Céu Acinzentado
3 Capítulo 3: Fuga
Notas iniciais
Eu tinha minhas costas apoiadas sobre a porta fechada. Ainda podia ouvir os sons externos, do inferno do qual havia sido salvo, mas agora, minha concentração estava em outro lugar.
Minha dor de cabeça e minha náusea haviam sumido. A figura que contemplava agora por si só foi capaz de amenizar meu terror. Apoiada sobre minhas pernas, estava a garota, com seus cabelos longos e desfiados lhe rodeando seu rosto delicado. Ela se aproximou de minha face com seus dedos finos. Meus olhos se encontraram com os seus. Será que ela iria chegar mais perto? Será que seria suificiente para que tivesse desejos em estar com -...
Meus pensamentos foram interrompidos por um baque forte na porta. Ela não se assustou, havia erguido a mão para segurar a porta, não para me tocar.
"Levanta! Me ajuda a empurrar a estante!" — Eu pude ver como sua voz era delicada, mas corajosa. Eu me levantei e dei a volta em uma estante com objetos de uso médico que havia naquele quarto ao lado da porta e selei com um peso enorme a passagem para a criatura do outro lado. Que força eu tenho! Foi a minha possível primeira vez a testando.
"Agora sim estamos seguros. Meu nome é Claire. Eu vim aqui para procurar algo de valor que esqueci aqui. Quem é você?" — Ela disse com formalidade.
"Eu não faço a menor ideia. Eu não me lembro de nada além de acordar ao seu lado nesse buraco escuro e... Espera! Estamos ignorando o que quer que estava la fora! Que merda era aquela!? Por que a minha cabeça dói quando faço contato visual com ele!? — Eu parti para uma ofensiva contra a garota inocente, logo percebi meu erro. — Desculpa, eu estou um pouco tenso. A minha cabeça tá sangrando também...- Isso dói...
Ela não mostrou muitos sinais de espanto quanto ao meu discurso, na verdade, ela parecia entretida em olhar para minha cabeça. Ela subiu na maca para que pudesse enxergar o topo da minha cabeça e pediu para que eu não me mexesse A posição que tomamos assimilava macacos tirando piolho, o que achei hilário: eu me lembrava sobre o que eram macacos mas não sobre minha família. De qualquer forma, ela enfiou a ponta da unha no ferimento e eu senti uma dor aguda e dilacerante, de lá, ela retirou um objeto. Ao dar a volta e me entregar o objeto, pensei que nunca poderia imaginar que uma coisa dessas estava na minha cabeça: uma bala.
Uma bala pequena e dourada, parcialmente coberta por meu sangue. Como ela poderia ter chegado lá? E mais importante, se eu tivesse me matado, como diabos uma bala não seria capaz de atravessar meu crânio e parar no couro cabeludo?!
-Tudo nessa cidade parece estranho, mas isso aí é a pior das coisas que já ví até agora, cabeça-dura! — Ela parecia tentar me animar, mas nós dois sabíamos que se havia uma bala na minha cabeça e eu ainda estava de pé, significa que alguém havia me "marcado".
Depois de um silêncio considerável, decidi perguntar o que ela fazia aqui.
" Eu morei nessa cidade com minha família durante minha infância. Decidi procurar meu apartamento e rever algumas memórias, mas vou te dizer uma coisa: essa neblina que está sobre a cidade inteira e o fato de estar deserta, são naturais.
Silent Hill era uma cidade comum, do interior. Tinha um estilo de vida comum e uma religiosidade comum, até que um incêndio devastador destruiu as minas de carvão à uma década, e o lugar passou à ser inabitável. Eu corri quando acordei, porque achei que iria morrer sufocada com os gases, mas parece que apesar das cinzas que caem do céu, está tudo bem com o ar. Sinto muito por fazer você achar que estava me perseguindo."
— Haha, de qualquer jeito, temos que sair daqui, certo? Se a cidade é tão perigosa, temos que dar nosso jeito e encontrar civilização, certo? — concluo.
Ela riu e consentiu, apesar de lembrar de deixar de achar o que procurava, parece que ela percebeu que havia algo errado.
Empurramos a estante e espiei pela fechadura, não havia ninguém. Abri a porta e saímos em disparada, mas descendo as escadas percebi que faltava cavalheirismo, Claire estava descalça, desde o começo. Dei meus calçados gastos para ela e fiquei só de meia. Continuamos à correr. Passamos pela sala de espera devastada e saímos pela porta do hospital. Descemos por uma rua enevoada, ela liderava o caminho, pois o conhecia. Passamos a andar mais devagar, sempre olhando para os lados e tendo certeza de que ninguém nos observava e chegamos à mais uma rua deserta (que surpresa! ).
— À partir daqui não é mais a cidad... AAH!! — Claire havia parado, olhando o que estava à nossa frente: Um penhasco enevoado, aparentemente muito, muito alto e perigoso. — M-mas o que é isso?!
Eu me acalmei quando ela disse que isso era normal, mas devia haver uma ponte muito longa e resistente naquele lugar, e não é possível que algo assim suma desse jeito. Mas eu entrei em desespero: ela disse que aquela era a única saída de Silent Hill.
-Vamos morrer! Presos, com essas coisas atrás da gente, não há como sobreviver! — Expressei meu desespero. Mas em Silent Hill, população: 2 , eu parecia ser o único desesperado, Claire não ligou para o fato de que estavamos presos lá. Ela sorria como se nada havia acontecido.
- Pense bem, se você não tem memória, não há para onde ir. Que tal viver aqui comigo? Para sempre? — Ela disse sorridente.
Hesitei uma resposta, mas percebi que ela havia menosprezado minha existência ao fazer parecer quase como se eu não tivesse lugar no mundo.
- O que você quer dizer com isso?! — Pondero em uma pergunta crucial, que mostra que ela devia saber que há um jeito de sair da cidade, mais importante, o que ela quis dizer com para sempre?!
Ela passa a sorrir gentilmente. Tudo foi ficando completamente escuro mais uma vez.
"What a horrible night to have a curse."
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