But... I Love You
18 Capítulo 18 - Calma
Notas iniciais
Na noite do baile fui dormir já pensando em faltar nos próximos dias de aula.
Mas eu não podia.
Tudo estava cinza.
Eu estava no meio de um nevoeiro, perdida. O ambiente estava vazio, desértico. Não havia nada por perto e ninguém além de mim. O desespero estava me consumindo enquanto eu lutava para enxergar algo e encontrar uma direção. Até que os ouvi.
Melody!, eles chamavam.
Melody!
A voz de Taty foi a primeira a ser ouvida. Ela estava chorando e parecia muito preocupada.
Nós estamos aqui, disse Théo. Sua voz era firme e encorajadora.
Ainda estamos perto de você, completou Ronald.
*
Acordei no chão, desnorteada.
Eu não podia faltar na aula. Até quando eu conseguiria fugir? E de que adiantaria? Eu só estaria adiando algo que, certamente, teria que enfrentar.
Ainda estamos perto de você, Ronald disse. Não posso perdê-los sem fazer nada.
Coloquei meu uniforme e me preparei para ir.
*
Eu só descobri que estava atrasada quando estava chegando no colégio. Ouvi o sinal tocar quando ainda faltava uma rua para eu chegar, então apertei o passo o máximo que consegui.
Era aula de inglês. O Sr. V. já estava na sala. Bati na porta de leve e a abri em seguida. A classe toda me olhou.
– Excuse me... — (Com licença)
– You're a little late, Melody. — (Você está um pouco atrasada, Melody) Sr. V. estava me olhando severamente.
– I'm sorry, Mr. V... I had some problems before the class and... — (Eu sinto muito, Sr. V... Eu tive alguns problemas antes da aula e...)
– Firstly, you can call me Vince if you want. — (Primeiramente, você pode me chamar de Vince se quiser) O tom de sua voz mudou. Ele estava mais calmo. — I was just saying to the other students something like: "Not only are you my students, but my friends too" — (Eu estava justamente dizendo para os outros alunos algo como: "Vocês não são só meus alunos, como meus amigos também") Ele sorriu.
Vince era um dos melhores professores da Mr. Ly Academy. Ele era paciente, prestativo e sempre muito amigável. Ele estava sempre sorrindo, brincando com a barba rala enquanto nos motivava sem ao menos percebermos. Não havia tempo ruim para ele.
– And about your delay... Well, everybody has unexpected events. Come in, Melody. I was kidding before. — (E quanto ao seu atraso... Bem, todo mundo tem imprevistos. Entre, Melody. Eu estava brincando.)
Entrei na sala mais calma. Vince era divertido e exigia de nós o que ele sabia que conseguiríamos fazer. Eu adorava isso nele.
Até quase esqueci dos meus problemas. Quase.
Olhei para onde os gêmeos costumavam sentar e só avistei Thomas. Théo havia faltado. Taty estava do outro lado da sala, e meu lugar, na sua frente, continuava vazio. Fui até lá.
Quando cheguei perto de Taty, ela levantou a cabeça e sorriu. Logo em seguida continuou a fazer o dever. Coloquei a minha mochila na mesa e me sentei.
– Oi... — Disse.
– Olá, Melody. — Ela respondeu, sem olhar.
Melody. Ela nunca me chamou assim casualmente. Algo realmente estava errado e não tinha como eu fugir disso.
Tentei assistir um pouco da aula, mas não tive sucesso. Eu precisava encontrar uma maneira de resolver tudo aquilo, e tinha que começar com Taty. Por outro lado, Ronald pedira para eu não contar nada, pois isso pioraria as coisas. Ronald... Como ficaria a situação dos dois? Taty o ama o suficiente para perdoá-lo?
Taty me perdoaria?
Eu menti para ela. Fiz uma promessa que sabia que não conseguiria cumprir. Eu beijei o garoto que ela amava. A cada dia que passava eu tinha mais certeza de que me encaixava no conceito que ela mesma formou sobre as garotas que diziam gostar de Ronald no primário: “eram umas hipócritas”, ela disse.
