Caçador
45 Vou passar um ano para tirar o pelo de cachorro da minha roupa!
Notas iniciais
Bom, eles não estão muito bem-humorados. Na verdade, são bem mau encarados, então é melhor eu não bobear, ou viro fantasma na marra.
Passo a mão rapidamente em cima da mesa, fazendo ela explodir em chamas azuis. Reprimo uma careta. Elas não machucam de fato, mas não é agradável. Toco no chão com uma palavra, e um circulo azul aparece ao nosso redor. Os espíritos começam a rodear o circulo, tão rápido quem um mini furacão se forma.
— Quando tempo? — Megan pergunta, olhando em volta nervosa.
— Alguns minutos, no máximo. Até lá, vamos fazer tudo o que podermos.
Me agacho e me preparo para usar um feitiço, mas nesse exato momento a porta se abre e o atendente de Mike entra. Ela fica olhando a cena de olhos arregalados, com os lábios se abrindo em um grito mudo de choque. Então antes que possa sequer piscar três dos espíritos convergem sobre ele. Os vultos pálidos não são o bastante para esconder o corpo dele, infelizmente. Eles literalmente o rasgam ao meio. Pedaços de carne e muito sangue espirram pela sala toda. Uma cena nem um pouco bonita, diga-se de passagem. Até fiquei com pena dele.
Algumas gotas do seu sangue acertam as chamas. Imediatamente elas mudam de cor, passando para um carmim irradiante, um vermelho profundo parecendo milhares de rubis. Entende num estalo. É claro, elas se tornaram chamas de sacrifício. Bom, então vamos lá.
Enfio a mão novamente nas chamas. Dessa vez, elas não provocam desconforto. Estão medianamente mornas, como colocar a mão dentro de um pouco de água quente.
Uma bola de chamas se forma na minha palma. Miro e arremesso a esfera flamejante. Ela percorre a sala toda e vai acertar em um dos espíritos. Ele imediatamente se incendeia, e some com um grito agourento. Muito bem, faltam seis.
As chamas começam a enfraquecer. Devo ter apenas alguns segundos ainda. Levo dois dedos aos lábios e solto um assovio alto.
Imediatamente uma das paredes explode em destroços, como se algo muito grande tivesse sido atirado contra ela vindo de fora. Todos, inclusive os fantasmas, olham para o buraco. Então um dos fantasmas e arremessado por uma força invisível em direção a uma das paredes. Ele grita, um grito agudo como de um morcego, em uma freqüência sobrenatural. Megan tapa os ouvidos. Infelizmente, por ser necromante, eu consigo entender exatamente o que o cara está falando.
— Nas chamas! — Eu grito.
O fantasma é rasgado em pedaços, desaparecendo em seguida. Os outros ficam agitados, sem entender nada. Então mais um é agarrado e atirado nas chamas. Ele se incendeia novamente.
Outros dois tem o mesmo destino antes das chamas se apagarem. Os últimos dois, sem entender nada, se preparam para nos atacar, os únicos alvos visíveis.
Um vem na minha direção, e outro na de Megan. Mas já estou preparado. Não fiquei apenas olhando aquele tempo todo que estava dentro do circulo de chamas. Pulo para a frente de Megan e pego um pó de dentro do bolso.
Vejo com o canto do olho o fantasma que deveria me atacar ser pego e jogado no chão, então pedaços começam a voar, como se estivesse sendo atacado por um cachorro gigante. Mas minha atenção se concentra no que está na minha frente, estendendo a mão descorada. Atiro o pó na cara dele. O fantasma solta um grito agudo, que estilhaça o reboco das paredes. Meus ouvidos sangram, e Megan se joga no chão tapando os ouvidos. Merda, estourou meus tímpanos.
O pó é uma mistura de terra de cemitério, pó de encruzilhada e cinzas do osso de uma pessoa pura. Ah, e outras coisinhas que não vêm ao caso. Já disse, prefiro que não saibam algumas coisas. Para o próprio bem de vocês.
O fantasma se contorce no chão, em agonia. Saco o meu punhal e o apunha-lo. O fantasma some, numa rajada de vento. Olho para o outro, mas ele já sumiu. Ouço um rosnado, seguido de um uivo de vitória. Então algo parece vir em nossas direções.
Ergo a mão e afago um focinho na altura da minha cabeça. Então uma língua invisível me lambe, áspera, e solta um latido feliz.
