Butterflies Laid On Your Soul
1 Everything's Alright
Notas iniciais
Desde que eu era pequeno, todos olhavam para os meus olhos e diziam que eu podia perfurar o mundo com o meu olhar fixo e cravar as estrelas invisíveis no céu. Alguns diziam que eram como os de um felino arteiro, manhoso, a esperar pelo momento certo para esmagar a sua presa e deliciar-se da sua indefesa, inferioridade.
Quando o encontrei, ele ofereceu-me a mesma apreciação, um comentário simples "São bonitos." e um sorriso de canto.
– Quem me olha diz que vou dominar o mundo.
E ele sussurrou.
[Tu és o meu mundo.]
–X-
– Se a chuva é o choro do céu, então os raios de sol são os risos? Porque é que o céu se ri tanto nesta vida tão infeliz?
– Porque está triste...
– Eu não me riu quando estou triste...
– Porque está sozinho...
– Akashi...
– E às vezes o nosso próprio riso é o melhor consolo que podemos alcançar. É falso, é vazio...é solitário mas, as nuvens são passageiras e aqueles que confias que vão ficar para te suportar já vão longe...quando mais necessitas deles...
Sempre achei que o formato da sua mão encaixava-se demasiado bem na minha cabeça e que os dedos calosos e ásperos contrastavam os meus cabelos ruivos e macios.
– Eu nunca me irei embora...
– E o que te garante disso?
– Eu não sou uma nuvem.
Ele sorria-me sempre, os mesmo lábios a curvarem-se de uma maneira singular, peculiar, linda.
– Tu és uma tempestade. E os céus estão limpos à muito tempo.
Nunca esperei que ficasses...Shuuzo.
Mas nunca esperei que partisses.
–X-
– Os meus olhos viram vermelho, os meus olhos viram negro mas tudo o que me rodeia é branco...estou a viver num mundo sem significado...
Os lençóis incolores combinavam com a cama, a parede, a mesa de cabeceira do meu lado onde a enfermeira pousava sempre as minhas refeições e as curas que me tirariam desta prisão sufocante. Todo o edifício cegava-me, merecia que eu tirasse as orbes plantadas na minha cara, e então qual seria a cor que veria diariamente? Não o fazia por medo de que o vazio me seguisse.
– Eu não sou assim, Akashi...
E ele sempre aparecia, para me clarear a ausência de vida. A alucinação constante.
Para me relembrar da minha insanidade.
– Shuuzo....
–X-
– Nijimura-senpai!
Ele virou-se como sempre, e o meu rosto combinava com a cor do meu cabelo, não por correr. Cocei a nuca, desviei o olhar por nano segundos e ganhei a coragem para o encarar de volta.
– L-lembraste de termos..ahm, uma vez conversado de relacionamentos e de teres dito que ninguém gostava de ti...pronto, eu gosto de ti! A sério! C-como a minha mãe gosta do meu pai e...
– Tá.
Não pude questionar nada pois um colega dele aproximou-se e arrastou-o de volta ao grupo. Fiquei parado, com um rosto deslavado, e se não fosse por Midorima, que me via de um canto, olhos desapontados (não comigo,mas com ele,) talvez esperasse parado, rezando por ele se virar e ver que eu não deixaria o lugar.
–X-
– Senpai!
– Desculpa Akashi, tenho de ir para a aula.
–X-
– Senpai!
– Desculpa, preciso de ir resolver uns assuntos...
–X-
– Senpai...
– Desculpa, Akashi...
– Porque é que estás me só a evitar?! Já passaram três meses, podes simplesmente dizer "não", sabias?!
Todo o pavilhão parou e o som de bolas de basquete a cair no chão ecoou. Queriam ouvir o que ocorria tanto como eu queria a sua resposta de imediato. Entre ser rejeitado ou ficar na ânsia, a ponderar o resultado, o depois, o pós, o impossível namoro dos meus sonhos...
– Não...
Este que foi esmagado com uma única palavra, três letras, junto todas as minhas falsas esperanças e o sonho, que sempre foi apenas isso.
Talvez ser rejeitado não fosse assim tão melhor.
–X-
Da segunda vez que o encontrei, lapso meu de me esquecer que ele ainda lá trabalhava part-time, senti que ele parou uns segundos mais longos, a sua boca entreaberta indecisa entre dizer algo ou simplesmente soltar um breve cumprimento, aqueles que se concede a conhecidos.
Definitivamente, não aquele que se dá a alguém com quem se partilhou uma amizade.
Uma capitania.
Um amor inexistente.
– Já conquistaste o mundo?
Apenas ergui uma sobrancelha e acertei que ele passaria por mim, concentrado no seu trabalho de organizar as prateleiras do super mercado. As suas costas ainda eram longas demais, fortes demais, seguras demais para um aluno de terceiro ano da universidade.
– Devias te apressar...
"O teu mundo está a desabar, Akashi."
–X-
– A vida faz sentindo para ti, Nijimura-san?
A lata de conserva caiu da sua mão.
– C--sim, claro que sim. Eu tenho família, tenho amigos, tenho porque viver...faz sentido.
[Tenho te a ti.]
– Para mim não faz.
Ele tremeu.
– Não tenho família restante.
Ele desceu das escadas onde se empuleirava.