No lugar dela, eu não me perdoaria.
Mas eu precisava enfrentar as consequências dos meus atos. Continuar com isso não levaria a nada.
Sequei minhas lágrimas antes que alguém percebesse e decidi que falaria com ela no intervalo.
Na troca de aula decidi perguntar ao Thomas sobre a ausência de Théo:
– Theodore foi dormir tarde nesse fim de semana. Ele não quis vir hoje e me disse que foi por conta disso. – Thomas não parou de escrever enquanto falava comigo. Como sempre, ele odiava ser incomodado enquanto estudava.
Hesitei por um instante quando Thommy disse Theodore. Todos o chamam de Théo, ninguém sequer lembra que esse é só seu apelido. Nem mesmo Thomas o chama pelo nome. Aparentemente os dois ainda não tinham se resolvido quanto ao incidente do convite para o baile.
– Eu não sei o que está acontecendo com ele. – Thomas parou de escrever e me encarou. As palavras “talvez você saiba” estavam estampadas na testa dele.
– Entendi... – Eu não sabia o que dizer. Thomas estava visivelmente chateado. Eu queria ajudá-lo. Eu queria ajudá-los, melhor dizendo. Tanto ele quanto Théo. – Ei, Thommy... Théo tinha me convidado para ir ao baile. – Thommy ficou quieto. – E... Bom, ele ia comigo, eu tinha aceitado.
– Isso explica a sua cara quando ele convidou Taty. – Thommy ajeitou os óculos.
– É... Na hora eu não sabia, mas posteriormente Théo me contou que aquilo não foi um convite, foi um imenso mal-entendido.
– E você acreditou? – O tom frio dele estava me deixando desconfortável.
– Olha, Thomas... Théo achou que Taty tinha convidado outra pessoa. E ele achava que essa pessoa ia me convidar, por isso ficou tão feliz por Taty ter supostamente convidado-o. E ela realmente fez isso, mas ele acabou recusando porque não viria ao baile. O fato é que o Théo estava se sentindo meio ameaçado... Ele queria muito me convidar, por isso encheu o peito de ar na hora de falar que Taty já tinha par. Ele estava feliz com aquilo.
Thomas novamente parou de escrever, mas dessa vez ficou olhando para o caderno por um instante.
– Então tudo aquilo não passou de um monte de conclusões erradas que o Théo tirou envolvendo esse cara?
– ... Basicamente.
– Tsc. – Ele largou a caneta. – Meu irmão é mesmo um idiota. – Ele sorriu.
Senti que a situação entre Théo e Thommy se resolveria em breve e me senti mais leve por isso. Ainda assim, minha situação não havia mudado.
Voltei para o meu lugar até o sinal do intervalo tocar. Quando este tocou, virei para falar com Taty.
– Taty, eu queria conversar com você...
– Claro, pode falar. – Ela estava agindo normalmente.
– Acho que você está meio chateada comigo por causa do baile e...
– Ah, relaxa. Ronald me contou tudo hoje na entrada.
– Contou?! – Ronald contou?
– Sim, ele me disse que no fim conseguiu ir para o baile, e que você o convidou para dançar. Ele aceitou, pois achava que eu não tinha ido, já que não me viu com você. Bobinho, não é? Nem passou pela cabeça dele que eu poderia estar com outro par... – Ela riu.
EU o convidei? Ronald ficou maluco? Mal pude conter minha expressão, mas fiz o possível para disfarçar rindo.
– Você o convidou para ele não me ver com o Théo, não é, Mel? Obrigada... Mesmo que no fim ele tenha me visto. – Ela sorriu, agradecida.
Eu tinha 100% da confiança de alguém que não deveria nem considerar válida a minha existência. Eu tinha chegado ao ápice das pisadas na bola com essa garota, e cá estava ela, me agradecendo. Eu não podia continuar tratando-a como uma idiota.
Mas não podia abrir o jogo sem antes conversar com Ronald.
– Vamos descer? Estou com fome. – Eu disse, tentando sorrir.
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