Caçador
70 Hell
Chuck abre um corta na palma da mão. Com o sangue, desenha um círculo no chão, com uma espiral em seu centro. Então começa a desenhar símbolos entre as linhas da espiral.
Estamos nos fundos do estacionamento de trailers. Só eu, Chuck e Megan. Jenne ficou no trailer, ainda está fraca, então é melhor não se aproximar de algo como uma entrada para o Inferno, e Joe ficou com ela. Robert falou algo sobre “não querer ver isso” e saiu, provavelmente atrás de alguma loja de bebidas. Ele tem andado bem estressado ultimamente.
Na verdade, preferia que Megan também não estivesse ali. Queria fazer isso sozinho, mas seria impossível evitar que ela viesse, então...
A noite está gelada, algo incomum para a estação. A respiração condensa na minha frente. Deve ser cerca de meia noite. As estrelas estão ocultas por nuvens.
— Vamos ser realistas. — Megan fala, parada ao meu lado de braços cruzados, sem tirar os olhos de Chuck. — Você não vai voltar.
Não respondo. Não há o que responder. As esperanças são minúsculas.
— Isso vai ser uma missão suicida. — Ela continua. — Você vai se atirar de cabeça, sabendo que vai dar merda. Apenas esperando que consiga salvar o mundo no processo.
— É uma aposta alta. — Eu respondo. — E talvez eu volte. Se alguém pode conseguir, sou eu.
— Você não é John Constantine. — Megan me corta. — Pare de usar essa pose arrogante e convencida, não vai funcionar. Pare de se inspirar em quadrinhos. Você é Lian Black, um Caçador, e o meu namorado idiota.
— Em Hellblazer, a maioria dos demônios do Inferno recua ao ouvir o nome de Constantine. Mas aqui, no mundo real, Lian Black é uma senha para fazer os demônios recuarem. Eu tenho uma reputação. — Olho para Megan. — Isso é tudo um jogo, você sabe. Um jogo de quem blefa melhor. Sempre foi. E eu ainda sou o cara com melhores chances de fazer isso dar certo.
Ela não responde. Observo Chuck. O círculo parece estar quase pronto.
— Você sabe o que aconteceu com os Winchester. — Megan fala. Não é uma pergunta.
— Sei. — Respondo sombrio. — Lúcifer e Miguel ainda precisam de hospedeiros.
— Eles não diriam sim.
— Já disseram uma vez.
— Para parar o Apocalipse.
— Exatamente.
Megan me olha sem entender.
— Aqueles dois são mártires natos. Se Miguel tivesse entrado com o papinho de impedir Lúcifer... Ou Sam tivesse imaginado que consegue controlar Lúcifer de novo... — Abro um sorriso sem humor. — Apostaria minhas parcas economias que os dois já disseram sim.
— Então por que não temos um combate apocalíptico rolando ou dois Arcanjos muito putos na nossa cola? — Megan pergunta.
— Eu ainda tenho meus truques. Eles não nos achariam.
— Está pronto. — Chuck avisa. — Uma passagem direto para o Inferno.
— O que vai acontecer com meu corpo? — Pergunto ao me aproximar do círculo.
— Vou mantê-lo em segurança. — Chuck promete.
— Espero que sim. — Respondo.
— Me dê seu punhal. — Ele pede. Confuso, saco o punhal e entrego para ele. Chuck observa a lâmina. — Aço de dragão. Uma arma do Purgatório, forjada para matar monstros. Isso vai ser perfeito. — Com um movimento rápido, Chuck abre um corte na região do pulso. Um jorro de sangue escapa, encharcando o punhal. Chuck murmura algumas palavras, e o sangue desaparece da lâmina. Ele me devolve o punhal. — Isso vai ser útil lá em baixo.
— Obrigado. — Eu agradeço enquanto Chuck rasga um pedaço da camiseta e enrola em torno do corte. Um ferimento feito com essa lâmina não é fácil de curar.
— É só entrar no círculo e deixar uma gota de seu sangue cair. — Chuck explica e se afasta. Olho para Megan. Minha boca fica seca.
— Megan, eu... — Não consigo terminar, não sei o que falar. Já saí em missões suicidas, mas nada desse calibre. E nunca fui bom em despedidas.
Ela parece entender. Seu olhar se suaviza um pouco.
— Apenas vá.
Assinto e entro no círculo. Abro um pequeno corte na palma da mão, e fico observando o sangue escorrer lentamente, até uma gota se desprender. Ela parece cair em câmera lenta.
Quando ela toca o chão, uma luz brilha, e eu apago.
Quando recupero a consciência, estou em queda livre.
