Cárcere Das Almas

10 Capítulo 10 - Played out by the band


Marie se olhava em todos os espelhos, todas as vitrines, todas as poças d’água. Em qualquer coisa que mostrasse seu reflexo. E ali ela procurava a si mesma por baixo de todo luxo, buscava reconhecer-se na miragem e então diminuir a culpa de que não estava sendo ela mesma.

Por esquinas esse pensamento a confundiu entre as risadas e as respostas sem sentido que dava a Claire e toda a confusão só foi embora quando avistaram as luzes, os tapetes, os vestidos ofuscantes e cabelos altos de todas as nobres mulheres que desciam de suas carruagens em direção a uma belíssima casa.

– Rápido, ajeite-se,vamos entrar depois da próxima. – Disse Claire arrumando os seios dentro do decote.

– Não entendi... Nós não temos um carro esplendoroso desses, como faremos para não chamar atenção ao chegar caminhando? – Perguntou sem notar o paradoxo em sua própria frase.

Deixou-se levar pela garota que estava a espreita da carruagem branca, a próxima da fila para entrar. Espiaram por alguns segundos e esperaram que a dama da carruagem se apresentasse ao homem da porta. A mulher demorou um pouco arrumando o vestido que tinha a barra verde luxuosa presa em algum infortúnio, no chão. Surgiram por detrás da carruagem antes que partisse, fingindo ser damas de companhia da senhora que havia acabado de entrar. Não era necessário que dessem nomes, já que seus cargos eram tão baixos a ponto de ninguém se importar de colocá-las na lista.

– Como você aceita se rebaixar tanto para entrar numa festa? – perguntou Marie entre dentes seguindo as luzes do corredor iluminado.

– Bobagem. Faço-me de criada, mas acabo com o dinheiro de todas. É assim que se consegue clientes generosos... – Disse dando uma última olhada no visual aproveitando o espelho ornamentado da parede – Agora pare de me atazanar e ponha um sorriso no rosto, vamos entrar.

O arco romântico de gesso da parede escondia um enorme cômodo por trás de uma grossa cortina de seda lilás. As cores tinham um caimento harmonioso com o ambiente, sempre com muito brilho, detalhes, floreios, tons calmos e pouco intensos o que garantia um pouco de tranquilidade num lugar tão hostil.

As pessoas encaravam umas as outras sucintamente, bebiam e conversavam enquanto se fuzilavam com os olhos. Cada um com mais classe que o outro, esbanjavam ouro e pedraria sem o mínimo pudor. “Eu me lembro bem. E como poderia esquecer-me? Eram cabides. Meros expositores da obra de alfaiates, ourives... Bonecos nas mãos do poder.”

Por outro lado, não havia como renegar todo aquele luxo. Pessoas trabalhando para você, criados contratados para cuidar do seu bem estar, da sua alegria e da sua tristeza. Pagos para fazer de toda sua vida uma eterna ociosidade.

Os homens vestidos com calças apertadas, sapatos de salto e chapeis estranhos, mais pareciam moças. Dava até graça. Marie daria tudo para ver o que Pierre falaria se visse um deles. Mas, eram os ricos, podiam ser extravagantes. Claire tinha se aderido completamente ao lugar, lançava sorrisos e olhares às pessoas. Algumas pessoas chegaram a acenar.

– Você as conhece? – Perguntei baixinho vendo-as vir em nossa direção.

– Sim e agora vou as apresentar. Sorria e seja amável. – Respondeu sem nem por os olhos nela. Estendeu as mãos em direção as mulheres e fechou-as em concha ao redor das suas alvas e cheias de anéis.

– Olá, Claire! Que adorável surpresa encontrá-la aqui... Você me deve uma conversa! Saiu da última festa dizendo que ia ao toalete e depois sumiu... Oh, querida, era só dizer que tinha se enjoado com a comida. Nós iríamos entender.

Enquanto a mulher dizia seus olhos passeavam pelos cabelos, pelos brincos e também o colo de Claire. Analisava-a como um predador pronto para dar o bote na pequenina presa. Tamanha era a falsidade que Marie chegou a sentir um embrulho no estômago e pegou a primeira taça que passara ao seu lado, engolindo o conteúdo num único suspiro.

A mulher desviou os olhos verdes para ela no mesmo instante.

– Você conhece essa garota, Claire querida?

– Oh, desculpem-na, Marie tem um sério problema na garganta. Diz que a secura só passa quando engole de uma vez. Não vão pensar que é falta de educação... Por favor. É a minha melhor amiga, queiram se cumprimentar.

– Sou Bernadeth, prima da rainha. – Disse erguendo a mão como se pedisse para ser beijada.

– E eu sou Marie. Apenas isso. – Disse ela apertando a mão estendida da mulher.

