Caderno de ideias

45 Coração de Prata


Era uma vez, há muito tempo, um bosque encantado onde fadas viviam. Nas proximidades desse bosque, vivia uma velha bruxa chamada Carliene, querida pelas fadas por seu talento de trazer alegria a todos através dos brinquedos e decorações que criava.

Um dia, Carliene encontrou um bebê abandonado às margens do bosque. Apiedando-se da menina, resolveu criá-la como se fosse sua.

Em homenagem à bondade de seu gesto, os seres feéricos a presentearam com um bloco de madeira retirado de um antigo carvalho encantado. A infante recebeu o nome de Mandora, e os próximos anos passaram-se suavemente.

Mandora tornou-se uma garotinha encantadora, querida por todos que a conheciam. O tempo, porém, continuava passando, e sua protetora envelhecia a cada dia. Sentindo que seu tempo estava se esgotando, Carliene usou a madeira do carvalho encantado para esculpir uma linda boneca, a qual nomeou Luna.

Construída por uma bruxa a partir de um carvalho encantado, aquela obviamente não era uma boneca comum, e não foi chamada de Luna por acaso. Seu nome era este porque, após ser terminada, foi exposta à luz da lua cheia, e ganhou vida.

Anos mais se passaram. Mandora e Luna formaram uma dupla inseparável, sendo a jovem tão hábil em magia quanto sua mentora. Seu maior projeto era o coracão de prata, um objeto mágico capaz de dar vida a seres inanimados. Mas sua morte aconteceu sem nunca vê-lo concluído.

Com a morte de sua grande amiga, Luna se viu sozinha. Para mitigar a dor, a boneca começou a voltar a vida somente à noite, para dançar à luz da lua.

Havia, nessa época, uma jovem feiticeira chamada Eliandra, e foi a ela que Luna decidiu recorrer. Para sua infelicidade, porém, a jovem também se revelou incaoaz de completar o coração de prata.

Luna procurou através dos séculos, até enfim desistir. Foi quando conheceu Sophia, uma artesã que fazia bonecas de porcelana. As duas se tornaram boas amigas, e Luna passou a acompanhá-la fielmente como sua aprendiz.

Nesse intérim, Sophia encontrou uma boneca jogada na rua, descartada. Seu rosto era rachado e ela estava imunda, mas ainda era bela. Ao vê-la, Luna se apiedou e resolveu tomá-la para si.

Mesmo depois de completamente consertada, ainda havia em seus grandes olhos azuis uma profunda tristeza. Luna tinha magia própria e, com isso, não tardou a descobrir tudo:

Primeiro: o nome da outra boneca era Sarah.

Segundo: ela fora abandonada por sua dona, a quem ainda chamava carinhosamente de "mamãe".

Usando sua magia, Luna conseguiu dar-lhe vida, mas somente do anoitecer até o nascer do sol, por era mais poderosa à noite. As duas bonecas se apaixonaram, e Luna tentou usar o coração de prata pela derradeira vez. Ela sabia que, se o usasse naquela forma incompleta, anularia sua própria magia sobre Sarah, mas decidiu arriscar.

A princípio, pareceu dar certo, mas logo Sarah começou a enfraquecer. Luna tentou desesperadamente encontrar uma solução, mas resignou-se a ficar ao lado de sua amada quando ficou óbvio que não havia nenhuma.

Desde então, Luna usa o coração de prata em uma corrente ao redor do pescoço, como um lembrete de que mesmo o amor é impotente perante a crueldade do mundo e do destino.