Cadente
17 Sonho gelado
Todos se calaram enquanto eles levavam Rebecca.
— Voltem todos. O problema já foi contido. – Disse a oficial.
Seja o que for que Rebecca queira, nós realmente teremos que fazer.
Voltei para a sala , ninguém comentou nada. Eu sentei do lado do lugar vazio dela. Um professor que eu nunca tinha visto entrou na sala e começou a falar coisas incompreensíveis por mim. Uma coisa sobre matemática aplicada à velocidade do som. Realmente foi entediante. Quase peguei no sono.
A aula terminou. Finalmente tivemos autorização de ir embora.
Encontrei com Bryan e Annie na saída.
— Elas te oportunaram de novo? – Perguntei a Annie.
— Não, na verdade. Ela nem voltaram para a sala.
— Estranho – Comentei.
— Não tão estranho, levando em conta que é a Amber.
Eu nunca parei para pensar, mas o Bryan já foi namorado da Amber, certo? O que ele pensa sobre ela.
— Bryan? Qual é a sua relação com a Amber?—Pergunto sem hesitar.
— Agora? Nenhuma. Mas já tivemos uns rolos. Mas isso foi há muito tempo.
— Quanto tempo?
— Hum... Acho que eu tinha 10 anos! Ela foi o meu primeiro beijo.
— Então desde lá, vocês não tiveram mais nada?
— Não.
— Você sabe que ela diz que vocês ainda namoram?
— Sim eu sei.
— E você não acha ruim?
— Para a minha reputação isso é ótimo, mas agora isso não faz diferença.
Verdade, eu não me importo mais com a minha vida social.
Bryan me deixou em casa.
Estava quente, eu podia ouvir os mosquitos perto do meu ouvido. Eu entrei em casa e não havia ninguém. Para variar.
Me sentei no sofá e liguei a TV.
—A policia ainda tem dúvidas sobre a morte de Richard Consul e Dennis Marshal, as informações preliminares indicam suicídio, mas a família de Richard acredita que ele tenha sido assassinado.
Engulo em seco. Olho para a tela. Depois de todas as revelações de hoje isso é a única coisa que me afeta.
Olho para o meu lado e ele estão lá. Observando a tela. Dennis parece relaxado e o sangue que escorre dos seus ouvidos não parece incomoda-lo. Richard parece inconformado. Eu sinto o seu ódio por mim. Meu coração palpita.
— Você nos matou. – Richard diz para mim.
Minha respiração fica alternada.
Eu os matei. Eu queria que eles morressem e isso aconteceu.
Ele se aproxima de mim. Sua mão está estraçalhada, pedaços de carne caem no tapete.
— Não se aproxime de mim. – Eu grito.
A televisão estoura. O clarão os faz desaparecer.
O suor escorre da minha testa. Olho para a televisão. Uma fumaça negra sai da tela . O que está acontecendo comigo?
Entro no meu quarto e tranco a porta. Deito na minha cama e fico olhando para o teto. O móbile, ele gira e o encaro e sinto o ar a sua volta. E me concentro e ele se move. Ele se moveu com a minha vontade. Com a minha vontade!! Aquele peso na minha consciência foi embora. Eu só sinto uma adrenalina que me faz pular e pular na cama.
— Olivia? – Ouço minha mãe bater.
— Está tudo bem? O que aconteceu com a TV? – Ela diz através da porta
Eu paro de pular e abro a porta devagar.
— Eu liguei e ela explodiu.
— Bem que eu falei com o Mark sobre isso. Ele arrumou a televisão mês passado, eu sabia que tínhamos que ter comprado uma nova.
Ela olhou para o meu rosto.
— Por que você está feliz?
— Eu? Acho que não tem nenhum motivo em particular.
Ela me abraçou
— Eu senti falta dessa sua energia.
— Eu também. – Eu disse baixinho.
