Café em Tóquio
2 As Cicatrizes Invisíveis
Na manhã seguinte, ela apresentou-se ao trabalho como fazia todos os dias. Apesar da noite mal dormida e do peso constante que carregava dentro de si, cumpriu as suas tarefas com a mesma dedicação silenciosa que a caracterizava. Caminhava pelos corredores da empresa quase sem ser notada, mantendo a postura discreta que lhe permitia passar despercebida aos olhares curiosos dos colegas.
Enquanto isso, no conforto do seu gabinete, ele observava um dossier que acabara de receber. Sobre a secretária encontravam-se várias folhas contendo informações sobre a vida dela. Inicialmente, pretendia apenas conhecer melhor a sua colaboradora, mas, à medida que avançava na leitura, sentia-se cada vez mais perturbado.
Ela nascera em Osaka, numa família humilde de trabalhadores rurais. A infância fora marcada pelas dificuldades e pela constante instabilidade provocada pelo vício do pai no jogo. As dívidas acumularam-se ao longo dos anos até atingirem um valor impossível de pagar. Foi então que a sua vida tomou um rumo cruel.
Para liquidar aquela dívida, fora obrigada a aceitar um casamento arranjado.
As páginas seguintes revelavam uma realidade ainda mais sombria. Atrás das portas fechadas da casa onde vivera durante anos, tornara-se vítima de violência constante por parte do marido. Ninguém ouvira os seus pedidos de ajuda. Ninguém vira as lágrimas derramadas em silêncio durante as longas noites de sofrimento.
Anos depois, o marido fora encontrado morto num canal. Nunca se descobriu o que realmente acontecera. As suspeitas recaíram imediatamente sobre ela, mas jamais surgiram provas que a ligassem ao crime.
Continuando a leitura, ele encontrou outro registo que lhe apertou o peito.
Durante aquele período negro da sua vida, ela tentara pôr fim à própria existência. Falhará. Talvez por destino. Talvez porque ainda não chegara a sua hora.
Desde então vivera sozinha. Isolada do mundo. Sem amigos. Sem romances. Sem ninguém em quem pudesse verdadeiramente confiar.
Poucos meses depois, a mãe fora diagnosticada com cancro. Como seria de esperar, o pai recusara qualquer responsabilidade. Continuava perdido no mundo das apostas, preocupado apenas consigo próprio. Foi ela quem assumiu todos os cuidados da mãe. Acompanhou-a aos tratamentos, suportou as noites sem dormir e permaneceu ao seu lado. Recentemente, a doença vencera a batalha. A mãe morrera.
Ele pousou lentamente os documentos.
Havia ainda algumas notas simples sobre os seus gostos pessoais. Gostava de ler. Adorava peluches. E apreciava um bom café.
Pequenos detalhes que pareciam estranhamente frágeis quando comparados com tudo aquilo que sobrevivera.
Ficou durante alguns instantes a olhar para a janela do gabinete, mergulhado nos próprios pensamentos. Era difícil imaginar que uma pessoa que carregava tantas cicatrizes conseguisse sorrir da forma discreta como ela sorria.
O som apressado de alguém a bater à porta interrompeu-o.
— Entra.
Uma colaboradora surgiu visivelmente preocupada.
— Senhor, ela está a sentir-se mal.
Ele levantou-se imediatamente. Sem perder tempo, atravessou os corredores da empresa até chegar ao departamento onde ela trabalhava.
Ao entrar, encontrou-a caída sobre a secretária.
Os médicos da empresa já estavam a prestar assistência, mas os seus rostos demonstravam preocupação.
— Ela tem que ser levada imediatamente para o hospital.
Sem hesitar, aproximou-se dela e pegou-lhe ao colo. O seu corpo parecia assustadoramente leve.
Saiu rapidamente do edifício e colocou-a com cuidado no banco traseiro do carro. Durante toda a viagem, o trânsito pareceu interminável. Sempre que parava num semáforo, virava-se para trás para verificar se ela continuava consciente.
