Cárcere Das Almas

6 Capítulo 6 - Why do I wish I’d nerver played


Naquela semana, todas as vezes em que terminava seu trabalho com o Sr. Toledo, se vestia e ia para trás da porta de Claire. Não estava a espionando, apenas observando... Questionando sua postura. Completamente à vontade frente ao pintor – sempre um rapaz diferente e mais bonito que o do dia anterior, vale lembrar.

Mas se todas aquelas posições fossem ideias deles, e não dela, o que tinham de bonitos tinham de pornográficos. Contudo, Claire conseguia apaziguar toda aquela sensualidade com panos finos, e quando não podia trajar nenhum tipo de tecido, utilizava de flores no cabelo, colares de pérolas, brincos de pedraria.

Naquela quinta-feira ouviu, sem querer, sua conversa com o desenhista.

- Já chega, estou morta de cansaço. – Disse levantando-se do divã.

- Você está cansada, meu anjo? Fica estirada nesse sofá por horas e eu numa banqueta vagabunda de madeira. Tem certeza que é você quem está cansada?

- Tenho sim, Albert. Você pode estalar os dedos, levantar, se espreguiçar e coçar a bunda. Eu tenho que ficar imóvel. Agora, por favor, tenho outros assuntos a tratar.

Claire começou a vestir o roupão e estendeu a palma da mão a ele, como quem pede um trocado. Marie sentiu-se culpada por estar observando atrás da porta, mas algo muito mais forte a impedia de sair dali. Como uma força interna que a prendesse àquela porta.

- Vamos, eu te levo até a porta. – Disse Claire segurando a mão do rapaz com firmeza.

- Claire. Não vai pensar na minha proposta?

Ela puxou a mão rapidamente e cruzou os braços sobre os seios. O rosto tomou uma expressão séria, muito zangada.

- Não pretendo vender meu corpo a você.

- Mas você já faz isso! – Ele a agarrou pela cintura e começou a beijar-lhe o pescoço.

Marie desequilibrou-se. Escorregaram as palmas das mãos suadas, provocando além do barulho da maçaneta a abertura parcial da porta.

- Ei, você! O que faz atrás da porta? – Disse Albert em tom de advertência.

Claire aproveitou a brecha para se desvencilhar de seu abraço e correu para o outro canto do quarto.

- Entre, Marie. Estava mesmo precisando falar com você. – Disse a menina impaciente – Albert, não insista. Mesmo horário semana que vem. Eu guardo o material. Vá! Vá!

O rapaz passou num flash pela porta, esbarrando bruscamente em Marie, ainda atônita.

- Eu não queria atrapalhar sua conversa... – Disse sentindo o arrependimento subir pela goela. – Claire, me desculpe...

Com o olhar voltado para o piso mal percebeu a morena cruzar o quarto e puxá-la para dentro. Claire trancou a porta e levou-a para o sofá, segurando-a pela mão, com a ponta dos dedos gelados.

A cortina de cabelo tampava o rosto em conjunto com as mãos. Os dedos finos e compridos passeavam nervosamente da bochecha para os olhos, dos olhos para a boca. Marie notou a queda de seus ombros e o tremer dos joelhos. Toda a figura de força que Marie tinha criado da colega de trabalho estava se desconstruindo ali, a sua frente.

- Claire? – Chamou tirando o cabelo do rosto.

- Obrigada. – Respondeu mordendo os lábios – Não aguento mais essas investidas. Eles não entendem, não entendem que eu não tenho interesse!

- Acalme-se. Vamos falar com Pierre e logo ele dá um jeito nisso!

Claire quase cuspiu quando começou a rir forçadamente. Segurou-a pelos ombros e levantou a cabeça.

- Ouça, Marie, não conte com a ajuda do Pierre para nada que esteja fora do seu pagamento. Acho que só não nos faz de escravas por essas ideias malucas de igualdade que os comerciantes andam falando. Não por concordar, é claro, mas medo de ser apontado, afinal, mesmo sendo das antigas, tem que concordar em tudo com seus clientes.

Marie levantou a alça do roupão que já ia caindo pelos ombros e estendeu-lhe a mão. Convidou-a para acompanhá-la até em casa. Não havia mais clima nem condições para conversarem naquele recinto.

- Venha, vamos. Você toma um banho lá em casa. Já lanchou? Posso cozinhar alguma coisa para comermos... – Disse esticando o pano do sofá — Quero saber mais sobre essas “ideias”.

Claire abriu um enorme sorriso, expondo seus dentes brancos para Marie. Levantou do sofá num impulso e envolveu seus ombros num abraço caloroso.

- Eu não estava enganada... Sabia que você era generosa!

Marie deixou um sorriso escapar. A mulher não demonstrou nenhum tipo de má intenção ao ouvir o convite. Pelo contrário, ficou completamente grata.

- Vista-se, mulher! Vai ficar com esses peitos pelados até quando? – Perguntou sorrindo.

- Olha só... A santa tem senso de humor.

- Só quando é necessário. – Respondeu retomando a postura.

- Ah, para Marie, não existe tempo certo para sorrir! Veja, estava me lamentando a pouco e agora... Estou muito contente!

A morena escondeu-se atrás do biombo e vestiu uma anágua enxuta, muito menor que a de Marie. Seu vestido era estampado com folhas, batia nas canelas e, inesperadamente, não tinha decote.

- Mas você é diferente, Claire. – Disse ao vê-la prender os cabelos com uma tiara de cetim verde claro.

- Como diferente? – Disse puxando a meia calça – Olha, se o parâmetro de normalidade for àquelas metidas de peruca eu vou entender como uma ofensa!

- Não. Não me referia a elas... – Sua frase foi interrompida por uma sequencia de gargalhadas – Esquece!

Claire lutava contra a meia calça emaranhada, repuxando-a com a língua para fora. Ora apoiava na parede ora saltitava com um pé no chão. Pierre entrou no quarto naquele momento, assustando-as com o barulho da porta.

- Vocês tem mais algum cliente? Se não tem, vamos logo que eu quero fechar!

- Já estamos indo, Pierre. – Disse Claire puxando pelo pé o que restou da meia calça rasgada.

Enquanto caminhavam pelas ruas conversando, Oscar passou por elas segurando um embrulho. Acenou para Marie, chamando por seu nome. O homem tinha uma expressão diferente da de sempre, o rosto, além de sujeira, tinha o esboço de um sorriso. A mocinha retribuiu interrompendo o papo com Claire – que ficou assustadíssima, que tipo de mulher corresponderia ao aceno de um mendigo?

- Você o conhece? – perguntou baixando os olhos ao chão.

- Não muito bem. Sei que seu nome é Oscar e que tem uma história de vida sofrida... Pelo menos é o que diz.

- Marie, você pode estar se arriscando. Quem disse que ele é um homem bom? Ou que está dizendo a verdade!

Viraram a esquina. Marie já estava enfiando a mão dentro da bolsa, procurando as chaves.

- Vejo em seus olhos que é bom... Agora entre, depois te conto a história dele.

Claire arregalou os olhos e deixou o maxilar cair. Rodopiou sobre o tapete olhando para cima. Deixou a bolsa pendurada no cabideiro junto com os casacos.

- Você mora nessa mansão sozinha?

- Não é uma mansão. O segundo andar é até bem estreito... Mas obrigada. – Respondeu sem graça.

- Se você um dia conhecer a espelunca onde moro vai repensar seu conceito de casa.