Ela me deixou em paz o restante da noite. Eu ouvi todos os meus CDs e li alguns livros que eu tinha começado. Mas eu não estava cansada. Eu preciso gastar essa energia. Eu olho para aqueles livros e tento fazer de novo.
Não existe peso. Eu consigo mover um deles com facilidade. Ele levita alguns centímetros, ouço batidas na porta e ele desaba no chão.
— Liv? Boa noite. – Minha mãe entreabre a porta.
— Boa noite, mãe.
E ela me deixa sozinha novamente. Deito na minha cama e deixou a adrenalina se esvair. Amanhã será um dia melhor.
O sono vem ao poucos.
Estar na escuridão já me fez ter muito medo, mas agora eu me sinto bem. As luzes começam a se acender e finalmente eu posso ver onde eu estou. Eu estou no refeitório da escola. Está frio, eu consigo me ver tremer. Eu me sento em um dos bancos e espero alguma coisa acontecer. Uma garota corre pela porta. Eu posso ver suas roupas rasgadas e seus olhos vermelhos. Seu rosto é familiar.
— Quem é você? – Eu pergunto.
Mas ela desata a chorar.
— Está tudo bem? Quer que eu chame ajuda?
— Não adianta eles vão vir me pegar. Eu machuquei um deles.
Eu tento acalma-la.
— Não toque em mim. Eu vou te machucar também.
Eu a pego pelo braço e o frio aumenta. A solto rapidamente, mas os meus dedos ficaram azuis. Ela se assusta e corre até eu perdê-la de vista.
O sol está em meus olhos. Eu me esqueci de fechar a janela ontem à noite. Olho para o despertador, ainda faltam alguns minutos para ele me acordar. Suspiro. O quarto está um pouco gelado. Me aconchego nos meus cobertores e fecho os olhos por alguns minutos.
— TRIMMM – Ele toca sem piedade.
Me levanto em um pulo. Vou direto para o chuveiro e tomo um banho quente. Quero fazer essa sensação de frio ir embora.
Visto uma calça jeans escura e uma camisa branca, prendo o meu cabelo em um rabo de cavalo alto.
Minha mãe já foi trabalhar a muito tempo. Vejo um recado por cima da bancada.
Bom dia, Liv.
Me perdoe por fazer isso, mas ele insistiu.
Aaron te levará para a escola hoje, ele passará por volta das 8:00
Seja gentil, depois conversamos.
Eu não sei o que me deixa mais furiosa, ele ter coragem de se oferecer para me levar, ou minha mãe ser cúmplice disso. Eu poderia ligar para o Bryan ou para a Annie e resolver isso, mas depois de tudo o que está acontecendo isso não é nada.
Sento e como uma tigela de cereal, ligo a TV , mas esqueço eu a queimei ontem. Fico no silencio observando minha tigela esvaziar enquanto eu como vorazmente.
Os dois intrusos não apareceram mais. Depois de ontem, Dennis e Richard não me assombraram mais. Não me sinto mais péssima por eles. Eles mereceram, se isso não tivesse acontecido, eu não estaria aqui comendo o meu cereal.
O interfone toca e me tira dos meus pensamentos. Suspiro. Vamos acabar logo com isso Olivia.
Pego a minha bolsa e vou a passos demorados.
Ele está com a van do Mark. Talvez ele queira tornar isso pior ainda. As coisas não voltarão a ser como era Aaron.
Seu cabelo está bonito, acho que até mais claro. Ele veste uma camiseta preta e uma calça jeans azul. Ele se levanta e abre a porta para mim.
— Pode deixar que eu faço isso. – Eu falo secamente.
Mas ele abre mesmo assim.
Me acomodo. Ele senta no banco do motorista e acelera.
— Liv, bem me desculpe por te forçar a isso, mas realmente precisamos conversar. Esse clima está ficando insuportável. E nossos pais vão se casar, temos que tentar conviver bem.
Ele podia não me lembrar disso. Quando isso acontecer eu pretendo já estar na universidade.
Fico em silêncio.
— Precisamos conversar. Eu tenho que te explicar.