— Ei, garotão. Tudo bem? Faz tempo, não é? — Eu falo, coçando atrás de orelhas invisíveis, mesmo tendo que esticar um pouco a mão. — Não consigo te ver, é que estou sem as lentes de contato hoje. Mas você trabalhou bem. Tenho uma recompensa para você, só vai ter que esperar um pouco.
Me viro para Mike, que está olhando tudo de olhos arregalados. Megan começa a se levantar de onde está, meio zonza. Retiro o cantil de Sangue de Demônio do bolso e bebo um gole. Uma onda de energia percorre meu corpo, e sinto uma coceira nos ouvidos, enquanto meus tímpanos saram.
— Então — começo, me aproximando de Mike e cruzando os braços. — Se divertiu?
Ele levanta de um pulo, indo em direção a um dos buracos na parede. Solto um leve assovio, e com um rosnado invisível Mike é jogado no chão e marcas vermelhas aparecem em seus braços.
— O que é isso? Tire essa coisa de cima de mim! Socorro! — Os olhos de Mike se arregalam, e a pupila se contrai tanto de pavor que a córnea se destaca. Ele começa a transpirar e a pele empalidece. Ótimo, está com medo.
— Isso não é uma coisa. É um Cão Infernal. Mas respeito com ele. — Eu me agacho ao seu lado. Mike tenta sair de baixo do Cão, mas não consegue. Está preso. — Vamos ver... Um bom castigo para você pelo que fez. Estou em dúvida sobre dois. Um é deixar que esse cachorrinho aqui leve sua alma para o Inferno.
A pupila se contrai ainda mais, quase sumindo.
— Não! Por favor, não! Tudo menos isso! Misericórdia, tenha piedade! Não faça isso... — Ele começa a chorar descontroladamente. Hummm... Parece quer conhece o Inferno.
— Bom, já que insiste, tenho outra.
Estive pensando nisso o tempo todo, desde que tentou trazer meu pai de volta. E acho que é o que vou fazer.
— Sabia que existe um lugar, uma outra dimensão, onde apenas as almas dos mortos e os Ceifeiros podem entrar? — Pergunto, enquanto trabalho. Desenho um grande circulo no chão, e coloco algumas velas que achei num armário no perímetro dele. Desenho cinco pentagramas, uma por cima do outro, em posições diferentes no circulo. Cada ponta de um pentagrama encosta em uma das velas. — É um lugar bem interessante... Alguns dizem que pode ser pior que o Inferno, para quem não deveria estar lá.
Derramo o cantil de Sangue de Demônio no centro do circulo, então acendo todas as velas com chamas negras. Elas mandam uma luz lúgubre sobre a sala. Encho os espaços sem desenhos de alguns pós que eu tirei do Dodge. Dei uma corridinha até ele.
Peço para Megan sair dali. Ela obedece sem questionar. O que vou fazer agora é perigoso demais para ela ver, e ela sabe disso. Jogo uma faísca dentro dos pentagramas, quando termino de desenhar, e começo a entoar um cântico. As palavras são... Sombrias. Antigas, sobrenaturais, não humanas. Muito pior do que qualquer coisa que já tenha usado. Mike grita de pavor e de dor, e ouço um ganido assustado. Mesmo um Cão Infernal se assusta com isso.
A faísca gera uma labareda enorme de chamas, de várias cores. Então um buraco negro surge, tomando todo o circulo. Uma passagem. Ouço sussurros espectrais, coisas que ninguém deve ouvir. Me concentro para não entender nada, apenas saber que o sussurro existe, sem entender palavras. Um vento frio percorre a sala, saindo de lá. Pequenas tiras negras e esfumaçadas saem de lá, então vermelhas, então brancas e azuis. Aumento a velocidade do cântico para mantê-las lá dentro. Se eu perder o controle agora...
Por fim, um som grave ecoa. Assentindo satisfeito, vou até Mike e peço para o Cão recuar. Ele sai de cima de Mike satisfeito por se afastar. Pego Mike pelo cangote e arrasto até a beira do buraco. Ele sequer tem forças para lutar.
Inclino seu corpo na direção do buraco, dando a ele uma visão ótima das profundezas. Seus olhos se arregalam, e a boca se escancara. O rosto começa a ficar macilento e cinzento, a caveira começa a ficar proeminente, assim como os outros ossos. Parece já estar morto, mas ainda vive.
Não vou descrever os uivos e gritos que ouvimos, ou o que vemos. É aterrorizante demais. Apenas saibam que lá é a morada dos Ceifeiros, e para onde todas as almas vão antes de serem designadas para o Céu ou Inferno, ou Purgatório. Não é um lugar para os vivos. Se não fosse todo o Sangue de Demônio em meu organismo, e o fato de ser um grande necromante, e mais o feitiço, só de estar ali perto eu já morreria.