Só descansou quando chegaram ao hospital. Assim que entraram, os profissionais de saúde colocaram-na numa maca e levaram-na para o interior.
As horas seguintes foram longas. Sentado na sala de espera, observava os ponteiros do relógio avançarem lentamente. O movimento constante de médicos, enfermeiros e familiares criava um ambiente estranho, onde a esperança e a preocupação coexistiam em silêncio.
Finalmente, um médico aproximou-se.
— Preciso que venha comigo.
Ele acompanhou-o até ao consultório. Sobre a mesa encontrava-se uma radiografia.
O médico explicou que o colapso que sofrera naquele dia estava relacionado com uma fractura muito antiga que nunca recuperara totalmente.
Enquanto falava, o seu tom tornava-se cada vez mais sombrio.
— Sinceramente, é impressionante como ela tenha conseguido sobreviver a tudo o que passou.
O médico mostrou-lhe vários registos clínicos. Depois indicou uma cicatriz visível no pulso. Não precisou de dizer mais nada. Ele compreendeu imediatamente.
— A nível físico, vai recuperar rapidamente. — continuou o médico. — Mas as feridas emocionais são muito mais profundas. Essas levarão bastante mais tempo a sarar.
O silêncio instalou-se entre ambos.
— Dentro de dois dias deverá ter alta.
Ele assentiu.
— Posso vê-la?
O médico concordou.
— Está a dormir, mas pode entrar.
Pouco depois encontrava-se sozinho no quarto. A iluminação suave criava uma atmosfera tranquila. O som distante das máquinas misturava-se com o silêncio da noite.
Ela dormia serenamente. Talvez fosse a primeira vez, em muito tempo, que parecia verdadeiramente em paz.
Ele aproximou-se devagar. Alguns fios de cabelo caíam-lhe sobre o rosto. Com um gesto cuidadoso, afastou-os.
Observou-a durante alguns instantes. Toda aquela fragilidade contrastava dolorosamente com a força que demonstrara ao sobreviver a uma vida tão dura.
Sem sequer perceber porquê, inclinou-se ligeiramente e depositou um beijo leve na testa dela.
Depois afastou-se. Permaneceu junto à janela durante horas, observando as luzes da cidade e o movimento distante das ruas iluminadas.
Naquele momento tomou uma decisão silenciosa. Faria tudo o que estivesse ao seu alcance para voltar a vê-la sorrir.
Na manhã seguinte, ela acordou lentamente. A luz suave do sol entrava pela janela do quarto.
Ainda sentia o corpo pesado. Ao virar a cabeça, reparou que não estava sozinha.
Numa das cadeiras encontrava-se ele. Dormia sentado, com os braços cruzados. Ela chamou-o suavemente.
Os olhos dele abriram-se devagar. Por breves segundos, os seus olhares encontraram-se. Ela recordou-se do que acontecera.
— Obrigada pela ajuda.
Ele limitou-se a sorrir. Mas ela continuou:
— Podes retomar à tua vida, que eu farei o mesmo.
As palavras eram educadas, mas construíam uma distância clara entre ambos. Ele levantou-se sem insistir. Retirou um cartão do bolso e colocou-o sobre a mesa de cabeceira.
— Se precisares de alguma coisa.
Ela observou o cartão. Assentiu. E ele saiu. Mais tarde, guardou-o na mala. Mas convenceu-se de que jamais o utilizaria.
Porque, na sua mente, aproximar-se dele significava entrar num caminho que não desejava percorrer.
Dois dias depois recebeu alta. Saiu do hospital sozinha. O céu encontrava-se cinzento e uma brisa fresca percorria as ruas.
Ainda sentia dificuldades em caminhar, mas recusava-se a pedir ajuda. Quando chegou à paragem de autocarro, respirou fundo. Passados alguns minutos, um carro parou junto ao passeio.
