Cárcere Das Almas
16 Capítulo 16 - ...know you're a gambling man
Não demorou mais que uma hora e meia para que preparassem o jantar. Um caldo de batatas baroa, abóbora e carne grelhada cortada em cubos. O vento gelado que cortava a janela servia como aviso para a noite fria que acabara de cair. Resolveram se aquecer ingerindo alguns pedaços de frango grelhado e aquele caldo delicioso.
Deixaram as panelas sobre o fogão e esperaram que os dois outros moradores da casa não se demorassem. Ia esfriar muito rapidamente e aquela comida gelada seria uma catástrofe.
Claire se apressou em comer e lavar sua louça, deixando Marie comendo ali, sozinha. Subiu as escadas correndo deixando-a cada vez mais intrigada. Num momento arriscava o emprego para certificar-se de que ela estava bem, noutro dizia uma bela frase sobre a importância de sua vida e agora a deixava comendo sozinha. Que mulher difícil de entender!
Enquanto lavava sua louça e guardava a que Claire deixou secando, Hatim apareceu no beiral da porta da cozinha.
– Que cheiro bom! Isso deve estar uma delícia – Disse abrindo a panela – Com todo respeito, Marie, você é magnífica. Inteligente, generosa, bonita e cozinha tão bem. Não entendo como não tem um namorado...
Ela preferiu sorrir educadamente a corresponder ao assunto.
– Quer que eu faça seu prato? Posso arrumar a mesa para você e Oscar, não seria incomodo nenhum. Gosto de ver vocês comendo.
– Isso soou estranho, mas você é mulher. E mulher tem dessas coisas. Eu agradeço, mas não. Vou levar o prato para o quarto e comer com Oscar lá. Ele não quer sair. Está com raiva de si mesmo pelo que disse, ele se culpa por entrar para o exército e ainda conspirar contra a própria nação... Eu não entendo qual é a dele de aceitar isso. Podia simplesmente arrumar outro emprego e mostrar que trabalha. Nós não somos lá garotões, eles não iam fazer muita questão, ou iam?
Daquele assunto de forças armadas Marie pouco entendia e muito menos do que se passava na cabeça de Oscar. Não perguntou se Hatim dera o recado, mas de qualquer maneira ia acabar esbarrando com Oscar uma hora ou outra, afinal eles vivem sob o mesmo teto.
– Eu não sei... Boa noite, Hatim. Estou muito cansada, preciso dormir cedo, amanhã começo a ficar no trabalho duas horas mais que o normal para suprir a quantidade de horários pagos pelos desenhistas. Acho que só estou entrando nessa porque sei que podemos melhorar nossa condição.
O homem lançou um sorriso brilhante para Marie, agradecido. Sentia-se incluído em seus planos, em sua família.
Ela subiu as escadas e quando abriu a porta do quarto deparou-se com um suave cheiro de perfume. Muito gostoso, a fazia lembrar do dia que escalou a primeira árvore com o pai para roubar umas frutas, no interior. Era a combinação perfeita do cítrico com aquele ar frio. Fazia-a salivar lembrando do sabor das frutas tropicais que poucas vezes pudera comprar pelo custo elevado.
Claire vestia a mesma camisola que usara na noite anterior, já tinha tomado banho, estava penteando os cabelos frente a penteadeira. Olhou-a com o canto dos olhos lançando um sorriso e continuou concentrada em desfazer os nós dos fios.
– Vá tomar um banho, Marie. Precisamos conversar. – Foram as palavras que disse ao espelho com a expressão indiferente.
Marie correu para o banheiro com a toalha e perguntou-se o que mais tinham para falar. Tinham passado o dia inteiro juntas, já tinha contado o que havia acontecido de fato com os homens ricos. O que mais tinham para conversar? Será que ela tinha decidido sair daquela casa? Está com vergonha por ter o trabalho apenas porque pressionou Pierre contra a parede? Não é possível.
– Ultimamente ela está estranha, calada. Desde... Desde o dia da festa. – Murmurou enquanto esfregava as costas com a bucha.
A curiosidade impediu-a de permanecer no banho o tempo que queria. Adiantou-se escovando os dentes. Estava certa de que uma vez deitada na cama não se levantaria para nada. Enrolou-se na toalha e encarou o reflexo de seu rosto mais uma vez.
Tinha medo de ouvir. Muito medo de ouvir Claire dizendo que iria embora daquela casa. Ela não podia ir. Simplesmente não podia.
Saiu envolta pela toalha branca e quando abriu a porta do banheiro todo quarto tinha uma iluminação amarelada. Provenientes de velas espalhadas na cômoda, na penteadeira, no criado mudo, e uma até na mão de Claire que a esperava sentada na cama com as pernas cruzadas.
O cabelo lhe caia ao lado do corpo como veludo. As ondas negras emolduravam as curvas, claramente marcadas pela seda da camisola. E se prestasse muita atenção – como fazia agora – via a chama da vela nos olhos da morena. A dançante chama amarela na íris negra, convidando-a a se sentar ao seu lado.
Apertou a toalha na amarra improvisada e caminhou até ela. A morena entregou-lhe o pires com a vela e apontou com o queixo para a penteadeira. Depositou na madeira, obediente, e voltou os olhos a Claire que se movimentava lentamente.