Empurro Mike ali dentro, e deixo o Portão se fechar. Viro de costas. Não vou relatar o que eu sei que vai acontecer com ele. Nenhum ser humano deve saber disso. Assim como nenhum ser humano deve mexer com a morte apenas para obter uma vingança pessoal idiota.
Vasculho o local com o olhar, tentando achar mais alguma coisa interessante. Aparentemente ele não tem nada mais perigoso ali do que uma dose de maconha. Satisfeito, saio por um dos buracos e vou até o Dodge. Megan está encostada no capo, brincando nervosamente com um punhal.
Quando me aproximo, Megan se encolhe. Tento evitar que meu rosto traia minhas emoções, mas algo deve ter escapo, pois Megan se desculpa.
— Desculpe... É o seu cheiro. Está cheirando a morte.
Dou uma pequena fungada na manga, de brincadeira. Mas sério agora, ela deve estar certa. Não estou nem um pouco cheiroso, mas devo estar emanando uma aura estranha depois daquele feitiço.
Megan não pergunta o que fiz com Mike. Acho que ela consegue imaginar.
— Acho que você me deve algumas explicações. — Ela fala, me fitando de braços cruzados. Solto um longo suspiro.
— Ei, Sombra! — Assovio alto, e logo conseguimos ouvir o som de passos abafados. Enquanto eles se aproximam, eu pego uma caixinha do Dodge. Tiro um par de lentes de contato ali de dentro, e entrego o outro para Megan. Me encolho um pouco ao colocá-las, e fico piscando para acostumar a vista. Nunca gostei de usar lentes de contato. — Foram mergulhadas em Óleo Sagrado. Vão permitir que você veja Cães Infernais.
De fato, olhando para o lado eu vejo um grande cachorro, do tamanho de um rinoceronte, bem ao meu lado, sentado e abanando o rabo com a língua de fora. Ele tem características lupinas no corpo, parecendo uma cruza de lobo com cachorro. O pelo é completamente negro e embaraçado, e os olhos vermelho sangue.
Afago Sombra no focinho. Ela abaixa a cabeça e a deita no chão, então fecha os olhos, apreciando o carinho. Dou uma olhada de esguela para Megan, e vejo que ela está olhando Sombra em choque.
Então Megan balança a cabeça, tentando se concentrar. Ela fica alguns minutos com os olhos fechados, e quando volta a abri-los sua expressão voltou ao normal.
— Quer me contar alguma coisa? — Megan pergunta com a voz neutra. Eu hesito por um momento.
— Bom, acho que vamos por partes. Primeiro Chuck, depois Sombra e assim por diante. — Megan acena, me incentivando a continuar. Tomo fôlego. — Encontrei pela primeira vez com Chuck alguns anos atrás. Um simples demônio de encruzilhada. Eu estava no meio de uma caçada a um Daeva, e como deve saber não são fáceis de matar. Acabei me envolvendo com ele. Ele me deu uma mãozinha, e acabamos fazendo uma espécie de acordo. Ele continuava me ajudando, e em troca eu dava cobertura para ele. É claro que existem outras cláusulas nisso. Como só fazer contratos longos, e não muitos por vez. No geral, ele me consegue informações e favores úteis para alguns casos.
— E isso é um dos favores úteis? — Megan pergunta apontando para Sombra.
Sorrio sem jeito.
— É, essa é Sombra. Um Cão Infernal fêmea. É o do Chuck. Ele as vezes me empresta. Na verdade, Sombra gostou bastante de mim.
Megan ri.
— Nossa, um Cão Infernal gostou de você. O que será que isso deve dizer do que você é?
Sorrio contra vontade.
— É... E você é minha namorada. O que isso quer dizer da sua mentalidade.
Megan ri, então faz uma careta.
— Terminou mesmo esse caso?
Eu aceno positivamente. Então fico pensativo.
— Sabe, bem que gostaria de saber como Mike invocou os fantasmas ali para dentro. O feitiço que eu usei deveria ter transformado a sala em um santuário. Ou seja, sem fantasmas e sem demônios.
Megan dá os ombros sem se preocupar.
— O que importa é que ganhamos.
— É. Agora é pegar Jene e dar no pé.
— Para onde pensa em ir agora?
— Sei lá. Para onde houver um caso.
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