Cárcere Das Almas
9 Capítulo 9 - Love is a losing game
– Quem te deu esse direito? – Perguntou levantando-se do sofá.
Claire tentou segurá-la pelos punhos, tentando impedir que avançasse sobre o pescoço do maldito padeiro. A morena quase não a reconheceu quando ela começou a usar a força para tentar se desvencilhar. Meia dúzia de palavras — que ninguém jamais saberá foram suficientes não para acalmá-la, mas para pelo menos fazê-la aquietar-se novamente.
Oscar mal conseguia se manter de pé. A cor dos lábios fugiram para bem longe junto com a força das pernas. Hatim tentava apoiá-lo nos ombros, mas o orgulhoso o empurrava sempre que alcançavam a estabilidade.
– Ora, ora. Mas por que todo esse incomodo senhorita? – Perguntou Manuel com tom malicioso na voz – Será até mais lucrativo para seu bolso que uma despesa seja cortada. No exército ele terá o que beber e o que comer, de graça! Pagando apenas com sua bravura e fidelidade à Pátria!
– Cale a boca, seu português avarento! – Disse Hatim levantando o indicador bem na direção do nariz alongado de Manuel.
– Parem com isso, já! – Disse Oscar retomando a postura ao sentar-se ereto numa poltrona – Eu realmente acho que o senhor é deveras atrevido por meter o bigode na vida dos outros... Mas por outro lado, agradeço a oportunidade. Não vou me acovardar nem esconder-me nas saias de Marie para não ser encontrado pelo exército. Lutarei se for preciso, mas por dinheiro. A França não é a minha pátria e eu nunca a terei como mãe...
Antes que Oscar terminasse o discurso, Marie previu seu final e lançou um olhar cheio de mágoa — que mais tarde seria matéria prima para um digno poema romântico britânico — para o mais corajoso homem trêmulo, na tentativa de mudar sua opinião. Mas efetivamente importante aconteceu, nada além de uma pausa e uma longa mirada entre os dois.
– Diga-me onde posso encontrar os oficiais, Seu Manuel. – Disse finalmente antes de soltar todo ar dos pulmões.
– Acho que você tem de se apresentar como soldado do rei. Não sei bem, basta mostrar que está ao lado deles.
Eles não deram muito prolongamento na conversa apenas falaram sobre detalhes, mas antes que terminasse Claire puxou Marie para fora da sala. Foi arrastada até a cozinha, lugar onde nenhum ouvido de tuberculoso ou português intrometido chegaria.
– Está louca?! – Exclamou Marie.
– Louca é você de tentar impedir a ida de Oscar. – Respondeu Claire espiando pelo canto da porta se alguém estava vindo naquela direção.
Ficou de guarda por uns instantes enquanto Marie reclamava com os braços cruzados sobre o busto.
– Está com ciúmes, Claire? Deus! Mas eu só não quero ver meu amigo estirado com a cabeça cortada em praça pública...
– Não seja dramática. Escute... Quem melhor para proteger Oscar que não o rei? Ele vai ter tudo e muito mais que um prato de comida, vai ter a Igreja e os granfinos todos do lado. Pode até ganhar reconhecimento, espaço! Nós não sabemos o que vai acontecer, só que é algo de muito ruim... E Marie, pense um pouco em você, se Oscar for um pouco grato ao que fez, também irá cuidar para que esteja segura...
Claire conseguia expor todo seu pensamento sem demonstrar interesse, jogando apenas informações para que a amiga compreendesse sozinha onde todo caminho ia dar. Era, principalmente, em momentos como aquele que Marie se dava conta de sua esperteza e sagacidade em tirar dos problemas algo para seu próprio benefício.
Continuou falando resumidamente o plano enquanto enchia um copo d’água para Marie, tomando todo cuidado para interromper ou mudar o rumo da conversa caso alguém aparecesse de surpresa.
– Acha mesmo que é o melhor para ele? – Perguntou Marie virando o copo em mais uma golada.
– Para todos.
Não demorou dez minutos para Oscar aparecer na cozinha com Hatim nos calcanhares falando sem parar, rogando-o pragas até a quinta geração por estar, como ele mesmo disse, “infringindo o código dos amigos” ao sair de perto dele e se aventurar numa guerra que nem era dele.
