Cachecol Azul e Cabelo Vermelho
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Nunca tive medo de olhar coisas horríveis, mas ficava apavorado com a idéia de nada ver.
Edgar Allan Poe
O dia estava nublado. Em Londres, isso nunca foi novidade. Desde os primórdios esta cidade foi notória por seu mau tempo, e pelo fato de seus habitantes estarem muito pouco familiarizados com o sol. Na verdade, um destes habitantes sequer sabe que nosso planeta, a Terra, gira em torno desta estrela. E estranhamente não se importa e prefere continuar não sabendo. Ele mora na rua Baker, apartamento 221b. E era para lá que o médico John Watson ia naquela manhã, sentado no banco de trás de um táxi e se perguntando por que nunca tinha quisto tirar carteira de motorista. Até mesmo sua esposa dirigia...
O táxi parou. John pagou a corrida, desceu do veículo e encarou o pequeno prédio à sua frente. Uma construção modesta, com uma porta escura que tinha cravada em si os dizeres "221b" em dourado para identificar a moradia. John subiu os três degraus, abriu a porta e entrou. Logo pôde ouvir o som do violino vindo do andar de cima.
—John! — exclamou a boa Sra. Hudson, vindo sorridente pelo corredor segurando um pano de prato. — Que alegria tê-lo aqui!
—Olá, Sra. Hudson.
—Veio ver o Sherlock?
—Sim, eu já ouvi o violino e... Vou subir.
—John... — ela se interpôs entre ele e a escada. — Fale com ele. Ele está muito nervoso. Oh, Deus, desde que aquele rosto horrível surgiu na TV...
—Sim, eu entendo. — John se desviou da Sra. Hudson, subindo as escadas. — Eu falo com ele.
—Obrigado, querido... Talvez você possa arranjar-lhe um novo caso!— ela exclamou enquanto ele subia. — Um bem divertido!
John abriu a porta do apartamento de cima com um sorriso no rosto. A visão que a Sra. Hudson tinha com respeito a crimes acabou por ser influenciada por Sherlock. Um caso divertido? Todos os casos eram crimes!
O apartamento não mudara. Continuava uma bagunça. Itens de laboratório, livros espalhados, nenhuma comida e John nem se atreveu a olhar dentro da geladeira. Logo surgiu Sherlock, com seu roupão azul, tocando violino de olhos fechados.
—Já passou pela sua cabeça que você pode trombar com alguma coisa?
Sherlock abriu os olhos, mas não mudou a expressão. Baixou o violino, olhando ao redor.
—Decorei a posição de todos os objetos neste lugar.
—Incluindo a sujeira?
—Sim, incluindo os livros jogados e o copo que quebrei semana passada. Estou ainda tentando encontrar a minha caveira, a Sra. Hudson parece ser ingênua, mas pelo amor de Deus, é um gênio em esconder coisas!
—Sherlock.
—O que...
—Quando foi a última vez que você saiu daqui? — sem resposta. Sherlock jazia parado, encarando o amigo. John tentou outra pergunta. — Que você comeu? Sherlock, você não está se cuidando! Pelo menos tomou banho, não é?
—Ora John, não seja estúpido! Eu tenho coisas mais importantes com que ocupar minha mente! — ele sai andando, indo até seu mural repleto de fotos e anotações. — E eu tomo banho uma vez ao dia. — completou com voz mais baixa.
—Quatro meses! — anunciou John. — Quatro meses que aquela transmissão assombrou as TVs de Londres, e você não saiu deste apartamento desde então. Eu sei disso, por que os seus mendigos disseram que não te viram pela rua desde então — Sherlock ia dizer algo, mas John levantou a mão, impedindo-o de interrompê-lo. — e eles ocupam cada rua desta maldita cidade... O que é isso, hein? Está se escondendo?
—Não seja estúpido, John!
—Então o que é?
—Estou me preparando!
—Durante quatro meses?!
—Batalhas são pensadas com anos de antecedência! Contra Moriarty nunca se está preparado, você devia saber disso tanto quanto eu! E se por acaso você ainda estivesse aqui me ajudando — John revirou os olhos, soltando uma praga baixinho. — e não aproveitando alegremente sua rotina marital eu poderia resolver tudo mais rápido!
—E como eu sobreviveria aqui? Está tudo uma bagunça, mal respiro por causa da poeira, a cozinha está cheia da cacos de vidro, estou sentindo cheiro de algo morto há um bom tempo... E claro, não tem comida!
—A Sra. Hudson não quis limpar!
—Ela não é sua empregada.
—Ela limpava quando você estava aqui.
—A limpeza era possível quando eu estava aqui.
—Eu não vou me distrair com essas coisinhas enquanto a maior mente criminosa está à solta tramando seus planos!
John ficou calado alguns instantes, daí explode, irritado.
—Mas você tem que comer!
Sherlock solta um rosnado raivoso.
