Cárcere Das Almas

5 Capítulo 5 - Love is a losing game


Notas iniciais
Nova personagem surge.

– O senhor Toledo anda reclamando de você. – Disse Pierre olhando no fundo dos seus olhos. – Ele é seu único cliente e muito generoso pelo que tem falado, Srta. Marie. Espero não ouvir mais reclamações sobre a sua pessoa, caso contrário terei que tomar atitudes que nem eu, nem você ou o seu falecido pai, irá gostar.

– Sim senhor... Não vai voltar a acontecer. – Disse baixando os olhos para os pés.

– Não vai mesmo. Eu não sei o que você tem, mas alguém daqui de dentro está disposta a te ajudar. Claire ficou com pena, por algum motivo, e mostrou-se disponível a ensiná-la uns truques.

Pierre saiu de trás do balcão, subiu numa escadinha de três degraus no canto esquerdo da loja e deixou o balcão aberto para que ela passasse. Foi por um triz que Marie pensou em respondê-lo, dizer que não precisava da pena de ninguém, mas segurou a língua. Talvez essa tal de Claire tivesse mesmo boas intenções.

– Onde eu encontro a Claire? – Perguntou depois de percorrer três passos do corredor comprido.

– Chame-a! Deve estar se preparando numa das salas. Ela costuma ficar na segunda porta à direita.

Contou as portas e bateu duas vezes. Ainda tinha quinze minutos antes do novo cliente chegar, nesse tempo poderia aprender algo que pudesse usar ainda hoje. Uma pose, uma expressão.

– Bonjour! – Disse a garota animada – Entre! Sente-se!

– Srta. Claire... – Começou sem jeito, não sabendo se olhava para o chão ou para a menina que vestia um longo roupão em transparência vermelha.

O quarto onde posava era mais espalhafatoso. Acompanhava bem seu estilo, era repleto de plumas e paetês. Enfeitado, mas ainda assim sério. A combinação de veludos e sedas como capas para o divã deveria dar um aspecto mais renascentista nos desenhos, por conta das curvas e dos detalhes de luz e sombra.

– Ah, não, não. Eu não posso ser assim tão mais velha que você. – Respondeu sentando-se ao seu lado no sofá – Fiquei preocupada com você... Estava chorando na primeira vez que a vi...

Só agora, olhando para o conjunto de seu rosto percebeu que aquela bela garota morena era a mesma que a tinha segurado pelos pulsos no primeiro dia de trabalho. Agora ela tinha ainda mais vergonha e desconfiava ainda mais de seus interesses.

– Por que quer me ajudar? Não é pior para você se me ensinar a posar e os homens começarem a ter preferências? – Perguntou afastando-se da garota.

Claire sorriu despretensiosamente, jogando a cabeça para trás.

– Você entende de negócios... Mas ainda é muito nova no ramo. Vou lhe dizer porque me parece confiável. Chegue mais perto.

Marie aproximou os ouvidos mais perto do rosto de Claire e esperou que ela murmurasse bem baixinho o segredo que ela tinha a declarar. Ela tinha um jeito diferente de se expressar, mais despojado, quase que atirado... Malicioso. Era essa a palavra. Seus olhos, carregados de maquiagem, diziam muito mais que a boca e era isso que mais a incomodava.

– Há muitos, muitos homens em Paris. Faltam modelos e sobram homens interessados, por isso, não se preocupe com a concorrência. Pierre não a permitiu entrar no ramo porque devia favores ao seu pai, mas porque acredita em sua beleza.

Marie levantou-se do sofá, assustada. Como ela sabia de tantas coisas? Com certeza não foi um tiro no escuro... Ninguém tem tanta pontaria. Claire não parecia jogar as informações nem especular, falava como quem tem certeza e já sabe da história há tempos.

– Claire, como sabe de tantas coisas?

– Pierre esconde melhor joias do que os segredos, meu bem. Mas eu não quero assustá-la, de maneira alguma! Quero poder ajudar você. Vi como saiu daqui ontem e fiquei preocupada... E antes que você me interrogue sobre minhas preocupações, digamos que eu tenha um instinto maternal e gostei do seu rostinho.

Marie preparava-se para contestar, mas foi impedida pela moça que segurou seus lábios com os dedos.

– Diga-me, quem foi seu cliente?

– O senhor Toledo. – Rosnou entre dentes.

– Pobrezinha... Ele sempre está cheio de ideias! Deve estar lembrando daquele beberrão até agora. – Claire pegou uma de suas mãos e deitou o rosto sobre ela, acariciando-lhe os dedos.

– Claire, por favor, não precisa me tratar desta maneira por eu ser mais nova. Sei no que estou trabalhando e se estou aqui é porque preciso e não porque quero. Então, ajude-me da maneira que puder, mas não demonstre pena.

A morena pôs-se de pé imediatamente, soltando sua mão. Afastou uma mecha de cabelo que caia no rosto de Marie e depois de uma longa pausa fez a seguinte observação:

– Se você continuar fazendo essa cara de malvada, todos os seus clientes vão morrer de tanta luxúria. Conserve essa expressão e depois marcamos um encontro para eu lhe mostrar as poses, tudo bem?

Marie balançou a cabeça positivamente e agradeceu pela ajuda e antes que saísse pela porta ouvi-a chamar.

– Qual é o seu nome, afinal de contas?

– Chame-me de Marie.

– Claro – respondeu desabotoando o roupão – A santa... Como pude não pensar nisso?

Marie bateu a porta e sentiu um aperto na boca do estômago. Claire era uma mulher muito bonita e ser intimidada por ela não era fácil de aguentar. Ainda não sabia se o que ela queria era ajudá-la de fato ou brincar de bichinho de estimação com a “novata” – como as outras garotas a chamavam pelas costas.

– Ora, ora, quem não está com a rotineira cara de doente! — Disse o Sr Toledo vendo-a adentrar com agressividade no quarto.

– Sem conversa. Temos trabalho a fazer. — Respondeu desabotoando as roupas.

Sentou no divã, cruzou as pernas, apoiou o cotovelo no joelho cruzado e por sua vez o rosto na mão. Olhou fixamente para os olhos do homem e congelou-se. Algo na movimentação dos braços do homem a disseram que manter a cara amarrada estava dando certo... Aquela seria então, sua primeira tática.

"Que o jogo comece" — Pensou sentindo os pelos dos braços se arrepiarem.

Notas finais
Fim da primeira estrofe.