Caçada
2 O final do corredor
Notas iniciais
Escolha seus inimigos com mais sabedoria do que escolhe os amigos.
Bernard Cornwell
Alguns passos a frente
–Acho que a melhor abordagem para usar em um momento como esse é a discrição. Vamos ser amigáveis e chamar o Sr. Holmes somente para uma conversa, aliás, ele é um detetive. Vamos dizer que precisamos da ajuda dele, além do mais, sabemos que tem trabalhado no caso fora de nossas vistas — argumentou Jack Crawford. — Talvez isso o tente.
–O senhor mesmo disse, uma vez, que Sherlock Holmes estava sempre um passo à nossa frente. Não acha que ele já sabe que é um suspeito? Ou melhor, nessa ocasião, nosso principal suspeito? — contrapôs o detetive Nicholas Thompson, atual parceiro de Jack.
O agente Crawford conhecera Thompson ainda na academia e, para o caso específico, solicitara sua ausência na Unidade de Análise Comportamental, equipe que chefiava em Virginia. Jack confiava no amigo, um luxo que não se deixava ter em relação aos que o cercavam e, naquele momento, precisava olhar para alguém sem imaginar se aquela pessoa realmente estaria a seu lado ou o apunhalaria pelas costas.
Como agente da BAU, Thompson trabalhava com a formulação de perfis das mentes criminosas mais complexas em atividade. Seu trabalho era pensar como elas, premeditar o próximo passo e, em seguida, capturá-los.
Eu deveria tê-lo chamado antes de ter entrado na sala de Will Graham..., repreendeu-se mentalmente.
–Provavelmente, mas que escolha temos? — objetou — A cautela pode ser a única arma contra a influência do Holmes mais velho. Em um passe de mágica ele poderia resgatar o irmão, como já o fizera vezes antes...
–Não estamos em Londres, Jack. Realmente acha que Mycroft Holmes teria alguma influência aqui a ponto de deixar o irmão impune? — Nicholas arqueou uma sobrancelha.
Conversavam com as portas do escritório fechadas, somente quem sabia da suspeita que alimentavam quanto a Sherlock Holmes e Will Graham eram, unicamente, os dois agentes.
Ah, e Hannibal Lecter, claro.
–Para ser sincero, eu não quero descobrir — declarou com um suspiro de exaustão. — Você acha que ele mandaria o irmão a Baltimore sem nenhuma proteção? Ou, no mínimo, sem alguém para vigiá-lo?
–Obviamente não. Mas, se esse for o caso, nem o próprio Sherlock tem consciência de estar sendo observado...
–Será mesmo? — interrompeu Jack.
–De todas as formas, a única coisa que sabemos é que Mycroft Holmes está a par de tudo que está acontecendo... Antes de pegar Sherlock, precisamos destruir sua fonte de informações.
–Seria ótimo saber de quem estamos falando — Crawford resmungou enquanto massageava as têmporas.
–Não seja tão preguiçoso, Jack. Qual a única pessoa que Mycroft Holmes confiaria para guardar seu irmão?
–Fora ele mesmo?
–Exato, agente Crawford.
A voz irrompeu pela porta segundos antes de seu dono, o precedendo com um tom de escárnio, mas aquela era somente a entonação que Mycroft Holmes usava para falar com qualquer um.
–Em quem eu mais confiaria, além de mim mesmo? — provocou com um sorriso torto. Trajava-se meticulosamente e sua postura era impecável. Retirou as luvas, sentou-se na cadeira ao lado de Nicholas Thompson e em frente a Jack Crawford, deixando sua bengala apoiada na mesa do escritório. Sua beligerância era algo capaz de tirar qualquer um do sério. — Acho que devemos ter uma conversinha antes que o senhor saia algemando meu irmão.
Ambos os agentes estavam atônitos demais para formular qualquer frase.
–Ah, não fiquem tão alarmados, eu já estava ouvindo atrás da porta há 10 minutos, não me culpe se gosto de entradas dramáticas. Pena não ter gelo seco pelo chão... Não acham? — sorriu mais uma vez.