—Isso não tem importância!
—Você vai morrer desnutrido!
—Eu tenho que dar atenção ao que é mais importante, não penso direito de estômago cheio, e enquanto eu como eu poderia estar mentalizando uma forma de deter Moriarty!
—Deter o quê, ele nem apareceu, e nem sabemos se ele está vivo! Pode ter sido um hacker habilidoso e sacana que quis... Trolar a Scotland Yard e adivinha, ele conseguiu trolar o grande detetive, Sherlock Holmes!
O silêncio reinou. John recuperava o fôlego e Sherlock permanecia quieto. Parecia pensativo. Daí ergueu a cabeça, encarando John de forma curiosa.
—O que é trolar?
John não respondeu. Apenas soltou uma risada cansada. Olhou ao redor, mordendo o interior da boca.
—Resolveu algum caso ultimamente?
—Não estou pegando nenhum caso.
—Hã?!
—Eu estou ocupado!
—Mas você não pode... — John é interrompido por duas batidinhas na porta. Sra. Hudson.
—Cliente... — ela dá um passo à frente, tímida. — Eu sei que não está pegando casos, Sherlock, mas essa moça é tão bonitinha, e parece tão assustada... Você poderia pensar no assunto.
John encara o amigo, o cenho duro.
—Peça para ela subir, Sra. Hudson.
O queixo de Sherlock cai.
—Mas...
—Sem mas... — disse John, apontando o indicador ameaçadoramente para Sherlock. — Você tem que voltar à sua rotina, por que eu não vou de novo no seu enterro. Pode chamá-la, Sra. Hudson, por favor...
—Oh, que maravilha... — comemorou a Sra. Hudson, descendo as escadas. John pegou uma cadeira, colocou no meio da sala, daí dirigiu-se a seu sofá costumeiro, sentando-se e encarando Sherlock.
—Talvez Moriarty nunca retorne. Não está sentindo seu cérebro se decompor?
Sherlock não respondeu. Apenas se sentou em sua poltrona de couro, juntando as mãos e esperando.
Logo a cliente surgiu. E o queixo de Watson foi parar no chão.
A mulher tinha estatura baixa, era magra e usava um casaco verde escuro que ia até os joelhos, e luvas pretas de couro. Tinha o rosto aquilino, delicado, e olhos verdes. Mas não era isso o que mais chamava a atenção. Era o cabelo...
Não, não era vermelho. Parecia que estava pegando fogo. Um vermelho tão vivo como John jamais vira. Ele estava lá, hipnotizado pela beleza da cliente, quando ouviu a voz de Sherlock.
—Sente-se, por favor.
John cerrou os olhos. Era impressão sua, ou a voz do amigo saíra tremida.
A moça obedeceu, sentando-se e juntando as mãos sobre o colo. Parecia nervosa. Olhou primeiro Sherlock, depois Watson, daí falou.
—Sr. Holmes?
—Não, eu sou John Watson, ajudo Sherlock. O Holmes é ele.
Ela se virou para Sherlock, ainda sem jeito.
—Obrigado por me receber, Sr. Holmes, sei que não está aceitando muitos casos ultimamente.
—Não estou. Abri uma exceção forçada. Diga-nos qual o problema.
—Bem, meu nome é Violet Hunter, eu moro na rua Chiltern, no Fulham, perto da rua Paddington. Eu... Presenciei um crime. — ela parou, olhando os dois. Neste momento ela estava realmente nervosa.
—Conte tudo, — sorriu John, irritado pela imobilidade e desinteresse de Sherlock. — fique tranquila.
Ela esboçou um sorriso, e continuou.
—Eu estava voltando do trabalho, eu sou garçonete num café no bairro perto da Charing Cross, havia saído do metrô e caminhava, já era noite. Foi... — ela respirou fundo. — Quando eu vi um homem arrastando algo pesado para um beco. Eu olhei só por curiosidade e... Aquilo que ele carregava estava deixando um rastro de sangue. Quando apertei os olhos vi que era uma pessoa... — ela massageou as têmporas, respirando pesadamente. —Eu gritei, fui uma estúpida, ele me viu, eu corri, ele correu atrás de mim, eu entrei na primeira porta aberta que encontrei, subi as escadas, eu ouvia ele atrás de mim... Cheguei ao terraço, não tinha escada de emergência. Ele apareceu, tentou me agarrar, mas foi muito tarde que eu percebi que ele estava me arrastando para a beirada... — ela abriu um sorriso forçado, os olhos fincados no chão. — E eu caí.
—Chamou a polícia quando saiu do desmaio?
—Sherlock... — repreendeu John.
—Sim, claro.
—Deu a descrição do suspeito e tudo o mais que sua cabecinha assustada pôde de se lembrar?
—Sherlock!
—Eu não pude dar uma descrição.