– Oh, me deixe em paz, Hatim. Ainda temos muito o que limpar. Prefiro que vá lavar as janelas a falar na minha cabeça. – Disse virando o saleiro na palma da mão.
As mulheres encararam Oscar comendo sal com enorme espanto. Ele só se deu conta quanto terminou de lamber a palma da mão e as viu observando sem piscar.
– Que foi? Fiquei com pressão baixa!
E elas permaneceram caladas, paradas, estáticas.
– Quer saber? Eu vou limpar! É o melhor que eu faço. – Disse jogando os braços para o ar ao sair da cozinha.
– Ele não parece muito feliz... – Comentou Marie acompanhando em círculos a borda do copo de vidro que tinha bebido água.
– Ah, deixa disso. Vamos, vou levá-la para passear hoje a noite. Vai ser bom para você se afastar de casa e dos problemas por um tempo.
Passaram o resto da tarde tirando vestidos do armário de madeira do quarto de Marie. Era estranhamente frio naqueles fins de tarde quando lia um livro, mas com movimento, o barulho da madeira rangendo com os passos masculinos e o falatório de Claire ele logo pareceu mais aconchegante.
Enquanto fingia ouvir as dicas de combinações, as tendências e a moda das estampas em tons pastel; pensou em como foi triste a repercussão da noticia recebida pela manhã. Não apenas a noticia em si, mas o modo como Oscar resistiu e lutou contra os próprios sentimentos. Como deixou sua masculinidade se sobrepor em função de um trabalho que ele ao menos considera digno.
Lutar pela França e pelos ideais de liberdade era uma coisa que ela teria feito sozinha, por si mesma. Agarrado uma bandeira vermelha e não se importado de sair gritando pelas ruas o valor dos trabalhadores. Mas era diferente... Oscar não era francês e ele nem sabia o que estava arriscando ao ficar ao lado do Rei.
– Você está tão linda! – Exclamou Claire virando o espelho para que Marie pudesse ver o resultado.
– Não acha que estou muito arrumada? – Perguntou levantando as mangas de renda costuradas ao pano azul claro com fios dourados. – Sinto-me uma cortina!
Claire sorriu e rodopiou pelo quarto abraçada a uma anágua. Cantarolou um ritmo novo, alegre, bom de se ouvir. Bom para fazer os pés se moverem também.
– Hoje o seu sorriso é por minha conta. E eu não quero que você esteja apenas linda, senão estupenda! Vamos dançar toda a noite, comeremos e beberemos até cairmos mortas numa cama.
– Mas que bendita festa é essa que vai me levar? Não fiquei sabendo de nada dessas proporções por aqui pelas redondezas...
A morena espirrou mais um bocado de perfume em seu pescoço com o borrifador e respirou fundo largando a anágua sobre a penteadeira. Sentou no banco acolchoado e rodou no eixo.
– Tenho certeza que nunca foi a nenhuma festa parecida com essa. Está pronta? – Perguntou estendendo a mão.
Marie sentiu vontade de tirar todos os grampos do cabelo e fazê-lo ficar na altura normal – abaixo da linha dos olhos e não a cima – passar um pano na cara e tirar toda maquiagem, arrancar o vestido fino que usava e se enrolar nos lençóis abandonados e quentes sobre a cama. Mas se ela tivesse feito tudo o que sempre fez a vida teria continuado na mesma monotonia e não teria tido uma das noites mais divertidas da sua vida.
Contrariando tudo que a mente queria segurou firme na mão delicada de Claire e ajeitou a saia uma última vez frente ao espelho. Desceram sorrateiramente pelas escadas, mas não escaparam do sempre vigilante Oscar, no portal da cozinha tomando chá.
– Eu... É... – Gaguejou Marie tentando se explicar.
Os olhos de Oscar brilharam refletindo todo brilho da garota, mas logo desviaram-se para o assoalho estendendo a xícara de porcelana no ar.
– Divirta-se! – E deu a última golada na água quente e perfumada.
Saíram caminhando pela calçada aos tropeços na própria barra do vestido, rindo e conversando sobre como comportar-se na festa. Os vizinhos já deveriam estar se arrumando para dormir, fechando as janelas, checando o segredo dos cadeados enquanto elas iam rumo a uma noite inteirinha de diversão e a merecida ociosidade após uma semana dura de trabalho.
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