CINZAS E BRUMAS
45 EXPLICAÇÕES E CHEGADA
Ao amanhecer, os quatro partem em caminhada rumo à Cidadela. Enquanto avançam pela floresta, começam a conversar sobre várias questões e acontecimentos recentes. Durante a conversa, Sike fala agitado, ainda processando a informação:
— Opa, peraí! A senhorita Mirabel é a princesa de Drake?!
Mirabel, com a mão atrás da cabeça, responde sem jeito:
— Bem... sim. Isso mesmo.
John entra no meio da conversa e diz com tom sério:
— Então, pelo que você explicou, você não veio para Vilini de propósito, não é? Isso pode ser um pouco perigoso se Drake descobrir que a princesa deles está na nação inimiga. Não acha?
Mirabel responde ao cavaleiro:
— Eu... não me importo com o que aconteça comigo, senhor Dickson. Já aceitei meu destino há muito tempo. Mas, graças ao Príncipe Lórien, posso ao menos realizar um desejo meu antes de retornar ao meu país.
Lórien então a questiona com a voz baixa e tensa:
— Você... pretende retornar? Se fizer isso, senhorita Mirabel, será presa. E se descobrirem que esteve em território inimigo e retornou ilesa, poderá ter um destino ainda pior... O Rei Mahuma é conhecido por colocar a lei de seu povo acima de tudo.
A princesa dá um pequeno e triste sorriso e diz:
— Haha... Eu sei disso, Lórien. E é justamente por conta disso que pretendo voltar. Não posso expor você e o seu povo a mais perigo desnecessário!
O elfo murmura em um tom amargo:
— Entendo...
Logo após a fala, o príncipe tosse violentamente e perde a força nas pernas. Sike, que estava ao seu lado, o segura prontamente para que não caia. O resto do grupo para, preocupado, mas o elfo diz calmamente, limpando o canto da boca:
— Estou bem! Só preciso fazer uma recuperação um pouco mais longa. Sike, eu devo te agradecer. Se não tivesse me selado no gelo, provavelmente meu corpo já teria se desintegrado por completo com a infusão do meu Lonnai.
Sike responde com franca preocupação:
— Ahh, seu idiota... Como pode fazer algo tão irresponsável?
Lórien retruca, ofegante:
— Por favor, me poupe dos sermões... Creio que receberei o suficiente deles quando chegarmos à capital.
O grupo então volta a caminhar. John, curioso com a dinâmica dos dois, pergunta a Sike:
— Então, Sike, como você conseguiu uma dívida de vida com o Príncipe dos Elfos?
Lórien entra no meio, interrompendo e cobrindo o rosto com a mão livre:
— Ahh, que história vergonhosa...
Porém, Sike conta com entusiasmo:
— É mesmo! Tudo começou uns dois anos depois que cheguei a Zadarmo. Eu tinha me instalado na taverna do Jenkins. Como precisava ajudar a Eudora com os custos, eu caçava algumas criaturas nas fronteiras. Num belo dia, encontrei esse cara todo arrebentado, caído sozinho no meio da floresta antes de chegar a Zival, a vila dos homens-feras. Então eu o carreguei nas costas até o território viliniano, onde alguns guardas o levaram para a Cidadela. Ah, e eu ganhei essa belezinha dele antes de partir!
Sike puxa orgulhosamente o medalhão de Kidma que carrega no bolso e o mostra a John.
John, surpreso, pergunta ao elfo:
— Príncipe Lórien, eu vi o seu nível de poder contra aquele cara na clareira. O que o deixou tão ferido e à beira da morte naquela época?
O elfo dá um longo suspiro e diz:
— Ahh... fui eu mesmo que me deixei daquele jeito.
O cavaleiro fica surpreso com a resposta inusitada. Sike apenas ri e fala:
— Ha! Essa parte é boa!
Lórien confessa, profundamente envergonhado:
— Na época, eu estava treinando o despertar do meu Lonnai, porém, eu ainda não tinha a permissão da Rainha para despertá-lo. Fazer isso sozinho, sem as preparações corretas, é um risco absurdo. Mas eu fui teimoso e arrogante ao pensar que seria a exceção à regra... Comecei a treinar o despertar escondido, fora do território de Vilini, sempre que tinha a chance. E, daquela vez, nada deu certo. O despertar que tentei forçar de maneira errada e prematura causou um colapso e quase me matou. Se não fosse por esse mago, eu realmente não estaria vivo hoje.
O príncipe abaixa a cabeça, com um olhar de autocobrança:
— É ridículo, não é? Um príncipe e general que deveria proteger os outros e ser um pilar de força... mas que sempre acaba sendo salvo no fim das contas.
John para de andar, vira-se para o elfo e responde com firmeza:
— Ridículo? Onde no mundo querer ser forte para proteger os outros é algo ridículo? Pelo que eu vi e escutei sobre você, Príncipe Lórien, posso afirmar que estou honrado em caminhar ao seu lado.
O elfo fica sem reação com as palavras genuínas e pesadas do ex-Mestre Cavaleiro. Após um momento, ele diz com gratidão:
— Realmente, o senhor é um homem admirável, Senhor Dickson.
Lórien então se lembra do motivo inicial do encontro e questiona:
— É mesmo... o que os traz até Vilini? Precisam de algo ou de ajuda?
John e Sike trocam olhares, sem jeito de pedir algo tão monumental (como ajudar a derrubar o Império) para o príncipe naquele exato estado e momento. Então Sike fala, disfarçando:
— Bom, vamos primeiro chegar à Cidadela, Lórien. Acho que essa explicação é melhor fazer lá dentro, com calma.
Lórien concorda, e todos seguem viagem.
Após mais algumas horas de caminhada pesada, a paisagem se abre e eles finalmente começam a ver a grandiosidade de Kidma. Árvores colossais e majestosas erguem-se como torres naturais; a arquitetura é limpa, delicada e perfeitamente integrada à natureza. Portões fortes e gigantescos protegem muralhas enormes que circundam o lugar. No centro de tudo, um tronco imenso e ancestral se estende até rasgar as nuvens no céu.
Nesse momento, a draco, o cavaleiro e o mago ficam boquiabertos e completamente impressionados com a visão esmagadora. Então, Lórien aponta para a frente e os apresenta ao seu lar:
— Chegamos! Essa é a grande Cidadela de Kidma!
Enfim, após muito sangue e suor, todos chegam ao destino em comum.
Fale com o autor