—Então já temos uma solução... — Sherlock respirou fundo, se levantando. — Chato! — anunciou. — Um corpo arrastado pelo meio da rua é até explicável, mas olhar no rosto do assassino, lutar contra ele e ser arrastado para fora de um prédio, e ainda não poder dar uma descrição detalhada já é demais. Eu diria que a senhorita está querendo se vingar, ou então chamar a atenção, tanto faz, se for o primeiro, iria querer se vingar de alguém que te chutou, afinal uma mulher como você não aceitaria um não, ou então a senhorita não está ganhando muita atenção e quer um pouco mais, de qualquer forma não é problema meu e a senhorita sabe onde é a saída.
John estava em choque. Não sabia o que estava vendo. Sherlock estava já de pé, olhando a moça que permanecia sentada, estática. A moça tentou se recuperar.
—Eu não quero me vingar ou ter atenção!
—Teve tempo suficiente para olhar para o assassino, ele estava de máscara por acaso?
—Não, não estava!
Sherlock soltou uma gargalhada.
—Então como pode não haver descrição?
—Eu não posso descrevê-lo! — ela irrompe em prantos, cobrindo o rosto com as mãos. John estava parado, decidindo onde bateria em Sherlock para que doesse bastante. Sherlock estava imóvel, esperando ela parar de chorar. Ela enxugou o rosto, encarando o detetive com uma expressão dura. — Eu caí dentro de uma caçamba onde estavam jogando restos de uma construção do outro lado da rua. Bati a cabeça em algum tijolo, o policial que me achou disse que minha cabeça estava apoiada num bloco de cimento, e isso causou uma contusão grave. Me levaram ao hospital, mas... Eu desenvolvi propasognosia. Não reconheço rostos. — ela baixa a cabeça, fechando os olhos. Sherlock e John estavam estáticos. — Eu não guardo feições de ninguém, nem mesmo a minha. Eu vi o assassino, mas não sei quem ele é. E a minha bolsa sumiu... Se ele pegou ele pode me achar. Não posso ajudar a polícia, e estou com medo. — ela olha Sherlock novamente. — Achei que poderia me ajudar. — ela balança a cabeça, se levantando e saindo. — Desculpem-me o incômodo.
Ela sai, deixando na sala dois homens que pareciam ter congelado. John recuperou o fôlego, olhando para Sherlock e tentando entender.
—Ela tem o quê...
Sherlock voou escada abaixo, não dando nem tempo de John perceber que ele havia saído. Ele saiu para a rua, avistando a moça alguns passos à frente e correndo até ela.
—Srta. Hunter!
Ela se virou, assustada.
—O que...
—Eu aceito.
—O quê?
—Seu caso. Devia ter me procurado mais cedo.
—Eu não sabia sobre o senhor, dei uma esmola a uma mendiga e ela me falou que havia um detetive chamado Sherlock Holmes que poderia me ajudar. Ela fica na frente do hospital onde me internaram, então ela deve ter me visto chegar. — ela abraçou o próprio corpo, olhando-o. — O que o fez mudar de ideia?
Sherlock olhou o chão, daí os prédios, daí encarou-a.
—Tenho que... Voltar à rotina. Tome. — ele lhe entrega seu cartão. — Qualquer coisa, eu disse qualquer coisa, diferente com que você se deparar, me ligue.
—Tudo bem. — ela concordou em voz baixa, olhando o cartão. Sherlock estudou-a rapidamente.
—É melhor não ter vergonha de me ligar ou vou te visitar no Barts e não terei vergonha de estudar seu cadáver, eu fui claro?
—Foi sim. — ela disse, espantada. Sherlock olhava diretamente para seus olhos.
—Vou me informar na Scotland sobre seu caso. Até lá continue com sua rotina.
—Certo.
Ela já ia embora, quando, sem aviso, ele pegou em seu braço, firme mas sem machucar, e aproximou o rosto, olhando-a fixamente.
—Me ligue.
—Tá. — ela gaguejou.
**
—E o que tirou Sherlock Holmes de seu mosteiro pessoal?
John suspirou, cansado. Mycroft Holmes, irmão de Sherlock, sabia que seu irmão nunca atenderia uma ligação sua, portanto ligava para John com o objetivo de saber do irmão.
—Um novo caso, o que mais?
—Que adorável... — disse Mycroft sarcasticamente, e John sentiu-o sorrir. — Este caso deve ter algo especial para levantar os ânimos de meu irmãozinho.
—Nada demais... — John deu de ombros. Não queria esticar assunto com o irmão mais velho de Sherlock. — Moça ruiva, testemunhou um crime, assassino à solta, nada demais.
—Você disse "ruiva"?
John estranhou. A voz de Mycroft voltara a sorrir.
—Disse... Por quê?
—Mande minhas lembranças a meu querido irmão e diga-lhe que logo vou visitá-lo. E mande meus cumprimentos à encantadora jovem que o tirou da casmurrice. Adeus.
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