Caçador
2 Larkerville
Notas iniciais
Larkerville é uma cidade pequena. Apenas uns dois mil habitantes. Cercada por campos de cultivo, com pouca vida urbana, a maioria das pessoas nem saberia que existe se não passasse por ela acidentalmente.
Eu, pessoalmente, prefiro os centros urbanos com os quais estou acostumado. Como Manhattan, Seattle ou Las Vegas. Mas essa cidadezinha pequena tem algo que as grandes cidades não têm. Algo que me faz voltar aqui com frequência quando não estou Caçando.
Sigo a rua principal da cidade às escuras. Uma cidade pacata, tranquila, inocente. O tipo de lugar comum onde nada acontece. Acho que alguns dos nossos são culpados por a cidade ser tão calma. Deve ser o lugar mais seguro do mundo contra...
Pego um desvio quase invisível. Sigo por uma estrada de terra por mais uns cinco quilômetros, passando por vários campos de trigo e pomares de frutas.
Por fim chego onde estava indo. Um lugar afastado da cidade, quase oculto. Ninguém simplesmente esbarra nele. É preciso saber que existe para achar. E pessoas normais não sabem que existe.
Paro o meu carro no meio do ferro-velho, em frente à uma mistura de loja de conveniências e posto de gasolina. Quando digo ferro-velho, me refiro à vários carros caindo aos pedaços estacionados ali, uma espécie de guindaste e um galpão atrás da lojinha que serve como oficina/garagem.
Desligo o motor e paro por alguns segundos, absorvendo a cena familiar. Ela deve ter ouvido o barulho do motor, mas mesmo que o tenha reconhecido não vai sair. Desligo a música e saio do carro.
Caminho os dez metros até a porta. As cortinas estão fechadas na janela, o que é normal nessa hora da noite. Deixo a brisa fresca da noite me envolver uma última vez, então entro.
Ninguém notaria o pequeno pentagrama dentro de um circulo que está entalhado na maçaneta, mas quem sabe o que procurar...
Respiro o fundo o cheiro familiar. Uma mistura de menta, café e óleo de motor. Cara, como senti falta desse lugar! Olho em volta, vendo o lugar familiar como um todo. As mesinhas para clientes, umas quatro ou cinco, o balcão de vendas com estantes cheias de produtos atrás. As peças de carros e armas penduradas nas paredes, a caveira de um touro numa parede.
Ouço passos, e a porta atrás do balcão se abre. De lá sai uma garota de uns 17~18 anos, por aí. Morena, porte atlético, e bem bonita. Seus olhos negros como a noite estão com uma expressão determinada, então se torna surpresa e duvida.
— Lian? — Ela pergunta, como se não pudesse acreditar em seus próprios olhos.
— Oi Megan. Faz tempo...
Ela não me dá tempo de terminar. Pula por cima do balcão e se joga em cima de mim, quase me derrubando com o abraço.
— Ei, cara — ela fala rindo — faz tanto tempo.
Rio também. E eu com medo de voltar aqui. Parece que ela me perdoou por quase explodir a loja da última vez. Fico observando-a, quando ela se afasta um passo. Mesmo sorriso de sempre, meio atrevido, meio desafiador. Uma boa alma rebelde. O cabelo preto caindo até quase metade das costas. Uma camiseta regata verde, um jeans surrado com tênis All Star. A mesma Megan de sempre.
— Então? — Ela pergunta. — Como foi? Se saiu bem na caçada?
Assinto, indo me sentar numa das cadeiras em frente ao balcão. O balcão é comprido, dando a impressão que o local é um bar. Está bem, podemos classificá-lo como mistura de bar, loja de conveniência e posto de gasolina. Megan imediatamente vai para o outro lado e me atira uma Coca, que intercepto ainda no ar. Abro ela e tomo um gole, deixando a Coca gelada descer por minha garganta e tirar o resto da tensão que sobrava.
— É, mais ou menos. Peguei o poltergeist.
— E...? – Megan estimula, notando o “mas” que está implícito. Suspiro antes de continuar.
— Não sei. Só acho que não é só ele. Tive um pressentimento... E tenho até agora. Algum Caçador passou por aqui nos últimos dias?
— Só o Joe dois dias atrás, mas estava com pressa, algo sobre um Wendigo nas Red Rock.
Tento me acalmar. Isso não quer dizer nada.
— Tem sal nas janelas e portas? Olho de Gato, Chave de Salomão e tudo mais? — Pergunto.
Megan revira os olhos e bufa.
— Esse lugar está lacrado. Você sabe bem. Círculo de sal com 500 metros de raio. Cobre todo o ferro-velho e uma parte das terras ao redor. Nenhum demônio ou fantasma sequer pode chegar perto daqui.
Sacudo o corpo como um cachorro tentando se secar. Preciso parar com isso. Estou ficando paranóico demais. É bom ser paranóico se quiser sobreviver nessa profissão, mas tudo tem um limite.
— Ei, Lian? Você está bem? Ei, terra chamando Lian, ainda está aqui? — Olho para Megan, que está me olhando um pouco preocupada.
Solto uma risada, aliviando o clima.
— Não é nada. Só estou meio estressado. Nada de mais. Uma boa noite de sono vai ajudar. Tem algum quarto ou vou ter que dormir na garagem?
Megan ri também.
— Se quiser fazer companhia para os carros... Se não, bom, só o meu quarto está livre. Tenho mais uma cama nele.
Megan me dá um sorriso sugestivo. Atiro minha lata de Coca (vazia) nela, mas Megan apenas se abaixa, desviando. Então ri e sai pela porta de novo.
Me espreguiço e olho para a rua, abrindo um pedacinho da cortina para olhar para fora. A noite está tranquila. O leve ruído do vento e dos grilos. Fecho a cortina e subo.
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