Caídos
4 "Me provoque. Me beije. Me desafie. Me tire do sério. Vire meu mundo do avesso."
Notas iniciais
Já eram quase 9 horas da manhã quando cheguei em casa. Ninguém havia acordado ainda, o único som que se escutava eram os roncos do meu pai no andar de cima.
Subi a escada sem fazer barulho nenhum e tranquei a porta do quarto. Era meu segundo dia de aula e já ia chegar atrasada, de novo.
Passei uma água no rosto tentando tirar um pouco da preguiça e depois joguei os saltos pretos em um canto do quarto e tirei a roupa da noite anterior, que cheirava fortemente as bebidas da festa. Coloquei um short jeans e a primeira blusa que encontrei no armário.
Do mesmo jeito que subi, desci a escada silenciosamente.
Coloquei o all star preto que estava no pé da escada e depois uma jaqueta que estava jogada em cima do sofá.
Peguei a chave do carro que já estava em meu bolso e liguei o lindo Audi Q7 do meu pai. Ele não iria se importar mesmo, tinha mais dois carros na garagem então, ele não iria ter do que reclamar.
Quando cheguei à escola não havia ninguém no estacionamento, o que já era de se esperar. Na arquibancada tinha apenas uma garota lendo um livro que pela capa parecia ser O Grande Gatsby. Ótima escolha.
Dois garotos estavam sentados debaixo de uma árvore no gramado, acho que os nomes eram Michael e Anthony. Quando passei por eles, o que eu julgava ser o Michael levantou a cabeça e sorriu. Sorri de volta e continuei a andar para aula de física.
Física. Nossa! Oba, Daniel. Meu desanimo com isso, realmente me deixava mal. Eu não estava com vontade de ver a cara dele hoje novamente.
Uma mulher alta e engomadinha passou por mim e depois de 2 passos se virou e gritou em minha direção:
– Ei garotinha! Aonde pensa que vai?
– Para minha aula?
A afirmação pareceu mais uma pergunta, o que fez com que mulher alta e robusta fizesse uma careta nada agradável.
– O segundo tempo terminará em 20 minutos. Terá que esperar na secretaria — Ela estendeu a mão em um gesto de como se fosse para eu ir na frente — A senhorita sabe o caminho.
Não acredito que eu estava descendo os três rolos de escada que eu acabara de subir. Isso é muito injusto, meus pés começariam a doer mais rápido do que o normal.
Me sentei em um banco do lado de fora da secretaria e fiquei encarando o campus. Estava um dia maravilhoso, o sol refletia lindamente na grama molhada e o céu parecia mais azul do que nunca. Sem nuvens, apenas pássaros voando e a leve brisa da manhã.
Ia pegar meu celular para poder escutar musica, quando sinto alguém sentar ao meu lado.
– Sabe, metade da culpa de eu ter chego atrasado é sua.
Daniel parecia usar os mesmos jeans da noite anterior, só que agora com uma camisa vermelha. Seu perfume fazia com que eu ficasse tonta ao inala-lo. Uma sensação boa e absurdamente cheirosa.
– Foi você quem humildemente me acolheu na sua casa e me acordou tarde.
Dei um sorriso seco e fingi estar vendo alguma coisa no celular.
– Eu não quis te acordar. Você parecia... Cansada.
– Eu já estou bem descansada não se preocupe.
Ele olhava para o mesmo lugar que eu olhava minutos atrás. Seu olhar estava calmo e relaxado, como se nada o pudesse atingir naquele momento.
– É o seu primeiro ano aqui não é?
O que ele pensa que esta fazendo? É isso que ele chama de puxar assunto?
– Sim é... – Falei olhando novamente para o campus – E o seu?
– Primeiro ano também.
Certo. Disso eu definitivamente não sabia.
– Nossa – Ele me olhou com um olhar curioso – Eu pensava que você estudava aqui há mais tempo.
– Você não muito sobre mim, Emma.