Tempo atual
Sherlock Holmes sentava-se com displicência em uma poltrona puída que viera inclusa no apartamento. Na verdade, todo o lugar estava mobiliado quando o avistou pela primeira vez, cortesia de seu irmão. Mycroft esforçara-se para acomoda-lo da melhor forma possível, procurando o que mais lhe remetesse a sua antiga moradia em Baker Street, contanto Sherlock não se importava muito com isso. O violino descansava em seu colo e o ex-consultor tinha o rosto apoiado entre as mãos.
Há um mês residia em Baltimore devido sua última complicação em Londres: Charles Augustus Magnussen. Encontrado morto em sua residência. Suicídio.
Ou pelo menos, isso era o que os jornais declaravam. A verdadeira história, no entanto, era bem mais emaranhada que aquela única manchete sobre a morte do "homem de negócios", como Magnussen se autodenominava. Sim, ele o matara, mas que outra escolha tivera? Fizera aquilo pelo seu melhor amigo, para que John Watson tivesse a chance de seguir o curso de uma vida normal ao lado de Mary. Charles Magnussen acumulara muito poder em suas mãos, ele somente encerrara seu reinado. Ninguém podia manter tanta influência sobre outros daquela maneira.
Contudo, às vezes, era inevitável perguntar-se... Qual característica o distinguia de Charles? Uma mera linha tênue, talvez. Sherlock possuía as informações, mas não se importava com elas. Charles as usava como escudo protetor.
Não, eles não eram similares. De forma alguma.
Sherlock estava mortalmente entediado. Uma das condições impostas por Mycroft para sua liberdade era que ele não deveria fazer parte de nenhuma investigação. Regra que, ambos sabiam, em determinando instante ele quebraria.
O único problema agora não era mais a simploriedade dos casos, mas sim o fato de que Sherlock não estava em Londres. Não podia mais passar por cima da Scotland Yard e contar com a cobertura de Gregory Lestrade, a companhia de John Watson, ajuda de Molly Hooper ou proteção do irmão.
Sherlock Holmes estava sozinho.
~x~
–São 10h45 da manhã, meu nome é Will Graham e estou... Não sei onde estou.
Will olhou o ambiente a seu redor. Estava em um cômodo bagunçado, o papel de parede em tons de lilás claro indicava que pertencia a uma garota. Cama de solteiro, guarda-roupa e cômodas com gavetas rosa, fotos que mostravam uma suposta família feliz espalhadas por todos os locais. Tentou recordar como fora parar ali, porém sua mente parecia-lhe algo completamente inacessível.
Sentiu falta de ar e notou que suava copiosamente. Seguiu na direção da porta e viu-se em um corredor estreito. Coberto de sangue.
As manchas indicavam marcas de mãos. As vítimas foram arrastadas ainda vivas enquanto sangravam. No entanto, o mórbido tom vermelho não tinha início no quarto da menina — que também não apresentava sinais semelhantes — mas sim em uma porta mais adiante.
O quarto dos pais, pensou Will.
Ele forçou suas pernas a continuarem andando, um passo após o outro, porém o medo do que encontraria no final daquele corredor o mortificava. Tinha espasmos nos músculos e sentia a mais absoluta exaustão. Qual fora a última vez que dormira era algo que não saberia especificar.
Seu estômago despencou quando deparou-se com a quadro que lhe aguardava no final de sua tortuosa caminhada.
Uma mulher e um homem, os dois sentados com a postura impecável no sofá. Impecável demais. Estavam firmes graças ao encosto atrás de suas colunas que seguia até a cabeça, amarrado nas cinturas e testas. Os olhos foram mantidos abertos, perpetuando a última visão de horror que tiveram em vida. A garganta fora cortada tão profundamente que a cabeça quase se separara do corpo.
Tremulou diante a visão, entretanto o que lhe atormentava não era somente a cena macabra, mas de que forma ele estava inserido nela.
Sem que tivesse tempo para absorver a enxurrada de informações, um pensamento lhe perpassou subitamente.
Onde estava a criança?
E, sem que Will Graham soubesse, Sherlock Holmes fitava a casa do outro lado da rua.
Fale com o autor