Butterfly
4 Sobre espíritos na biblioteca - parte 1
Notas iniciais
Naquela manhã de sexta-feira Gustavo estava preocupado. E olhe que, vindo dele, isso era algo no mínimo bastante raro.
Estavam no horário do lanche, que era logo após as três primeiras aulas do dia. Haviam sido duas de Humanas e uma de Biologia, para a alegria da maioria dos jovens que simplesmente não aguentavam mais quebrar a cabeça com números e fórmulas. Porém, naquele dia em especial o intervalo não parecia tão legal assim para o Gusta, e isso era culpa de um certo melhor amigo que simplesmente não falava coisa com coisa desde o dia anterior quando, após sair correndo do nada da aula de educação física, só voltou a aparecer em sala de aula horas depois acompanhado pelo coordenador.
Primeiro que Benjamim Costa nunca tinha problemas com a direção, mesmo sendo repetente.
E segundo... que história era aquela de estar “ficando louco”?
— é verdade, Gusta. – o moreno murmurara naquele dia durante o intervalo, num fiapo de voz e com o olhar distante, ao ser confrontado pelo amigo por causa do seu sumiço repentino. – eu a vi... ela estava lá, na biblioteca, chorando sozinha. Uma borboleta me levou lá e desapareceu. Eu conversei com a menina, ela disse que estava confusa e com medo, mas quando o coordenador apareceu e me pegou no flagra ela simplesmente sumiu! Assim, do nada!
Gustavo piscou, confuso, e a sombra de um sorriso apareceu em seu rosto, achando que era alguma piada. Ben, por sua vez, não parecia achar tão engraçado assim.
— velho, se você tá tentando me assustar saiba que não está conseguindo. – respondeu o bronzeado, sorrindo em meio a uma mordida em seu sanduíche. – quer dizer que uma borboleta fantasma te levou até uma moça também fantasma, é? E sobre o quê vocês conversaram, o clima no céu ou no inferno?
— isso não é uma piada, cara.
— ah, não, claro que não. Mas veja pelo lado bom, pelo menos você viu o espírito da Thalia, certo? Ah, você tem tanta sorte de estar tendo esse tipo de visão! Pelo que me lembro dela, até que ela era bastante gostosinha.
Naquele momento Ben entendera que não adiantava nada tentar conversar com alguém sobre aquilo. Se nem seu melhor amigo acreditava nele, quem acreditaria então? Seus pais que não seriam, com toda certeza. Isso se decidissem o ouvir pelo menos uma vez na vida, quando cansassem de discutir entre si.
E pelo resto daquele dia o rapaz não tivera sossego. Onde quer que fosse enxergava a jovem da biblioteca o observando em silêncio, de longe, como se quisesse se esconder das pessoas. Ela o observava quase sem piscar, e ele devolvia o olhar assustado, porém incapaz de desviar por puro medo. E se ela ousasse chegar perto quando ele não estivesse olhando? Tinha medo só de imaginar!
O mesmo aconteceu no ônibus, na rua a caminho de casa, na sala de estar enquanto jantava com seus pais. A moça continuava quieta, o espreitando como se esperasse apenas que ele estivesse sozinho para chegar mais perto – e por isso o rapaz não ousava se afastar de ninguém, de modo que naquela noite chegou até a invadir o quarto dos pais durante a noite sem que eles percebessem. Ali, sentado ao pé da cama deles, no escuro e enrolado nos próprios lençóis, Ben não ousava pregar os olhos o mínimo que fosse. Mal conseguia enxergar um palmo diante do próprio nariz, mas assim como sentia Botas se aninhando em seu colo para dormir, podia sentir a presença da garota em todos os lugares. E ela estava ali. Estava sempre ali, esperando, apenas esperando.
No dia seguinte o jovem voltara à escola com uma aparência terrível, o que nem de longe deixou de ser percebido pelos colegas de turma e nem mesmo pelo próprio Gustavo. A diferença é que os primeiros limitaram-se a torcer o nariz para ele e virar-se para cochichar baixinho com os colegas enquanto se afastavam, ao passo que o último arqueou as sobrancelhas de puro susto.
— nossa! Cara, o que aconteceu com você?! – Gusta exclamara, surpreso e subtamente afetado assim que se deparou com a expressão esgotada do amigo.
