CINZAS E BRUMAS
22 SONHOS E PERSEGUIÇÃO
Após deixarem Zadarmo para trás, John e Sike seguiram em direção a Zival, o vilarejo oculto dos Homens-Feras. Caminharam sob o manto da noite e, ao primeiro sinal de claridade no horizonte, decidiram que era hora de repousar. Sike soltou a bolsa pesada que Eudora lhe entregou e começou a distribuir os suprimentos.
John, mastigando um pedaço de pão com a voracidade de quem não comia há dias, quebra o silêncio:
— Hum... então teremos que atravessar as Montanhas de Ferro, não é?
— Sim — responde Sike, também comendo. — Mas há um desfiladeiro entre os picos onde o caminho é surpreendentemente simples de atravessar. É exatamente lá que Zival se esconde.
— Isso é bom... mas você tem conhecidos naquela vila? Eles permitem uma travessia assim, sem perguntas?
— Pode não parecer, John, mas os Homens-Feras são muito receptivos — explicou o mago. — Embora sejam um povo naturalmente voltado para o combate, eles possuem um código de honra simples: se você se demonstrar forte e digno, eles o receberão sem desconfiança. Nesse quesito, são bem parecidos com os Dracos de Drake.
John para de mastigar por um instante, o olhar perdido nas montanhas.
— Dracos, hein... Quando eu era mais jovem, sempre tive curiosidade em enfrentar um. Mas, com as relações comerciais estáveis entre Rôga e Mahuma, esse embate nunca foi necessário.
Sike solta uma risada, os olhos brilhando de curiosidade.
— Haha! John Dickson contra um Draco. Como será que isso acabaria?
— Talvez agora, tão perto de um território em guerra, possamos descobrir — responde John, com um sorriso seco.
Sike muda de assunto, analisando o estado deplorável do companheiro.
— Aliás, John... você ainda está com essa armadura amassada e essas roupas rasgadas. Por que não aproveitou para comprar algo novo em Zadarmo?
— É mesmo, esqueci de gastar meu "salário de fugitivo" na cidade onde meu rosto estampa todas as esquinas — ironiza John. — Como fui burro, não é, Sike?
— Tá legal, entendi! Não precisa esculachar, beleza?! — Sike resmunga, irritado.
John ri, mas a expressão logo torna-se sombria.
— Não é só pelo ouro, Sike. Estas roupas... elas me lembram por que eu tenho que lutar. E por que eu tenho que matar Luces.
Sike percebe o remorso profundo naquelas palavras e decide respeitar o silêncio do amigo. No entanto, uma dúvida maior o incomodava.
— John... o que você pretende fazer após a queda daquele verme?
— Como assim? — John responde genuinamente surpreso.
— É. Você vai se tornar o novo imperador? Ou vai simplesmente sumir do mapa?
— Eu... não pensei nisso — admite o cavaleiro.
Sike torna-se sério, sua voz carregando uma sabedoria que parece velha demais para seu corpo jovem.
— John, a vingança é um ótimo combustível, mas quando o fogo consome tudo, o que resta? Satisfação? Dor? Solidão? No fim, não importa o que você sente, mas sim o que você vai fazer com o que sobrou de você. Ter um sonho é o que nos mantém humanos, John. E você ainda é um humano. Não se esqueça disso.
As palavras deixam John em um silêncio reflexivo. Ele admira como Sike, apesar de tudo o que sofreu nos laboratórios, ainda consegue enxergar além da guerra.
— E você, Sike? Qual é o seu sonho?
Sike estufa o peito, os olhos brilhando com uma convicção renovada.
— Meu sonho, John? É me casar com pelo menos três esposas muito bonitas e ter uma penca de filhos com todas elas!
John sente a decepção subir pela garganta.
— "Mulherengo desgraçado... por que eu esperei algo profundo vindo dele?" — pensa o cavaleiro, massageando a testa.
Após a pausa, ambos voltam a caminhar. O terreno torna-se mais íngreme e o ar, mais frio. Após alguns passos, Sike comenta casualmente:
— Ah, esqueci de mencionar. Você também percebeu que estão nos seguindo, não é?
— Sim, eu percebi — responde John, a mão descendo discretamente para o punho da espada. — Mas eu estava com tanta fome que decidi ignorá-los por um tempo.
— Bom, não podemos levar esses sujeitos para a vila, não é? Seria falta de educação com os anfitriões.
— Concordo — conclui John, parando subitamente e virando-se para a mata. — Vamos acabar com isso agora.
Ambos se posicionam, a mana de Sike começa a crepitar enquanto John desembainha o aço, prontos para enfrentar as sombras que os vigiavam.
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