Ela reconheceu-o imediatamente. Ele saiu do veículo e aproximou-se.
— Porque não me ligaste?
Ela suspirou. A resposta surgiu mais agressiva do que pretendia.
— Porque sei cuidar de mim mesma.
Ao perceber o tom utilizado, baixou ligeiramente o olhar.
— Desculpa… Eu… não precisas de te preocupares.
Fez uma pausa.
— Somos apenas colegas de trabalho. Já fizeste mais do que devias.
Ele não discutiu. Não insistiu. Apenas respeitou o espaço que ela procurava preservar.
Nesse instante, o autocarro chegou. Ela entrou sem olhar para trás. E ele ficou a observá-lo desaparecer ao fundo da rua.
Ao chegar a casa, sentiu uma dor repentina no peito.
O mundo pareceu girar à sua volta. Com esforço, conseguiu sentar-se no sofá. A respiração tornou-se irregular.
Foi então que os seus olhos pousaram sobre a mala. E sobre o cartão.
Durante alguns segundos hesitou. Mas acabou por pegar nele.
Algum tempo depois, ele encontrava-se diante da sua casa.
A porta estava entreaberta. O coração acelerou-lhe imediatamente. Entrou. Encontrou-a deitada no sofá.
Aproximou-se rapidamente e verificou que estava apenas adormecida pelo cansaço e pela exaustão. Com delicadeza, pegou nela ao colo. Levou-a para o quarto.
Deitou-a na cama e colocou um pano húmido sobre a testa. Pouco depois, ela adormeceu profundamente.
Quando voltou a abrir os olhos, sentiu um aroma que há muito não entrava naquela casa. Cheiro a comida acabada de fazer.
Desceu lentamente as escadas.Ao chegar à cozinha, encontrou-o junto ao fogão. Estava a preparar o jantar. Por um instante, ficou imóvel.
A cena parecia estranhamente acolhedora. Como algo pertencente a uma vida que nunca tivera. Sentou-se à mesa. Ele serviu a refeição.
Após a primeira garfada, sentiu o sabor espalhar-se lentamente.
Era delicioso. Tão simples. Tão reconfortante. E, sem conseguir evitar, os seus olhos encheram-se de lágrimas. Ele percebeu imediatamente. Não precisou de perguntar se a comida estava boa.
O silêncio dizia tudo. Depois de algum tempo, ela reuniu coragem.
— Porque fizeste isto?
Ele ergueu os olhos.
— Isto o quê?
— Ajudar-me. Perder o teu tempo livre comigo.
Ele respondeu sem hesitar.
— Porque quis.
Ela ficou sem palavras.
— Mas se quiseres que eu vá embora… eu vou.
Ela abanou a cabeça.
— Não.
A voz saiu quase num sussurro.
— Podes ficar mais um pouco?
Um sorriso discreto surgiu nos lábios dele.
— Claro.
Pouco depois preparou café. Ela levou a chávena aos lábios. O aroma envolveu-a imediatamente. Fechou os olhos por breves segundos.
— Há anos que não bebia um café tão bom.
Tomou outro gole. E depois mais outro. Ele observava-a em silêncio. Os seus olhos brilhavam um pouco mais a cada gole.
E, pela primeira vez desde que a conhecera, viu algo que se parecia com felicidade. Quando terminou, ele lavou a loiça e vestiu o casaco.
Preparava-se para sair quando ouviu a voz dela.
— Obrigada… pela companhia.
Um pequeno sorriso surgiu-lhe nos lábios. Pequeno. Frágil. Mas genuíno. Ele guardou aquela imagem como um tesouro.
— Se precisares de mim… ligue-me.
E saiu. Ela ficou junto à porta a observá-lo afastar-se na escuridão da noite. Sem perceber, levou a mão ao peito.
Porque, pela primeira vez em muitos anos, aquela casa deixará de parecer completamente vazia.
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