Ele estava muito mais pálido que o normal, o que só reforçava suas olheiras e olhos avermelhados de sono. Não se dera ao trabalho sequer de pentear o cabelo ou desamassar a camisa do uniforme. Estava deplorável!
Ben não respondeu nem àquela e nem às demais perguntas que vieram a seguir. Seus nervos saltavam de estresse, todo ele exalava atenção e exaustão. Seus olhos quase saltavam do rosto, perscrutando todo e qualquer lugar ao seu redor como se estivesse em constante ameaça de perigo. Passara as primeiras aulas do mesmo modo, calado e distante, o que só fazia crescer a preocupação no seu único amigo por ali.
Agora estavam os dois, lado a lado num dos bancos de pedra, aproveitando o intervalo naquele silêncio simplesmente terrível enquanto o barulho das vozes e risadas dos colegas preenchiam o ambiente ao redor. Ben ainda tinha aquele olhar alerta, arregalado, e parecia muito atento a cada som e movimento por ali – vez ou outra erguia o rosto, olhava para a esquerda, para a direita, fixava os olhos em algum ponto vazio e escutava atentamente o que quer que fosse. Só após alguns segundos é que ele parecia se convencer de que não havia sido nada mesmo, e voltava a encolher-se nos próprios ombros, esperando o próximo alarme. Gusta observava-o de canto de olho, dando uma ou outra colherada na sua salada de frutas, tentando não perguntar pela milésima vez se estava tudo bem. Apesar de preocupado com o amigo, sabia que ele não gostava muito de ter seu espaço invadido. E estava tentando muito mesmo respeitar isso.
A gota d’água foi quando, após outra reação alarmada, o rapaz ergueu toda a coluna e encarou fixamente um ponto qualquer à sua frente, pálido e inexpressivo. Gusta dera um pulinho de susto com o salto repentino do amigo, e agora tentava seguir seu olhar atônito, preparado para atacar ou fugir do que quer que fosse. Imagine o quão confuso foi perceber que ele parecia encarar um arbusto qualquer perto da esquina do colégio? Não, ele não aguentava mais aquela maluquice toda.
— Ben, pelo amor de Deus, você está me assustando! – gritou enfim, explodindo num misto de raiva e preocupação. Esperava que o moreno se voltasse para ele, mas ele estava ocupado demais encarando o tal arbusto. Então, num gesto irritado, o rapaz agarrou o menor pelos ombros e o forçou a virar-se para si. – olha pra mim! Não tem nada lá! Para de ficar olhando para os cantos como se fosse um maluco!
Ben fechou os olhos com força, forçando-se a segurar algumas lágrimas que por algum motivo insistiam em querer aparecer. Estava exausto. Estava completamente exausto. E pensar que as coisas já estavam complicadas o suficiente com o ambiente insuportável dentro da própria casa, as provas chegando, a pressão esmagadora para não repetir o ano novamente... agora também estava ficando louco, e o pior é que tinha consciência disso. Por que não podia simplesmente perder o juízo todo logo de uma vez? Seria tão mais fácil! Iria parar numa unidade de tratamento e pronto, viveria em paz com sua realidade particular, sem ter a menor ideia de que tudo não passava de coisa da sua cabeça.
Estava tão cansado...
Tudo que queria era ir para algum lugar bem longe e dormir. Só dormir, até tudo passar – até seus pais se resolverem, as provas passarem e a garota morta desaparecer. Será que era pedir muito?
Gusta percebeu que alguns colegas estavam os encarando, provavelmente atraídos pelos seus gritos. Certo, havia perdido um pouco a medida, mas não sabia como lidar com aquilo. Ben era sempre tão quieto e centrado, era até estranho vê-lo surtar assim, apesar de muitos na escola já o taxarem de esquisito.
Com um suspiro, o bronzeado soltou o amigo, que encarou o chão. Uma ideia havia lhe passado pela cabeça.
— ainda é a tal visão da biblioteca, não é? – perguntou, o mais baixo e delicado possível.
Ben confirmou com a cabeça. O outro soltou um murmúrio impaciente, voltando-se para ele após uma breve pausa.
— olha, se a minha mãe estivesse aqui ela diria que você precisa de um psicólogo. – disse, com um suspiro de desistência. – mas eu não sou ela. Então se você diz que está vendo uma pessoa morta, eu já vi filmes de terror o suficiente para saber que isso pode ser verdade.