Se alguém já pulou de pára-quedas, sabe do que estou falando. O frio no rosto do vento, o frio na barriga pelo instinto que diz que você não tem asas então vai morrer, a sensação de velocidade, crescendo cada vez mais, até estar tão rápido que quase não acredita que vai conseguir parar, o chão crescendo, vindo na sua direção, então você puxa a corda, o pára-quedas se abre e você sente o solavanco à medida que sua velocidade diminui.
Pois bem, agora tire fora o abrir o pára-quedas e o chão se aproximando. Imagine estar em queda livre no escuro, sem ver nada à frente do rosto, apenas caindo, cada vez mais rápido. O ar frio te acertando como um martelo, a certeza que vai bater no chão e se espatifar.
A queda parece durar dias. Agora entendi a história de Lúcifer cair por nove dias e nove noites. Provavelmente isso se deve ao tempo diferente no Inferno, mas a queda parece infinita. E estou tão rápido que tenho a impressão que já rompi a barreira do som.
Então eu atinjo o fundo. Caio na água. O impacto que deveria ter esmigalhado meus ossos, me amassado como uma latinha de refrigerante vazia atropelada por um caminhão, apenas me deixa dolorido. Afundo na água por alguns segundos antes de reunir força para nadar.
Quando minha cabeça irrompe a superfície, sugo o ar saturado de enxofre e quase engasgo. Me forço a respirar calmamente, ignorando meus pulmões que parecem que vão explodir. Ar venenoso, já esperava isso.
Percebo que estou em um pântano, e faço um esforço para ignorar que mergulhei ali e provavelmente engoli alguns punhados dessa água. Ando até um banco de areia coberto de lodo e olho em volta. Escuridão, interrompida apenas por um brilho avermelhado que parece não ter uma fonte especifica. À distância posso ouvir gritos de dor, e o grasnido do que parecem aves gigantes. Acho que não quero encontrar os urubus infernais.
Começo a andar. Vago por ali pelo que parecem dias, sem que a paisagem mude, me acostumando lentamente ao ar viciado. A dor e o cansaço aumentam gradualmente, mas não paro de caminhar. Preciso sair dali.
Em algum momento, a textura do chão muda. Olho para baixo, curioso, e desvio rapidamente o olhar. Já vi coisas bem horrendas. Fotos de campos de batalha, campos de batalha ao vivo, massacres feitos por demônios e outras criaturas, mas nada se compara ao estado daqueles milhões de corpos que se estendem até onde a vista alcança, forrando o chão do Inferno. Ocasionalmente ouço gemidos, mas aparentemente a maioria está muito além disso.
Então engulo em seco e continuo caminhando.
Depois de muito tempo caminhando, já quase nem me lembro o motivo de estar ali. Tudo está se apagando da minha mente, dando espaço apenas para o desespero, medo e dor do Inferno. Preciso fazer um esforço para lembrar de coisas simples, como meu nome, o rosto de Megan... Sinto tudo isso se apagando, se distanciando, sem importância agora que estou no Inferno...
E continuo andando.
Uma ideia vem à minha mente, e solto uma gargalhada por não ter pensado nisso antes. O som soa estranho e artificial no Inferno, mas lança um pouco de esperança.
Levo os dedos à boca e solto um assovio, o mais alto que consigo. O som agudo corta por um momento os gritos e gemidos como uma faca cortando manteiga. Espero ansioso, torcendo para dar certo.
Ouço o som de patas gigantes batendo contra o chão, e em seguida algo enorme se choca contra mim, me jogando no chão. Sinto uma língua áspera lamber meu rosto.
— Ei, Sombra, garota! Me deixe respirar! — Grito, tentando tirar o Cão Infernal de cima de mim. Depois de alguns minutos de esforço, consigo fazê-la se afastar. Me levanto e observo Sombra. — Nossa, você é mais ameaçadora aqui.
Realmente é. Na Terra, ela tem o tamanho de um rinoceronte, e parece uma cruza de cachorro e lobo. Aqui... Um pouco mais bestial.
O pelo foi substituído por couro negro, grosso e pontilhado de espinhos. As garras e presas são maiores e mais afiadas, e o rabo termina num esporão de aparência maligna. Um par de chifres curtos sai de sua cabeça. E o olhos vermelhos são malignos, mas ainda é Sombra.
— Ei, Sombra, preciso de ajuda. Preciso ir até um lugar. — Ela vira a cabeça de lado, me observando. O quanto do que estou falando ela está entendendo? — Preciso ir ao ponto mais fundo do Inferno.
Ela parece entender, e solta um ganido que faz meus ouvidos zunirem.
— Ok, você não gosta do lugar, mas é importante. Por favor.
Sombra solta outro ganido, mas se abaixa ao meu lado, num convite claro. Observo-a por um segundo, antes de subir em suas costas. Me sento, tomando cuidado com os espinhos.
— Ok garota, vamos lá!
