Caçador
40 Um chute no saco dói, mas... Mas nada! Um chute no saco dói pra caramba!
Notas iniciais
Tentamos, ênfase no tentamos, ficar meio na nossa. Mas, como sempre, arrumamos briga com mais facilidade do que desgraça atrai povo.
Tudo começou...
Espere aí. Esse papo de tudo começou é clichê demais, por favor. Voltamos para o modo normal de eu narrar.
Naquele dia, após sublimes acontecimentos que marcaram eternamente nossa tão importante vida...
Nah, também não serve. Ah, dane-se.
Joe entra pela porta (não, capaz, entrou pela janela, óbvio que foi pela porta) esfregando as mãos sujas de graxa num pano.
— Acabei de trocar as pastilhas de freio. Só que um dos pistões do motor pareceu meio... Sei lá. Dê uma olhada depois.
— Valeu, vou olhar sim. — Respondo, sentado no chão e encostado no balcão polindo um punhal. — Megan e Jene ainda estão lutando?
— Bom, se considerar Mortal Kombat como luta, então estão.
Faço uma careta. Megan é meio viciada em games, e Jene também gosta, então...
— Se você polir mais um pouco esse punhal, vai ficar transparente. — Joe zoa, sentando num dos bancos. — Para que tanto cuidado, afinal?
Olho feio para ele.
— Isto aqui é o único punhal capaz de matar um demônio.
— E para que servem as facas dos curdos, então?
— É diferente. E são facas, isso é um punhal. — Ergo ele para Joe ver, a luz reflete na superfície marcada por entalhes. — Consegui decifrar o modo que os curdos usaram para fazer as facas. Então entalhei as marcas e fiz os rituais nesse punhal, com algumas adaptações. Já te expliquei sobre o Aço de Dragão? — Joe assente. — Bom, o punhal é feito totalmente disso. Pode matar demônios, dissipar fantasmas, matar lobisomens e ferir seriamente vampiros. Até conseguiria ferir um Sthriga. Bom, na verdade, isso aqui pode acabar com qualquer criatura dessas menores, e também um Anjo. Imagino que é o mais perto possível de uma foice de Ceifeiro.
Joe acena com a cabeça. Imagino que não entendeu metade. Só deve ter pego a parte “matar quase qualquer coisa”.
Enfio o punhal na bainha e entro, indo procurar as garotas. Chego no exato momento em que o lutador de Jene taca o golpe fatal do de Megan. Suprimo um sorriso.
— Bom, em algo ela tem que ganhar. — Comento. Megan me fuzila com o olhar, mas dou um beijo nela e a expressão relaxa.
— Algum caso interessante por aí? Está meio monótono. — Megan comenta, se espreguiçando.
— Não sei... estava pensando nisso mesmo. Está na hora de voltar a ativa. Ficamos aqui por... Três meses? Nunca fiquei tanto tempo no mesmo lugar desde que me tornei Caçador.
Jene ergue uma sobrancelha, surpresa.
— Nunca?
— Nunca.
Ouvimos o som de um carro entrando no ferro-velho, e parando em seguida. Nos entreolhamos, então descemos. Devem ser Caçadores.
Joe já está atendendo o grupo. Digo grupo pois é raro ver quatro Caçadores no mesmo lugar, e só ouvi um carro. Fecho a cara quando os reconheço.
— Merda, a gangue do Paul. — Murmuro. Megan leva apenas um segundo para entender. — Entrem.
Megan volta pela porta e puxa Jene. Mas vejo que as duas ainda ficam escutando atrás da parede. Eu fico ali parado, com as mãos nos bolsos, não fazendo nenhum esforço para esconder meu desagrado. Nessas horas minha aura de necromante, ou o que quer que seja, fica aparente. Não consigo senti-la, mas para os outros deve ser uma sensação desagradável.
Os quatro são brutamontes, não tenho outra descrição. Se os ver a distancia, vai achar que são um grupo de lenhadores que deixaram os machados em casa. Não gosto deles, e o sentimento é recíproco. Já tivemos algumas confusões entre nós, quando nossas Caçadas se cruzaram. Detesto os métodos deles. Infelizmente são bons Caçadores, então sou obrigado a aturá-los pelo fato que seria ainda pior para os nossos números já reduzidos se eu matasse os quatro.
Frank, o maior e mais burro deles (para ser o mais burro, uma porta tem que ter mais inteligência que ele, nenhum deles é conhecido pela astúcia) está contando algo para Joe. Aguço os ouvidos.
— Um caso estranho, por assim se dizer. Decidimos não nos meter depois do caso com o deus pagão. Ficamos na nossa, não é, rapazes?