Mais parecia um felino tentando acomodar-se na almofada antes de fechar os olhos para dormir. Encostava a palma da mão no lençol com tanta calma que parecia que ia rasgar a qualquer momento. Recostou a cabeça sobre o travesseiro que não lhe pertencia e cheirou profundamente com os olhos fechados. Abraçou-o colocando-se na posição fetal, levando o joelho o mais próximo que podia do peito.
Apertou o travesseiro contra seu corpo e pôs-se de joelhos na cama levantando os braços, mexendo nos cabelos, cheirando a própria pele. Começou a se virar para o outro lado levando Marie a dar a volta na cama. Não podia tirar os olhos do rosto da morena nem um segundo, estava hipnotizada e o que quer que fosse aquela conversa estava aprendendo muito mais com aqueles movimentos do que com palavras.
Acompanhava os movimentos estudando-os, os absorvendo da melhor maneira. Não queria se esquecer, não queria que nada passasse despercebido. Aquela era uma dança esplêndida e só ela era expectadora.
Claire ofereceu-lhe a mão. Convidando-a para entrar na dança com ela. Perguntou-se milhões de vezes se conseguiria acompanhá-la, seguir seu ritmo, conquistar sua altura.
Encontrou seus olhos e um sorriso brotando no canto dos lábios e ainda assim não se sentia merecedora de tudo aquilo. No momento em que segurou as mãos com delicadeza sentiu o corpo de Claire elevando-se, a morena ficou de pé no colchão e puxou-a junto. Passou a mão em seus cabelos soltando-os do coque feito no banho, os bagunçou fazendo com que voltassem a cair-lhe pelos ombros e puxou o nó da toalha antes que Marie desse um suspiro.
A toalha foi atirada para fora da cama, exibindo o limpo e nu corpo de Marie. Claire agora sorria abobadamente. Arrastou a ponta dos dedos da mão direita pelos ombros até chegar nas mãos de Marie e entrelaçou-os com os seus. Usou dois dedos para erguer o queixo de Marie até a linha de seus olhos e com uma voz forte e segura proferiu o maior dos segredos.
– Eu a amo, Marie.
Aproximou-se cerrando os olhos e encostou lentamente os lábios carnudos nos finos e trêmulos da menina que cerrou os olhos igualmente e impulsionou-se para frente, ansiosa por sentir um pouco mais o sabor do beijo. Apertou os dedos entrelaçando-os com mais firmeza respondendo em concordância a frase que ela tinha pronunciado segundos antes do toque.
Claire afastou-se descolando os lábios para tristeza e ansiedade da menina que queria mais.
– Pose para mim. – Pediu.
Marie concordou balançando a cabeça positivamente. Claire desceu da cama e observou a menina de pé. Admirou suas curvas, sua elegância e ingenuidade. O que mais a chamava atenção era o leve rubor nas bochechas, a pureza de Marie era o que mais desejava para si. Muito diferente de quando ela posava para os clientes ficava feito estátua, fria como gelo. Agora se movia graciosamente tentando convencê-la de que também conseguia provocá-la, convidá-la para a cama.
Tudo que ela tinha eram os cabelos. O corpo inteiramente nu não precisava que as roupas fossem arrancadas, já estava pronto para ser entregue a ela.
– Claire... Por favor. – Disse sentando-se com os joelhos dobrados na cama dando leves batidas em sinal de convite.
A morena balançou a cabeça negativamente, sentando-se no banquinho da penteadeira. Tomou uma folha de papel nas mãos e um lápis. Os olhos foram obedientes no início, controlando-se calmamente, demorando-se no corpo alvo de Marie apenas o tempo necessário para registrar as curvas, a coloração das sombras, para depois voltar ao papel e gravar ali o que tinha absorvido.
– Espere até eu terminar. – Disse com um fio de voz, remexendo-se na banqueta, tentando parar de tremer.
A ansiedade a provocava risos, mas também não suportaria por muito tempo. Marie preferiu esperar sentada na cama, cobrindo parte do corpo com o fino cortinado transparente que pendia do dossel de sua cama. Não por vergonha, mas na esperança de que a morena largaria o desenho para descobrir seu corpo. Planejava um bote certeiro e irreversível. Mas não teve muito sucesso, em contrapartida a morena ficou ainda mais satisfeita com a atitude de Marie e continuou desenhando sua mulher envolta em transparência.
Sua mulher. Estava prestes a chamá-la desta maneira, faltava apenas mais uns poucos minutos, digo, rabiscos, para que isso se tornasse possível. O desenho não demorou mais que trinta minutos, mas não era aquela noite nem nas próximas cinco seria finalizado, o primeiro desenho de Marie completamente nua e mais cobiçado demoraria um ano inteiro para ser finalizado.
Deixou o desenho sobre a penteadeira e apagou a vela que derretia ali. Aproximou-se com as mãos estendidas, Marie agarrou uma prontamente descansando a palma na lateral do rosto. Esfregou-a na bochecha com os olhos fechados, sorrindo ao toque.
Era muito mais do que Claire esperava. Um calor descomunal subiu pelas pernas, o coração palpitou de emoção ao sentir os mamilos rosados de Marie encostar em seu braço. Não havia mais como esperar. Agarrou-a pela cintura e sussurrou:
– Seja minha.
Marie atreveu-se a experimentar novamente seu beijo inclinando-se aos lábios carnudos, soltou a mão da morena e jogou o corpo sobre o dela.
– Tenha-me.
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