Ela dá um pulo e desata a correr. Quase me derruba, e preciso me segurar com força. Sombra é muito rápida. Em questão de minutos saímos da planície de cadáveres. Tenho um vislumbre rápido do próximo local, e decido fechar os olhos. Não preciso ver o Inferno. Não sou tão curioso.
Me lembro que Chuck falou que o Inferno foi feito para nos enganar, ser o pior lugar que pode existir. Então é assim que imagino que é o Inferno? E é por isso que para Dean ele era uma paródia de Hellraiser? Chuck disse que eu poderia ver a verdadeira face do Inferno, mas não quero. Para mim, o Inferno é uma merda. O que procuro está em seu ponto mais profundo, e é possível chegar lá, e Sombra sabe como. Para mim isso é o bastante. Não quero ver mais nada.
Sinto Sombra diminuir a velocidade. Abro os olhos sem entender. Estamos numa região montanhosa, coberta por rocha negra. Na nossa frente está o que parece uma múmia que recebeu um banho de ácido sulfúrico. Nada bonito. Acho que não queria ver a verdadeira face dos demônios.
— Lian Black, aqui? — O demônio exclama, me observando espantado. Percebo que Sombra não quer passar, que ele está barrando nosso caminho. Observo seus olhos. Negros como a noite. Ótimo.
Desço das costas de Sombra e dou um tapinha em seu ombro. Ela parece tremer. Normalmente eu me sentiria muito confiante em uma luta tendo um cachorro gigante demoníaco ao meu lado, mas Sombra parece ter medo desse demônio, o que não é bom sinal.
— Desculpe se não o reconheço. — Digo. — Ferrei com muitos de vocês na vida. Qual dos putos idiotas é você?
O demônio abre um sorriso assustador.
— Arrogante como sempre, Lian Black. Pode me chamar de Abbadon.
O nome não me diz nada. Forço a memória, tentando me lembrar, mas é difícil. Não estava mentindo, já acabei com muitos demônios. Alguém espera que eu me lembre de todos os filhos da puta que levaram uma surra?
O demônio parece aborrecido ao ver que não entendi.
— San Francisco, dois anos atrás.
Solto um palavrão. Que merda, tinha me esquecido disso. Provavelmente o demônio que me deu mais trabalho. Quase matou todas as pessoas na cidade, e me deixou fora de circulação por cinco meses. Eu preferiria tê-lo matado, mas tudo que consegui foi um exorcismo. Me pergunto quantos mais vão vir procurar vingança. Considerando o número de caras que querem a minha cabeça, vai ser quase impossível sobreviver.
Ótimo, eleve as apostas.
— Abbadon, eu já te derrotei uma vez. O que o faz pensar que vai ser diferente dessa vez?
Abbadon olha em volta, com sorriso zombeteiro no rosto decomposto.
— Ah, não sei, deixe-me pensar... Vantagem geográfica? Você está no meu território dessa vez.
Sou obrigado a concordar que esse é um bom argumento. Penso no punhal, pressionando minha cintura, pedindo para ser sacado. Decido usar como uma vantagem oculta, e torcer para Chuck ter feito um bom trabalho com ele.
— Meu trabalho anda é matar você. — Falo. — Seria melhor não me desafiar. Estou mais forte que dois anos atrás.
Abbadon ri.
— Sem sal, sem água benta, sem ferro, sem armadilhas do diabo... O que planeja fazer para me derrotar?
— Exorcizamus te, omnis immundus spiritus. — Falo, jogando verde.
Abbadon faz uma careta, como se sentisse dor. Sombra se encolhe ao meu lado. A própria terra parece estremecer, as palavras reverberando no ar. Um exorcismo não é um feitiço que mando os demônios para o Inferno, e sim um conjunto de palavras que causa tanta dor que os demônios, literalmente, colocam o rabo entre as pernas e fogem de volta para o buraco.
— Omnis Satanica potestas, omnis incursio infernalis adversii. Omnis congregatio et secta diabólica, ergo, draco maledicte ecclesiam tuam.
Abbadon ruge de dor e tenta se aproximar, tropeçando. Ele cai de joelhos, me olhando com ódio. As palavras parecem mais fortes, soando como trovões no ar parado do Inferno.
— Secura tibi facias libertate servire, te rogamus, audi nos. — Abbadon solta um rugido de dor. — Adios, bitch. — Completo, dando um passo para frente e apunhalando Abbadon com meu punhal.
O corpo dele se desfaz em poeira, um vendaval nos atinge. Protejo o rosto com os braços, e quando o vento para, não resta o menor sinal de Abbadon.
Volto para junto de Sombra. Ela me observa temerosa. Pulo em suas costas.
— Desculpe por isso garota. Está tudo bem. Vamos lá.
Ela se levanta e começa a trotar. Dessa vez mantenho os olhos abertos. Que venha o que vier. Pode vir todo o Inferno. Eu aguento. Foda-se, eu não vou perder esse guerra.
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