Murmurou ela, recebendo o cartão.
Ele limitou-se a acenar com a cabeça. Nada mais foi dito.
O resto do dia decorreu lentamente.
Embora permanecesse sentada à sua secretária, era evidente que a mente dela estava muito longe dali. O trabalho começou a acumular-se ligeiramente. Pequenos erros surgiram em tarefas que normalmente executava sem qualquer dificuldade.
Ainda assim, recusou-se a parar. Recusou-se a demonstrar fraqueza.
Quando chegou a hora de saída, ele despediu-se normalmente e abandonou o departamento. Ela ficou sozinha. Pelo menos era isso que pensava.
Ao chegar ao elevador, ele percebeu que tinha deixado o cartão de identificação sobre a secretária. Sem ele, não conseguiria sair do edifício.
Voltou atrás. Foi então que ouviu. Um soluço. Depois outro. O som vinha da secretária dela.
Ao aproximar-se, viu-a sentada, de cabeça baixa, enquanto tentava desesperadamente controlar as lágrimas.
Quando percebeu que já não estava sozinha, limpou rapidamente o rosto.
Demasiado rapidamente. Como alguém habituado a fazê-lo. Ele aproximou-se sem pressa.
— Vai para casa.
Ela ergueu os olhos, surpreendida.
— Não posso. Ainda tenho trabalho para terminar.
Ele olhou-a diretamente. A profundidade daquele olhar voltou a deixá-la desconfortável. Ela desviou os olhos.
— Vai para casa. — repetiu ele. — Isso é uma ordem.
Durante alguns segundos pareceu querer argumentar. Mas não o fez. Limitou-se a guardar as suas coisas e saiu.
Quando chegou à paragem, o autocarro que costumava apanhar passou mais cedo do que o habitual. Perdeu-o por segundos. Observou-o afastar-se sem qualquer reação.
Sentou-se no banco metálico da paragem e permaneceu imóvel. Naquela zona, àquela hora, os autocarros passavam apenas de hora a hora.
Mesmo assim, não demonstrou qualquer irritação. Parecia nem sequer estar presente. A sua mente continuava presa àquela chamada telefónica. Continuava presa à última ligação que receberia.
Poucos minutos depois, ele surgiu. Tinha visto tudo. Aproximou-se lentamente.
— Precisas de boleia?
Ela levantou os olhos. Mais uma vez encontrou aquele olhar. Calmo. Seguro. Estranhamente reconfortante.
Ficou alguns segundos sem responder. Depois assentiu.
— Sim.
Levantou-se devagar. Entrou no carro. Durante os primeiros minutos da viagem, limitou-se a indicar a morada.
Foi então que ele percebeu que ela vivia fora de Tóquio. A viagem seria longa.
Mas nenhum dos dois parecia interessado em conversar. Pouco depois, ela adormeceu. O cansaço emocional acabou por vencer.
Nos semáforos vermelhos, ele permitiu-se observá-la discretamente. Pela primeira vez sem a máscara profissional que ela usava todos os dias.
Notou os traços delicados do rosto. A serenidade que surgia quando deixava de lutar contra as emoções.
A beleza silenciosa que possuía. E também a tristeza. Mesmo adormecida, parecia carregá-la consigo.
Enquanto conduzia, uma pergunta não lhe saía da cabeça.
O que teria acontecido na vida daquela mulher para existir tanta dor escondida atrás de um sorriso tão perfeito?
Quando chegaram ao destino, estacionou em frente ao edifício onde ela morava. Acordou-a suavemente. Ela abriu os olhos, desorientada por alguns segundos.
— Chegámos.
Ela agradeceu e preparou-se para sair.
— Não devias chamar alguém para te receber? — perguntou ele.
A jovem mulher abanou a cabeça.
— Não, eu vivo sozinha.
A resposta deixou um silêncio pesado dentro do carro. Ele acabou por insistir em acompanhá-la até à porta do prédio. Quando chegaram à entrada, ela voltou-se para ele.
— Porque deste a todo este trabalho?
Durante alguns segundos, ele permaneceu em silêncio. Depois respondeu com honestidade.
— Ouvi a chamada que recebeste hoje. Não era minha intenção ouvir. Peço desculpa.
Ela ficou pensativa. O olhar perdeu-se algures na escuridão da rua.
— Era apenas uma questão de tempo. — respondeu finalmente. — A minha mãe lutava contra o cancro há muitos anos.
A frase terminou num sussurro. As lágrimas voltaram. Primeiro uma. Depois outra.
Ela tentou limpá-las rapidamente, como sempre fazia. Como se ninguém pudesse vê-las. Como se chorar fosse proibido. Ele retirou um lenço do bolso e entregou-lho.
— Fiqua com ele.
Ela olhou para o lenço.
— Vais precisar mais dele do que eu.
Pela primeira vez naquele dia, ela não conseguiu impedir que as lágrimas continuassem a cair. Enquanto aceitava o lenço, a manga do casaco deslizou ligeiramente para trás.
Foi então que ele viu. Uma cicatriz antiga. Profunda. No pulso esquerdo. O olhar dele fixou-se nela durante apenas um instante. Mas foi suficiente.
Uma pergunta instalou-se imediatamente na sua mente.
Que história escondia aquela cicatriz? Que sofrimento teria levado alguém tão jovem a carregar uma marca num local tão perigoso?
Ela despediu-se e entrou no edifício. A porta fechou-se atrás dela. Ele regressou ao carro.
Permaneceu alguns minutos imóvel, observando as janelas iluminadas do prédio.
Depois pegou no telemóvel. Fez uma chamada. Do outro lado atendeu um velho amigo.
— Preciso que descubras tudo o que conseguires sobre uma pessoa.
O silêncio instalou-se durante alguns segundos. Ele olhou uma última vez para o edifício.
Sem compreender totalmente porquê, sabia que aquela mulher acabara de entrar na sua vida de uma forma que já não conseguiria ignorar.
Fale com o autor