Cadente

15 Inibição


Eu senti o calor do seu toque, e logo ele irradiava todo o meu rosto. As pessoas se viraram para ver o que acontecia. Assim percebia que algumas riam e outras me olhavam com pena.

— Perdi a aposta. Você não é como eu, aliás, ninguém é. – Rebecca disse antes de baixar a cabeça novamente.

— Senhorita, Rebecca Galiano, você não tem permissão de curar ninguém fora do laboratório.

Curar? Eu olho surpresa para Rebecca que boceja.

Toco o meu rosto. O calor já foi embora. Pego um espelho na bolsa e me olho.

Meus cabelos castanhos estão iguais, apesar da opacidade estar diminuindo, o corte se foi e minhas olheiras são impercebíveis. Até uma espinha que estava bem aparente na minha testa desapareceu. Realmente ela curou o meu rosto.

Olhando para ela vejo que ela está mais cansada que antes. Apesar do susto inicial, eu me sinto bem agora, como se ela também tivesse curado a minha mente.

Rebecca não responde a professora.

— Dessa vez eu vou deixar passar. Mas, Rebecca não faça mais isso.

Rebecca não respondeu. Ela continuou cochilando.

— Agora podemos explicar o que aconteceu para a Olivia Larter. Depois da primeira semana os sobreviventes começaram a apresentar mudanças genomicas. Muitas delas físicas e outras mentais. Sarah Lind você pode vir aqui, por favor.

Sarah se levantou e abriu um sorriso ao se virar para sala, ela parecia mais radiante do que nunca.

Ao olha-la melhor pude notar que ela usava um vestido verde-água, seu cabelo estava preso em um coque desfiado e no seu pulso pousava uma estranha pulseira.

— Isso que está no pulso da Sarah é um inibidor. Ele lança uma proteína na circulação sanguínea que desestimula os seus sentidos e faz com que as suas habilidades tenham um limite pré-estabelecido. Essa tecnologia funciona em quase todos os afetados. Só não funciona com Aaron Collins e Samantha Ives. A proteína não afeta os seus organismos. O metabolismo de Aaron é rápido demais e os super-anticorpos da Samantha destroem a proteína. Rebecca Galiano também não usa, por que não queremos que sua habilidade seja limitada.

Engoli em seco, então o exército está controlando os sobreviventes. Isso me fez ficar tensa.

Sarah moveu os braços delicadamente e uma brisa refrescante me envolveu. Olhei para os lados, as janelas eram lacradas e não acho que o ar condicionado tem o poder de fazer isso. Assim a encarei. Sarah sorria , um sorriso terno e acolhedor, sua marca registrada , que me irritava profundamente.

— Sarah tem a habilidade de desviar e impulsionar correntes de ar. O doutor Trinity teorizou que isso tem ligação direta com as células da pele de Sarah, elas atraem o nitrogênio presente no ar e controla a sua liberação. – A professora desenhava alguns símbolos na lousa enquanto falava.

Eu não entendia muita coisa do que ela falava, eu não era muito boa em biologia e nem química.

— Se a Sarah não usasse a pulseira inibidora, ela não teria controle da quantidade de nitrogênio atraída e assim poderia machucar pessoas. E não queremos isso. Mas basta, estamos aqui para falar de relações humanas.

Rebecca estava roncando do meu lado, mas ninguém parecia se importar. Sarah voltou para a sua mesa e cochichou no ouvido de Samantha.

— Acho uma ótima ideia. – Eu ouvi a voz que saia da boca de Samantha. É tão estranho, eu nunca tinha ouvido a voz dela antes de tudo isso, mas sempre imaginei sendo diferente.Não parece certo.

As duas olharam para mim e sorriram. Com certeza estavam falando de mim.

A aula demorou muito para passar, a professora ficava falando de psicologia, de Freud e de coisas que eu não consegui entender, no final ela disse que nossos comportamentos iriam se desviar desses estudos e que novas teorias surgiriam por nossa causa.

O sinal bateu, e me senti em um flashback, era igual ao antigamente. Se fosse como antes, Aaron viria na porta da sala e nos levaria para o refeitório. Mas, a maioria saiu da sala, sem olhar para trás, apenas eu e Rebecca que ainda estava dormindo ficamos para trás.

Com receio eu a cutuquei.

Ela acordou em um reflexo. Ela parecia assustada.

— Está tudo bem? – Eu perguntei.

Ela colocou a mão no rosto e limpou a marca de baba.

— Sim, me desculpe, é que tudo é tão chato e cansativo.

— Então, está na hora do intervalo. – Eu falei sem jeito.

— Não se preocupe comigo, eu não costumo sair para o intervalo mais, é melhor eu ficar dormindo. – E ela bocejou.

Eu a deixei para trás, minha barriga estava começando a roncar.

As outras turmas também foram liberadas, eu não consegui ver Bryan ou Annie, mas segui com o fluxo até o refeitório.

Os mesmo grupos se formaram. Muitas mesas vazias, enquanto eu não encontrasse Bryan e Annie eu iria sentar sozinha.

Fui até a fila da cantina. Peguei uma salada de frutas e um cappuccino. Me sentei em uma mesa afastada das pessoas.

O cappuccino estava quente e cremoso.

Vi Aaron entrando no refeitório. Seu olhar se dirigiu a mim. Ele sorriu, mas eu não retribuí, prefiro ficar concentrada na minha comida.

Não vejo quando Sarah se senta ao meu lado. Samantha também repete o gesto e fica de frente para ela.

— O que vocês estão fazendo? -- Eu pergunto sem rodeios.

— Apenas almoçando. – Samantha fala com aquela voz estranha.

Aaron toma coragem, e se senta também. Ele me encara. Sinto que ele quer falar alguma coisa.

— Por que vocês estão sentados perto de mim? Aqui é a mesa de vocês?

— Não. Eu acho que deveríamos voltar a ser o que éramos. Amigos novamente. – Sarah diz com alegria.

Aaron não se pronuncia. Tudo isso parece ser muito errado, eu não me sinto a vontade, eles mentiram para mim, me ignoraram e agora querem que eu os aceite como se nada tivesse acontecido. Aaron sabe que eu gosto dele, e não quero conversar com ele, não quero que tudo fique ainda mais estranho.

Minha cabeça começa a doer novamente, e a culpa começa a voltar devagar, fragmentos da noite de ontem me invadem. Parece que a cura da Rebecca não funciona por muito tempo. Pego meu espelho e checo meu rosto. Eu ainda estou curada. Acho que a cura pra problemas emocionais é passageira. Guardo minhas coisas e me levanto da mesa. Aaron tenta me impedir, ele toca o meu braço e solta de uma vez.

— O que aconteceu? – Ele finalmente diz.

Parece que ele sentiu a minha culpa.

Apresso-me e saio de lá, deixando toda a minha comida. Onde estão Bryan e Annie? Eu preciso encontrá-los.

Não há guardas no refeitório, por isso não sou impedida de sair daquele lugar.

OS corredores estão silenciosos e vazios. Entro em um corredor que eu nunca tinha visto, ele está escuro, mas vou mesmo assim.

Eu ouço a buzina do trem. Viro-me e não vejo nada. A noite de ontem não sai da minha cabeça.

Sou puxada para a escuridão, tento gritar, mas minha boca é tampada. As luzes apagadas acima de mim acendem e estouram. Faíscas voam iluminando tudo. Acalmo-me ao perceber quem era.

— Bryan?

Ele me olha um pouco surpreso.

— Depois você me diz o que aconteceu, agora temos que ir resgatar a Annie.