— Aaron, se você quer falar, então fale. Eu não tenho alternativa, tenho?
Ele pareceu constrangido.
— Tudo bem, vamos fazer o caminho mais longo.
Estar tão próxima dele com esses sentimentos ruins está me fazendo muito mal.
Ele virou bruscamente em uma curva.
— Devagar. – Eu disse.
— Minha vida não é mais devagar Liv. E é esse o principal problema. Você sabe o que aconteceu. Você viu com os seus próprios olhos. Eu mudei, quase todos os alunos mudaram. Você e aqueles dois são exceções.
Ele não sabe, nós três fomos o que mais mudamos.
— Eu sou rápido. Estar dirigindo esse carro é um desafio, eu fico nervoso com qualquer tempo perdido. Eu tenho que tomar alguns remédios para desacelerar.
— Essa é minha habilidade principal, mas eu sou um dos pouco que desenvolveu uma secundária. Eu posso sentir o que alguém sente ao tocar nela, ou seja eu posso sentir os sentimentos dos outros. – Ele falou acanhado.
Ele já sabe o que eu sinto, por que me torturar desse jeito?
— Aaron, o que você quer com tudo isso?
— Eu não quero te perder Liv. Você é minha melhor amiga.
Nos aproximamos dos portões da escola.
— Aaron, como você mesmo disse, você mudou.
E falar aquilo para ele doeu no fundo da minha alma. Eu queria falar para ele que ainda somos amigos, que tudo voltaria a ser como era antes, mas eu não consigo mais, eu não consigo mentir para mim mesma.
Bati a porta do carro com força.Quando virei ele já estava na minha frente.
— Liv, não torne as coisas piores. Eu sinto a sua falta.
— Eu também sinto, mas você sabe o que eu sinto, espero que entenda. – Eu disse tentando ser gentil.
Eu comecei a andar em direção .
— Liv, eu sou a sua única esperança. Os outros alunos ressentem sobre vocês.
Ressentem?
— Por qual motivo eles ressentem? Ganhar poderes e ser tratados como intocáveis? Eu gostaria de me ressentir assim.
— Você não entende? Nós estamos presos a isso. Seremos monitorados a vida toda. Vocês três foram milagrosamente salvos de tudo isso.
Se ele soubesse. Talvez ele ressentisse também. Nós fomos afetados, mas por algum motivo, não fomos descobertos. E como Bryan disse. Isso terá que ficar em segredo.
Continuei o meu caminho. Aaron se apressou e pegou a minha mão. Meu coração acelerou e eu tentei me desvincular a todo custo.
— Me solta!
Ele me olhou nos olhos.
— Não se preocupe, eu não estou sentindo. Apenas venha quero te mostrar uma coisa. Ele me puxou até um dos novos prédios, um dos que eu ainda não tinha entrado.
Memorial, era o que dizia uma das salas.
Havia uma parede de metal gigantesca. Vários nomes estavam gravados nela. Velas queimavam no chão e flores de várias cores adornavam aquela sala.
— Esses foram todo que não conseguiram sobreviver. – Ele disse com pesar.
Eu olhei para todos aqueles nomes abismada. No hospital quando me contaram, eu só consegui pensar nos meus amigos, mas agora o meu coração pesa por todos aqueles que eu nem me importei.
Um porta-retratos pousava sobre algumas flores. Uma garota de cabelos castanhos e curtos sorria na foto. O sonho daquela noite me atingiu. Era ela. Aquela garota que estava correndo.
Me abaixei e peguei o porta retrato nas mãos.
— Você lembra da Ágatha? – Ele me perguntou
Ela era uma garota que participava da equipe de atletismo. Lembro dela por que ela foi pauta no jornal da escola. Ela ganhou várias medalhas e estava cotada para participar dos jogos regionais.
— Ela sobreviveu a anomalia. Até acordou do coma, mas morreu dias depois.
— Ela tinha alguma habilidade?
— Não, ela era como vocês. Privilegiados.
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