– Perdi os meus amigos para os demónios dentro da minha cabeça...
[Eu perdi-te.]
Ele virou-se. Após anos, ele virou-se para mim.
– Por isso, vim me despedir de ti.
– Despedir? Espera, despedir porquê?
– Eu estou partido, Nijimura-san...
Ele tentou me agarrar, segurar o ombro, os seus olhos arregalados, e o meu peito encheu-se de alegria porque ele me via a mim, de novo. A distância entre nós era demasiado longa.
– Se alguma vez nos conseguirmos ver de novo, gostaria de te conhecer outra vez.
[Amo-te.]
–X-
15 de Agosto de 2012 foi o dia em que as minhas pernas correram, os seus braços esticaram, e o meu corpo afastado do dele embateu num automóvel, rebolou, caiu e nunca mais se levantou.
O dia em que acordei sem olhos, sem corpo porque não estava incluído em nada. Um mês depois estava num hospital e desde aí, não consigo nem sair desta cama que me amarra. Uma enfermeira sem rosto, sempre igual ou sempre diferente, dá me refeições que eu não me lembro de ver e o meu corpo é lavado com água que não molha.
Há uma janela, a dois quilómetros de onde me deito, que mostra um mundo exterior, roxo e azul e negro, repleto de trovões e criaturas voadoras que ameaçam entrar na minha cela. Uma porta a três passos, invisível, que se abre sem abrir e acolhe o nada que me circunda.
[Porque é que não ficaste comigo?]
E a voz, que vinha todos os dias à mesma hora, que sussurrava soluços inquietantes e suplicava futilmente. Não a reconhecia, mas de nada me lembrava para além dos paradoxos da minha vida.
Não interessava agora, o tempo nada mudava. Só me deitei para fechar os olhos.
E então...eu vi negro.
–X-
Para Nijimura, conhecer o Akashi foi a melhor experiência que lhe aconteceu. Ele foi a razão da sua evolução, ele descobriu-se, aprendeu a aceitar melhor a vida, e o ruivo representava para si, a felicidade.
A Teikou foram anos de grande pressão e se pudesse redimir-se, teria aceitado de braços abertos os sentimentos do ruivo. Na altura era inocente, estava confuso e a lidar com um pai doente, uma família perdida e um clube de basquete perfecionista. Então afastou-se, o mais que podia, deixou-se ficar incompleto porque os seus sentimentos eram secundários.
Não teve coragem de olhá-lo nos olhos.
Só voltou a encontrá-lo no seu terceiro ano de faculdade, quando o moleque mesquinho era agora um homem austero, determinado e estonteantemente lindo. Nunca antes havia o fitado daquela forma e nem reparou no comentário que deixou escapar.
O outro pareceu entendê-lo com a clareza habitual.
Apenas uns meses depois, viu-o, diferente, os olhos antes calmos e rubros agora distintos, desequilibrados, assimétricos. O moreno alarmou-o.
Akashi não o entendeu.
A última vez que Seijuuro sorriu, e falou, e mexeu-se, foi para tirar a sua própria vida em vão. Estava desesperado e perdido, numa dimensão longínqua à qual Nijimura vivia.
De cada vez que o pequeno entrava no local, o seu coração batia mais rápido. Quando este foi atropelado, o seu coração parou.
Ligou para as urgências e as luzes vermelhas iluminaram o lugar, o dono da loja tentou puxá-lo para trás mas só ouvia as sirenes, os gritos e pânico e não as ameaças de ser despedido. Confirmou que conhecia o garoto e foi lhe permitido acompanhar a ambulância, sentado no lugar, sentado no banco da sala de espera, sentado na cadeira de frente à sala de operações.
Mas ele nunca mais acordou.
Ele agora vivia em coma, deitado, preso dentro da sua cabeça. E o moreno já tinha graduado, arranjou um trabalho fixo mas ainda segurava a mão de Akashi, a sussurrar palavras nos seus ouvidos, a desejar que ele as ouvisse.
[Está tudo bem. Eu nunca te vou abandonar.]
Talvez se fosse mais rápido poderia ter olhado para os seus olhos e ter dito como eles brilhavam mais que as estrelas, que o mundo já lhe pertencia, que queria ficar com ele e tê-lo nos seus braços, quente.
Queria ver aquele sorriso de novo.
Queria jogar basquete com ele de novo.
Junto da Geração dos Milagres como antes, com mais baboseiras do que prática, e ouvir o seu riso. Porque agora a sua vida era branca e vazia como as paredes do hospital e a única melodia que conhecia era a da máquina que assinalava o coração dele a bater.
E talvez a ardência no seu coração desaparecesse com o tempo, talvez pudesse conhecer uma garota bonita, ruiva, elegante, determinada e com uns olhos que refletiam a lua para si, algo que perdeu à muito.
Ou talvez não porque quando a melodia terminasse, também terminaria o seu coração.
[Consegues me ouvir?]
[Porque partiste de mim?]
[Eu amo-te]
[Eu quero-te aqui comigo.]
[Preciso de ti para sempre.]
[Eu nunca te vou esquecer.]
–X-
No dia 20 de Dezembro de 2014, as máquinas que anexavam Akashi Seijuuro foram desligadas devido à ausência de visitas.
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