– Se fosse pouco menos audaciosa não diria que é amiga de Claire que por sinal é bem eclética.

– Que quer dizer com isso, senhorita? – Insistiu Marie sentindo os braços incharem de tantos beliscões. Claire estava uma fera.

– Digo isso pela capacidade de gostar de pessoas com o caráter tão discrepante ao dela.

– Meus amores, meus amores, já experimentaram esse prato? Está uma delícia! – Disse Claire metendo-se no espaço entre as duas com uma torrada nas mãos.

As horas que se passavam eram banhadas em bebidas para que as alfinetadas fossem menos sarcásticas e a festa continuasse no mesmo ritmo mesquinho que no começo, mas logo esse padrão mudou. As moças começaram a sentir calores, a música era mais convidativa, os rapazes ficavam animados, arrancavam as máscaras e puseram-se a dançar. A mostrar a verdadeira face da alta sociedade francesa.

O pouco de etiqueta que Marie tentava dominar já não era mais observado por ninguém. Nenhum convidado daquela festa estava preocupado com a quantidade de comida que tinha dentro da boca ou onde seus dedos seguravam as taças.

Inevitavelmente, Claire aderiu ao grupo das transformadas. Dançava sensualmente com as outras mulheres, bebia compulsivamente enquanto movimentava os ombros, a cintura, os braços... No ar. Balançava de forma graciosa, muito mais à vontade que todas as outras. Ofuscava todo o ouro e toda pedraria das madames e seus maridos concordavam com Marie.

Apinhavam-se em sua volta convidando-a para uma saída rápida da festa, cochichavam em seus ouvidos coisas tão absurdas que nem Marie em sua imaculada pureza sonhava em um dia ouvir.

– Não estou gostando da festa. Já é hora de irmos embora, Claire. – Disse puxando-a pelo antebraço.

Claire puxou o braço de volta para o lado do corpo com força. Abraçou os ombros de Marie e passou a borda da taça cheia de vinho perto de suas narinas.

– Não está sentindo o cheiro disso aqui. Por isso não está gostando. – Disse com a voz mole.

– Eu só sinto o cheiro de álcool vindo de você... – Disse desvencilhando-se do abraço – E isso não é nada agradável. Por favor, vamos embora.

Estava prestes a se ajoelhar e segurar suas mãos para que sua súplica tomasse mais corpo, mais consistência. Mas antes que isso se tornasse real Bernadeth apareceu atrás das moças ainda mais embriagada que Claire, segurando-a pelas mãos, puxando-a para a roda de moças dançando.

– Não fique aí com essa chata, venha, ainda não me ensinou o truque para mexer essas cadeiras...

– Solte-a! – Gritou Marie sem perceber tomando a morena pela cintura.

Nenhum convidado notou sua exclamação, com exceção de um homem que vestia roupas da mesma tonalidade que Bernadeth. Provavelmente um acompanhante de classe, um primo, um irmão, ou a remota possibilidade de ser o marido, panaca e encostado, mais ainda assim um marido. Veio caminhando desde o outro lado da sala em sua direção, sem tirar os olhos da pobre angustiada.

– Acalme-se, Bernadeth, querida. – Disse enquanto se esquivava dos corpos dançantes — O problema dessa senhorita é falta de companhia. Sou Jacques, muito prazer... Não tem culpa Claire já ter com quem se enturmar. Eu assumo esse compromisso, agora vão dançar...

Ele tirou as mãos de Marie calmamente da cintura de Claire que foi guiada por Bernadeth de volta ao centro da dança. Encarou-a maliciosamente por um momento e arrumou uma mecha que estava fora do lugar em seu penteado. Marie virou o rosto para impedir maiores toques e tentou se afastar.

– Não seja ridícula. Livrei-te da rua. Se nenhum cavalheiro te defendesse esses guardas fariam de você uma convidada invisível numa borrifada de perfume. – Disse apontando-os com o nariz empinado em cada canto do salão.

Fez um sinal com as mãos e logo tomaram a costumeira posição estática que os faziam ser confundidos com o resto da decoração do salão, como estátuas de sal masculinas.

– Agora seja boazinha e faça-me companhia. Vamos, suba comigo.

– Subir? – Perguntou olhando para todos os lados a procura de um segundo andar onde a festa também estivesse acontecendo.

Encontrou escadas, mas não viu nenhuma luz do andar superior, nenhum garçom ou convidado transitando.

– Mas o que tem...

Antes de concluir a frase Jacques virou seu queixo carinhosamente para a escada do outro lado do salão. Marie viu uma moça arrumando os cabelos, refazendo os laços das mangas do vestido, e o rapaz limpando o batom do rosto, esfregando as mãos compulsivamente.

Logo compreendeu. E se negava a fazer tal obsolenidade.