Os outros concordam ruidosamente, bebendo suas cervejas. Outra coisa que não gosto neles: Estão sempre bêbados. E também fumam muito, sem falar que consomem mais ópio que toda a Londres do século passado. Isso sem falar da maconha.
— O que era? — Joe pergunta curioso.
— Ah, nem tentamos descobrir. Não valia apena. — Bill responde, tomando metade da garrafa de um só gole. — Algumas pessoas sumindo sem explicação. Provavelmente algum ninho ou espírito. Mas era Los Angeles, o que é bem longe.
— Ou seja... — Eu me intrometo, saindo das sombras. — Deram uma de covardes, como sempre.
Eles levam alguns momentos para me reconhecer, e nenhum deles gostou quando viu quem é. Frank empurra a cadeira e me olha com uma carranca, Bill pestaneja, bêbado demais para entender alguma coisa. Henk pula de pé, a mão voando para o coldre. Mas Paul acena para ele recuar.
Paul nem sequer se mexeu na cadeira ao me ouvir. Ele termina tranquilamente de tomar o whisky antes de se levantar e me olhar de cima. Ele é o único do grupo que consegue fazer isso, seus um e noventa e cinco combatendo os meus um e oitenta e cinco.
Fico parado, relaxado, com as mãos nos bolsos observando com desgosto a cara dura e cheia de cicatrizes de Paul. Seu cabelo mais parece uma macha de óleo na cabeça, e a camiseta quadriculada suja e o jeans não melhoram a aparência.
— Lian. — Paul fala. Ainda não consigo adivinhar como consegue sequer juntar duas silabas para falar, com aquela inteligência de... Ele olha em volta, então sorri perverso. — Onde está Megan? Senti falta dela.
— Não precisa me procurar, seu rato imundo, estou aqui. — Megan sai de trás da porta. Praguejo quando vejo que Jene veio junto. — Ainda está vivo?
— Deixem que eu cuido disso. — Sibilo para elas. — Ele é meu.
Megan apenas me mostra o dedo do meio e dá alguns passos, se parando entre mim e Paul.
— Estou, estou vivo beleza. — Paul sorri. — Por que não vem cá tomar uns tragos e deixa esse garoto aí pra lá? — Paul convida.
Megan dá um sorriso sedutor e vai até ele. Paul abre um sorriso presunçoso quando ela chega bem perto...
... Então Megan chuta com toda a força Paul no meio das pernas.
Joe e eu nos encolhemos, e Paul solta um berro e se joga no chão, rolando e segurando os testículos, ou o que sobrou deles, enquanto pragueja.
Bom, esse nunca mais vai ter relações sexuais nessa vida. Não que conseguisse convencer alguma garota a fazer sexo com ele, mas é para isso que existem prostitutas. E ele já gastou uma boa grana com elas.
Megan saca a faca de caça e se abaixa, puxando o cabelo de Paul com a mão esquerda, obrigando-o a levantar a cabeça. Ela encosta a lâmina em seu pescoço.
— Modere a língua, entendeu? Agora comece a falar. O que é esse caso em Los Angeles?
Anotação mental: Nunca irritar a Megan.
Paul tenta falar, mas morde a língua sem querer e cospe sangue. Megan suspira e larga ele, deixando no chão gemendo de dor. Ela se levanta e olha para os restantes.
— Alguém vai contar ou devo repetir? — Megan aponta casualmente para Paul.
— É um caso em Los Angeles. — Frank responde rápido, engolindo em seco. — Algumas pessoas sumiram estranhamente lá. É tudo que sabemos. Temos certeza que é um dos nossos, mas não sabemos o que é.
Megan assente e coloca a faca na bainha.
— Saiam. — Ela ordena. Eles se entreolham hesitantes. — Agora! — Ela fala mais alto.
Eles são bem rapidinhos em pegar Paul e sair correndo. Logo ouvimos pneus cantarem. Megan solta um suspiro cansada.
— É complicado manter a fama de durona. — Ela sorri.
Solto uma gargalhada. Joe e Jene se entreolham nervosos. Nenhum dos dois viu isso.
— Cara, me matei de rir da cara deles. Você é ótima nisso. — falo para Megan, sorrindo. Ela devolve o sorriso.
— Bom, vocês dois tem problemas mentais mesmo, então não é de se estranhar que estão namorando. — Joe comenta. — Vão pegar o caso?
— Claro! — Nós três respondemos ao mesmo tempo. Eu continuo. — Bem que estamos precisando de algo novo. Partimos assim que conseguirmos juntar todas as coisas.
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