Escondi um sorriso ao ouvir o som do meu nome sendo pronunciado por ele. Finalmente ele aprendeu, pensei.
– Com certeza não sei.
O silêncio chegava a ser estressante, eu podia ouvir as batidas do meu coração acelerarem a cada vez que Daniel me olhava de soslaio. A luz do dia, seus olhos ficavam mais azuis e seu cabelo parecia mais negro que o normal.
– Por que você se mudou?
Parei pra pensar na pergunta. Na verdade nem eu sabia a resposta, eu poderia muito bem ter ficado com minha mãe e meus amigos com o, porém de não ser desejada lá por ela.
– Meu pai tem negócios aqui.
– Eu acho que você está mentindo.
Olhei-o meio surpresa e disse:
– E o que você sabe sobre mim Daniel?
– Não muita coisa, eu confesso – Ele passou o braço pela minha cabeça e descansou em cima do meu ombro – Mas sei que você não é nem um pouco tímida, pelo contrario. É egoísta e superficial. Tinha uma vida rodeada de garotos e amigas. Seus pais são separados provavelmente por causa de uma traição, sei que você fingiu não ligar, mas no fundo isso te afeta tanto que chega a ter nojo de seu pai ou sua mãe, não sei dizer quem traio quem.
Como ele podia deduzir tudo aquilo sendo que me conhecia á apenas dois dias? Daniel só podia ser um louco pervertido e perseguidor, como eu já tinha pensado antes. Minha intuição nunca falha, ou não.
Retirei seu braço do meu ombro com força e me levantei do banco, já pegando minha bolsa que até então se encontrava no chão.
– Eu realmente sou egoísta e superficial, – Já estava com raiva do Daniel, com raiva de ter o conhecido – mas isso não te dá direito nenhum de me julgar antes mesmo de me conhecer.
Sai andando em direção á sala de aula. Olhei no visor do celular e faltavam 3 minutos para o terceiro tempo.
Percebi que Daniel levantou do banco e estava atrás de mim. Observei sua sombra chegar perto da minha quando ele segurou meu pulso com força e me virou.
– Eu quero conhecer você.
Seu rosto estava a centímetros do meu, podia sentir sua respiração se juntando a minha. Meu corpo se recusava a obedecer minha ordem de sair dali e ir para longe de Daniel, mas seus olhos me prendiam como se só existisse eu e ele no mundo.
Parecia um sonho do qual eu nunca ia querer acordar. Fiz o melhor que pude para me desviar do sentimento que eu estava sentindo naquele exato momento. Era inevitável não me sentir frágil e vulnerável, e até mesmo atraída com Daniel ao meu lado.
Sua boca se aproximava delicadamente da minha. Fechei meus olhos assim que senti nossos lábios se tocarem.
Seu beijo era doce, mas ao mesmo tempo desesperado, como se esperasse por isso exatamente como eu. Sua mão que até então segurava meu pulso desceu para minha cintura, me prendendo junto dele.
Minhas mãos, agora envoltas em sua nuca, se perdiam no seu lindo cabelo negro.
Por mim ficaria ali pelo resto da minha vida, mas sempre existe uma coisa para atrapalhar os momentos perfeitos da vida. E no meu caso essa coisa se chamava sinal para o terceiro tempo e minha consciência dizendo que isso era errado.
Empurrei Daniel com o máximo de força que consegui reunir. Ele se afastou com um olhar surpreso no rosto, com cabelo levemente desarrumado ele parecia ser mais jovem do que aparentava ser sua verdadeira idade.
– Você é louco?!
Minha voz saiu mais alterada do que eu esperava e Daniel sorriu para mim como se eu não tivesse o empurrado ou dito nada. As pessoas já saiam de suas classes em direção á suas novas aulas.
– Fique longe de mim, entendeu?! – Eu gritei, e novamente pareceu que, para ele, eu não tinha feito nada – Fique longe!
Com um ultimo olhar a Daniel, me virei meio que correndo e fui para a minha aula.
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