Ben ergueu o rosto. As olheiras profundas combinavam de uma maneira bem feia com os olhos vermelhos de sono.
— quer dizer que você também acha que eu posso estar sendo assombrado?
Gusta afirmou com a cabeça, embora não acreditasse completamente no que dizia. Seu amigo estava apenas... impressionado com aquela história toda. E, claro, fantasmas não existem, apesar das lendas maneiras que já ouvira nas histórias de terror por aí. Talvez se o Ben enfrentasse seu medo o psicológico se encarregaria de fazê-lo desaparecer.
Bom, não custava tentar.
— sabe, dizem que quando alguém morre e o seu espírito fica vagando pela Terra é porque ele ainda tem um assunto mal resolvido por aqui. – continuou, sério. – talvez se você perguntar à Thalia o que ela quer...
— tá maluco? Eu não vou ficar de conversinha com uma garota morta!
— mas essa é a única maneira...
—é uma garota morta, Gustavo!
— tá bom, mas você quer que ela saia do seu pé ou não?
Ben suspirou, massageando as sobrancelhas com as pontas dos dedos. Era só o que faltava!
— não vai me dizer que está com medo! – Gusta abriu um sorriso provocador.
— ah, será que tenho motivos? – ironizou.
— qual é, seja homem. Enfrente o perigo! De qualquer jeito se a menina já tá morta mesmo, o que é que ela poderia fazer? Aparecer de repente e gritar “boo” até você se mijar nas calças?
O moreno piscou, começando a levar em consideração o que o amigo dizia. A verdade é que estava mesmo se deixando levar pelo medo do desconhecido e pelos filmes de terror, com todo aquele exagero de gritos e sangue até dizer chega. Na vida real as coisas sempre costumam ser menos impressionantes, por que o mesmo também não se aplicaria a histórias sobrenaturais e afins? A própria figura da Thalia não se parecia com as assombrações dos filmes, afinal... era apenas uma moça de aparência perfeitamente normal, com o único detalhe de que ninguém parecia ser capaz de vê-la além do próprio Ben. Isso já seria algo um tanto tranquilizador, certo?
De qualquer modo, Gustavo tinha razão: as únicas pessoas capazes de fazer mal a alguém eram as vivas, as que podiam te encher de porrada, esfaquear, atirar, enfim, fazer qualquer coisa ruim de verdade. Um fantasma mal poderia derrubar alguma coisa ou mover objetos do lugar, afinal, não tinha mais o corpo para conseguir tocar em algo material mesmo... quer dizer, pelo menos não pela lógica. O professor de matemática sempre dizia que a lógica geralmente está com a razão, não é mesmo?
Suspirou. Tomara que o diploma daquele homem servisse para alguma coisa.
— quer saber? Você está certo. – resolveu enfim, franzindo o cenho. – não posso ficar fugindo pra sempre, e ela pelo menos vai ter toda a eternidade pra me perseguir. Preciso dar um fim nisso.
— isso! Por favor, faça isso. – Gusta sorriu aliviado.
— certo, mas como se faz? Digo, pra falar com um espírito e tudo mais...
— ah, não faço ideia... nos filmes geralmente as pessoas não conversam muito com os espíritos, tá ligado? Eles só aparecem pra fazer algumas coisas voarem, dar uns gritos, matar um ou outro do grupinho de amigos... – pela sobrancelha erguida do amigo percebeu que estava falando besteira, então com um pigarreio voltou a exibir um sorriso tranquilizador e se corrigiu. – quer dizer, isso só nos filmes né, ficção sempre dá aquela exagerada... Você vai ficar legal.
“É, é bom mesmo.” Ben pensou consigo mesmo, voltando a franzir as sobrancelhas. Ainda com aquela expressão decidida, voltou o rosto para onde tinha visto a jovem de vestido encarando-o de pé, como o perfeito encosto que estava se tornando. E ela ainda estava lá, de frente ao arbusto, encarando-o agora com nítida curiosidade enquanto alguns alunos passavam por ali sem fazer ideia da sua presença.
Apesar de ainda não muito confiante no que estava pensando em fazer, ele sabia que ia fazer mesmo assim.
Iria acabar com aquilo de uma vez por todas.
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